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SIDNEY SHELDON

No me cantem canes da luz do dia

Pois o sol  o inimigo dos amantes

Ao invs, cantem das sombras e da escurido

E das "memrias da meia-noite"

PRLOGO

Kowloon -Maio de 1949

-Tem de parecer um acidente. Consegue arranjar isso?

Era um insulto. Sentia a raiva crescer dentro de si. Isso era pergunta
para se fazer a um amador que se contratava na rua. Sentiu-se tentado
a responder com sarcasmo: "Oh, sim. Acho que consigo fazer isso.
Prefere um acidente dentro de casa? Posso fazer que ela parta o
pescoo ao cair de um lance de escadas. 0 bailarino de Marselha. Ou
ela podia embebedar-se e morrer afogada na banheira. A herdeira de
Gstaad. Podia tomar uma dose excessiva de herona. Eliminara trs
assim. Ou podia adormecer na cama com um cigarro aceso. 0 detetive
sueco no Hotel da Margem Esquerda de Paris. Ou ser que prefere
qualquer coisa no exterior? Posso provocar um acidente de trnsito,
uma queda de avio ou um desaparecimento no mar." Mas no disse
nada disto, pois na verdade tinha medo do homem que se sentara na
sua frente. Ouvira muitas histrias arrepiantes a seu respeito, e tinha
razo para acreditar nelas. De forma que tudo o que disse foi -Sim,
senhor, posso provocar um acidente. Ningum ir descobrir. Mas no
momento em que dizia estas palavras a idia passou-lhe pela cabea:
"Ele sabe que eu saberei." Ficou  espera. Estavam no segundo andar
de um edifcio da cidade murada de Kowloon, que fora construda em
1840 por um grupo de chineses para se protegerem dos brbaros
britnicos. As muralhas tinham sido derrubadas na Segunda Guerra
Mundial, mas havia outras muralhas que afastavam os estranhos:
grupos de criminosos, txico-dependentes e violadores que
perambulam pelas muitas ruas estreitas Chegaram  Estrada de Mody.
0 padre taosta que o aguardava parecia urna figura de um antigo
pergaminho, com um clssico roupo oriental desbotado e uma barba
branca, s dergrenhada e comprida. Jou sahn. Jou sahn. Gei do chin.

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Yat-Chihn. Jou.

0 padre fechou os olhos numa orao silenciosa e comeou a sacudir o
chim, a taa de madeira cheia de paus de orao numerados. Caiu um
pau, e a sacudidela cessou. No silncio, o padre taosta consultou a sua
carta e virou-se para o visitante. Ele falava num ingls defeituoso.

-Os deuses dizem que em breve te livrars de um inimigo perigoso.

0 homem sentiu um choque agradvel de surpresa. Era demasiado
inteligente para no compreender que a antiga arte de chim era uma
mera superstio. E era demasiado inteligente para ignor-la. Alm
disso, havia outro pressgio de boa sorte. Hoje, era o Dia de Agios
Constantinous, dia do seu aniversrio.

-Os deuses abenoaram-te com boa fung shui. Do jeh Hou wah.

Cinco minutos depois, estava na limousine, a caminho de Kai Tak, o
aeroporto de Hong Kong, onde o seu avio particular o aguardava para
lev-lo de volta a Atenas, e escadas escuras que conduziam s trevas.
Os turistas eram avisados a manterem-se afastados, e nem mesmo a
polcia se aventuraria a entrar na Rua TungTau Tsuen, nos arredores.
Ele ouvia os barulhos da rua do outro lado da janela, e a poliglota
estridente e roufenha de lnguas que pertenciam aos residentes da
cidade murada. 0 homem analisava-o com olhos frios e negros. Falou
por fim.

-Pois bem. Deixarei o mtodo ao seu dispor.

-Sim, senhor. 0 alvo est aqui em Kowloon? Londres. Chama-se
Catherine. Catherine Alexander.

Uma limousine, seguida por um segundo cano com dois guarda-costas
armados, levou o homem para a Casa Azulem Lascar Row, na rea de
Tsim Sha Tsui. A Casa Azul estava aberta apenas a clientes especiais.
Era visitada por chefes de estado, estrelas de cinema e presidentes de
empresas. A gerncia orgulhava-se da discrio. H seis anos, uma das
raparigas que trabalhava l falara dos seus clientes a um jornalista e foi
encontrada na manh seguinte no porto de Aberdeen com a lngua
cortada. Na Casa Azul havia de tudo para vender; virgens, rapazes,
lsbicas que se satisfaziam sem os "talos preciosos dos homens, e
animais. Era o nico lugar que ele conhecia onde ainda se praticava a
arte do sculo X de Ishinpo. A Casa Azul era uma cornucpia de
prazeres proibidos. 0 homem pedira os gmeos desta vez. Eram um par
requintadamente combinado com belos atributos, corpos incrveis e

#
sem inibies. Lembrou-se da ltima vez em que l estivera... o banco
de metal sem fundo e as suas lnguas e dedos macios e acariciadores, e
a banheira cheia de gua quente aromtica que transbordava para o
cho de tijoleira e as suas bocas ardentes expoliando o corpo dele.
Sentiu o incio de uma ereo.

-Ns estamos aqui, senhor.

Trs horas mais tarde, depois de ter estado com elas, saciado e
satisfeito, o homem ordenou que a limousine seguisse para a Estrada
de Mody. Olhou para as luzes cintilantes da cidade que nunca
dormiam. Os chineses deram-lhe o nome degau-lung -nove drages e
ele imaginava-os a espreitarem nas montanhas sobre a cidade,
prontos a descerem e destrurem os fracos e os incautos. Ele no era
nada disso.

Janina, Grcia -Julho de 1948

Ela acordava aos gritos todas as noites e era sempre o mesmo sonho.
Ela estava no meio de um lago numa tempestade feroz e um homem e
uma mulher metiam-lhe a cabea debaixo das guas geladas,
afogando-a. Acordava sempre em pnico, com falta de ar, encharcada
em suor. No fazia idia de quem ela era e no tinha lembrana do
passado. Falava ingls-mas no sabia de que pas vinha ou como viera
parar na Grcia, no pequeno convento das Carmelitas que a abrigou.
A medida que o tempo passava, havia lampejos atormentadores de
memria, vestgios de imagens vagas e efmeras que chegavam e
partiam depressa de mais para poder ret-los, segurar e examinar.
Chegavam em momentos inesperados, apanhando-a desprevenida e
enchendo-a de confuso. No comeo, fizera perguntas. As freiras
carmelitas eram gentis e compreensivas, mas havia uma ordem de
silncio, e a nica que podia falar era a Irm Teresa, a idosa e frgil
Madre Superiora.

-Sabe quem eu sou?

-No, minha filha -disse a Irm Teresa. -Como  que eu vim parar a
este lugar?

-No sop destas montanhas, h uma aldeia chamada Janina. Estavas
num pequeno barco no lago durante uma tempestade no ano passado. 0
barco afundou-se, mas graas a Deus duas das nossas irms viram-te e
salvaram-te. Trouxeram-te para aqui.

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-Mas... de onde vim eu antes disso? -Desculpa, minha filha. No sei.
Ela no podia ficar satisfeita com isso. -Ningum perguntou por mim?
Ningum tentou encontrar-me?

A Irm Teresa sacudiu a cabea. -Ningum.

Quis gritar de frustrao. Tentou de novo.

-Os jornais... Eles devem ter recebido alguma histria sobre o meu
desaparecimento.

-Como sabes, no nos  permitida qualquer comunicao com o
mundo exterior. Temos de aceitar a vontade de Deus, minha filha.
Devemos agradecer-Lhe todas as Suas graas. Estas viva.

E foi o mximo que conseguiu obter. No comeo, estivera demasiado
doente para se preocupar consigo prpria, mas aos poucos,  medida
que os meses passavam, ela recuperava as foras e a sade. Quando se
sentiu com foras para caminhar, passavam dias a trabalhar nos jardins
coloridos dos terrenos do convento, sob a luz incandescente que
banhava a Grcia num fulgor celestial, com os ventos suaves que
traziam o aroma pungente dos limes e das vinhas. 0 ambiente era
sereno e calmo, e no entanto ela no conseguia encontrar paz. "Estou
perdida", pensou, "e ningum se importa. Porqu? Fiz alguma coisa de
mau? Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?" As imagens
continuavam a surgir, espontneas. Certa manh, acordou de repente e
viu a sua prpria imagem num quarto com um homem nu que a despia.
Era um sonho? Ou era algo que acontecera no passado? Quem era o
homem? Era algum com quem se casara? Tinha marido? No trazia
aliana de casamento. De fato, no tinha outros haveres a no ser o
hbito negro da Ordem das Carmelitas que a Irm Teresa lhe dera e um
alfinete, um pequeno pssaro dourado com olhos vermelho-vivos e
asas abertas. Ela era annima, uma estranha vivendo entre estranhos.
No havia ningum para ajud-la, nem um psiquiatra para lhe dizer
que a sua mente ficara to traumatizada que s podia ficar s quando
afastasse o passado terrvel.

E as imagens continuavam a surgir, cada vez mais rpidas. Era como
se a sua mente se tivesse repentinamente tornado num enigma
gigantesco, com peas estranhas que se iam encaixando. Mas as peas
no faziam sentido. Teve uma viso de um estdio enorme cheio de
homens fardados com o uniforme do exrcito. Pareciam estar a fazer
um filme. Era atriz?" No, parecia estar a dar ordens. "Mas que
ordens?" Um soldado entregou lhe um ramo deflores. "Ter de pag


#
las, riu-se. Duas noites depois, teve um sonho com o mesmo homem.
Estava a despedir-se dele no aeroporto, e acordou a soluar porque o
perdia. No teve mais paz depois disso. No eram simples sonhos. Eram
pedaos da sua vida, do seu passado. "Tenho de saber quem sou.
Quem sou." E, inesperadamente, a meio da noite, sem mais nem
menos, surgiu-lhe um nome do subconsciente. "Catherine. 0 meu nome
 Catherine Alexander."

Atenas, Grcia

0 imprio de Constantin Demiris no podia ser localizado em nenhum
mapa; no entanto, ele era senhor de um feudo mais poderoso do que
muitos pases. Ele era um dos dois ou trs homens mais ricos do
mundo e a sua influncia era incalculvel. No tinha ttulo ou posto
oficial, mas regularmente comprava e vendia primeiros-ministros,
cardeais, embaixadores e reis. Os tentculos de Demiris estavam por
toda a parte, tecidos atravs da trama e urdidura de dezenas de pases.
Era um homem carismtico, com uma mente brilhantemente incisiva,
fisicamente notvel, de altura bem acima da mdia, entroncado e de
ombros largos. Tinha a tez morena e um nariz grego pronunciado e
olhos pretos-azeitona. Tinha o rosto de um falco, de um predador.
Quando decidia dar-se ao trabalha, Demiris sabia ser extremamente
encantador. Falava oito lnguas e era um afamado contador de
anedotas. Possua uma das mais importantes colees de arte do
mundo, uma frota de avies particulares e uma dzia de apartamentos,
castelos e casas de campo espalhados pelo globo. Era um entendido da
beleza, e achava as mulheres belas irresistveis. A sua reputao era a
de ser um amante possante, e as suas leviandades romnticas eram to
pitorescas quanto as suas aventuras financeiras. Constantin Demiris
orgulhava-se de ser um patriota -a bandeira azul e branca da Grcia
estava sempre hasteada na sua villa de Kolonaki e em Psara, a sua ilha
privada, mas no pagava impostos. No se sentia obrigado a obedecer
s regras que se aplicavam aos homens comuns. Nas suas veias corria
licor -o sangue dos deuses.

Quase todas as pessoas que Demiris conhecia queriam alguma coisa de
si: financiamento de um projeto comercial; donativo para uma obra de
caridade; ou simplesmente o poder que a sua amizade podia conferir.
Demiris gostava do desafio de imaginar aquilo que as pessoas
realmente pretendiam, pois raramente era o que aparentava ser. A sua

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mente analtica era cptica quanto a verdade superficial, e como
conseqncia disso no acreditava em nada do que lhe diziam e no
confiava em ningum. 0 seu lema era: "Fica perto dos teus amigos,
mas ainda mais perto dos teus inimigos." Aos reprteres, que
escreviam sobre a sua vida, era permitido ver apenas a sua genialidade
e encanto, o homem sofisticado e urbano do mundo. No tinham
motivos para suspeitar que sob aquela fachada amvel se encontrava
um assassino, um lutador de sarjeta, cujo instinto era saltar para a veia
jugular. Era um homem implacvel que nunca esquecia uma desfeita.
Para os antigos gregos a palavra dikaiosini, justia, era muitas vezes
sinnimo de ekdikisis, vingana, e Demiris era obcecado por ambas.
Lembrava-se de todas as afrontas que sofrera, e aqueles que tinham o
azar de incorrer na sua inimizade recebiam em paga cem vezes mais.
Nunca se apercebiam do fato, pois a mente matemtica de Demiris
fazia da retribuio exata um jogo, pacientemente concebendo
armadilhas meticulosas e tecendo teias complexas que finalmente
prendiam e destruam os seus inimigos. Sentia prazer nas horas que
passava a arquitetar ciladas para os seus adversrios. Estudava as suas
vtimas cuidadosamente, analisando as suas personalidades, avaliando
os seus pontos fortes e fracos. Durante um jantar, Demiris ouvira por
acaso um produtor de cinema referir-se a ele como "aquele grego
untuoso". Demiris esperou o momento propcio. Dois anos mais tarde,

o produtor contratou uma atriz fascinante de renome internacional para
estrelar na sua nova superproduo na qual investiu o seu prprio
dinheiro. Demiris esperou at o filme estar meio concludo, e depois
seduziu a atriz principal a abandonar tudo e a juntar-se a ele no seu
iate.
-Vai ser uma lua~le-mel -disse-lhe Demiris.

Ela teve a lua-de-mel, mas no o casamento. 0 filme acabou por ser
cancelado e o produtor entrou em bancarrota.

Havia alguns jogadores no jogo de Demiris de quem ainda no se tinha
vingado, mas no tinha pressa. Gostava da antecipao, do
planejamento e da execuo. Nos tempos de hoje, no fazia inimigos,
pois ningum podia dar-se ao luxo de ser seu inimigo, de forma que as
suas presas se limitavam queles que tinham atravessado o seu
caminho no passado. Mas a idia que Constantin Demiris tinha de
dikaiosini era de dois gumes. Tal como nunca esquecia uma injria,
tambm no se esquecia de um favor. Um pobre pescador, que
abrigara o jovem rapaz, tornou-se dono de uma frota pesqueira. Uma

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prostituta, que vestira e alimentara o jovem quando ele era pobre de
mais para lhe pagar, herdou misteriosamente um prdio de
apartamentos, sem a mnima idia de quem fosse o seu benfeitor.
Demiris comeara a vida como filho de um estivador em Piraeus.
Tinha catorze irmos e irms, e  mesa nunca havia comida que
chegasse para todos. Desde muito cedo, Constantin Demiris revelava
um dom excepcional para o negcio. Ganhava um dinheiro extra
fazendo biscates depois da escola, e aos dezesseis anos poupara
dinheiro bastante para montar uma barraca de comida na doca com um
scio mais velho. 0 negcio prosperou, e o scio enganou Demiris
com a sua parte. Demiris demorou dez anos a destruir o homem. 0
jovem rapaz ardia com ambio feroz. "Eu vou ser rico. Vou ser
famoso. Um dia todos sabero o meu nome." Era a nica cano de
embalar que conseguia adormec-lo. No fazia idia de como iria
acontecer. S sabia que ia acontecer. No dia do seu dcimo-stimo
aniversrio, Demiris leu por acaso um artigo sobre os campos
petrolferos da Arbia Saudita, e foi como se uma porta mgica para o
futuro se tivesse repentinamente aberto para ele. Foi ter com o pai.

-Vou para a Arbia Saudita. Vou trabalhar nos campos de petrleo.

-Eh, p! 0 que  que tu sabes de campos de petrleo?

-Nada, pai. Vou aprender.

Um ms depois, Constantin Demiris partia.

Era poltica da companhia para os empregados no exterior da
Corporao de Petrleo Trans-Continental assinar um contrato de
trabalho de dois anos, mas Demiris no sentia apreenso em relao a
isso. Tencionava ficar na Arbia Saudita o tempo necessrio para fazer
fortuna. Tinha visionado uma maravilhosa aventura de noites rabes,
uma terra fascinante e misteriosa com mulheres de aspecto extico e
ouro negro jorrando do cho. A realidade foi um choque. Numa
manhzinha de vero, Demiris chegava a Fadili, um campo medonho
no meio do deserto que constava de um velho edifcio de pedra
rodeado por barastis, pequenas cabanas cobertas de mato. Havia mil
trabalhadores de classe inferior, a maioria sauditas. As mulheres que se
arrastavam atravs das ruas empoeiradas e de terra batida estavam
carregadas de vus. Demiris entrou no edifcio onde J. J. McIntyre, o
administrador do pessoal, tinha o seu gabinete. McIntyre ergueu o
olhar quando o homem jovem entrou.

-Ento. A sede contratou-te, foi?

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-Foi, sim.

-J trabalhaste nos campos de petrleo, rapaz? Por um instante,
Demiris esteve tentado a mentir.

-No, senhor.

McIntyre deu um sorriso largo.

-Vais adorar isto aqui, Ests a um milho de quilmetros de parte
nenhuma, a comida no presta, no h mulheres em que possas tocar
sem que te cortem os tomates, e no h patavina para se fazer  noite.
Mas o dinheiro compensa, no ?

-Estou aqui para aprender -disse Demiris com sinceridade. -Sim?
Ento vou dizer-te o que tens de aprender para j. Tu agora ests num
pas muulmano. Isso significa que no h bebidas alcolicas. Quem
for apanhado a roubar fica sem a mo direita. Da segunda vez, a mo
esquerda. Da terceira vez, perdes um um p. Se matares algum,
cortam-te a cabea.

-No estou a pensar em matar ningum. -Espera-grunhiu McIntyre.
-Tu acabaste de chegar.

0 complexo era uma torre de Babel, gente oriunda de uma dzia de
pases diferentes, todos falando as suas lnguas nativas. Demiris ouvia
bem e aprendia lnguas depressa. Os homens estavam ali para abrir
estradas no meio de um deserto inspito, edificar habitaes, instalar
equipamento eltrico, montar comunicaes telefnicas, construir
oficinas, arranjar abastecimentos de gua e comida, conceber um
sistema de drenagem, administrar cuidados mdicos e, pareceu ao
jovem Demiris, fazer uma centena de outras tarefas. Trabalhavam com
temperaturas acima dos quarenta graus, sofrendo com as moscas,
mosquitos, poeira, febre e desinteria. Mesmo no deserto havia uma
hierarquia social. No topo estavam os homens encarregados de
localizar o petrleo, e abaixo os operrios das obras, chamados de
"tesos", e os empregados, conhecidos como "calas lustrosas". Quase
todos os homens envolvidos na perfurao atual -os gelogos,
topgrafos, engenheiros e analistas de petrleo -eram americanos,
pois a nova broca rotativa fora inventada nos Estados Unidos e os
americanos estavam mais habituados ao seu funcionamento. 0 jovem
decidiu tornar-se amigo deles. Constantin Demiris passava o mximo
de tempo possvel junto dos perfuradores e no parava de lhes fazer
perguntas. Retinha a informao, absorvendo-a como as areias quentes

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absorvem a gua. Reparou que se utilizavam dois mtodos diferentes
de perfurao. Aproximou-se de um dos perfuradores que trabalhava
junto a uma torre de perfurao com 400 metros.

-Eu estava aqui a pensar porque  que vocs utilizam dois tipos
diferentes de perfurao.

0 perfurador explicou.

-Bem, rapaz, um por cabo e o outro com a rotativa. Agora, andamos a
usar mais a rotativa. Os dois mtodos comeam exatamente da mesma
maneira.

-Ah sim?

-Sim . Para qualquer um deles tem de se erguer uma torre igual a esta
para iar as peas de equipamento que tm de ser metidas dentro do
poo. -Olhou para o rosto ansioso do jovem. -Aposto que no fazes a
mnima idia por que lhe chamam assim.

-No fao, no.

-Era o nome de um famoso carrasco do sculo XVII. -Estou a
perceber.

-A perfurao por cabo  ainda mais antiga. H centenas de anos, os
chineses abriam poos de gua assim. Eles faziam um buraco na terra,
levantando e deixando cair um instrumento cortante que estava
pendurado num cabo. Mas hoje cerca de oitenta e cinco por cento de
todos os poos so perfurados pelo mtodo da rotativa.-Virou-se para
regressar  perfurao.

-Desculpe. Mas como  que funciona o mtodo da rotativa? 0 homem
parou.

-Bem, em vez de abrir um buraco na terra  pancada, basta perfurar.
Ests a ver isto? No meio do piso da rotativa est uma mesa giratria
de ao que a maquinaria faz girar. Esta mesa rotativa prende com
firmeza e roda um tubo que desce atravs dela. H uma broca presa 
parte inferior do tubo.

-Parece simples, no parece?

- mais complicado do que parece. Tem de haver um mtodo de
escavar o material libertado  medida que se perfura. H que evitar
abalar as paredes e vedar a gua e o gs do poo.

-Com toda essa perfurao, a broca no se gasta?

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-Claro. Depois temos que tirar para fora toda aquela danada srie de
tubos, enroscar outra broca na ponta do tubo da perfuradora e meter
tudo outra vez dentro do furo. Ests com idias de ser um perfurador?

- No, senhor. Tenciono ter poos de petrleo. - Parabns. Posso voltar
ao trabalho agora?
Uma manh, Demiris observava a insero de um tubo no poo, mas
em vez de perfurar o interior ele reparou que cortou pequenas reas
circulares dos lados do furo e trouxe rochas para cima.

-Desculpe-me. Para que est a fazer isso? -perguntou Demiris.

0 perfurador parou para limpar a testa.

-Isto  a medula das paredes laterais. Usamos estas rochas para anlise,
para ver se so portadoras de petrleo.

-Estou a perceber.

Quando as coisas corriam sem problemas, Demiris ouvia os
perfuradores gritar, "Vou virar para a direita", o que significava que
estavam a fazer um furo. Demiris reparou que havia dezenas de
pequenssimos furos perfurados por todo o campo, com dimetros que
no tinham mais do que cinco ou seis centmetros.

-Desculpe-me. Para que so esses poos?-perguntou o jovem.

-So poos de prospeco. Indicam-nos o que existe no subsolo. Poupa
um monte de dinheiro e tempo  companhia.

-Estou a ver.

Tudo era completamente fascinante para o jovem, e as suas perguntas
eram infindveis.

-Desculpe-me. Como  que sabe onde vai furar?

-Temos muitos gelogos, a malta dos calhaus, que tiram medidas dos
estratos e estudam os cortes dos poos. Depois os estranguladores de
cordas...

-Desculpe-me, o que  um estrangulador de cordas? -Um perfurador.
Quando eles...

Constantin Demiris trabalhava desde manhzinha at ao pr do Sol,
arrastando maquinaria atravs do deserto escaldante, limpando
equipamento e conduzindo caminhes  frente dos raios de chama
luminosos que se erguiam dos picos rochosos. As chamas ardiam noite
e dia, levando para longe os gases venenosos. J. J. McIntyre dissera a

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verdade a Demiris. A comida no prestava, as condies de vida eram
horrveis, e  noite no havia nada que fazer. Pior, Demiris sentia que
todos os poros do seu corpo estavam cheios de gros de areia. 0
deserto tinha vida, e no havia maneira de fugir a isso. A areia entrava
na barraca, metia-se-lhe na roupa e no corpo, e ele pensou que ia
enlouquecer. E depois piorou. 0 vento do golfo surgiu. As tempestades
de areia sopravam todos os dias durante meses, conduzidas por um
vento uivante com uma intensidade suficientemente forte para levar os
homens  loucura. Demiris olhava fixamente pela porta da barraca para
a areia rodopiante.

-Vamos trabalhar com este tempo?

-Tens toda a razo, Charlie. Isto no  uma estncia termal. Faziam-se
descobertas de petrleo  volta deles. Havia uma nova descoberta em
Abu Hadriya e outra em Qatif e em Harad, e os trabalhadores nunca
estiveram mais ocupados.

Chegaram duas novas pessoas, um gelogo ingls e a mulher. Henry
Potter andava pelos setenta anos, e a mulher, Sybil, tinha pouco mais
de trinta. Em qualquer outro lugar, Sybil Potter teria sido descrita
como uma mulher de aspecto simplrio e obesa com uma voz aguda e
desagradvel. Em Fadhili, ela era uma beleza delirante. Como Henry
Potter estava constantemente ausente na prospeco de novos campos
petrolferos, a mulher ficava muito tempo sozinha. 0 jovem Demiris
ficou incumbido de ajud-la a mudar-se para os seus novos aposentos.

-Este  o pior lugar que eu j vi na minha vida -queixou-se Sybil
Potter na sua voz plangente. -0 Henry est sempre a arrastar-me para
lugares terrveis como este, No sei como  que aguento.

-0 seu marido est a fazer um trabalho importante-Demiris assegurou-
lhe.

Ela olhou para o jovem atraente especulativamente.

-0 meu marido no faz tudo o que devia fazer. Est a entender-me?

Demiris sabia exatamente o que ela queria dizer. -No, senhora.

-Como  que se chama?

-Demiris, senhora. Constantin Demiris. - Como  que os seus amigos o
tratam? -Costa,

-Bem, Costa, acho que vamos ser bons amigos. Certamente que no
temas nada em comum com esta ciganaria, pois no?

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-Ciganaria?

-Sim. Estes estrangeiros.

-Tenho que voltar ao trabalho -disse Demiris.

Nas semanas seguintes, Sybil Potter arranjava constantemente
desculpas para mandar chamar o jovem homem.

-Henry saiu de novo esta manh-disse-lhe ela.-Foi fazer essa
perfurao estpida-acrescentou maliciosamente. -Ele devia era fazer
mais perfurao em casa.

Demiris ficou sem resposta.

-0 gelogo era um homem importante na hierarquia da companhia, e
Demiris no tinha intenes de se envolver com a mulher de Potter e
pr em perigo o seu emprego, No sabia exatamente como, mas tinha a
certeza de que de uma maneira ou de outra este trabalho ia ser o seu
passaporte para tudo com o que sonhara. 0 petrleo era o futuro e ele
estava determinado a ser parte do mesmo.

Era meia-noite quando Sybil Potter mandou chamar Demiris. Ele
entrou no complexo onde ela residia e bateu  porta. -Entre. -Sybil
trazia uma camisa de noite transparente que infelizmente no escondia
nada,

-Eu ... a senhora queria falar comigo?

-Queria, Costa, entre. Este candeeiro da mesinha de cabeceira parece
que no funciona.

Demiris desviou o olhar e caminhou at ao candeeiro. Agarrou-o para
examin-lo.

-No tem lmpada... -E sentiu o corpo dela contra as suas costas e as
mos a apalp-lo. -Senhora Potter...

Os lbios dela estavam sobre os dele e comeou a empurr-lo para
cima da cama. E ele no teve controlo do que se passou a seguir.
Estava n e a afundar-se dentro dela e ela gritava de satisfao.

-Isso mesmo! Oh, isso mesmo! Meu Deus, h tanto tempo! Ela deu
um ltimo grito sufocado e estremeceu.

-Oh querido, eu amo-te.

Demiris estava deitado em pnico.

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0 que  que eu fiz? Se o Potter descobre, estou frito Como se lesse o
seu pensamento, Sybil Potter deu um risinho.

-Este vai ser o nosso segredinho, no, querido? 0 segredinho deles
manteve-se durante os vrios meses que se seguiram. Demiris no
conseguia evit-la e, como o marido se ausentava durante dias
consecutivos nas suas exploraes, Demiris no conseguia pensar numa
desculpa para evitar ir para a cama com ela. 0 pior era que Sybil Potter
se apaixonara loucamente por ele.

-Tu s bom de mais para trabalhares num lugar como este, querido disse-
lhe ela. -Eu e tu vamos voltar para a Inglaterra. -A minha casa 
na Grcia.

-J no . -Ela acariciou o seu carpo longo e magro. -Tu vais regressar
comigo. Divorcio-me do Henry e ns casamo-nos. Demiris teve uma
sensao repentina de pnico.

-Sybil, eu.., eu no tenho dinheiro. Eu... Ela correu os lbios pelo
tronco dele.

-Isso no  problema. Eu sei como  que podes ganhar dinheiro,
querido.

-Sabes?

Ela sentou-se na cama.

-A noite passada, o Henry disse-me que tinha descoberto um novo
campo de petrleo enorme. Ele  muito bom nisso, sabes. Seja como
for, parecia excitadssimo com o fato. Fez o relatrio antes de sair e
pediu-me que o enviasse no correio da manh. Tenho-o aqui. Gostavas
de v-lo? 0 corao de Demiris comeou a bater mais depressa.

-Sim, Eu ... gostava. Viu-a sair da cama e mover-se pesadamente at
uma mesinha danificada situada a um canto. Tirou um grande envelope
amarelo e trouxe-o para a cama.

-Abre-o.

Demiris hesitou apenas por um instante. Abriu o envelope e tirou os
papis que estavam l dentro. Havia cinco folhas. Leu-as rapidamente,
depois voltou ao incio e leu todas as palavras.

-Essa informao vale alguma coisa?

"Essa informao vale alguma coisa?" Era um relatrio sobre um
campo novo que poderia possivelmente vir a ser um dos mais ricos

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campos petrolferos da histria. Demiris engoliu em seco.

-Sim. Podia valer.

-Pronto, a tens-disse Sybil num tom feliz. -Agora temos dinheiro.

Ele suspirou.

-As coisas no so assim to simples.

-Por que no?

Demiris explicou.

-Isto tem valor para qualquer pessoa que possa comprar opes na
terra que circunda esta rea. Mas isso exige dinheiro. -Ele tinha um
saldo de trezentos dlares no banco.

-Oh, no te preocupes com isso. 0 Henry tem dinheiro. Eu passo um
cheque. Chegam cinco mil dlares?

Constantin Demiris no podia acreditar no que ouvia. -Sim. Eu... eu
no sei o que dizer.

- para nosso bem, querido. Pelo nosso futuro. Ele sentou-se na cama
muito pensativo.

-Sybil, achas que podias aguentar esse relatrio por um ou dois dias?

-Claro. Vou guard-lo at sexta-feira. Isso d-te tempo, querido? Ele
abanou a cabea lentamente.

-Isso d-me tempo suficiente.

Com os cinco mil dlares que Sybil lhe deu, "no, no  um presente, 
um emprstimo, disse a si prprio", Constantin Demiris comprou
opes em hectares da terra em redor da nova descoberta potencial.
Alguns meses depois, quando os jorros comearam a sair do campo
principal, Constantin Demiris tornou-se, instantaneamente, num
milionrio. Devolveu a Sybil Potter os cinco mil dlares, enviou-lhe
uma camisa de noite nova e regressou  Grcia. Ela nunca mais o viu.
H uma teoria que diz que na natureza nada se perde -que todos os
sons produzidos, todas as palavras proferidas existem ainda algures no
espao e no tempo e podero um dia ser lembrados. Antes da inveno
da rdio, diz-se, quem teria acreditado que o ar  nossa volta estava
cheio de sons de msica, de notcias e de vozes de todo o mundo? Um
dia seremos capazes de viajar no tempo e ouvir o discurso de Lincoln
em Gettysburgo, a voz de Shakespeare, o Sermo da Montanha...
Catherine Alexander ouvia vozes do seu passado, mas eram abafadas e

#
fragmentadas, e enchiam-na de confuso...

-Sabes que s uma rapariga muito especial, Cathy? Sentiam desde a
primeira vez que te vi...

-Acabou-se. Quero divorciar-me... Amo outra pessoa...

-Eu sei que me tenho comportado mal... Gostava de reparar os meus
erros.

-Ele tentou matar-me.

-Quem  que tentou matar-te? -0 meu marido.

As vozes persistiam. Eram uma tormenta. 0 seu passado tornou-se um
caleidoscpio de imagens mveis que se precipitavam continuamente
no seu pensamento. 0 convento devia ter sido um abrigo maravilhoso,
mas tornara-se repentinamente uma priso. 0 meu lugar no  aqui.
Mas onde  o meu lugar? Ela no fazia idia. No havia espelhos no
convento, mas havia um lago refletor l fora, perto do jardim.
Catherine, cautelosamente, evitara, receosa daquilo que ele pudesse
revelar-lhe. Mas nesta manh foi at l, ajoelhou-se lentamente e olhou
para baixo. O lago refletiu uma mulher bronzeada de aspecto
maravilhoso, de cabelo preto, feies perfeitas e uns solenes olhos
cinzentos que pareciam cheios de dor.., mas talvez isso fosse uma
mera iluso da gua. Viu uma boca generosa que parecia pronta a
sorrir, e um nariz ligeiramente arrebitado -uma mulher bonita com
pouco mais de trinta anos. Mas uma mulher sem passado e sem futuro.
Uma mulher perdida. Preciso de algum que me ajude", pensou
Catherine desesperadamente, "algum com quem eu possa conversar."
Entrou na sala da Irm Teresa.

-Irm...

-Sim, minha filha?

-Eu.., acho que gostava de consultar um mdico. Algum que me possa
ajudar a descobrir quem eu sou.

A Irm Teresa olhou para ela durante um longa momento, -Senta-te.

Catherine sentou-se na dura cadeira que se encontrava  frente da
velha escrivaninha, marcada pelo tempo.

A Irm Teresa disse calmamente:

-Minha querida, Deus  o nosso mdico. A seu tempo Ele far com
Sue saibas o que Ele te reserva. Alm disso, no so permitidos

#
estranhos dentro destas paredes.

Catherine teve um lampejo de memria repentino... uma vaga imagem
de um homem que falava com ela no jardim do convento, entregando-
lhe qualquer coisa, mas depois a lembrana desapareceu. -0 meu lugar
no  aqui.

-Qual o teu lugar? E esse era o problema.

-No estou certa. Ando  procura de algo. Perdoe-me, Irm Teresa, mas
sei que no est aqui.

A Irm Teresa analisava-a, o seu rosto pensativo. -Eu compreendo. Se
sasses daqui, para onde irias? -No sei.

-Deixa-me pensar no assunto, minha filha. Voltaremos a falar em
breve.

-Obrigada, Irm.

Quando Catherine saiu, a Irm Teresa permaneceu sentada  secretria
durante muito tempo, com o olhar fixo no vazio. Era uma deciso
difcil que ela tinha de tomar. Por fim, alcanou um pouco de papel e
uma caneta e comeou a escrever. "Prezado Senhor", principiou ela.
Aconteceu algo, que sinto o dever de chamar a sua ateno. A nossa
amiga comum informou-mede que pretende abandonar o convento. Por
favor diga-me o que devo fazer." Ele leu o bilhete uma vez, e depois
recostou-se na cadeira, analisando as conseqncias do recado. "Com
que ento! A Catherine Alexander quer regressar do mundo dos
mortos.  pena. Terei de livrar-me dela. Com cautela. Com muita
cautela." Na manh seguinte, Demiris mandou o motorista lev-lo a
Janina. Enquanto atravessava o campo, Constantin Demiris pensava
em Catherine Alexander. Lembrava-se de como ela estava bonita
quando ele a viu pela primeira vez. Era inteligente, engraada e alegre,
e estava excitada par se encontrar na Grcia. "Ela tivera tudo",pensou
Demiris. E depois os deuses vingaram-se. Catherine fora casada com
um dos seus pilotos, e o casamento deles tornara-se um inferno vivo.
Quase da noite para o dia ela envelhecera dez anos e tornara-se uma
bbeda gorda e desgrenhada. Demiris suspirou. Que desperdcio.
Demiris estava sentado na sala da Irm Teresa.

-Custou-me muito ma-lo por causa disto-desculpou-se a Irm Teresa
-, mas a rapariga no tem para onde ir...

-Tomou a deciso certa-assegurou-lhe Constantin Demiris. Ela lembra-
se de alguma coisa do passado?

#
A Irm Teresa abanou a cabea. -No. A pobrezinha... -Foi at 
janela, donde viu as freiras que trabalhavam no jardim. -Ela est l
fora agora. Constantin Demiris foi para junto dela e olhou para fora da
janela. Havia trs freiras de costas para ele. Esperou. Uma delas
voltou-se e ele pde ver-lhe o rosto, e a respirao prendeu-se-lhe na
garganta. Ela era bela. Que acontecera quela mulher gorda e
destroada? - a do meio -disse a Irm Teresa. Demiris abanou a
cabea.

-Sim. -As palavras da Irm Teresa eram mais verdadeiras do que ela
pensava.

-Que deseja que eu faa com ela?

Com cautela.

-Deixe-me pensar no caso -disse Demiris. Entrarei em contato
consigo.

 um milagre", pensou Catherine. "Um sonho realizado." A Irm
Teresa parara junto  sua minscula cela aps as matinais.

-Trago notcias para ti, minha filha. -Sim?

A Irm Teresa escolhia as palavras cuidadosamente.

-Boas notcias. Escrevi a um amigo do convento a teu respeito, e ele
deseja ajudar-te.

Catherine sentia o seu corao a saltar. -Ajudar-me como?

-Isso  algo que tem de ser ele a dizer-te. Mas trata-se de uma pessoa
muito amvel e generosa. Catherine vais sair do convento. E as
palavras causaram um arrepio repentino e inesperado em Catherine. Ia
entrar num mundo de que nem conseguia lembrar-se. "E quem era o
seu benfeitor?" Tudo o que a Irm Teresa disse foi; - um homem
muito atencioso. Catherine devias estar agradecida. 0 carro dele vir
buscar-te na segunda-feira de manh.

Catherine no conseguiu dormir durante as duas noites seguintes. A
idia de deixar o convento e entrar no mundo exterior tornou-se de
repente assustador. Sentiu-se desamparada e perdida. "Talvez seja
melhor eu no saber a minha identidade. Por favor, Deus, olha por
mim." Na segunda-feira, a limousine parou diante do porto do
convento s sete horas da manh. Catherine estivera acordada toda a
noite a pensar no futuro incerto que se apresentava  sua frente. A
Irm Teresa acompanhou-a at ao porto que se abria para o mundo

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exterior. -Rezaremos por ti. Lembra-te de uma coisa: se decidires
voltar para junto de ns, haver sempre lugar para ti aqui.

-Obrigada, Irm. No me esquecerei,

Mas no seu ntimo Catherine estava certa de que nunca voltaria.

O longo trajeto de Janina at Atenas encheu Catherine com uma srie
de emoes conflituosas. Era muitssimo excitante estar do outro lado
dos portes do convento, e, no entanto, havia algo sinistro sobre o
mundo de que se aproximava. Ia ela saber que coisa horrvel
acontecera no seu passado? Tinha alguma coisa a ver com o sonho
repetitivo em que algum queria afog-la? No incio da tarde, o campo
deu lugar a pequenas aldeias, at que chegaram finalmente aos
arredores de Atenas e em breve estavam no meio da cidade animada.
Parecia tudo estranho e irreal a Catherine -e, no entanto,
estranhamente familiar. "Eu j c estive", pensou Catherine
excitadamente. 0 motorista dirigiu-se para leste, e quinze minutos
depois chegaram a uma propriedade enorme situada no alto de uma
colina. Passaram por um porto alto de ferro e uma casa de pedra 
entrada, subiram uma estrada ladeada de ciprestes majestosos e
pararam frente de uma enorme villa mediterrnica branca, emoldurada
por meia dzia de esttuas magnficas. 0 motorista abriu a porta do
carro para Catherine sair. Um homem aguardava na porta da frente.

-Kalimehra. -A palavra para bom-dia surgiu nos lbios de Catherine
espontaneamente.

-Kalimehra.

-0 senhor.., o senhor  a pessoa que eu vim ver?

-Oh, no. 0 senhor Demiris est  sua espera na biblioteca, Demiris.
Um nome que ela nunca ouvira antes. Por que estava ele interessado
em ajud-la?

Catherine seguiu o homem por uma enorme rotunda, com um telhado
em cpula assente em placas de faiana inglesa de Wedgewood. Os
pisos eram em mrmore creme de origem italiana,

0 salo era enorme, com um teto alto com viga e sofs grandes, baixos
e confortveis e cadeiras por toda a parte. Uma tela enorme, um Coya
escuro e soturno, cobria uma parede inteira. Quando se aproximavam
da biblioteca, o homem parou.

-0 senhor Demiris est  sua espera l dentro.

#
As paredes da biblioteca eram adornadas de madeira branca e dourada,
e as prateleiras alinhadas nas paredes estavam cheias de livros de
cabedal gravados em relevo a ouro. Um homem sentava-se atrs de
uma secretria enorme. Ergueu o olhar quando Catherine entrou e
levantou-se. Procurou um sinal de reconhecimento no rosto dela, mas
no houve nenhum.

-Seja bem vinda. Chamo-me Constantin Demiris. Qual  o seu nome?Ele
deu  pergunta um tom informal. "Lembrava-se ela do nome?"

-Catherine Alexander.

Ele no mostrou nenhuma reao.

-Seja bem vinda, Catherine Alexander. Por favor sente-se. -Ele
sentou-se em frente dela, num sof de cabedal negro. Ela era ainda
mais maravilhosa de perto. "Ela  magnfica", pensou Demiris.
"Mesmo vestida com aquele hbito preto. E uma pena destruir algo to
belo. Pelo menos morrer feliz

- ,.,  muito amvel da sua parte receber-me -disse Catherine. -No
percebo porque  que o senhor...

Ele sorriu afavelmente.

- realmente muita simples. De vez em quando, dou uma contribuio
 Irm Teresa. 0 convento tem muito pouco dinheiro, e eu fao o que
posso. Quando me escreveu a falar de si e me perguntou se eu podia
ajudar, eu disse-lhe que ficaria muito satisfeito em tentar.

-Isso  muito .,. -Calou-se, no sabendo como prosseguir. -A Irm
Teresa disse-lhe que eu... que eu perdi a memria?

-Sim, ela disse qualquer coisa sobre isso.-Fez uma pausa eperguntou
sem cerimnia. -Lembra-se de muita coisa?

-Sei o meu nome, mas no sei donde vim, ou quem sou na realidade. Acrescentou,
esperanosamente. -Talvez eu encontre aqui algum que
me conhea.

Constantin Demiris sentiu um arrepio repentino de preocupao. Era a
ltima coisa no mundo que ele queria.

- possvel, claro -disse cautelosamente. -Porque no falamos nisso
amanh de manh? Infelizmente, tenho que estar presente numa
reunio agora. Mandei preparar-lhe uma suite. Acho que se sentir
bem.

#
-Eu... eu realmente no sei como agradecer-lhe. Ele agitou uma mo.

-No  necessrio. Trataro bem de si aqui. Sinta-se  vontade.
-Obrigada, senhor. ...

-Os amigos chamam-me Costa.

Uma governanta conduziu Catherine para uma fantstica suite,
decorada com tons suaves de branco, mobiliada com uma cama de
tamanho excessivo com uma dossel de seda, sofs e poltronas brancas,
mesas e candeeiros antigos e quadros impressionistas nas paredes.
Persianas de um verde-marinho polido mantinham o sol
resplandecente na janela ogival. Atravs das janelas, Catherine podia
ver o mar azul-turqus l ao longe. A governanta disse

-0 senhor Demiris mandou trazer roupas para a senhora escolher. Pode
escolher tudo o que lhe apetecer,

Catherine tomou conscincia, pela primeira vez, de que ainda trazia
vestido o hbito que lhe haviam dado no convento. -Obrigada.
Afundou-se na cama macia, sentindo-se como num sonho. Quem era
este estranha, e por que estava ele a ser to amvel com ela? Uma hora
mais tarde, chegou um carrinho cheio de roupas. Uma modista foi
conduzida ao quarto de Catherine.

- Sou Madame Dimas. Vamos ver o que temos de trabalhar. Importa-se
de tirar a roupa?
-Como?

-Quer tirar a roupa? No consigo saber quais as medidas do seu corpo
debaixo dessas roupas.

H quanto tempo no ficava nua  frente de outra pessoa? Catherine
comeou a despir a roupa, mexendo-se lentamente, sentindo-se
embaraada. Quando ficou nua  frente da mulher, Madame Dimas
olhou-a de um modo sabido. Estava impressionada.

-Tem uma bela figura. Acho que vamos conseguir arranjar-lhe umas
coisas bem bonitas.

Duas assistentes entraram com caixas de vestidos, roupa interior,
blusas, saias, sapatos.

-Escolha o que quiser -disse a modista -, e vamos experimentar.

-No posso ficar com nada disto-protestou Catherine. -No tenho
dinheiro.

#
A modista riu-se.

-No me parece que o dinheiro seja problema. 0 senhor Demiris vai
tratar disso.

-Mas porqu?

Os tecidos trouxeram de volta memrias tteis de roupas que ela deve
ter em tempos usado. Eram sedas, tweeds e algodes numa coleo de
cores delicadas. As trs mulheres eram despachadas e eficientes, e
duas horas depois Catherine tinha meia dzia de belos conjuntos, Era
irresistvel. Ali estava ela, sem saber o que fazer da vida. "Estou toda
arranjada",pensou, "sem ter para onde ir." Mas havia um lugar aonde
ir- cidade. A chave para o que quer que fosse que lhe acontecera
estava em Atenas. Estava convencida disso. Levantou-se. "Vamos,
estranha. Vamos tentar saber quem tu s." Catherine atravessava o
vestbulo quando um mordomo a abordou.

-Posso ajud-la?

-Sim. Eu... eu gostava de ir  cidade. Podia chamar-me um txi? -Estou
certo de que isso no ser necessrio. Temos limousine  sua
disposio, Vou providenciar um motorista.

Catherine hesitou. -Obrigada.

0 senhor Demiris no gostaria que ela fosse  cidade? Ele no a
impedira.

Uns minutos depois ela estava sentada no banco de trs de uma
limousine Daimler, com destino  baixa de Atenas. Catherine estava
deslumbrada com a cidade barulhenta e animada e pela pungente
sucesso de runas e monumentos que surgiam  sua volta. 0 motorista
apontou para a frente e disse orgulhosamente: -Aquilo  o Prtenon, no
cimo da Acrpole. Catherine fixou o olhar no conhecido edifcio de
mrmore branco. -Dedicado a Atena, a deusa da sabedoria-deu por si a
dizer. 0 motorista sorriu com um ar aprovador.

-A menina  estudante de Histria da Grcia? Lgrimas de frustrao
enevoaram a viso de Catherine. -No sei-sussurrou ela.-No sei.

Passaram por outra runa.

-0 teatro de Herodes Atticus. Como pode ver, parte das paredes esto
ainda de p. Em tempos sentava mais de cinco mil pessoas. -Seis mil
duzentas e cinqenta e sete -disse Catherine num tom suave.
Modernos hotis e imveis de escritrios viam-se por toda a parte no

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meio das runas intemporais, uma mistura extica de passado e
presente. A limousine passou por um parque enorme no centro da
cidade, com fontes efervescentes e danantes. Dezenas de mesas com
mastros de cor verde e laranja ladeavam o parque, e o ar que os cobria
estava atapetado com toldos azuis. "Eu j estive aqui", pensou
Catherine, as suas mos a ficarem frias. "E fui feliz." Havia esplanadas
em quase todos os quarteires, e nas esquinas homens vendiam
esponjas de recolha recente. Por todo o lado havia flores  venda, as
barracas dos vendedores urna paixo de flores violentamente
coloridas. A limousine havia chegado  Praa Syntagma. Quando
passavam por um hotel na esquina, Catherine gritou. -Pre, por favor!

0 motorista encostou  esquina, Catherine estava com dificuldades em
respirar. "Estou a reconheceres-te hotel. J me hospedei aqui," Quando
falou, a voz tremia-lhe.

-Gostava de descer aqui. Ser que me podia vir buscar dentro de duas
horas?

-Claro que sim. -0 motorista apressou-se a abrir-lhe a porta, e
Catherine saiu de encontro ao ar quente de vero. As pernas tremiam-
lhe. -A menina est bem?

Ela no teve resposta. Sentiu como se estivesse  beira de um
precipcio, quase a cair num abismo desconhecido e aterrador.
Movimentou-se por entre as multides, maravilhando-se com as
hordas de pessoas que se precipitavam nas ruas, criando um alarido
aterrador de palavras. Depois do silncio e solido do convento, tudo
aquilo parecia irreal. Catherine deu por si a caminhar na direo de
Plaka, a parte antiga de Atenas no corao da cidade, com os seus
becos serpenteados e as escadarias em runas e gastas que davam para
casas minsculas, cafs e estruturas caiadas tortuosas. Ela achou o
caminho atravs de algum instinto que no percebeu ou tentou
controlar. Passou por uma taberna no topo de um telhado, que dava
para a cidade, e ficou parada, a olhar. "Eu j estive sentada quela
mesa. Deram-me uma ementa em grego. ramos trs. 0 que  que
queres comer? perguntaram. Importam-se de pedir por mim? No v
eu pedir ao proprietrio. Eles riram-se. Mas quem eram eles?" Um
empregado aproximou-se de Catherine. -Goro na sas ooithiso?

-Ochi efharisto.

" Posso ajud-la? No, obrigada. Como  que eu soube responder? Sou
grega?"

#
Catherine avanou precipitadamente, e era como se algum estivesse a
conduzi-la. Ela sabia exatamente para onde ir.

Tudo parecia familiar. E nada. "Meu Deus", pensou ela, "estou a
enlouquecer. Estou alucinada." Passou por um caf chamado
Treflinkas. Uma lembrana importunava-a nas partes remotas do
pensamento. Acontecera-lhe algo aqui, algo de importante. No
conseguia lembrar-se do que era. Atravessou as ruas movimentadas e
sinuosas e virou  esquerda na Voukourestiou. Havia muitas lojas
elegantes. "Eu fazia compras aqui." Comeou a cruzar a rua, e uma
viatura azul surgiu veloz na esquina, quase que a atropelava. Lembrou-
se de uma voz que lhe disse: "Os gregos no fizeram a transio para o
automvel. No fundo, ainda andam de burro. Se queres entender os
gregos, no leias os guias; l as velhas tragdias gregas. Ns estamos
repletos de paixes grandiosas, alegrias profundas e grandes mgoas, e
no aprendemos a disfar-las com um verniz civilizado."

Quem lhe dissera isso? Um homem descia a rua apressado,
caminhando na direo dela, olhando-a fixamente. Ele abrandou, um
olhar de reconhecimento no seu rosto. Era alto e moreno, e Catherine
tinha a certeza de no o ter visto antes. E no entanto...

-Viva. -Ele parecia muito feliz por v-la.

-Ol. -Catherine respirou fundo. -0 senhor conhece-me? Ele tinha um
sorriso largo.

-Claro que a conheo.

Catherine sentiu o corao saltar. Ela ia finalmente saber a verdade
acerca do passado. Mas como  que se diz "Quem sou eu?" a um
estranho numa rua cheia de gente?

-Podamos... podamos conversar?-perguntou Catherine. -Acho que
devamos.

Catherine estava  beira do pnico. 0 mistrio da sua identidade estava
prestes a ser solucionado. E, no entanto, sentia um medo terrvel. "E se
eu no quiser saber? E se eu fiz algo de terrvel?" 0 homem levava-a
para uma taberna ao ar livre. -Estou to feliz por encontr-la -disse
ele. Catherine engoliu em seco.

-Tambm eu.

Um criado de mesa conduziu-os a uma mesa,

-0 que que gostaria de tomar?-perguntou o homem. Ela abanou a

#
cabea.

-Nada.

Havia tantas perguntas a fazer. "Por onde comeo?"

-Voc  muita bonita -disse o homem. -Foi o destino. No concorda?

- verdade. -Ela quase tremia de excitao. Inspirou profundamente.
-Eu ... onde foi que ns nos conhecemos?

Ele sorriu mostrando os dentes.

-Isso tem importncia, koritsimon? Paris ou Roma, nas corridas, numa
festa. -Ele chegou-se para a frente e apertou-lhe a mo. -Voc  a
mais bonita que eu vi por aqui. Quanto  que leva?

Catherine olhou-o fixamente, sem perceber por um momento, depois,
chocada, ergueu-se rapidamente.

-Eh! Qual o problema? Eu pago o que quiser...

Catherine voltou-se e ps-se em fuga, descendo a rua a correr. Virou
numa esquina e abrandou, os olhos cheios de lgrimas de humilhao.
Em frente, havia uma pequena taberna, onde havia um letreiro na porta
que dizia MADAME PIRIS -ASTRLOGA. Catherine abrandou, depois
parou. "Eu conheo Madame Piris. Eu j estive aqui: > 0 seu corao
comeou a acelerar. Sentiu que aqui, atravs da entrada escurecida,
estava o comeo do fim do mistrio. Abriu a porta e entrou. Levou
alguns momentos a habituar-se  escurido cavernosa da sala. Havia
um bar familiar no canto, e uma dzia de mesas e de cadeiras. Um
criado veio at ela e dirigiu-se-lhe em grego.

-Kalimehra.

Kalimehra. Pou inch Madame Piris?

0 criado apontou na direo de uma mesa vazia no canto da sala, e
Catherine foi at l e sentou-se. Tudo era exatamente como se
lembrava. Uma mulher incrivelmente velha, vestida de negro, com um
rosto dessecado em ngulos e planos, dirigia-se  mesa.

-0 que  que eu posso ...? -Parou, perscrutando o rosto de Catherine.
Os seus olhos arregalaram-se.-Conheci-a em tempos, mas o seu
rosto ... -Disse ela com a voz entrecortada. -Voc voltou! -Sabe quem
eu sou?-Catherine perguntou ansiosamente. A mulher fixou-a, com os
olhos cheios de horror.

-No! Voc morreu! V-se embora!

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Catherine gemeu tenuamente e sentiu o cabelo arrepiar-se-lhe.

-Por favor, eu sou...

-V-se embora, senhora Douglas! -Eu preciso de saber...

A velha fez o sinal da cruz, voltou-se e desapareceu rapidamente.
Catherine deixou-se ficar sentada por um momento, a tremer, depois
saiu a correr para a rua. A voz segui-a na cabea. "Senhora Douglas! E
foi como se tivessem aberto uma represa. Dezenas de cenas
brilhantemente iluminadas jorraram repentinamente na sua cabea,
uma srie brilhante de caleidoscpios fora de controlo. "Eu sou a
senhora Larry Douglas p Viu o rosto bonito do marido. Estivera
loucamente apaixonada por ele, mas algo correra mal. Alguma coisa...
A imagem seguinte era a sua tentativa de suicdio, e o acordar num
hospital. Catherine estava na rua, receosa de que as suas pernas no
andassem, deixando as imagens aos atropelos no seu pensamento. Ela
tinha andado a beber muito, porque perdera Larry. Mas depois ele
voltara para ela. Estavam no apartamento dela, e Larry dizia:

-Sei que me portei muito mal. Gostaria de compensar-te, Cathy. Eu
amo-te. Nunca amei realmente mais ningum. Quero mais uma
oportunidade. Gostavas de fazer uma segunda lua-de -mel? Conheo
um stio maravilhoso aonde poderamos ir. Chama-se Janina.

E depois o horror comeara. As imagens que lhe vieram  mente agora
eram aterradoras. Estava no cimo duma montanha na companhia de
Larry, perdida numa neblina cinzenta e rodopiante, e ele caminhava na
direo dela, de braos estendidos, preparado para atir-la da berma.
Nesse momento, chegaram uns turistas e salvaram-na. E depois as
caves.

"0 empregado do hotel falou-me dumas grutas que h aqui perto.
Todos os recm-casados vo l. E eles foram s grutas, e Larry levara-
a at s profundezas e deixara-a l para que ela morresse. Ps as mos
sobre os ouvidos como que para afastar os terrveis pensamentos que a
assaltavam. Fora salva e trazida de volta ao hotel, e um mdico dera-
lhe um sedativo. Mas a meio da noite ela acordara e ouvira Larry e a
amante na cozinha, planejando a morte dela, o vento a fustigar-lhe as
palavras.

-Nunca ningum ir...

-Eu disse-te que me encarregava de...

-Correu mal. No h nada que eles possam... -Agora, enquanto ela

#
est a dormir.

E lembrava-se de ter fugido naquela tempestade terrvel-sendo
perseguida por eles -meter-se no barco a remos, o vento fustigando o
barco no meio do lago tempestuoso. 0 barco comeara a afundar, e ela
perdera a conscincia. Catherine afundou-se num banco da rua,
demasiado exausta para se mexer. Ento os seus pesadelos tinham sido
reais. 0 marido e a amante haviam tentado mat-la. Pensou de novo no
estranho que fora visit-la ao convento pouco depois do seu
salvamento, Ele entregara-lhe um pssaro de ouro de excelente
execuo, com as asas suspensas para voar.. "Ningum lhe far mal.
As pessoas cruis morreram. Ainda no conseguiu ver o seu rosto com
nitidez. A cabea de Catherine comeou a latejar. Finalmente,
levantou-se e caminhou lentamente em direo  rua onde ficou de se
encontrar com o motorista que a levaria de volta para junto de
Constantin Demiris, onde estaria em segurana.

-Porque  que a deixou sair de casa? -perguntou Constantin Demiris.

-Peo desculpa, senhor -respondeu o mordomo. -0 senhor no disse
se ela podia ou no sair, por isso...

Demiris esforou-se para parecer calmo.

-No tem importncia. Ela, provavelmente, deve estar de volta daqui a
pouco.

-Mais alguma coisa, senhor?

-No.

Acompanhou a sada do mordomo, Demiris foi at uma janela e fixou
o olhar no jardim impecavelmente tratado. Era perigoso Catherine
Alexander aparecer nas ruas de Atenas, onde poderia serre conhecida.
" uma pena eu no poder deix-la viver. Mas primeiro ... a minha
vingana. Ela ficar viva at que eu me vingue. Vou divertir-me com
ela. Vou mand-la embora daqui, para um lugar onde ningum a
conhea. Londres ser seguro. Podemos mant-la sob vigilncia. Vou
arranjar-lhe um emprego num dos meus escritrios de l. Uma hora
mais tarde, quando Catherine regressou a casa, Constantin Demiris
pde sentir instantaneamente a mudana nela. Era como se uma cortina
escura tivesse sido levantada e Catherine tivesse repentinamente
ressuscitado. Usava um atraente fato de seda branco, com uma blusa
branca-e Demiris ficou surpreendido pela grande alterao da sua
aparncia. "Nostini", pensou ele. Sedutora. -Senhor Demiris...

#
-Costa.

-Eu.., eu sei quem eu sou, e .., o que aconteceu. 0 rosto dele nada
revelou.

-Ah sim? Sente-se, minha querida, e conte-me.

Catherine estava excitada de mais para se sentar. Comeou a andar
abruptamente na alcatifa, de um lado para o outro, as palavras saindo-
lhe da boca aos atropelos.

-0 meu marido e a... a amante dele, Noelle, tentaram matar-me. -Parou,
olhando para ele ansiosamente.-No lhe parece uma loucura? Eu ... eu
no sei, Talvez seja.

-Continue, minha querida-disse ele brandamente. -Foram umas freiras
do convento que me salvaram. O meu marido trabalhava para si, no
trabalhava?-disse ela sem pensar. Demiris hesitou, pesando
cuidadosamente a sua resposta. -Trabalhava, sim. -Que mais poderia
dizer-lhe?-Ele era um dos meus pilotos. Senti alguma responsabilidadepor si.  s...

Ela olhou de frente.

-Mas o senhor sabia quem eu era. Porque no me disse hoje de manh?

-Eu tinha receio do choque-disse Demiris num tom brando. -Achei
que era melhor deix-la descobrir as coisas por si prpria. -Sabe o que
aconteceu ao meu marido e a essa ... essa mulher? Onde  que eles
esto?

Demiris olhou Catherine de frente. -Eles foram executados.

Ele viu o sangue escoar-se do rosto dela. Ela emitiu um curto som. De
repente, sentiu-se fraca de mais para ficar de p e afundou-se numa
cadeira.

-Eu no...

-Eles foram executados pelo Estado, Catherine. -Mas... porqu?

"Cuidado. Perigo."

-Porque eles tentaram assassin-la. Catherine franziu o sobrolho.

-No percebo. Por que iria o Estado execut-los? Eu estou viva... Ele
interrompeu.

-Catherine, as leis gregas so muito severas. E a justia aqui  rpida.
Houve um julgamento pblico. Uma srie de testemunhas declararam

#
que o seu marido e Noelle Page tentaram mat-la. Foram declarados


culpados e condenados  morte.
-Custa a acreditar -Catherine deixou-se ficar, atordoada. -0
julgamento...


Constantin Demiris aproximou-se e colocou uma mo sobre o ombro
dela. -Tem de esquecer o seu passado. Eles tentaram fazer-lhe uma
coisa terrvel, e pagaram por isso. -Ele prosseguiu num tom mais
animado


-Acho que Y tutu. Tem alguns planos?


Ela no 0 ouviu. "Larry>, pensava ela. "0 rosto bonito de Larry, rindo,
Os braos de Larry, a voz dele..."
-Catherine...
Ela ergueu o olhar. -Desculpe.
-Tem alguma idia quanto ao seu futuro?
-No, eu... eu no sei o que vou fazer . Suponho que podia ficar em


Atenas.,.


-No-disse Demiris firmemente. -No seria uma boa idia. Iria trazer-
lhe lembranas muito desagradveis. Sugiro que deixe a Grcia.
-Mas eu no tenho para onde ir.
-J pensei no caso-disse-lhe Demiris.-Eu possuo escritrios em


Londres. Voc j trabalhou para um sujeito chamado William Fraser


em Washington. Lembra-se disso?
-William...? -E de repente lembrou-se. Fora uma das poucas vezes
mais felizes da sua vida.


-Voc era assistente administrativa dele, creio. -Sim, eu...
-Podia fazer a mesma coisa para mim em Londres. Ela hesitou,
-No sei. No quero parecer ingrata, mas...
-Compreendo. Sei que tudo parece estar a acontecer muito depressa.


disse Demiris num tom compreensivo. -Precisa de tempo para pensar
em tudo isto, Porque  que no janta sossegadamente no seu quarto, e
amanh falamos mais?


Pedir-lhe que jantasse no seu quarto foi uma inspirao de ltima hora.
No podia permitir que a sua mulher se cruzasse com ela. -0 senhor 
muito atencioso -disse Catherine. -E muito generoso. Os vestidos


#
so... Ele bateu ao de leve na mo dela e segurou-a uma frao mais do
que o necessrio. -Sinto um enorme prazer.

Ela sentou-se no quarto a ver o sol flamejante pr-se no Egeu azul
numa exploso de cor. "No vale a pena reviver o passado. H que
considerar o futuro. Obrigada Senhor pelo aparecimento de Constantin
Demiris. Ele era a sua tbua de salvao. Sem ele, ela no teria em
quem se apoiar. E oferecera-lhe um emprego em Londres. "Aceito?"
Os seus pensamentos foram interrompidos por uma pancada na porta.

-0 seu jantar, menina.

Muito depois de Catherine ter sado, Constantin Demiris sentou-se na
biblioteca a pensar na conversa que tinham tido, "Noelle." Apenas uma
vez na vida se havia permitido perder o controlo das suas emoes.
Apaixonara-se profundamente por Noelle Page, e ela tornara-se sua
amante, Nunca conhecera uma mulher como ela, Ela sabia de arte,
msica, negcios e tornara-se indispensvel. Nada em Noelle o
surpreendia. Tudo em Noelle o surpreendia. Ele estava obcecado por
ela. Ela era a mulher mais bonita e mais sensual que Demiris tinha
conhecido. Abandonara o estrelato para estar a seu lado. Noelle
provocava-lhe emoes que nunca antes sentira. Era a sua amante, a
sua confidente, a sua amiga. Demiris confiara nela por inteiro, e ela
traram com Larry Douglas. Foi um erro que Noelle pagara com a vida,
Constantin Demiris combinara com as autoridades que o seu corpo
fosse enterrado no cho do cemitrio de Psara, a sua ilha particular no
Egeu. Todos observaram que fora um gesto belo e sentimental. De
fato, Demiris fizera com que o enterro fosse ali para ter o requintado
prazer de caminhar sobre o tmulo da cabra. Na mesinha de cabeceira
de Demiris havia uma fotografia de Noelle tirada da poca em que
atingira a beleza mxima, a olhar para ele e a sorrir. Sorrindo para
sempre, congelada no tempo. Mesmo agora, depois de mais de um ano,
Demiris era incapaz de deixar de pensar nela. Ela era uma ferida aberta
que nenhum mdico poderia algum dia curar. "Porqu, Noelle,
porque? Eu dei-te tudo. Eu amava-te, sua cabra. Eu amava-te. Eu amo-
te. E depois apareceu Larry Douglas. Ele pagara com aviria. Mas isso
no chegava para Demiris. Tinha outra vingana em mente. Uma
vingana perfeita. Ele ia divertir-se com a mulher de Douglas como
Douglas tinha feito com Noelle. Depois mandaria Catherine para junto
do marido.

-Costa...

#
Era a voz da mulher. Melina entrou na biblioteca.

Constantin Demiris era casado com Melina Lambrou, uma mulher
atraente, originria de uma velha famlia aristocrtica grega. Era alta e
de aspecto rgio, com uma dignidade inata.

-Costa, quem  a mulher que eu vi na entrada? -A sua voz estava tensa.

A pergunta apanhou-o desprevenido.

-0 qu? Oh. E uma amiga de um scio -disse Demiris. -Vai trabalhar
para mim em Londres.

-Vi-a num relance. Ela faz-me lembrar algum. -Ai sim?

-Pois foi. -Melina hesitou. -Lembra-me a mulher do piloto que
trabalhava para ti, Mas isso  impossvel, claro. Eles mataram-na.

- verdade -concordou Constantin Demiris. -Eles mataram-na.

Acompanhou com o olhar a sada de Melina. Tinha de ser cuidadoso.
Melina no era parva nenhuma. "Eu nunca deveria ter casado com
ela", pensou Demiris. "Tinha sido um erro mau..." Dez anos antes, o
casamento de Melina Lambrou e Constantin Demiris agitara os
crculos econmicos e sociais desde Atenas a Riviera e a Newport com
ondas de choque, 0 que fez com que o caso fosse to excitante  que
apenas um ms antes se comprometera a casar com outro homem.
Quando criana, Melina Lambrou havia consternado a famlia com a
sua obstinao. Aos dez anos, decidiu que queria ser marinheira. 0
motorista da famlia encontrou-a no cais, tentando penetrar a bordo de
um navio, e foi para casa envergonhada. Aos doze anos, tentou fugir
com um circo itinerante. Aos dezessete anos, Melina resignou-se ao
seu destino-era bela, fabulosamente rica e a filha de Mihalis Lambrou.
Os jornais adoravam escrever sobre ele. Ela era uma figura de um
conto de fadas, cujos companheiros eram princesas e prncipes, e
durante todo esse tempo, por algum milagre, Melina conseguira
permanecer inclume. Melina tinha um irmo, Spyros, que era dez
anos mais velho do que ela, e eles adoravam-se. Os pais morreram
num desastre de barco quando Melina tinha treze anos, e foi Spyros
quem a criou. Spyros protegia-a extremamente -"demasiado", pensava
Melina. Quando Melina estava a caminho dos vinte anos, Spyros
tornou-se ainda mais desconfiado dos pretendentes de Melina, e
examinava cuidadosamente cada candidato  mo da irm. Nenhum
deles se revelava merecedor.

-Tens de ter cuidado-aconselhava ele constantemente a Melina. -s um

#
alvo para todos os caadores de fortunas do mundo. s nova, rica e
bonita, e tens um nome famoso.

-Bravo, meu querido irmo. Isso vai-me servir de grande conforto
quando eu tiver oitenta anos e morrer donzela velha.

No te preocupes, Melina. 0 homem certo h-de aparecer. Chamava-se
Conde Vassilis Manos e tinha quarenta e tal anos, um homem de
negcios bem-sucedido que vinha de uma velha e distinta famlia
grega. 0 conde apaixonara-se pela jovem e bela Melina
instantaneamente. A sua proposta surgiu algumas semanas depois de
se conhecerem.

-Ele  perfeito para ti-disse Spyros com um ar feliz. -Manos tem os ps
bem assentes na terra e est louco por ti.

Melina estava menos entusiasmada.

-Ele no  excitante, Spyros. Quando estamos juntos, ele s fala de
negcios, negcios, negcios. Eu gostava que ele fosse mais... mais
romntico.

0 irmo disse firmemente:

-0 casamento no  s romance. Tu precisas de um marido que seja
slido e estvel, algum que se dedique a ti.

E Melina foi finalmente persuadida a aceitar a proposta do Conde
Manos.

0 conde ficou excitado.

-Fizeste de mim o homem mais feliz do mundo -declarou ele. -Acabo
de fundar uma nova companhia. Vou pr-lhe o nome de Melina
International.

Ela teria preferido uma dzia de rosas. Marcou-se a data do casamento,
enviaram-se mil convites e fizeram-se planos minuciosos.

Foi ento que Constantin Demiris entrou na vida de Melina Lambrou,
Conheceram-se numa das doze ou mais festas de noivado estavam a
ser dadas para o par que ia casar-se.

0 anfitrio apresentou-os.

-Esta  Melina Lambrou , Constantin Demiris.

Demiris olhou para ela com os seus cismados olhos negros. -Quanto
tempo iro eles deix-la c ficar? -perguntou -Perdo?

#
-Claro que voc foi enviada do cu para que soubssemos o que  a
beleza.

Melina riu-se.

-0 senhor  muito lisonjeiro, senhor Demiris. Ele abanou a cabea.

-Voc est para alm da lisonja.

-Nada do que eu dissesse poderia fazer-lhe justia.

Nesse momento o Conde Manos apareceu e interrompeu a conversa.
Nessa noite, mesmo antes de adormecer, Melina pensava em Demiris.
Ouvira falar dele, claro. Era rico, era vivo e tinha a reputao de ser
um homem de negcios implacvel e um mulherengo compulsivo.
"Ainda bem que no estou envolvida com ele", pensou Melina.

Os deuses riam-se.

Na manh seguinte  festa, o mordomo de Melina entrou na sala onde
se tomava o pequeno-almoo.

-Chegou uma encomenda para si, menina Lambrou. Foi entregue pelo
motorista do senhor Demiris.

-Entregue-ma, por favor.

"Ento o Constantin Demiris pensa que me vai impressionar com o
dinheiro dele. Bem, vai apanhar um grande desapontamento. Seja o
que for que mandou... uma jia cara, ou uma antiguidade sem preo...
vou devolver imediatamente."

A encomenda era pequena e retangular, belamente embrulhada.
Curiosa, Melina abriu-a. A carta dizia simplesmente:

"Achei que ia gostar disto. Constantin"

Tratava-se de um exemplar encadernado a couro de Toda Raba de
Nikos Kazantzakis, o seu autor preferido. Como  que podia ter
sabido?

Melina escreveu um bilhete de agradecimento corts e pensou: "Pronto
Na manh seguinte, chegou novo embrulho. Desta vez era um disco de
Delius, o seu compositor favorito. 0 bilhete dizia:

"Talvez queira ouvir esta msica enquanto l Toda Raba." Desse dia
em diante chegavam prendas todos os dias. As flor, s preferidas, o
perfume, a msica, os livros. Constantin Demiris dera-se ao trabalho
de saber quais eram os gostos de Melina, e ela no podia seno sentir-
se lisonjeada pela sua ateno. Quando Melina telefonou a agradecer a

#
Demiris, ele disse; -Nada que eu lhe desse lhe faria justia. "A quantas
mulheres dissera ele o mesmo?" -Almoa comigo, Melina? Ia dizer
que no, mas depois pensou: "No faz nenhum mal almoar com o
homem. Ele tem sido muito atencioso.


-Almoo, sim.


Quando disse ao Conde Manos que ia almoar com Constantin
Demiris, ele objetou.
-Para qu, minha querida? No tens nada a ver com esse homem


terrvel. Para qu encontrares-te com ele?


-Vassilis, ele tem-me enviado pequenas ofertas todos os dias, Vou
dizer-lhe que pare com isso.
E no momento em que Melina dizia isto, pensou: "Eu podia terlhe dito


ao telefone. Constantin Demiris reservara mesa no popular restaurante
Floca na Rua Panepistimiou e estava  espera de Melina quando ela
chegou. Ele ps-se de p.


-J c est. Receava tanto que pudesse mudar de ideia. -Cumpro
sempre a minha palavra.


Ele olhou para ela e disse solenemente.
-E eu cumpro a minha. Eu vou casar-me consigo. Melina abanou a
cabea, meio confusa, meio incomodada.


-Senhor Demiris, eu estou comprometida com outra pessoa. -Com o
Manos? -Ele acenou uma mo num gesto de rejeio. -Ele no lhe
serve.


-Oh, no ? E porqu?
-Informei-me sobre ele. H loucura na familia dele, ele  hemoflico,


procurado pela polcia por causa de uma queixa de ndole sexual em
Bruxelas, e  um pssimo jogador de tnis.
Melina no pde deixar de rir, -E voc?
-Eu no jogo tnis.
-Compreendo. E por isso eu devo casar consigo?
-No. Vai casar-se comigo, porque eu vou fazer de si a mulher mais


feliz de sempre.
-Senhor Demiris...
Ele cobriu a mo dela com a sua. -Costa.


#
Ela retirou a mo.

-Senhor Demiris, eu vim hoje aqui para lhe dizer que pare de enviar-
me presentes. No tenciono voltar a v-lo.

Ele analisou-a por um longo momento.

-Tenho a certeza de que no  uma pessoa cruel. -Espera que no.

Ele sorriu.

- timo. Ento no h-de querer ver o meu corao sofrer. - Duvido de
que o seu corao sofra assim to facilmente. Voc tem c uma
reputao.
-Ah, isso foi antes de conhec-la. H muito tempo que sonho consigo.

Melina riu-se.

-Juro. Quando era jovem, eu costumava ler sobre a famlia Lambrou.
Voc era muito rica e eu era muito pobre. Eu no tinha nada. Vivamos
ao deus-dar. 0 meu pai era estivador nas docas de Piraeus. Eu tinha
catorze irmos e irms, e tnhamos que lutar por tudo o que queramos.

Mesmo no o desejando, ficou sensibilizada. -Mas agora voc  rico.

-Sou. No to rico quanto vou ser, -0 que  que o tornou rico?

-A fome. Eu estava sempre com fome. Ainda tenho fome. Ela podia ler
a verdade nos seus olhos.

-Como  que voc.., como  que voc comeou? -Quer mesmo saber?

E Melina deu por si a dizer. -Quero mesmo saber.

-Quando eu tinha dezassete anos, fui trabalhar para uma pequena
companhia petrolfera no Mdio Oriente, As coisas no me estavam a
correr bem. Uma noite jantei com um jovem gelogo que trabalhava
para uma grande companhia. Pedi um bife nessa noite, e ele pediu
apenas sopa, e disse que era porque no tinha os dentes de trs e no
tinha dinheiro para mandar fazer uma dentadura. Dei-lhe cinquenta
dlares para ele comprar dentes novos. Um ms depois telefonou-me a
meio da noite para me dizer que acabara de descobrir um novo
depsito de petrleo. Ainda no contara ao patro. De manh pus-me a
pedir emprestado todos os centavos que pude, e  noite eu tinha
comprado opes sobre toda a terra em redor da nova descoberta. Veio
a ser um dos maiores depsitos de petrleo do mundo. Melina bebia
cada uma das suas palavras, fascinada.

-Isso foi o incio. Eu precisava de petroleiros para transportar o meu

#
petrleo, por isso, com o tempo adquiri uma frota. Depois, uma
refinaria. Depois uma companhia rea.-Ele encolheu os ombros. No
parou mais.

S muito tempo depois de estarem casados  que Melina descobriu que
aquela histria do bife era pura fico. Melina Lambrou no tivera
inteno de voltar a ver Constantin Demiris. Mas por uma srie de
coincidncias cuidadosamente preparadas,Demiris conseguia
invariavelmente aparecer na mesma festa, no mesmo teatro ou
acontecimento de caridade em que Melina estava presente. E cada vez
mais ela sentia o seu magnetismo poderoso. Ao p dele, Vassilis
Manos parecia-detestava admiti-lo, mesmo a si prpria -um chato.
Melina Lambrou gostava dos pintores flamengos, e quando Caadores
na Neue, de Bruegel, apareceu no mercado, antes que pudesse comprlo,
Constantin Demiris enviou-lho de presente. Melina ficou fascinada
pelo conhecimento excepcional que ele tinha dos seus gostos.

-No posso aceitar que me d um presente to caro-protestou. -Ah,
mas no se trata de um presente. Tem de pag-lo. Jante comigo esta
noite.

E ela acabou por concordar, 0 homem era irresistvel.

Uma semana depois Melina rompeu o noivado com o Conde Manos.

Quando Melina contou a novidade ao irmo, ele ficou espantado.
-Porqu, em nome de Deus? -perguntou Spyros. -Porqu? -Porque me
vou casar com Constantin Demiris,

Ele ficou estupefata.

-Tu deves estar louca. No podes casar com o Demiris. Ele  um
monstro. Ele vai destruir-te. Se...

-Tu ests enganado a respeito dele, Spyros. Ele  um ser maravilhoso.
E ns estamos apaixonados. E...

-Tu ests apaixonada -Respondeu ele. -No sei qual  a inteno a
dele, mas no tem nada a ver com amor. Sabes qual  a fama dele com
as mulheres? Ele...

- Isso pertence ao passado, Spyros. Eu vou ser a mulher dele. E ele no
pde fazer nada para convencer a irm a desistir do casamento.
Um ms depois, Melina Lambrou e Constantin Demiris estavam
casados. No comeo parecia um casamento perfeito. Constantin era
divertido e atencioso. Era um amante excitante e apaixonado, e

#
constantemente surpreendia Melina com presentes excessivos e
viagens por lugares exticos. Na primeira noite da lua-de-mel, disse:

-A minha primeira mulher nunca foi capaz de me dar um filho, Agora
vamos ter muitos rapazes,

-Nenhuma rapariga?

-Se quiseres. Mas primeiro um rapaz.

No dia em que Melina soube que estava grvida Constantin ficou em
extse.

-Ele vai tomar conta do meu imprio -declarou ele, feliz.

No terceiro ms, Melina abortou. Constantin Demiris estava fora do
pas quando isto aconteceu. Quando regressou e soube da notcia,
reagiu como um louco.

-0 que  que tu fizeste?-gritou ele. -Como  que pde acontecer?

-Costa, eu... -Tu foste descuidada! -No, juro...

Ele respirou fundo.

-Pronto. 0 que est feito est feito. Teremos outro filho.

-No.., no posso. -Ela no conseguia encar-lo de frente. 0 que  que
ests a dizer?

-Sofri uma interveno cirrgica. No posso ter mais filhos. Ele ficou
ali, gelado, depois virou-se e saiu a largos passos sem uma palavra.

A partir desse momento, a vida de Melina tornou-se num inferno.
Constantin Demiris agia como se a mulher tivesse matado o filho
deliberadamente. Ignorava-a, e comeou a procurar outras mulheres.
Melina podia ter tolerado isso, mas o que tornava a humilhao to
dolorosa era o prazer que ele tinha em alardear publicamente as suas
ligaes. Tinha abertamente casos com estrelas de cinema, cantoras de
pera e mulheres de alguns dos amigos. Levava as amantes para Psara,
a ilha privada que possua perto de Chios, em cruzeiros no seu iate e a
cerimnias pblicas. A imprensa narrava com jbilo as aventuras
romnticas de Constantin Demiris, Encontravam-se num jantar em
casa de um proeminente banqueiro.

-Voc e a Melina tm de vir -dissera o banqueiro. -Tenho um novo
chefe oriental que faz a melhor comida oriental do mundo.

A lista de convidados era prestigiosa.  mesa do jantar estava um
fascinante agrupamento de artistas, polticos e industriais. A comida

#
era de fato maravilhosa. 0 chefe havia preparado uma sopa de
barbatana de tubaro, rolos de camaro, carne de porco mu shu, pato
de Pequim, costeletas de porco magras, macarro de Canto e uma
dzia de outros pratos. Melina estava sentada perto do anfitrio a uma
das cabeceiras da mesa, o marido perto da anfitri na outra
extremidade.  direita de Demiris, sentava-se uma jovem e bela estrela
de cinema. Demiris tinha os olhos nela, ignorando todos os outros que
estavam  mesa. Melina conseguia ouvir fragmentos da conversa dele.

-Quando acabar o filme, tem de vir dar um passeio no meu iate.
Terumas belas frias. Faremos um cruzeiro pela costa da Dalmcia...
Melina tentou no escutar, mas era impossvel. Demiris no fazia
nenhum esforo para baixar a voz,

-Nunca esteve em Psara, pois no?  uma ilhota adorvel,
completamente isolada. Vai gostar.-Melina sentiu vontade de se enfiar
debaixo da mesa. Mas o pior estava ainda para vir.

Tinham acabado de comer o prato das costeletas, e os mordomos
traziam taas de prata para lavar os dedos. Ao ser colocada uma taa
diante da jovem atriz, Demiris disse: -Voc no precisa disso. -E, com
um sorriso largo, ergueu as mos dela com as suas e comeou a lamber
lentamente o molho que corria nos dedos dela, um a um. Os outros
convidados desviaram o olhar. Melina ps-se de p e virou-se para a
anfitri.

-Peo desculpa, mas estou ... estou com dores de cabea.

Os convidados seguiram-na com o olhar enquanto ela saa da sala a
toda a pressa. Demiris no foi a casa nessa noite, nem na seguinte.

Quando Spyros soube do incidente, ficou lvido.

-Diz-me s que aprovas. -0 irmo de Melina estava enfurecido -, e eu
mato esse filho da puta.

-Ele no consegue evitar-defendeu-o Melina. -Ele  assim mesmo.

-Assim mesmo? Ele  um animal! Ele deve ser morto. -Por que no te
divorcias dele?

Era uma pergunta que Melina se perguntara a si prpria muitas vezes
na quietude das noites longas e solitrias que passava sozinha. E
chegava sempre  mesma resposta: "Eu amo-o".

s cinco e meia da manh, Catherine foi acordada por uma criada
apologtica.

#
-Bom dia, menina...

Catherine abriu os olhos e olhou em volta confusa. Em vez da
minscula cela do convento, estava num belo quarto em... A memria
veio em catadupa. "A viagem para Atenas... Voc  Catherine
Douglas... Eles foram executados pelo governo..."

-Menina... -Sim?

-0 senhor Demiris perguntou se quer tomar o pequeno-almoo com ele
no terrao.

Catherine olhou para ela sonolentamente. Estivera acordada at s
quatro horas, o seu pensamento num turbilho.

-Obrigada. Diga ao senhor Demiris que eu j vou.

Vinte minutas depois um mordomo acompanhava Catherine at um
terrao enorme que estava defronte do mar. Havia um muro de pedra
baixo que dava para os jardins cinco metros abaixo. Constantin
Demiris estava sentado a uma mesa,  espera. Estudava Catherine
enquanto ela caminhava na sua direo. Havia nela uma inocncia
excitante. Ele ia agarr-la, possu-la, torn-la sua. Imaginou-a nua na
cama dele, ajudando-o a castigar Noelle e Larry, de novo. Demiris
ergueu-se.

-Bom dia. Desculpe-me acord-la to cedo, mas tenho de partir para o
meu escritrio dentro de alguns minutos, e queria ter a oportunidade
para uma pequena conversa consigo primeiro.

-Sim, claro -disse Catherine.

Ela sentou-se  enorme mesa de mrmore diante dele. 0 sol estava a
erguer-se, banhando o mar com mil fulgores.

-0 que  que deseja para o seu pequeno-almoo? Ela abanou a cabea.

-Estou sem fome.

-Um pouco de caf talvez? -Obrigada.

0 mordomo estava a servir o caf quente numa chvena de porcelana
Belleek.

-Bem, Catherine -comeou Demiris. -Pensou na nossa conversa?

Catherine no pensara noutra coisa toda a noite. No havia nada que a
prendesse em Atenas, e ela no tinha outro lugar para onde ir. "No
voltarei para o convento", ela jurou. 0 convite para trabalhar para
Constantin Demiris em Londres parecia tentador. "De fato", Catherine

#
admitiu a si prpria, "parece excitante. Pode ser o comeo de uma
nova vida."

-Sim-disse Catherine-, pensei. -E ento?

-Acho ... acho que gostava de tentar. Constantin Demiris conseguiu
disfarar o alvio.

-Fico encantado. J alguma vez esteve em Londres?

-No. Isso ... acho que no. -"Porque  que eu no sei ao certo?" Ainda
havia tantas lacunas na sua memria. "Quantas surpresas ainda vou
ter?"

- uma das poucas cidades civilizadas que ainda h no mundo. Tenho
a certeza de que ir gostar muito.

Catherine hesitou.

-Senhor Demiris, porque  que se est a maar tanto comigo?
-Digamos apenas que sinto um sentido de responsabilidade. -Fez uma
pausa. -Fui eu que apresentei o seu marido a Noelle Page. -Ah-
Catherine disse lentamente. "Noelle Page." 0 nome causou-lhe um
pequeno arrepio. Os dois haviam morrido um pelo outro. "0 Larry
deve t-la amado tanto"

Catherine esforou-se para fazer uma pergunta que a atormentara toda
a noite.

-Como... como  que eles foram executados? Houve uma pequena
pausa.

-Eles foram mortos por um esquadro de fuzilamento.

-Oh. -Pde sentir as balas rasgarem a carne de Larry, dilacerando o
corpo do homem que ela amara tanto. Arrependeu-se de ter
perguntado.

-Deixe-me dar-lhe um conselho. No pense no passado. S pode
mago-la. Tem de jogar tudo para trs das costas.

Catherine disse lentamente. -Tem razo. Vou tentar.

-timo. Por acaso tenho um avio que parte para Londres hoje demanh, Catherine.  capaz de ficar pronta para partir daqui a pouco?

Catherine pensou em todas as viagens que fizera com Larry, os
preparativos excitados, o fazer as malas, a antecipao.

Desta vez, no haveria com quem ir, haveria pouco para embalar e

#
nenhuns preparativos.

-Sim. Consigo ficar pronta.

-timo. A propsito-disse Demiris casualmente -,agora que recuperou
a memria, talvez haja algum que gostaria de ver, algum do seu
passado a quem quisesse informar que se encontra bem.

0 nome que nesse instante lhe saltou para a mente foi o de William
Fraser. Era a nica pessoa no mundo quer estava do seu passado. Mas
ela sabia que no estava pronta para enfrent-lo agora. <Quando eu
estiver estabilizada", pensou Catherine. "Quando comear a trabalhar
outra vez, entrarei em contato com ele." Constantin Demiris
observava-a, aguardando a resposta dela. -No -disse Catherine
finalmente. -No h ningum.

Ela no fazia idia de que acabara de salvar a vida de William Fraser.

-Vou arranjar-lhe um passaporte. -Entregou-lhe um envelope. -Isto 
um adiantamento por conta do seu salrio. No ter de preocupar-se
com alojamento. A companhia tem um apartamento em Londres. Vai
ficar l. Era surpreendente.

-0 senhor  muito generoso. Ele tomou-lhe a mo.

-Voc acabar por achar que eu...

Ele acabou por no dizer no que estava a pensar. "Trata dela com
cuidado", pensou. Lentamente. No a queiras espantar."

-... que eu sei ser um bom amigo. -0 senhor  um bom amigo. Demiris
sorriu. "Ento espera."

Duas horas depois, Constantin Demiris ajudou Catherine a entrar para

o banco traseiro do Rolls Royce que ia lev-la ao aeroporto.
-Aproveite o melhor de Londres -disse ele. -Ficarei em contato
consigo. Cinco minutos depois de o carro ter partido, Demiris estava
ao telefone com Londres.
-Ela vai a caminho.

Catherine apressara-se, s para encontrar a recepo de Fraser cheia de
dezenas de candidatas ao emprego. "No tenho hiptese", pensou
Catherine. A porta para o gabinete de William Fraser abriu -se, e ele
emergiu. Era um homem alto e atraente, com cabelo louro
encaracolado, de fontes j acinzentadas, olhos azuis brilhantes e um
queixo forte, bastante ameaador. Voltou-se para a recepcionista.

#
-Preciso de um exemplar da Life. Uma edio que saiu h trs ou
quatro semanas. Traz uma fotografia de Estaline na capa. -Vou pedi-la,
senhor Fraser-disse a recepcionista. -Sally, o senador Borah est na
linha. Eu quero ler-lhe um pargrafo dessa edio. Voc tem dois
minutos para me conseguir uma cpia. -Entrou no gabinete e fechou a
porta.

As candidatas entreolharam-se e encolheram os ombros. Catherine
deixou-se ficar, muito pensativa. Virou-se e saiu do escritrio. Ouviu
uma das mulheres dizer;

-timo.  menos uma.

Trs minutos depois, Catherine regressou ao escritrio com uma cpia
antiga da Life, com uma fotografia de Estaline na capa. Entregou-a 
recepcionista. Cinco minutos depois Catherine encontrava-se sentada
no gabinete de William Fraser.

-A Sally disse-me que foi voc quem trouxe a revista.

-Fui eu, sim. Assumo que no trazia por acaso uma edio com trs
semanas na carteira.

-Pois no.

-Como  que a encontrou to depressa?

-Fui l abaixo  barbearia. As barbearias e os consultrios dos
dentistas tm sempre edies antigas espalhadas por l.

-Voc  to inteligente com o resto? -No sou, no.

-Havemos de descobrir isso-disse William Fraser. Estava contratada,

Catherine apreciava a excitao de trabalhar para Fraser. Ele era um
solteiro rico e social, e parecia conhecer toda a gente em Washington.
A revista Time chamara-o "0 solteiro mais elegvel do ano". Seis
meses depois de Catherine comear a trabalhar para William,
apaixonaram-se.

0 avio estava programado para partir do Aeroporto de Hellenikon s

9.00 da manh. Era um Hawker Siddeley, e, para surpresa de
Catherine, ela era a nica passageira. 0 piloto, um grego de meia-
idade, de rosto agradvel chamado Pantelis, tratou de ver se Catherine
ia confortavelmente sentada e com o cinto apertado.
-Decolaremos dentro de alguns minutos -disse-lhe ele.

-Obrigada.

#
Catherine viu-o entrar na cabina para se juntar ao co-piloto, e o
corao dela repentinamente comeou a bater mais depressa. "Este era

o avio que o Larry pilotava. A Noelle Page ter-se-ia sentado no lugar
onde eu estou sentada agora?" Catherine de repente sentiu-se como se
fosse desmaiar; as paredes comearam a fechar-se sobre ela, Fechou os
olhos e respirou fundo. "Isso acabou", pensou. "0 Demiris  que est
certo. Isso pertence ao passado e nada poder mud-lo." Ouviu o ronco
dos motores e abriu os olhos. 0 avio estava alevantar na direo de
noroeste com rumo a Londres. "Quantas vezes tinha Larry feito este
voo? Larry." Ela estava agitada pelo misto de emoes que o seu nome
causava, E as lembranas. As maravilhosas e terrveis lembranas...
Corria o Vero de 1940, o ano anterior  entrada da Amrica na
guerra. Ela acabara de sair da Universidade de Northwestern e fora de
Chicago para Washington, D. C., onde arranjara o seu primeiro
emprego. A companheira de quarto dissera-lhe:
-Sei de um emprego que talvez te interesse, Uma das raparigas da festa
disse que se vai despedir para regressar ao Texas. Ela trabalha para o
Bill Fraser. Ele  responsvel pelas relaes pblicas do Departamento
de Estado. Eu soube disso apenas ontem  noite, portanto, se fores j
para l, deves chegar primeiro do que as outras,

-Tenho de te contar uma coisa. Sou virgem. Fraser sacudiu a cabea
admirado.

-Isso  incrvel.

Como  que eu me envolvi com a nica virgem da cidade de
Washington?

Um dia William Fraser disse a Catherine:

-A nossa firma foi solicitada para supervisionar um filme de
recrutamento do Corpo Areo do Exrcito nos estdios da MGM em
Hollywood, Gostava que te encarregasses do filme enquanto eu estiver
em Londres.

-Eu? Bill, eu nem sequer sei carregar uma Brownie. Que sei eu sobre
um filme de treino?

Fraser deu um sorriso largo, mostrando os dentes.

-Quase tanto como toda a gente. No precisas de te preocupar, Eles
tm um realizador. Chama-seAllan Benjamin. 0 exrcito pensa usar
atores no filme.

#
-Porqu?


-Acho que eles sentem que os soldados no convencem o suficiente
para fazerem de soldados.
-Isso  mesmo do exrcito.
E Catherine voara para Hollywood para supervisionar o filme de


treino.


0 palco estava repleto de figurantes, a maior parte deles de uniformes
que no lhes assentavam bem.
-Desculpe-me -disse Catherine a um homem que passou por ela. -0


senhor Allen Benjamin est c?
-0 cabozinho? -Ele apontou. -Acol.
Catherine virou-se e viu um homem franzino e de aspecto frgil num


uniforme com divisas de cabo. Gritava com outro que usava estrelas de


almirante.
-Estou-me marimbando para o que disse o diretor do elenco. Estou
farto de generais. Preciso de oficiais subalternos.


Ergueu as mos em desespero.


-Querem todos ser chefes, ningum quer ser ndio. -Desculpem-me
interromper-disse Catherine. -Sou Catherine Alexander.
-Graas a Deus!-disse o homenzinho, -Voc  que toma conta disto.


No sei o que estou a fazer aqui. Eu tinha um emprego de trinta e
cinco mil dlares ao ano em Dearborn para dirigir uma revista de
mobilirio e negcios, e fui recrutado para o Corpo de Sinaleiros e
mandaram-me para aqui escrever filmes de treino. Que sei eu sobre
produo e direo de filmes?


-Fique com tudo isto. -Voltou-se e apressou-se para a sada, deixando


Catherine ali.
Um homem esguio, de cabelo grisalho e de camisola, aproximou-se
dela, com um sorriso divertido no rosto.


-Precisa de ajuda?


-Preciso de um milagre-disse Catherine.-Estou  frente disto, e no sei
quais so as minhas funes.
Ele deu-lhe um sorriso aberto.
-Bem vinda a Hollywood. Chamo-me Tom O'Brien, realizador


#
assistente,

-Acha-se com capacidade para realizar isto? Ela viu o canto da boca
contorcer-se.

-Podia tentar. Fiz seis filmes com o Willie Wyler. A situao no  to
m quanto parece. Tudo o que  preciso  um pouco de organizao. 0
argumento est escrito, e o cenrio est pronto. Catherine deu uma
vista de olhos pelo palco.

-Algumas destas fardas tm um pssimo aspecto. Vamos ver o que
podemos fazer para as melhorar.

O'Brien abanou a cabea num tom aprovador. -Certo.

Catherine e O'Brien foram aproximar-se do grupo de figurantes. A
barulheira da conversa sobre o palco enorme era ensurdecedora.
-Vamos baixar a voz, rapazes -gritou O'Brien. -Temos aqui CatherineAlexander.  quem vai mandar aqui.

Catherine disse:

-Vamos alinhar, de modo a podermos olhar bem para vocs. OBrien
formou os homens numa fila desalinhada. Catherine ouviu gargalhadas
e vozes por perto e voltou-se irritada. Um dos homens fardados estava
num canto, sem prestar ateno, a falar com umas raparigas muito
atentas ao que ele dizia e dando risinhos. Os modos do homem
irritaram Catherine.

-Desculpe. Importava-se de se juntar a ns? Ele voltou-se e perguntou,
preguiosamente: -Est a falar comigo?

-Estou. Ns queramos comear a trabalhar.

Ele era extraordinariamente bonito, alto e vigoroso, com cabelo negro
azulado e olhos escuros tempestuosos. A farda assentava-lhe
perfeitamente. Sobre os ombros havia uns gales de capito, e sobre o
peito tinha pregado uma mancha de fitas brilhantemente coloridas.
Catherine olhou-as fixamente.

-Essas medalhas...?

-Impressionam bastante, chefe?-Avoz era profunda e cheia de
divertimento insolente.

-Tire-as.

-Porqu? Achei que iam dar ao filme um pouco de cor.

-Esqueceu-se de um pequeno pormenor, A Amrica ainda no est em

#
guerra. S as poderia ter ganho nalgum carnaval.


-Tem razo -admitiu ele acanhadamente. -No pensei nisso. Vou tirar
algumas.
-Vai tirar todas -Respondeu Catherine.
Depois da filmagem da manh, enquanto Catherine almoava na


intendncia, ele foi at  mesa dela.


-Queria perguntar-lhe como  que eu me portei esta manh. Fui
convincente?
Os modos dele enfureceram-na.
-Voc gosta de usar aquela farda e pavonear-se ao p das raparigas,


mas j pensou em alistar-se?
Ele parecia chocado.
-Elevar um tiro? Isso  para idiotas. Catherine estava pronta a


explodir. -Eu acho que voc  desprezvel.
-Porqu?
-Se voc no sabe porqu, eu nunca lhe poderia explicar. -Porque 


que no tenta? Hoje ao jantar. Na sua casa. Cozinha? -No se d ao
trabalho de voltar s filmagens -Respondeu Catherine. -Vou dizer ao
senhor O'Brien que lhe envie o seu cheque para pagar esta manh de
trabalho. Como  que se chama? Douglas. Larry Douglas.


A experincia com o jovem ator arrogante exasperou Catherine, e ela
estava determinada a esquecer o incidente. Por alguma razo, ela
estava com dificuldades em esquec-lo.


Quando Catherine regressou a Washington, William Fraser disse-lhe


-Tive saudades tuas. Tenho pensado muito em ti. Amas-me? -Muito,
Bill.
-Eu tambm te amo. Porque no samos esta noite para comemorar?
Catherine sabia que era essa a noite em que ele ia pedir-lhe a mo.
Foram ao exclusivo Jefferson Club. A meio do jantar, Larry Douglas


entrou, usando ainda a farda do Corpo Areo do Exrcito com todas as
medalhas, Catherine observava incredulamente enquanto ele
caminhava at  mesa deles e cumprimentou no a ela, mas a Fraser.
Bill Fraser levantou-se.


-Cathy, este  o capito Lawrence Douglas. Larry, esta  a Catherine


#
Alexander. 0 Larry voa na RAF. Ele era o lder da esquadrilha
americana. Convenceram-no a chefiar uma base de caas em
Washington para preparar alguns dos nossos rapazes para combate.

Como a reposio de um filme antigo, Catherine lembrou-se da ordem
que lhe dera para que ele tirasse os gales e medalhas, e como ele
alegremente cumprira. Ela fora presunosa, autoritria-e chamara-o de
cobarde! S teve vontade de se esconder debaixo~da mesa.

No dia seguinte, Larry Douglas telefonou a Catherine para o escritrio.
Ela recusou aceitar as chamadas dele. Quando ela saiu do escritrio,
ele estava l fora,  espera dela. Tirara as medalhas e as fitas e usava
os gales de segundo-tenente. Ele sorriu e caminhou at ela. -Assim
est melhor? Catherine ficou a olhar para ele. -0 uso de insgnias
indevidas no  contra os regulamentos? -No sei. Pensei que voc 
que mandava nisto tudo. Ela olhou nos olhos e sabia que estava
perdida. Havia nele uma fora magntica que era irresistvel.

-0 que  que quer de mim? -Tudo. Quero-a a si.

Foram para o apartamento dele e fizeram amor. E foi uma alegria
intensa que Catherine nunca pensara ser possvel, uma aproximao
fantstica que balanou o quarto e o universo-at que houve uma
exploso que se tornou um delrio extasiante, uma viagem esmagadora
e inacreditvel, uma partida e uma chegada, um fim e um comeo. E
ela ficara ali deitada, exausta e entorpecida, abraando-o com fora,
no querendo larg-lo, no querendo que esta sensao desaparecesse.
Casaram-se cinco horas mais tarde no estado de Maryland. Agora,
sentada no avio, a caminho de Londres para comear uma nova vida,
Catherine pensava: <~Fomos to felizes. 0 que  que correu mal? Os
filmes romnticos e as canes de amor levaram-nos a todos a
acreditar em finais felizes e cavaleiros de armaduras brilhantes e no
amor que nunca, nunca morria. Ns realmente acreditamos que James
Stewart e Donna Reed tiveram Uma Vida Maravilhosa, e sabamos que
Clark Gable e Claudette Colbert ficariam juntos para sempre depois de
Aconteceu Uma Noite, e derramamos lgrimas quando Frederick
March voltou para Myrna Loy por causa de Os Melhores Anos das
Nossas Vidas, e tnhamos a certeza de que Joan Fountaine encontrou a
felicidade nos braos de Laurence Olivier em Rebecca. E eram
mentiras. Tudo mentiras. E as canes, l'llBe Loving You, alcuays.
Como  que os homens medem o sempre? Com um relgio para cozer
ovos? Hocu Deep Is the Ocean? Que tinha Irving Berlin em mente?

#
Meio metro? Um metro? E... Forever a Day. Vou-me embora. Quero o
divrcio. Some Enchanted Evening. Ns vamos subir o Monte
Tzoumerka... You and theNight and the Music. 0 gerente do hotel
falou-me de umas caves aqui perto...(1 Love You) for Sentimental
Reasons. Nunca ningum... agora, enquanto ela est a dormir.Be My
Love. E ouvimos as canes e vimos os filmes e pensamos realmente
que era assim que a vida ia ser. Eu tinha tanta f no meu marido.
Poderei acreditar assim em algum outra vez? Que fiz eu para que ele
me quisesse assassinar?"

-Senhorita Alexandre...

Catherine olhou para cima, assustada, desfocada. 0 piloto estava ao p
dela.

-J aterramos. Bem-vinda a Londres.

Havia uma limousine  espera de Catherine no aeroporto. 0 motorista
disse:

-Eu encarrego-me da sua bagagem, menina Alexandrr. 0 meu nome 
Alfred. Gostava de ir diretamente para o apartamento? O meu
apartamento."

-Sim, ser timo.

Catherine afundou-se nas costas do banco. Inacreditvel. Constantin
Demiris proporcionara-lhe um avio particular e um lugar para morar.
Ou ele era o homem mais generoso do mundo, ou... Ela simplesmente
no conseguia pensar noutra alternativa. "No. Ele  o homem mais
generoso do mundo. Terei de achar um modo conveniente de mostrar o
meu agradecimento." 0 apartamento, na Elizabeth Street nas
imediaes de Eaton Square, era totalmente luxuoso. Consistia de uma
entrada enorme, uma sala de estar muito bem mobiliada com um
candelabro de cristal, uma biblioteca com paredes almofadadas, uma
cozinha cheia de comida, trs quartos atraentemente mobiliados e
instalaes para os criados. Catherine foi cumprimentada  porta por
uma mulher de quarenta e tal anos vestida de preto.

-Boa tarde, menina Catherine. Chamo-me Anna. Sou a sua governanta.

Claro. A minha governanta. Catherine comeou a aceitar tudo sem
dificuldade.

-Muito prazer.

0 motorista trouxe as malas de Catherine e colocou-as no quarto de

#
dormir.

-A limousine est  sua disposio-disse lhe. -Basta apenas dizer 
Anna quando estiver pronta para ir para o escritrio, e eu venho buscla.


"A limousine est  minha disposio. Naturalmente. -Obrigada-disse
Anna.

-Vou desfazer as suas malas. Se precisar de mais alguma coisa,  s
dizer-me.

-Acho que no preciso de nada-disse Catherine honestamente.

Catherine perambulou pelo apartamento at Anna acabar de desfazer
as malas. Entrou no quarto e olhou para os belos vestidos novos que
Demiris lhe comprara, e pensou: "Tudo isto parece um sonho
maravilhoso." Sentiu-se repentinamente cansada. Deitou-se na cama
macia e confortvel. "Vou s descansar um pouco", pensou. Fechou os
olhos. Estava a afogar-se e a gritar por socorro. E Lorry nadava em
direo a ela, e quando a alcanou empurrou-a para debaixo da gua. E
ela estava numa gruta escura, e os morcegos atiravam-se a ela,
puxando-lhe o cabelo, batendo as suas asas frias e hmidas contra o
seu rosto. Catherine acordou com um sobressalto e sentou-se na cama,
a tremer. Respirou fundo vrias vezes para se recompor. "Chega",
pensou. "Acabou. Isso foi ontem. Hoje  hoje. Ningum te vai fazer
mal. Ningum. J chega " Fora do quarto de Catherine, Anna, a
governanta, escutara os gritos. Esperou um momento, e quando houve
silncio foi at ao hall e pegou no telefone para informar Constantin
Demiris. A Corporao Helenica de Comrcio estava situada no
nmero 217 da Bond Street, nas imediaes de Picadilly, num velho
edifcio do governo, que fora transformado anos antes em edifcio de
escritrios. 0 exterior do prdio era uma obra-prima de arquitetura,
elegante e graciosa. Quando Catherine chegou, o pessoal do escritrio
estava  sua espera, Havia meia dzia de pessoas perto da porta para
cumpriment-la.

-Bem-vinda, Miss Alexander. Sou Evelyn Kaye. Este  o Carl... o
Tucker.., o Matthew,... a Jennie...

Os nomes e os rostos tornaram-se numa mancha. -Prazer em conheclos.


-0 seu gabinete est pronto para receb-la. Vou mostrar-lhe o caminho,

-Obrigada.

#
A sala de recepo estava mobiliada com gosto, com um grande sof
Chesterfield, flanqueado por duas cadeiras Chippendale e uma
tapearia. Percorreram um longo corredor alcatifado e passaram por
uma sala de conferncias com pesadas cadeiras de pinho e couro
alinhadas em redor de uma mesa chia de lustro. Catherine foi
conduzida para um gabinete atraente com moblia usada e confortvel
e uma poltrona de cabedal.

-E todo seu.

- lindssimo-murmurou ela. Havia flores frescas na secretria. -Do
senhor Demiris.

"Ele  to atencioso." Evelyn Kaye, a mulher que a conduzira at ao
gabinete, era uma pessoa de meia-idade corpulenta com um rosto
agradvel e um modo tranqilo.

-Vai precisar de alguns dias para se habituar ao lugar, mas as funes
so realmente bastante simples. Somos um dos centros nevrlgicos do
imprio de Demiris. Coordenamos os relatrios das di visas
ultramarinas e enviamo-los para o quartel-general em Atenas. Eu sou a
gerente do escritrio, Voc ser a minha assistente.

-Oh. "Ento eu sou a assistente da gerente."

Catherine no tinha idia do que esperavam dela. Fora lanada num
mundo de fantasia. Avies particulares, limousines, um belo
apartamento com criados...

-Wim Vandeen  o nosso gnio matemtico residente. Ele faz a
computadorizao de todas as declaraes e pe-as num mapa mestre
de anlise financeira. A mente dele trabalha mais depressa do que a
maior parte das mquinas calculadoras. Venha at ao gabinete dele
conhec-lo. Desceram o corredor at um gabinete que ficava no fim do
hall. Evelyn abriu a porta e ficou ali, concentrada. Wim Vandeem
parecia ter pouco mais de trinta anos, um homem magro com uma boca
de maxilares frouxos e uma expresso aptica e area. Estava a olhar
para o cho.

-Wim, Wim! Esta  Catherine Alexander. Ele olhou para cima.

-0 verdadeiro nome de Catarina I era Marta Skowronka, era uma
criada nascida em 1684 que foi capturada pelos russos, casou com
Pedro I e foi imperatriz da Rssia de 1725 a 1727; Catarina a Grande
era a filha de um prncipe alemo, nasceu em 1729 e casou-se com
Pedro, que se tornou o Imperador Pedro III em 1762, e ela sucedeu-lhe

#
no trono no mesmo ano depois de o mandar matar. Durante o seu
reinado houve trs divises da Polnia e duas guerras contra a
Turquia... A informao brotava como uma fonte, num tom montono.
Catherine escutava, espantada.

-Isso .., isso  muito interessante-logrou ela.

Wim Vandeem desviou o olhar. Evelyn disse:

-0 Wim fica envergonhado quando conhece algum. "Envergonhado?"
pensou Catherine. "0 homem  esquisito. E ele  um gnio? Que tipo
de emprego vai ser este?"

Em Atenas, nos seus escritrios da Rua Aghiou Geronda, Constantin
Demiris recebia um relatrio pelo telefone enviado por Alfred de
Londres.

-Levei a menina Alexander diretamente do aeroporto para o
apartamento, senhor Demiris. Perguntei-lhe se queria que a levasse a
algum lugar, como o senhor sugeriu, e ela disse que no.

-Ela no teve quaisquer contatos com o exterior?

-No, senhor. Ano ser que tenha feito alguma chamada do aeroporto.

Constantin Demiris no estava preocupado com isso. Anna, a
governanta, inform-lo-ia. Voltou a colocar o telefone, satisfeito. Ela
no apresentava nenhum perigo imediato para ele, que trataria de
mant-la sob vigilncia. Ela estava sozinha no mundo. No tinha para
quem se voltar exceto o seu benfeitor, Constantin Demiris. "Tenho de
me preparar para ir para Londres em breve", pensou Demiris com um
ar feliz. "Muito em breve. Catherine Alexander achou o seu novo
emprego interessante. Chegavam relatrios dirios do vasto imprio de
Constantin Demiris. Havia conhecimentos de embarque de uma
siderurgia no estado de Indiana, auditorias de uma fbrica de
automveis na Itlia, faturas de uma cadeia de jornais na Austrlia,
uma mina de ouro, uma companhia de seguros, Catherine conferiu os
relatrios e cuidou para que a informao seguisse diretamente para
Wim Vandeem. Wim olhou de relance para os relatrios uma vez,
inseriu-os no incrvel computador que era o seu crebro, e quase
instantaneamente calculou as percentagens de lucro ou prejuzo para a
companhia. Catherine gostou de travar conhecimento com os seus
novos colegas, e ficou pasmada pela beleza do velho edifcio em que
trabalhava. Disse-o uma vez a Evelyn Kate na frente de Wim, e Wim
disse: -Isto era uma alfndega concebida por Sir ChristopherWren em

#
1721. Depois do grande incndio de Londres, ChristopherWren rede
senhou cinquenta igrejas, incluindo as de So Paulo, So Miguel e
Santa Brgida. Projetou a Bolsa Real e a Casa de Buckingham. Ele
morreu em 1723 e est sepultado na Catedral de So Paulo. Este
edifcio foi convertido em escritrios em 1907, e na Segunda Guerra
Mundial, durante Blitz, o governo declarou-a como abrigo antiareo
oficial. 0 abrigo antiareo era uma sala enorme  prova de bala,
localizada do outro lado de uma pesada porta de ferro contgua  cave.
Catherine foi ver a sala pesadamente fortificada e pensou nos bravos
homens, mulheres e crianas britnicos que encontraram abrigo ali
durante o terrvel bombardeamento levado a cabo pela Luftwaff de
Hitler. A cave em si era enorme, ocupando toda a extenso do edifcio.
Tinha uma caldeira grande para aquecer todo o edifcio, e estava cheia
de equipamento telefnico e eletrnicos. A caldeira era um problema.
Vrias vezes Catherine tinha acompanhado um tcnico at  cave para
dar uma vista de olhos. Todos eles a consertavam, declaravam-na
arranjada daquilo que a importunava e iam-se embora.

-Parece to perigosa -disse Catherine. -H alguma hiptese de
explodir?

-Nem pensar, minha senhora. Est a ver esta vlvula de segurana
aqui? Bem, se a caldeira alguma vez aquecer de mais, a vlvula de
segurana liberta todo o excesso de vapor, e volta tudo ao normal. No
h problema.

Quando o dia de trabalho chegava ao fim, havia Londres, Londres...
uma cornucpia de maravilhas do teatro, do bailado e dos concertos.
Havia interessantes livrarias antigas como as de Hatchard e Foylee
dzias de museus, pequenas lojas de antigidades e restaurantes.
Catherine visitava as lojas de litografias em Cecil Court e fazia
compras nos Harrods, Fortnum e Mason, Marks e Spencer e tomou ch
de domingo no Savoy.

De tempos a tempos, pensamentos espontneos assaltavam a mente de
Catherine. Havia tantas coisas que a faziam lembrar de Harry. Uma
voz.., uma expresso... uma colnia. uma cano. "No. 0 passado
acabou. 0 futuro  o que importa." E cada dia ela tornava-se mais forte.
Catherine e Evelyn Kaye tornaram-se amigas e ocasionalmente saam
juntas. Certo domingo visitaram a exposio de arte ao ar livre na
margem do Tmisa. Havia l dezenas de artistas, jovens e velhos,
expondo os seus quadros, e todos eles tinham uma coisa em comum:

#
eram falhados porque no conseguiram expor os seus trabalhos em
nenhuma galeria. Os quadros eram horrveis. Catherine comprou um
por simpatia.

-Onde  que vais coloc-lo? -perguntou Evelyn. -No quarto da
caldeira-disse Catherine.

Quando caminhavam ao longo das ruas de Londres depararam com os
artistas dos passeios, homens que usavam giz colorido para pintar nas
pedras dos passeios. Havia trabalhos espantosos: os transeuntes
paravam para adurir-los e depois lanavam algumas moedas aos
artistas, Certa tarde, quando regressava do almoo, Catherine parou
para observar um homem idoso que fazia uma bela paisagem a giz.
Quando estava a acab-la, comeou a chover, e o velho ficou alia ver o
seu trabalho desaparecer. " muito idntico  minha vida", pensouCatherine. Evelyn levou Catherine ao Mercado Shepherd. -  uma rea
interessante -prometeu Evelyn. Era certamente cheia de vida. Havia
um restaurante com trezentos anos de nome Tiddy Dolls, uma banca
de revistas, um mercado, um salo de beleza, uma padaria, lojas de
antigidades e velhas residncias de dois e trs pisos. As chapas de
identificao das caixas do correio eram peculiares. Uma dizia "Helen"
e por baixo "Lies de Francs". Outra dizia "Rosie" e por baixo
"Aqui ensina-se Grego".

-Isto  uma rea escolar? -perguntou Catherine. Evelyn riu-se em voz
alta.

-De certo modo acho que . S que o tipo de educao que estas
raparigas do no se pode ensinar na escola.

Evelyn riu-se ainda mais alto quando Catherine corou.

Catherine estava sozinha a maior parte do tempo, mas mantinha-se
ocupada de mais para se sentir solitria. Mergulhava nos dias como se
estivesse a tentar compensar os momentos preciosos da vida que lhe
foram roubados. Recusou preocupar-se sobre o passado ou o futuro.
Visitou o Castelo de Windsor e a Canturia com a sua bela catedral e
Hampton Court. Aos fins-de-semana ia para o campo e instalava-se em
pequenas e graciosas estalagens, e dava longos passeios pelos campos.
"Estou viva, pensou. "Ningum nasce feliz. Todos temos que
construra nossa prpria felicidade. Eu sou uma sobrevivente. Sou
jovem e sou saudvel, e vo acontecer coisas maravilhosas." Na
segunda-feira voltava para o trabalho. Para junto de Evelyn, das outras
raparigas e de Wim Vandeem. Wim Vandeem era um enigma.

#
Catherine nunca conhecera ningum como ele. Havia vinte
empregados no escritrio, e sem se dar ao trabalho de usar uma
calculadora Wim Vandeem lembrava-se do salrio de todos os
empregados, do nmero da segurana social e dos descontos. Embora
tudo isto estivesse arquivado, ele tinha todos os registros na cabea.
Sabia todo 0 movimento mensal financeiro de cada diviso e qual a
comparao com os meses anteriores, desde os ltimos cinco anos,
quando comeara a trabalhar na companhia. Wim Vandeen lembrava-
se de tudo quanto vira, ouvira ou lera. 0 mbito do seu conhecimento
era incrvel. As questes mais simples sobre qualquer assunto
disparariam uma torrente de informao, e no entanto ele era antisocial.
Catherine falava dele com Evelyn. -Eu no consigo entender o
Wim.

-0 Wim  um excntrico -disse Evelyn. -Tens de aceit-lo como ele
. 0 negcio dele so nmeros. No me parece que se preocupe com as
pessoas.

-Ele tem amigos? -No.

-Ele tem encontros? Quer dizer, sai com raparigas? -No.

Parecia a Catherine que Wim estava isolado e sozinho, e ela sentiu
uma afinidade com ele.

0 mbito dos conhecimentos de Wim surpreendia Catherine. Certa
manh, ela comeou a ficar com dor de ouvidos. Wim disse
asperamente

-0 tempo no vai ajudar.  melhor ir a um otorrino. -Obrigada, Wim.
Eu...

-As partes do ouvido so o aurculo, o meato auditivo, a membrana
timpnica, a cadeia de ossculos ( martelo, bigorna e estribo) a
cavidade timpnica, o canal semicircular, a janela oval, e a trompa de
eustquio, o nervo auditivo e o caracol. -E afastou-se.

Noutro dia, Catherine e Evelyn levaram Wim a almoar ao Ram's
Head, um pub na zona. Na sala das traseiras, os clientes lanavam o
dardo.

-Voc gosta de desporto, Wim? -perguntou Catherine. -J alguma
vez viu um jogo de beisebol?

-Basebol-disse Wim. -Uma bola de beisebol tem vinte e cinco
centmetros e quarenta milmetros de circunferncia.  feita de fio

#
enrolado sobre um cone de borracha dura com cabedal branco. 0 taco 
geralmente feito de cinza, com o mximo de cinco centmetros e
quarenta e um milmetros no dimetro maior e o mximo de um metro
e seis centmetros de comprimento. "Ele sabe as estatsticas todas",
pensou Catherine, "mas ter alguma vez sentido a excitao de t-lo
jogado de fato?"

-J alguma vez praticou algum desporto? Basquetebol, por exemplo?

-0 basquetebol  jogado num piso de madeira ou cimento. A bola tem
uma cobertura de cabedal esfrica com setenta e oito centmetros e
setenta e quatro milmetros de circunferncia, enchida de ar com uma
bexiga de borracha  presso de treze libras. Pesa entre cinco quilos e
setecentos gramas e seis quilos e duzentos e trinta e sete gramas. 0
basquetebol foi inventado por James Naismith em 1891. Catherine
obteve a resposta,

s vezes Wim podia ser um embarao em pblico. Certo domingo,
Catherine e Evelyn levaram Wim a Maidenhead, no Tamisa. Pararam
na Compleat Angler para almoar. 0 criado aproximou-se da mesa.

-Temos bivalves frescos hoje. Catherine voltou-se para Wim. -Gosta
de bivalves?

Wim disse:

-H bivalves compridos, amijoas ou bivalves redondos, navalhas,
mexilhes, de uma s concha, e bivalves de sangue.

0 criado estava a olhar fixamente para ele.

-0 senhor no se importa de pedir o que deseja? -No gosto de
bivalves-Respondeu Wim.

Catherine gostava das pessoas com quem trabalhava, mas Wim tornou-
se especial para ela. Ele era inteligente de mais para a sua
compreenso, e ao mesmo tempo parecia retirado e solitrio. Catherine
disse a Evelyn um dia:

-No h nenhuma hiptese de o Wim levar uma vida normal? Vir a
apaixonar-se e casar-se?

Evelyn suspirou.

-Eu j te disse. Ele no tem emoes. Ele nunca se ligar a ningum.

Mas Catherine no acreditava nisso. Por uma ou duas vezes, ela
apanhara um lampejo de interesse-de afeio, de riso nos olhos de

#
Wim, e ela sentiu vontade de puxar-lhe pela lngua, ajud-lo. Ou fora
imaginao dela?

Um dia, o pessoal do escritrio recebeu um convite para um baile de
caridade que ia realizar-se no Savoy.

Catherine entrou no gabinete de Wim. -Wim, voc sabe danar?

Ele fitou-a.

-Um compasso e meio de msica quatro-quatro-tempo perfaz uma
unidade rtmica no fox-trot. Ohomem comea o passo bsico com o p
esquerdo e d dois passos para a frente. A mulher comea com o p
direito e d dois passos para trs. Os dois passos lentos so seguidos
por um passo rpido em ngulo reto para os passos lentos. Para a
inclinao, o homem d um passo em frente sobre o p esquerdo e
inclina-se lentamente, depois move-se para a frente no p direito,
lentamente. Depois move-se para a esquerda com o p esquerdo,
rpido. Depois aproxima o p direito ao esquerdo, rpido.

Catherine ficou parada, sem saber o que dizer. Ele sabe todas as
Palavras, mas no conhece o significado delas.

Constantin Demiris telefonou. Era j tarde, e Catherine preparava-se
para se deitar.

-Espero no t-la incomodado.  Costa quem fala. -No, claro que
no.

Estava feliz par ouvir a voz dele. Sentia saudades de falar com ele, de
lhe pedir conselhos. Afinal de contas, ele era a nica pessoa do mundo
que realmente conhecia o passado dela. Ela sentiu como se ele fosse
um velho amigo.

-Tenho pensado em si, Catherine. Receava que pudesse achar Londres
um lugar solitrio. Afinal de contas, voc no conhece ningum a.
-Por vezes, sinto-me de fato sozinha -Catherine

admitiu. -Mas estou a enfrentar. Lembro-me sempre do que me disse.
Esquecer o passado, viver o futuro.

-Isso mesmo. Por falar no futuro, vou estarem Londres amanh.
Gostaria de leve-la a jantar.

-Eu gostava muitssimo -disse Catherine entusiasticamente. Ela
ansiava por isso. Teria uma oportunidade de lhe dizer como lhe estava
grata.

#
Quando Constantin Demiris pousou o telefone, sorriu para si prprio.
"A perseguio comeou."

Jantaram no Ritz. A sala de jantar era elegante e a comida estava
deliciosa, mas Catherine estava demasiado excitada para prestar
ateno a alguma coisa que no fosse o homem que se sentava  sua
frente. Ela tinha tanto para lhe contar,

-Voc tem um pessoal de escritrio maravilhoso-disse Catherine. 0
Wim  espantoso. Nunca vi ningum que pudesse.,.

Mas Demiris no estava a prestar ateno s palavras. Estava a estudla,
pensando como ela era to bela e to vulnervel. "Mas eu no devo
precipit-la", decidiu Demiris. "No, vou fazer o jogo com calma para
saborear a vitria. Esta ser em tua homenagem, Noelle, e do teu
amante."

-Vai ficar muito tempo em Londres?-Catherine estava a perguntar.

-Apenas um ou dois dias. Eu tinha um assunto para tratar. Era verdade.
Mas ele sabia que podia t-lo resolvido pelo telefone. No, ele viera a
Londres para comear a sua campanha de aproximar Catherine mais
dele, de torn-la emocionalmente dependente de si. Inclinou-se para a
frente.

-Catherine, j lhe falei do tempo em que trabalhei nos campos de
petrleo na Arbia Saudita...?

Demiris levou Catherine a jantar na noite seguinte.

-A Evelyn disse-me que voc est a fazer um trabalho timo no
escritrio. Vou dar-lhe um aumento.

-0 senhor tem sido to generoso-Catherine protestou.-Eu... Demiris
olhou-a nos olhos.

-Voc no sabe como eu posso ser generoso.

Catherine ficou embaraada. "Ele est apenas a ser gentil, pensou ela.
"No posso imaginar coisas.

No dia seguinte, Demiris estava pronto para partir. -Gostaria de ir at
ao aeroporto comigo, Catherine? -Gostava. Ela achava-o fascinante,
quase enfeitiados. Era divertido e brilhante, e ela sentia-se lisonjeada
pela sua ateno. No aeroporto, Demiris beijou Catherine ao de leve
no rosto. -Estou feliz porque pudemos passar algum tempo juntos,
Catherine.

#
-Tambm eu. Obrigada, Costa.

Ela deixou-se ficar a ver o avio dele levantar vo. "Ele  muito
especial", pensou Catherine. "Vou sentir saudades dele," No havia
ningum que tivesse ficado espantado com a aparente amizade ntima
entre Constantin Demiris e o cunhado, Spyros Lambrou. Spyros
Lambrou era quase to rico e poderoso quanto Demiris. Demiris
possua a maior frota de cargueiros do mundo; Spyros Lambrou
possua a segunda maior. Constantin Demiris controlava uma cadeia
de jornais e linhas areas, campos petrolferos, siderurgias e minas de
ouro; Spyros Lambrou tinha companhias de seguro, bancos,
quantidades enormes de propriedades imobilirias e uma fbrica de
produtos qumicos. Pareciam concorrentes amigos; mais do que isso,
companheiros.

-No  maravilhoso-diziam as pessoas-que dois dos homens mais
poderosos do mundo sejam to amigos?

Na realidade, eles eram rivais implacveis que se desprezavam.
Quando Spyros Lambrou comprou um iate de trinta metros, Constantin
Demiris de imediato encomendou um iate de 45 metros com quatro
diesels G.M., uma tripulao de treze elementos, duas lanchas rpidas
e uma piscina de gua doce. Quando a frota de Spyros Lambrou
atingiu um total de doze petroleiros, com uma tonelagem de 200.000,
Constantin Demiris aumentou a sua prpria frota para vinte e trs
petroleiros, com uma tonelagem de 650 000. Spyros Lambrou adquiriu
uma srie de cavalos de corrida, e Demiris comprou uma cavalaria
maior para correr contra ele, e consistentemente ganhou. Os dois
homens encontravam-se freqentemente, pois desempenhavam
funes juntos em comits de caridade, faziam parte da administrao
de vrias corporaes, e ocasionalmente freqentavam reunies de
famlia. Eram exatamente o oposto em temperamento. Enquanto
Constantin Demiris tinha vindo da sarjeta e subira a pulso at ao topo,
Spyros Lambrou nasceu aristocrata. Era um homem magro e elegante,
sempre impecavelmente vestido, com modos corteses e do Velho
Mundo. Conseguiu seguir o rasto da sua rvore genealgica at Otto
da Baviera, que fora em tempos rei da Grcia. Durante as primeiras
sublevaes polticas na Grcia, uma pequena minoria, a oligarquia,
fez fortunas no comrcio, transportes e terras. 0 pai de Spyros
Lambrou foi um deles, e Spyros herdara o seu imprio. No decurso dos
anos, Spyros Lambrou e Constantin Demiris levaram por diante a sua
charada de amizade. Mas cada um estava convicto de que no fim cada

#
um destruiria o outro, Demiris por causa do seu instinto de
sobrevivncia, Lambrou por causa do tratamento que o cunhado dava a
Melina. Spyros Lambrou era um homem supersticioso. Apreciava a
sua sorte na vida, e tudo fazia para no contrariar os deuses. De
tempos a tempos consultava mdios para pedir orientao. Era assaz
inteligente para reconhecer as fraudes, mas houve uma mdio que ele
achara excepcional, Ela previra o aborto da irm, o que aconteceria ao
casamento, e uma dzia de outras coisas que vieram a acontecer. Vivia
em Atenas. Chamava-se Madame Piris. Constantin Demiris tinha o
hbito de chegar aos seus escritrios da Rua Aghiou Geronda todas as
manhs pontualmente s seis horas. Quando os seus rivais comeavam
a trabalhar, j Demiris conduzira vrias horas de negcios com os seus
agentes numa dzia de pases. 0 gabinete particular de Demiris era
espetacular. A vista era magnfica, com j anelas panormicas que
punham a cidade de Atenas aos seus ps. 0 pavimento era de granito
preto. Nas paredes havia uma coleo de arte cubista, com Lgers,
Braques, e meia dzia de Picassos. Havia uma enorme secretria de
vidro e uma cadeira-trono de cabedal. Sobre a secretria estava uma
mscara da morte de Alexandre o Grande, incrustada em cristal, A
inscrio em baixo dizia: Alexandros. 0 defensor do homem." Nesta
manh particular, o telefone privado de Constantin Demiris estava a
tocar quando entrou no escritrio. Havia apenas meia dzia de pessoas
que tinham acesso a este nmero. Demiris levantou o telefone.
-Kalimehra.

-Kalimehra.

A voz no outro lado pertencia ao secretrio particular de Spyros
Lambrou, Nikos Veritos. Parecia nervoso. -Peo imensa desculpa por
estar a incomod-lo, senhor Demiris. 0 senhor disse-me para ligar
quando eu tivesse alguma informao que o senhor pudesse...

-Sim. 0 que ?

-0 senhor Lambrou est a pensar adquirir uma companhia chamada
Aurora International. Est cotada na Bolsa de Valores de Nova Iorque.
0 senhor Lambrou tem um amigo na direo que lhe disse que um
importante contrato com o governo vai ser adjudicado  companhia
para a construo de bombardeiros. Isto, obviamente,  muito
confidencial. As aes sofrero um grande aumento quando o
anncio...

-No estou interessado no mercado de aes -RespondeuDemiris. -No

#
volte a incomodar-me a no ser quando tiver algo importante a dizer-
me.

-Desculpe-me, senhor Demiris. Eu pensei... Demiris havia desligado.

s oito horas, quando o assistente de Demiris, Giannis Tcharos,
chegou, Constantin Demiris ergueu o olhar da secretria. H uma
companhia na Bolsa de Nova Iorque, Aurora International. Informe

todos os nossos jornais de que a companhia vai ser investigada por
motivo de fraude. Utilize uma fonte annima, mas passe a palavra,
Quero que eles insistam na histria at as aes baixarem. Depois,
comece a comprar at eu ter o controlo.

-Sim, senhor.  s?

-No. Depois de eu adquirir o controlo, anuncie que os rumores eram
infundados. Ah, mais uma coisa. Faa com que a Bolsa de Nova
Iorque tenha conhecimento de que Spyros Lambrou comprou as aes
baseado em informao dada por algum l de dentro.

Giannis Tcharos disse delicadamente:

-Senhor Demiris, nos Estados Unidos, isso  crime punido por lei.

Constantin Demiris sorriu. -Eu sei.

A dois quilmetros de distncia, na Praa de Syntagma, Spyros
Lambrou trabalhava no seu gabinete. 0 seu local de trabalho refletia o
seu gosto ecltico. 0 mobilirio consistia de antigidades raras, uma
mistura franco-italiana. Trs das paredes estavam cobertas com obras
de impressionistas franceses. A quarta parede estava toda dedicada a
uma coleo de artistas belgas, de Van Rysselberghe a De Smet, Na
tabuleta da porta do gabinete exterior podia ler-se: LAMBROU E
ASSOCIADOS, mas nunca houvera nenhuns associados. Spyros
Lambrou herdara um negcio bem sucedido do seu pai, e com o
decurso dos anos transformara-o num conglomerado de implantao
mundial. Spyros Lambrou deveria ter sido um homem feliz. Era rico e
bem sucedido e gozava de excelente sade. Mas era-lhe impossvel ser
completamente feliz enquanto Constantin Demiris fosse vivo. 0 seu
cunhado era uma antema para ele. Lambrou desprezava-o. Demiris
era polymichanos, um homem frtil em artimanhas, um patife sem
moral. Lambrou odiara sempre Demiris pelo forma como tratava a
irm, mas a rivalidade feroz entre eles tinha o seu prprio terrvel
nexo. Comeara dez anos antes, quando Spyros Lambrou almoava
com a irm. Ela nunca o vira to excitado.

#
-Melina, sabes que todos os dias o mundo consome todo o combustvel
fssil que levou anos a criar?


-No, Spyros.
-Vai haver uma grande procura de petrleo no futuro, e no vai haver
petroleiros em nmero suficiente para transport-lo.


-Tu vais construir alguns?
Ele fez um sinal afirmativo com a cabea.
-Mas no apenas os petroleiros vulgares. Tero o dobro do tamanho


dos atuais. -A sua voz estava cheia de entusiasmo. -Passei meses a
analisar os nmeros. Ouve isto. Um galo de petrleo de Grude
transportado do golfo Prsico para um porto da costa oriental dos
Estados Unidos custa sete cntimos. Mas num grande petroleiro 0
custo baixaria para trs cntimos o galo. Tens alguma idia do que
isso pode significar?


-Spyros, onde  que tu vais arranjar dinheiro para construir uma frota
como essa?
Ele sorriu.
-Mas essa  a melhor parte do meu plano. No me vai custar um tosto.
-0 qu?


Ele inclinou-se para a frente.
-Vou  Amrica no ms que vem falar com os chefes das grandes
companhias petrolferas. Com estes petroleiros, posso transportar o
petrleo deles por metade do preo.


-Mas... tu no tens nenhum petroleiro desses. Ele deu um sorriso largo.
-Mas se eu conseguir contratos de aluguel a longo prazo com as


companhias de petrleo, os bancos emprestam-me o dinheiro de que
preciso para os construir. 0 que  que achas?
-Acho que tu s um gnio.  um plano brilhante.
Melina estava to excitada com a ideia do irmo que se referiu a ela


quando falava com Demiris nessa noite ao jantar.


Quando a acabara de explicar, Melina disse: -No  uma ideia
maravilhosa?
Constantin Demiris manteve-se em silncio por um momento.
-O teu irmo  um sonhador, Isso nunca resultaria. Melina olhou para


#
ele surpresa.

-Porque no, Costa?

-Porque  um esquema leviano. Em primeiro lugar, no vai haver essa
procura to grande de petrleo, de forma que esses mticos petroleiros
vo circular vazios. Em segundo lugar, as companhias petrolferas no
vo entregar o seu precioso petrleo a uma frota fantasma que nem
sequer existe. E em terceiro, esses banqueiros a quem ele se dirigir vo
ridiculariz-lo dos escritrios para fora.

0 rosto de Melina enublou-se de desapontamento.

-0 Spyros estava to entusistico. Importavas-te de discutir o assunto
com ele?

Demiris sacudiu a cabea.

-Deixam sonhar, Melina. Seria melhor que ele nem soubesse desta
nossa conversa.

-Est bem, Costa. Como queiras.

Logo pela manh do dia seguinte, Constantin Demiris estava a
caminho dos Estados Unidos para tratar de grandes petroleiros. Ele
estava consciente de que as reservas de petrleo mundiais fora dos
Estados Unidos e dos territrios do bloco sovitico estavam
controladas pelas sete congneres: a Standard Oil Company de Nova
Jrsia, a Standard Oil Company da Califrnia, a Gulf0il, a Texas
Company, a Socony Vacuum, a Royal Dutch-Shell e a Anglo-Iranian.
Ele sabia que se pudesse conseguir convencer uma delas as outras
certamente iriam atrs. A primeira visita de Constantin Demiris foi aos
escritrios executivos da Standard Oil de Nova Jrsia. Tinha uma
reunio com Owen Curtis, quarto vice-presidente.

-0 que posso fazer por si, senhor Demiris?

-Tenho uma ideia que acho poder vir a ser de grande benefcio
financeiro para a sua companhia.

-Sim, voc disse isso ao telefone. -Curtis olhou de relance para o
relgio de pulso. -Tenho uma reunio dentro de alguns minutos. Se
pudesse ser breve...

-Serei muito breve. Os senhores pagam sete cntimos para transportar
um galo de petrleo de Grude do golfo Prsico at  costa oriental
dos Estados Unidos.

#
-Isso  verdade.

-0 que diria se eu lhe dissesse que lhe posso garantir o transporte do
vosso petrleo por trs cntimos o galo?

Curtis sorriu protetoramente.

-E como  que conseguiria esse milagre? Demiris disse calmamente.

-Construindo uma frota de petroleiros que tero o dobro da capacidade
de transporte dos atuais. Posso transportar todo o seu petrleo to
depressa quanto o bombeia do solo.

Curtis estudava-o, o seu rosto pensativo.

-Onde  que ia arranjar uma frota de grandes petroleiros? -Vou
constru-los.

-Lamento. Ns no estaramos interessados em investir em.., Demiris
interrompeu.

-No lhes custar um tosto. Tudo o que lhes peo  um contrato de
longo prazo para transportar o vosso petrleo por metade do preo que
pagam agora, Arranjarei o meu financiamento junto dos bancos.

Houve um longo e significativo silncio. Owen Curtis aclarou a voz.

-Acho que devo lev-lo l acima para conhecer o nosso presidente.

Foi o comeo. As outras companhias de petrleo ficaram exatamente
to ansiosas para fazer contratos com os novos petroleiros de
Constantin Demiris. Quando Spyros Lambrou soube o que estava a
acontecer, era demasiado tarde. Voou para os Estados Unidos e
conseguiu fazer alguns contratos com algumas companhias
independentes, mas Demiris tinha extrado a melhor parte do mercado.

-Ele  teu marido -Lambrou esbravejava -, mas eu juro-te, Melina,
que herde faz-lo pagar pelo que fez.

Melina estava infelicssima com o sucedido. Sentiu que trara o irmo.
Mas quando confrontou o marido ele encolheu os ombros.

-Eu no fui ter com eles, Melina. Eles  que vieram ter comigo. Como
 que eu os podia recusar?

Mas as consideraes comerciais no eram nada ao p do que
Lambrou sentia pela forma como Demies tratava Melina. Ele podia ter
ignorado o fato de que Constantin Demiris era um mulherengo
infame-afinal de contas, um homem tinha de ter o seu prazer. Mas o
fato de Demies ser to espalhafatoso era um insulto no s para

#
Melina, mas para toda a famlia Lambrou. 0 caso de Demirs com a
atriz Noelle Page fora o caso mais insigne. Provocara ttulos em
jornais de todo o mundo. "Um dia", pensou Spyros Lambrou. "Um
dia... Nikos Ventos, o assistente de Lambrou, entrou no gabinete.
Veritos trabalhava com Spyros Lambrou havia quinze anos. Era um
homem competente mas sem imaginao, sem futuro, cinzento e sem
rosto. A rivalidade entre os dois cunhados dava a Ventos aquilo que
ele considerava uma oportunidade dourada. Ele apostava na vitria de
Constantin Demirs, e de vez em quando passava-lhe informaes
confidenciais, esperando uma recompensa apropriada. Ventos
aproximou-se de Lambrou.

-Desculpe. Est l fora um senhor Anthony Rizzoli que quer v-lo.

Lambrou suspirou.

-Vamos l a isso -disse Lambrou. -Mandem entrar. Anthony Rizzoli
aparentava quarenta e tal anos. Tinha cabelo preto, um nariz fino e
aquilino e olhos castanhos fundos. Movimentava-se com a elegncia
de um pugilista treinado. Trazia um fato bege, caro e feito por medida,
uma camisa de seda amarela e sapatos de calfe. Era de falas mansas e
polido, e no entanto havia nele algo de ameaador.

-Prazer em conhec-lo, senhor Lambrou. -Sente-se, senhor Rizzoli.

Rizzoli sentou-se.

-Em que lhe posso ser til?

-Bem, como expliquei aqui ao senhor Ventos, gostaria de fretar um
dos seus cargueiros. Sabe, eu tenho uma fbrica em Marselha e quero
enviar uma maquinara pesada para os Estados Unidos. Se chegarmos a
um acordo, posso vir a fazer muitos negcios consigo no futuro.
Spyros Lambrou recostou-se na cadeira e estudou o homem que se
sentava diante de si. "Repugante

- s isso que tenciona enviar, senhor Rizzoli? Tony Rizzoli franziu o
sobrolho.

-0 qu? No estou a perceber.

-Acho que est-disse Lambrou: -Os meus navios no esto  sua
disposio.

-Por que no? De que  que o senhor est a falar?

-Drogas, senhor Rizzoli. 0 senhor  um traficante de drogas. Os olhos
de Rizzoli contraram-se.

#
-0 senhor est louco! Anda a ouvir muitos boatos.

Mas eram mais do que boatos. Spyros Lambrou informara-se
cuidadosamente sobre o homem. TonyRizzoli era um dos principais
traficantes de drogas da Europa. Ele era da Mafia, parte da
organizao, e dizia-se que os meios de transporte de Rizzoli haviam
acabado. Era por isso que estava to ansioso para fazer um acordo.

-Receio que tenha de ir bater a outra porta.

Tony Rizzoli deixou-se ficar sentado a olhar fixamente para ele, o
olhar frio. Por fim abanou a cabea.

-Muito bem, -Tirou um carto comercial do bolso e atirou para cima da
secretria. -Se mudar de idias, eis onde me pode encontrar. -Ps-se de
p e pouco depois partiu.

Spyros Lambrou apanhou o carto. Dizia "Anthony Rizzoli Import-
Export", Havia uma morada de um hotel de Atenas e um nmero de
telefone no fundo do carto. Nikos Veritos permanecera ali, de olhos
arregalados, escutando a conversa. Quando Tony Rizzoli saiu a porta,
disse:

-Ele  mesmo...?

-Sim, 0 senhor Rizzoli negoceia com herona. Se permitssemos que
ele usasse um dos nossos navios, o governo podia cancelar a atividade
de toda a nossa frota.

TonyRizzoli saiu do escritrio de Lambrou numa fria. "0 cabro do
grego a tratar-me como se eu fosse um labrego da rua! E como  que
ele soubera das drogas? 0 envio era invulgarmente grande, com um
valor de rua de pelo menos dez milhes de dlares. Mas o
problemaestava em faz-lo chegar a Nova Iorque. Os malditos agentes
do combate  droga esto a invadir Atenas. Tenho que fazer um
telefonema para a Itlia e procurar ganhar tempo. Tony Rizzoli nunca
perdera um envio e no tencionava perder este. Achava-se um
vencedor nato. Crescera na Cozinha do Inferno em Nova Iorque.
Geograficamente estava localizada no West Side de Manhattan, entre a
Oitava Avenida e o Rio Hudson, e as suas fronteiras a norte e a sul iam
das ruas Vinte e Trs e Cinquenta e Nove. Mas psicolgica e
emocionalmente a Cozinha do Inferno era uma cidade dentro da
cidade, um conclave armado. As ruas eram governadas por grupos.
Havia os Gophers, o Parlor Mob, os Gorillas e o Rhodes Gang. Os
contratos para matar eram vendidos a retalho por cem dlares, com

#
ao violenta por um pouco menos. A primeira lembrana de Tony
Rizzoli foi de ser atirado ao cho e terem-lhe roubado o dinheiro do
leite. Tinha sete anos. Os rapazes mais velhos e maiores eram uma
ameaa constante. 0 percurso para a escola era terra de ningum, e a
prpria escola era um campo de batalha. Quando tinha quinze anos,
Rizzoli desenvolvera um corpo forte e uma considervel aptido como
lutador. Adorava lutar, e porque era bom nisso o fato dava-lhe um
sentimento de superioridade. Ele e os amigos organizavam desafios de
boxe no Ginsio de Stillman. De tempos a tempos, apareciam uns
membros das quadrilhas de criminosos para manter debaixo de olho os
lutadores que possuam. Frank Costello aparecia uma ou duas vezes
por ms, acompanhado de Joe Adonis e Lucky Luciano. Divertiam-se
com os desafios de boxe que os midos organizavam, e em jeito de
diverso comearam a fazer apostar nos combates. Tony Rizzoli
vencia sempre, e logo se tornou num favorito dos chefes das
quadrilhas. Um dia, enquanto Rizzoli mudava de roupa no vestirio, o
jovem ouviu por acaso uma conversa entre Frank Costello e Lucky
Luciano, -0 puto  uma mina de ouro-dizia Luciano,-Ganhei cinco mil
com ele a semana passada.

-Vais apostar no combate dele com o Lou Domenic? -Claro. Vou
apostar dez notas grandes.

-Que hipteses tens para apostar?

-Dez para um. Mas qual  o problema? 0 Rizzoli  um vencedor 
partida.

Tony Rizzoli no estava certo do significado da conversa. Foi ter com

o irmo mais velho, Gino, e contou-lhe.
-Puxa!-exclamou o irmo. -Esses tipos esto a apostar muita massa em
ti.

-Mas porqu? Eu no sou profissional. Gino pensou durante um
momento.

-Tu nunca perdeste nenhum combate, pois no, Tony?

-No.

-0 que provavelmente aconteceu  que eles fizeram umas apostazitas
de brincadeira, e depois quando viram o que tu conseguias fazer
comearam a apostar para valer.

0 rapaz mais novo encolheu os ombros. -Isso para mim no significa

#
nada. Gino tomou-lhe o brao e disse com empenho.

-Podia significar muito. Para ns dois. Presta ateno, criana...

0 combate com Lou Domenic realizou-se no Ginsio de Stillman numa
tarde de sexta-feira, e todos os rapazes estavam l -Frank Costello,
JoeAdonis, Albert Anastasi, Lucky Luciano e Meyer Lansky.
Gostaram de ver os rapazes combater, mas do que gostaram ainda mais
foi o fato de terem achado uma maneira de ganhar dinheiro  custa dos
midos. Lou Domenic tinha dezessete anos, era um ano mais velho
que Tony e pesava mais dois quilos. Mas no era parceiro para
enfrentar a aptido para o boxe e o instinto assassino que Rizzoli
possua.

0 combate teve cinco rounds. 0 primeiro assalto foi facilmente ganho
pelo jovem Tony. 0 segundo assalto tambm foi para ele. E o terceiro.
Os chefes de quadrilha j faziam contas.

-0 mido vai ser um campeo mundial -exultou Lucky Luciano. Quanto
 que apostaste nele?

-Dez mil-respondeuFrank Costello.-As melhores diferenas que
consegui foi de quinze para um. 0 mido j tem fama.

E repentinamente, o inesperado aconteceu. A meio do quinto assalto,
Lou Domenic ps Tony Rizzoli fora de combate com um soco de
baixo para cima. 0 juiz comeou a contar... muito lentamente, olhando
apreensivamente para o pblico de rostos petrificados,

-Pe-te de p, meu sacaninha-gritou Joe Adonis. -Levanta-te e luta!

A contagem prosseguiu, e, mesmo a esse ritmo lento, chegou
finalmente aos dez. Tony Rizzoli estava ainda no tapete, derrotada e
frio. -Cabro de merda. Um murro de sorte.

Os homens comearam a somar os prejuzos. Eram substanciais. Tony
Rizzoli foi levado para um dos vestirios por Gino. Tony mantinha os
olhos ligeiramente fechados, com receio de que pudessem descobrir
que estava consciente e lhe fizessem algo de terrvel. S quando estava
em segurana em casa  que comeou a relaxar. -Conseguimos! -gritou

o irmo excitadamente. -Sabes quanto dinheiro fizemos? Quase mil
dlares.
-No percebo, Eu...

-Eu pedi dinheiro emprestado aos usurrios para apostar no Domenico
e consegui diferenas de quinze para um. Estamos ricos. -Eles no vo

#
aos arames? -perguntou Tony.
Gino sorriu. -Nunca sabero.
No dia seguinte quando Tony Rizzoli saiu da escola uma enorme


limousine preta estava  espera na curva. Lucky Luciano estava no
banco traseiro. Fez sinal ao rapaz para que viesse at ao carro.
-Entra.
0 corao de Tony comeou a bater com fora.
-No posso, senhor Luciano, Estou atrasado para... -Entra.
Tony Rizzoli entrou na limousine. Lucky Luciano disse ao motorista:


-D uma volta ao quarteiro.
Graas a Deus que no o levavam para um passeio! Luciano virou-se
para o rapaz,


-Tu simulaste um knock out.-disse ele categoricamente. Rizzoli corou.
-No, senhor, eu...
-No me venhas com tretas. Quanto  que tu ganhaste no combate?
-Nada, senhor Luciano. Eu...
-Vou perguntar-te mais uma vez. Quanto  que tu ganhaste por teres


simulado knock out?
0 rapaz hesitou. -Mil dlares. Lucky Luciano riu-se.
-Isso  deitar gua a pintas. Mas acho que para um.., que idade tens?
-Quase dezesseis,
-Acho que para um mido de dezesseis anos isso no  mau. Sabes que


por tua causa eu e os meus amigos perdemos uma data de massa.
-Eu peo desculpa. Eu...
-Esquece. s um rapaz inteligente. Tens futuro, -Obrigado.
-Eu no vou dizer nada sobre o assunto, Tony, caso contrrio os meus


amigos cortam-te os tomates e obrigam-te a com-los. Mas quero que
me venhas ver na segunda feira. Ns os dois vamos trabalhar juntos,
Uma semana depois, Tony Rizzoli estava a trabalhar para Lucky
Luciano. Rizzoli comeou como agente de apostas, e depois como
cobrador. Era brilhante e rpido e com o tempo esforou-se para ser o
representante de Luciano. Quando Lucky Luciano foi preso,
condenado e enviado para a priso, Tony Rizzoli permaneceu na


#
organizao de Luciano. As Famlias estavam envolvidas no jogo, na
usura, na prostituio e em tudo o mais que desse lucro ilegal. 0 trfico
de drogas era geralmente desaprovado, mas alguns dos membros
insistiam em envolver-se, e as Famlias relutantemente davam-lhes
autorizao para organizar o trfico de drogas sozinhos. A ideia
tornou-se numa obsesso para Tony Rizzoli. Do que vira, as pessoas
que andavam no trfego de drogas estavam completamente
desorganizadas. "Estava cada um a trabalhar para seu lado. Com o
crebro e o msculo certo por trs..." Tomou a deciso. Tony Rizzoli
no era homem para entrarem nada acidentalmente. Comeou a ler
tudo o que conseguia encontrar sobre herona. A herona estava a
tornar-se rapidamente na rainha dos narcticos. A marijuana e a
cocana provocavam uma ida s nuvens", mas a herona criava um
estado de completa euforia, sem dor, sem problemas, sem cuidados. As
pessoas escravizadas pela herona estavam dispostas a vender tudo o
que possussem, roubar qualquer coisa ao seu alcance, cometer
qualquer crime. A herona tornou-se a sua religio, a sua razo de ser.
A Turquia era um dos principais cultivadores da papoula de que a
herona derivava. A Famlia tinha contatos na Turquia, de forma que
Rizzoli teve uma conversa com Pete Luca, um dos cabos.

-Eu vou meter-me no negcio-disse Rizzoli. -Mas tudo o que eu fizer
ser pela Famlia. Quero que saibam isso.

-Tu s um bom rapaz, Tony.

-Eu gostava de ir  Turquia para ver como so as coisas. Pode tratar do
caso?

0 velho hesitou,

-Vou entrarem contato. Mas eles no so como ns, Tony, Eles no
tm princpios. So animais. Se no confiarem em ti, matam-te. -Terei
cuidado.

-Tem mesmo.

Duas semanas depois, Tony Rizzoli estava a caminho da Turquia.
Viajou para Esmirna, Afyon e Eskisehir, as regies onde as papoulas
crescem, e no comeo Rizzoli foi cumprimentado com grande
desconfiana. Era um estranho, e os estranhos no so bem-vindos.
-Ns vamos fazer muitos negcios juntos-disse Rizzoli. -Eu gostava de
dar uma vista de olhos pelos campos de papoulas. Um encolher de
ombros.

#
-No sei nada de campos de papoulas. Voc est a perder o seu tempo.
V para casa.

Mas Rizzoli estava determinado. Fizeram-se meia dzia de chamadas e
trocaram-se telegramas em cdigo. Por fim, em Kilis, na fronteira
turco-sria, foi autorizado a assistir  colheita do pio na quinta de
Carella, um dos grandes proprietrios de terras.

-No percebo -disse Tony. -Como  que se pode obter pio a partir de
uma porcaria de uma flor?

Um cientista de casaco branco explicou-lhe.

-H vrios passos, senhor Rizzoli. A herona  sintetizada a partir do
pio, o qual  feito atravs do tratamento de morfina com cido
actico. A herona  derivada de uma classe particular de papoulas
designada Papauer Somniferum, a flor do sono. A origem do pio vem
do grego opos, que significa suco,

-Percebi.

Durante o tempo da colheita, Tony foi convidado a visitar a
propriedade principal de Carella. Cada membro da famlia de Carella
estava munido de uma izgi biak, uma faca em forma de bisturi,
destinada a fazer uma inciso perfeita na planta, Carella explicou:

-As papoulas tm de ser colhidas num perodo de vinte e quatro horas
ou a planta est arruinada.

Havia nove membros na famlia e cada um trabalhava freneticamente
para garantir a colheita a tempo. 0 ar estava cheio de fumos que
provocavam sonolncia.

Rizzoli sentiu-se grogue.

-Tenha cuidado-advertiu Carella. -Mantenha-se acordado. Se se deitar
no campo, no voltar a levantar-se.

As janelas e as portas da casa da quinta mantinham-se firmemente
fechadas durante o perodo de vinte e quatro horas da colheita. Depois
da apanha das papoulas, Rizzoli viu a goma branca e pegajosa
transformada a partir de uma base de morfina em herona num
laboratrio nas colinas.

-Ento,  assim, hein? Carella sacudiu a cabea,

-No, meu amigo. Isto  apenas o comeo. Fazer a herona  a parte
mais fcil, A habilidade  transport-la sem sermos apanhados.

#
Tony Rizzoli sentiu uma excitao crescer dentro de si. Era aqui que
os seus conhecimentos iam sobrepor-se. At agora, o negcio tinha
sido dirigido por trapalhes. Agora ele ia mostrar-lhes como um
profissional operava.

-Como  que movimenta o produto?

-H muitas maneiras. Caminho, autocarro, comboio, carro, mula,
camelo...

-Camelo...?

-Costumvamos contrabandear herona em latas dentro da barriga dos
camelos, at que os guardas comearam a usar detectores de metal. De
forma que mudmos para sacos de borracha. No fim da viagem
matamos os camelos. 0 problema  que por vezes os sacos rebentam no
interior dos camelos, e os animais arrastam-se at  fronteira como se
estivessem bbados. Por isso os guardas descobriram. -Qual  a rota
que usam?

-Por vezes, a herona segue de Aleppo, Beirute e Istambul paraMarselha. s vezes as drogas vo de Istambul para a Grcia, depois
para a Siclia atravs da Crsega e de Marrocos e cruzam o Atlntico.

-Agradeo a sua cooperao -disse Rizzoli. -Vou contar aos rapazes.
Tenho mais um favor a pedir-lhe.

-Sim?

-Eu gostava de acompanhar o prximo envio. Houve uma longa pausa.

-Isso pode ser perigoso.

-Eu arrisco.

Na tarde seguinte, Tony Rizzoli foi apresentado a um bandido enorme
e corpulento, com um grandioso e gracioso bigode e um corpo que
parecia um tanque.

-Este  o Mustafa de Afyon. Em turco, afyon significa pio. 0
Mustafa  um dos nossos melhores contrabandistas.

-Uma pessoa tem de ser competente-disse Mustafa modestamente. -H
muitas perigos.

Tony Rizzoli deu um sorriso largo. -Mas vale a pena o risco, hein?
Mustafa disse corn dignidade;

-Voc est a falar de dinheiro. Para ns, o pio  mais do que uma
plantao de dinheiro. H uma mstica em relao a ele.  a nica

#
plantao que  mais do que apenas comida. A seiva branca da planta 
um elixir dado por Deus que  um medicamento natural quando
tomado em pequenas quantidades. Pode ser tomado, ou aplicado
diretamente sobre a pele e cura a maioria dos sofrimentos comuns,
perturbaes no estmago, gripes, dores, sofrimento, distenses. Mas
tem de ser cuidadoso. Se o tomar em grandes quantidades, no apenas
ir perturbar os sentidos, como lhe roubar a sua potncia sexual, e na
Turquia poder destruir tanto a dignidade de um homem como a
impotncia.

-Certo. Tem toda a razo.

A viagem desde Afyon teve incio  meia-noite. Um grupo de
fazendeiros, caminhando numa s fila por entre a noite escura, vieram
encontrar-se com Mustafa. As mulas estavam carregadas com pio,
350 quilos amarrados s costas de sete robustas mulas. 0 odor doce e
pungente do pio, como se de feno mido se tratasse, pairava no ar por
entre os homens. Havia uma dzia de fazendeiros que tinham vindo
tomar conta do pio na transao com Mustafa. Cada fazendeiro
estava armado com uma espingarda.

-Temos de ser cuidadosos nos dias de hoje-disse Mustafa a Rizzoli.Temos
a Interpol e muitas outras polcias  nossa procura. Nos velhos
tempos tinha mais piada. Costumvamos transportar pio atravs de
uma aldeia ou da cidade num caixo forrado em preto. Era uma viso
generosa ver as pessoas e os polcias na rua tirarem os chapus e a
cumprimentarem em sinal de respeito quando um caixo de pio
passava por perto.

A provncia de Afyon fica no centro da parte ocidental da Turquia no
sop das Montanhas Sultan num planalto, remota e virtualmente
isolada das principais cidades da nao.

-Este terreno  muito bom para o nosso trabalho -disse Mustafa. -No
 fcil encontrarem-nos.

As mulas movimentavam-se lentamente atravs das montanhas
desoladas, e  meia-noite do terceiro dia chegaram  fronteira turcosria.
Ali foram recebidos por uma mulher vestida de negro. Conduzia
um cavalo que transportava um inocente saco de farinha, e havia uma
corda de cnhamo presa frouxamente ao aro da sela. A corda roava
atrs do cavalo, mas nunca tocava no cho. Era uma corda comprida,
com sessenta metros de comprimento. Uma extremidade estava
amarrada ao cavalo e a outra era suspensa por Mustafa e pelos quinze

#
contrabandistas contratados que o seguiam. Caminharam agachados,
cada um curvado junto ao cho, uma mo segurando a linha da corda e
a outra agarrando um saco de juta com pio. Cada saco pesava quinze
quilos. A mulher e o cavalo atravessavam um extenso de terreno
armadilhado com minas contra pessoal, mas havia um caminho que
fora aberto por um pequeno rebanho de carneiros que cruzara a rea
anteriormente. Se a corda casse  terra, a folga era um sinal a Mustafa
e aos outros de que havia gendarmes l em cima. Se a mulher fosse
levada para interrogatrio, ento os contrabandistas avanariam em
segurana atravs da fronteira. Atravessaram em Kilis, o posto
fronteirio, que estava fortemente minado. Uma vez para l da rea
controlada pelas patrulhas de gendarmes, os contrabandistas foram at
 zona-tampo com cinco quilmetros de largura, at chegarem ao
ponto de encontro, onde foram cumprimentados pelos contrabandistas
srios. Puseram os sacos de pio no cho e foram presenteados com
uma garrafa de raki, que os homens passaram entre si. Rizzoli
observou o pio ser pesado, feito em montes, amarrado e preso aos
dorsos de uma dzia de burros srios todos sujos, 0 trabalho estava
feito. "Muito bem", pensou Rizzoli. "Agora vamos ver como  que
trabalham os rapazes da Tailndia. A prxima paragem de Rizzolifoi
Banguecoque. Depois de as suas credenciais terem sido estabelecidas,
foi autorizado a embarcar num navio de pesca tailands que
transportava drogas embrulhadas em folhas de polietileno embaladas
dentro de tambores de parafina vazios, com argolas na tampa. Assim
que os barcos se aproximavam de HongKong eles atiravam os
tambores numa fila ordenada gua rasa que circundava Lima e das
Ilhas do Ladrone, onde era simples para um barco de pesca de Hong
Kong apanh-los com um arpo.

-Nada mau-disse Rizzoli. "Mas tem que haver uma maneira melhor."

Os cultivadores referiam-se  herona como H" e "cavalo", mas para
Tony Rizzoli a herona era ouro. Os lucros estavam a aumentar
devagar. Os camponeses que cultivavam o pio cr recebiam 350
dlares por quilo, mas quando o pio era processado e vendido nas
ruas de Nova Iorque, o seu valor tinha subido para 250.000 dlares.

 to fcil", pensou Rizzoli. Carella tinha razo. A habilidade no 
apanhar,"

Isso fora no incio, dez anos antes. Mas agora era mais difcil. A
Interpol, a polcia internacional, colocara recentemente o trfico de

#
droga no topo da lista, Todos os navios que saam dos principais
portos traficantes e parecessem mesmo minimamente suspeitos eram
visitados e revistados, Foi por isso que Rizzoli procurara Spyros
Lambrou. A sua frota estava fora de suspeita. Era improvvel que a
polcia revistasse um dos seus navios cargueiros. Mas o cabro
recusara-o. "Hei-de arranjar outra maneira,Tony Rizzoli", pensou.
"Mas tenho que arranjar rapidamente."

-Catherine, estou a perturb-la? Era meia-noite.

-No, Costa,  agradvel ouvir a sua voz. -Est tudo a correr bem?

-Sim, graas a si. Estou realmente a gostar do meu emprego. -timo.
Vou a Londres dentro de algumas semanas. Estou ansioso por v-la.
-"Cuidado. No vs to depressa. " -Quero informar-me sobre algum
do pessoal da companhia.

-Muito bem.

-Ento, boa noite. -Boa noite.

Desta vez foi ela que lhe telefonou.

-Costa, no sei o que dizer. 0 medalho  lindssimo. No devia ter...

- uma pequena lembrana, Catherine. A Evelyn disse-me que voc a
ajuda bastante. Apenas quis exprimir o meu agradecimento.

 to fcil", pensou Demiris. Pequenas ofertas e lisonjeios. Mais tarde:
Eu e a minha mulher vamos separar-nos. Depois a fase do "sinto-me
to sozinho".

Uma vaga conversa sobre casamento e um convite para a ilha dele no
iate. A rotina nunca falhava, "Isto vai ser particularmente excitante",
pensou Demiris, "porque vai ter um significado diferente. Ela vai
morrer." Telefonou a Napoleo Chotas. 0 advogado ficou encantado
por ouvi-lo.

-J faz bastante tempo, Costa. Vai tudo bem? -Sim, obrigado. Preciso
de um favor.

-Claro.

-A Noelle Page possua uma pequena villa em Rafina. Quero comprla
para mim, sob o nome de outra pessoa.

-Certamente. Vou mandar um dos meus advogados... -Quero que trate
do caso pessoalmente.

Houve uma pausa.

#
-Muito bem. Tomarei conta do assunto. -Obrigado.

Napoleon Chotas deixou-se ficar sentado, a olhar para a telefone. A
villa foi o ninho de amor onde Noelle Page e Larry Douglas tinham
consumado o seu romance. Para que o queria Constantin Demiris? 0
tribunal de Arsakion na baixa de Atenas  um edifcio de pedra grande
e cinzento que ocupa todo o quarteiro da Rua da Universidade e
Strada. Das trinta salas de audincia do edifcio apenas trs esto
reservadas aos julgamentos criminosos: salas 21, 30 e 33. Por causa do
interesse enorme gerado pelo julgamento do assassnio de Anastasia
Savalas, estava a realizar-se na sala 33. A sala de audincias tinha
noventa metros por quinze de largo, e os bancos estavam divididos em
trs blocos, distantes dois metros uns dos outros, com nove bancos de
madeira em cada fila. Na frente da sala havia um estrado elevado atrs
de uma divisria de mogno, com cadeiras de costas altas para os trs
juzes que iam presidir. Em frente do estrado estava o banco das
testemunhas, uma pequena plataforma elevada sobre a qual estava
fixada uma estante de leitura, e contra a parede do fundo estava a
banca dos jurados, ocupada agora pelos seus dez membros. Diante da
banca do ru estava a mesa dos advogados. 0 julgamento do assassnio
era assaz espetacular em si prprio, mas o prato-forte era o fato de que
a defesa ia ser conduzida por Napoleon Chotas, um dos proeminentes
advogados criminais do mundo. Chotas s aceitava casos de
assassnio, e tinha um recorde de sucessos espetacular. Corria o boato
de que os seus honorrios eram de milhes de dlares. Napoleon
Chocas era um homem magro de aspecto macilento com os olhos
grandes e tristes de um co de caa num rosto ondulado. Vestia-se mal,
e a sua aparncia fsica em nada contribua para inspirar confiana.
Mas, por detrs dos seus modos vagamente atarantados, escondia-se
uma mente brilhante e mordaz. A imprensa especulara furiosamente
sobre a razo por que Napoleon Chotas aceitara defender a mulher que
ia ser julgada. Ele nunca poderia ganhar a questo. Fizeram-se apostas
em como seria a primeira derrota de Chotas. Peter Demonides, o
advogado de acusao, j se confrontara com Chotas antes, e -embora
nunca o admitisse, mesmo a si prprio -espantava-se com a arte de
Chotas, Desta vez, contudo, Demonides sentia que tinha pouco com
que se preocupar. Se alguma vez houve um processo de assassnio de
soluo prevista, era o julgamento de Anastasia Savalas. Os fatos eram
simples: Anastasia Savalas era uma jovem e bela mulher casada com
um homem rico de nome George Savalas, que era trinta anos mais

#
velho do que ela. Anastasia tinha tido um caso com o jovem motorista,
Josef Pappas, e, segundo as testemunhas, o marido ameaara divorciar-
se de Anastasia e exclu-la do testamento. Na noite do assassnio, ela
dispensara os criados e preparara o jantar para o marido. George
Savalas estava constipado. Durante o jantar, teve um ataque de tosse,
A mulher trouxera-lhe o frasco do xarope. Savalas tomara um gole e
cara morto. Um caso de abrir e fechar. A sala 33 encheu-se de pblico
logo pela manh. Anastasia Savalas estava sentada na mesa do ru,
trajando saia e blusa simples de cor preta, sem jias e muito pouca
maquilagem. Ela estava espantosamente bela. 0 advogado de acusao,
Peter Demonides, dirigia-se ao jri.

-Meus senhores e minhas senhoras. Por vezes, num caso de assassnio,
um julgamento dura at trs ou quatro meses, Mas no me parece que
nenhum dos senhores tenha de preocupar-se em ficar aqui esse espao
de tempo. Quando tiverem conhecimento dos fatos neste caso, tenho a
certeza de que concordaro, sem dvida, que s h um veredito
possvel, assassnio do primeiro grau. 0 estado provar que a r
assassinou intencionalmente o marido, porque o mesmo ameaara
divorciar-se quando descobriu que ela tinha um caso com o motorista
da famlia. Provaremos que a r teve o motivo, a oportunidade e os
meios para levar a cabo o seu plano a sangue frio. Obrigado.

-Ele voltou ao seu lugar.

0 juiz-presidente voltou-se para Chotas.

-0 advogado de defesa est preparado para fazer a declarao de
abertura?

Napoleon Chotas ergueu-se lentamente.

-Sim, Meritssimo.-Moveu-se at  banca dos jurados com um andar
incerto e arrastando os ps. Ficou ali a pestanejar para eles, e quando
falou foi quase como se estivesse a falar consigo prprio.

-A minha vida j vai longa, e aprendi que no h homem ou mulher
que possa ocultar um mau carter. Revela-se sempre. Certo poeta disse
um dia que os olhos so as janelas da alma. Acredito que seja verdade.
Desejo, senhoras e senhores, que olhem bem dentro dos olhos da r.
Nunca acharia ela dentro do seu corao motivo para matar algum,
Napoleon Chotas ficou ali um momento como se tentando pensar em
algo mais para dizer, depois arrastou-se de volta para o seu lugar. Peter
Demonides ficou tomado de uma sensao repentina de triunfo. "Meu

#
Deus. Essa foi a abertura mais fraca que eu j ouvi na vida! 0 velho j
perdeu."

-0 advogado de acusao est preparado para chamar a primeira
testemunha?

-Sim, Meritssimo. Gostaria de chamar Rosa Lykourgos. Uma mulher
de meia-idade e de porte pesado levantou-se do banco do pblico e
caminhou com determinao at ao cimo da sala de audincias. Fez o
juramento.

-Senhora Lykourgos, qual a sua profisso?

-Eu sou a governanta...-Ficou com a voz embargada.-Eu era a
governanta do senhor Savalas.

-Do senhor George Savalas ? -Sim, senhor.

-E importa-se de dizer-nos quanto tempo foi empregada do senhor
Savalas ?

-Vinte e cinco anos.

-Mas isso  muito tempo. Gostava do seu patro? -Ele era um santo,

-Era empregada do senhor Savalas no primeiro casamento? -Era sim,
senhor. Eu estava na campa com ele quando a esposa foi enterrada.

-Seria legtimo dizer-se que tinham uma boa relao? -Eles estavam
loucamente apaixonados um pelo outro.

Peter Demonides olhou por cima para Napoleon Chotas,  espera do
seu protesto quanto  linha de interrogatrio, Mas Chotas deixou-se
ficar, aparentemente perdido em pensamentos. Peter Demonides
prosseguiu.

-E trabalhava para o senhor Savalas durante o segundo casamento,
com Anastasia Savalas

-Oh, sim, senhor. Claro que sim. -Ela dizia as palavras com
veemncia.

-A senhora diria que era um casamento feliz?-Olhou uma vez mais de
relance para Napoleon Chotas, mas no houve reao. -Feliz? No,
senhor. Brigavam que nem co e gato. -Testemunhou alguma dessas
brigas?

-Uma pessoa no podia evitar. Podia-se ouvi-los por toda a casa.,. e a
casa  bem grande.

#
-Vejo que se tratavam de brigas verbais, e no fsicas. Isto , o senhor
Savalas nunca bateu na mulher?

-Oh, claro que eram fsicas. Mas era ao contrrio, a senhora  que batia
nele. 0 senhor Savalas estava a ficar velho, e o pobrezito j no se
aguentava nas canetas.

-Viu mesmo a senhora Savalas bater no marido?

-Mais do que uma vez. -A testemunha olhou para Anastasia Savalas,
e havia uma satisfao cruel na sua voz.

-Senhora Lykourgos, na noite em que o senhor Savalas morreu, que
pessoal trabalhava na casa?

-Nenhum.

Peter Demonides deixou que a sua voz exprimisse surpresa. -Quer
dizer que numa casa que a senhora diz ser to grande no havia
nenhum membro do pessoal na casa? 0 senhor Savalas no tinha
cozinheira, ou uma criada... um mordomo...?

-Oh, sim, senhor. Tnhamos de tudo. Mas a senhora disse a todos que
tirassem a noite de folga, Disse que queria ela prpria fazer o jantar domarido. a ser uma segund lua-de-mel. -A ltima observao foi dita
com um resflego.

-Ento a senhora Savalas livrou-se de toda a gente?

Desta vez, foi o juiz-presidente que olhou para Napoleon Chotas, 
espera que ele protestasse. Mas o advogado manteve-se sentado,
preocupado.

0 juiz-presidente virou-se para Demonides.

-0 advogada de defesa deve deixar de conduzir a testemunha. -Peo
desculpa, Meritssimo. Eu reformulo a pergunta. Demonides
aproximou-se mais da senhora Lykourgos.

-Est a dizer que numa noite em que os membros do pessoal deveriam
estar ordinariamente todos em casa a senhora Savalas ordenou que
toda a gente sasse para que ela pudesse ficar sozinha com o marido?

-Sim, senhor. E o pobrezinho estava com uma terrvel constipao.

-A senhora Savalas cozinhava muitas vezes o jantar do marido?

A senhora Lykourgos desdenhou.

-Ela? No, senhor. Ela no. Ela nunca levantou um dedo para fazer

#
nada l em casa.


E Napoleon Chotas mantinha-se sentado, ouvindo como se fosse um
mero espectador.
-Obrigado, senhora Lykourgos. A senhora foi uma grande ajuda. Peter


Demonides virou-se para Chotas, tentanto ocultar a sua satisfao. 0
testemunho da senhora Lykourgos tivera um efeito perceptvel sobre
os jurados. Todos lanaram olhares desaprovadores para a r. Vamos
ver como  que o velho descala esta bota.


-A testemunha  sua.


Napoleon Chotas ergueu um olhar de relance. -0 qu? Oh, no tenho
perguntas.
0 juiz-presidente olhou para ele surpreso.
-Senhor Chotas... no deseja contra-interrogar a testemunha?


Napoleon Chotas levantou-se.


-No, Meritssimo. Parece uma mulher perfeitamente honesta. - Voltou
a sentar-se.
Peter Demonides no acreditava na sua sorte, "Meu Deus", pensou,


"ele nem sequer oferece luta. 0 velho est mesmo acabado."


Demonides saboreava j a vitria.
0 juiz-presidente virou-se para o advogado de acusao. -Pode chamar
a prxima testemunha.


-0 estado gostaria de chamar Josef Pappas.
Um homem novo, alto, bonito e de cabelo escuro levantou-se do banco


do pblico e caminhou at ao banco das testemunhas. Fez o juramento,
Peter Demonides comeou.
-Senhor Pappas, queira por favor dizer-nos qual  a sua profisso.
-Sou motorista. -Encontra-se empregado? -No.
-Mas esteve empregado at h pouco. Isto , esteve empregado at 


morte de George Savalas?
-Verdade.
-Durante quanto tempo foi empregado da famlia Savalas? -Pouco


mais de um ano.
-Era um trabalho agradvel?
Josef Pappas olhava para Chotas, espera que ele viesse salv-lo.


#
Houve apenas silncio.


-Era um emprego agradvel, senhor Pappas? -Acho que era um
trabalho razovel.
-Tinha um bom salrio? -Tinha.
-Ento no acha que o emprego era mais que razovel?
-Quero dizer, no havia uns extras que eram oferecidos? 0 senhor no


dormia regularmente com a senhora Savalas? Josef Pappas olhou para
Napoleon Chotas  procura de ajuda. Mas no houve nenhuma.
-Eu... Sim, senhor. Acho que sim.


Peter Demonides era fulminante no seu escrnio.
-Acha que sim? Est sob juramento. Teve um caso com ela ou no
teve. Em que ficamos?


Pappas contorcia-se no lugar. -Tivemos um caso.


-Apesar de trabalhar para o marido dela... de ser generosamente pago
por ele e viver debaixo do seu teto?
-Sim, senhor.
-No lhe incomodava receber o dinheiro do senhor Savalas semana


aps semana enquanto tinha um caso com a mulher dele?
-No era apenas um caso.
Peter Demonides engodou a armadilha cuidadosamente. -No era


apenas um caso? Que pretende dizer com isso? Receio no estar a


perceber.
-Quero dizer, eu e a Anastasia tnhamos inteno de casar. Houve um
murmrio de surpresa na sala de audincias. Os jurados olhavam
fixamente para a r.


-0 casamento foi idia sua ou da senhora Savalas ? -Bem, o desejo era
de ambos.


-Quem o sugeriu?
-Acho que foi ela. -Ele olhou para o lugar onde Anastasia Savalas se
sentava. Ela devolveu-lhe o olhar sem vacilar.


-Com franqueza, senhor Pappas, estou intrigado. Como  que o senhor
esperava casar-se? A senhora Savalas j tinha marido, no tinha?
Tencionava esperar que ele morresse de velhice? Ou tivesse um
acidente fatal de alguma espcie? Que tinha em mente ao certo?


#
As perguntas eram to excitantes que a acusao e os trs juzes
olharam na direo de Napoleon Chotas, aguardando que o mesmo
vociferasse um protesto. Mas o advogado de defesa estava entretido
afazer desenhos numa folha de papel, sem prestar ateno. Anastasia
Savalas comeava tambm a ficar preocupada. Peter Demonides
pressionou a sua vantagem.

-0 senhor no respondeu  minha pergunta, senhor Pappas. Josef
Pappas mexia-se desconfortavelmente na cadeira.

-No sei ao certo.

A voz de Peter Demonides foi uma chicotada.

-Ento deixe-me que lhe diga ao certo. A senhora Savalas planejava
matar o marido para afast-lo do caminho. Ela sabia que o marido ia
exclu-la do testamento, e que ela ficaria sem nada. Ela...

-Protesto! -No veio de Napoleon Chotas, mas do juiz-presidente. -0
senhor est a pedir que a testemunha especule.

Ele olhou para Napoleon Chotas, surpreendido com o silncio do
advogado. 0 velho homem permanecia sentado no banco, os olhos
semicerrados.

-Peo desculpa, Meritssimo, -Mas ele sabia que tinha dito 0 que
queria. Peter Demonidesvirou-se para Chotas.-A testemunha  sua.

Napoleon Chocas levantou-se.

-Obrigado, senhor Demonides. No tenho perguntas.

Os trs juzes viraram-se para se entreolharem, intrigados. Um deles
falou:

-Senhor Chotas, est consciente de que esta  a sua nica oportunidade
para contra-interrogar a testemunha?

Napoleon Chotas pestanejou. -Sim, Meritssimo.

-Em vista do depoimento que fez, no lhe deseja fazer quaisquer
perguntas?

Napoleon Chotas acenou uma mo no ar e disse, vagamente: -No,
Meritssimo.

0 juiz suspirou.

-Muito bem. A acusao pode chamar a prxima testemunha. A
testemunha seguinte era Mihalis Haritonides, um homem corpulento

#
de sessenta e tal anos:


Depois de Haritonides prestar juramento, o advogado de defesa
perguntou:
-Queira informar o tribunal da sua ocupao. -Sim, senhor. Sou


gerente de hotel. -Diga-nos o nome do hotel,
-Argos.
-E onde fica o hotel? -Em Corfu.
-Vou perguntar-lhe, senhor Haritonides, se algum que se encontre


nesta sala alguma vez se alojou no seu hotel.
Haritonides olhou em volta e disse: -Sim, senhor. Ele e ela.
-Que fique em ata que a testemunha est a apontar para Josef Pappas e


Anastasia Savalas. -Voltou-se de novo para a testemunha. -Ficaram no


seu hotel mais do que uma vez?
-Oh, sim, senhor. Estiveram l meia dzia de vezes, pelo menos. -E
passavam as noites l, juntos, no mesmo quarto? -Passavam, sim.
Vinham geralmente passar o fim-de-semana. -Obrigado, senhor
Haritonides. -Olhou para Napoleon Chotas. -A testemunha  sua.


-No tenho perguntas.


0 juiz-presidente virou-se para os outros dois juzes, e entre si
sussurraram por uns momentos.
0 juiz-presidente olhou para Napoleon Chotas.
-No tem perguntas para esta testemunha, senhor Chotas ? -No,


Meritssimo. Acredito no depoimento que fez. Um belo hotel. Eu


prprio j l me hospedei.
0 juiz-presidente olhou fixamente para Napoleon Chotas durante um
longo momento. Depois virou-se para a acusao.


-0 estado pode chamar a sua prxima testemunha.
-0 estado gostava de chamar o doutor Vassilis Frangescos. Um


homem alto de aspecto distinto levantou-se e caminhou para o banco
das testemunhas. Prestou juramento.
-Doutor Vassilis Frangescos, queira ter a bondade de dizer a este


tribunal que espcie de medicina pratica.
-Sou mdico de clnica geral,
- o mesmo que mdico de famlia?


#
-Sim,  uma forma diferente de o expressar. -H quanto tempo 
mdico?
-H quase trinta anos.
-E tem autorizao oficial, claro. -Claro.
-Doutor Frangescos, George Savalas foi seu doente? -Foi, sim.
-Por quanto tempo?
-Um pouco mais de dez anos,


-E o senhor andava a trat-lo de algum problema especfico? -Bem, da
primeira vez que o vi, ele consultara-me porque tinha a tenso alta.
-E o senhor tratou-o? -Sim.
-Mas o senhor viu-o depois disso?
-Oh, sim. Ele costumava vir  consulta de tempos a tempos, quando
tinha bronquite, ou alguma inflamao no fgado... nada de grave.


-Quando foi a ltima vez que observou o senhor Savalas? -Em
Dezembro do ano passado.
-Foi pouco antes de ele ter morrido. -Verdade.


-Ele foi ao seu consultrio?
-No. Eu  que fui v-lo a sua casa. -Costuma fazer consultas ao
domicffio? -No, geralmente no.


-Mas neste caso fez uma exceo. -Sim.
-Porqu?
0 mdico hesitou.
-Bem, ele no estava em condies de se deslocar ao consultrio. -Em


que condies  que ele estava?


-Tinha dilaceraes, umas costelas partidas e uma corrupo. -Tinha
sofrido algum acidente?
0 doutor. Frangescos hesitou.
-No. Disse-me que a esposa lhe tinha batido. Houve um arquejo


audvel na sala de audincias. 0 juiz-presidente disse, num tom


zangado:
-Senhor Chotas, no vai protestar contra o fato de se registrarem em
ata testemunhos auriculares?


#
Napoleon Chotas ergueu o olhar e disse brandamente. -Oh, obrigado,
Meritssimo. Sim, protesto. Mas, claro, o mal j estava feito. Os
jurados olhavam agora para a defesa com hostilidade declarada.

-Obrigado, doutor Frangescos. No tenho mais perguntas. Peter
Demonides voltou-se para Chotas e disse presunosamente:

-A testemunha  sua. -No tenho perguntas.

Seguiu-se uma torrente contnua de testemunhas: uma criada que
deps que vira a senhora Savalas entrar nos aposentos do motorista em
vrias ocasies... um mordomo que deps que ouvira George Savalas
ameaar divorciar-se da mulher e alterar o seu testamento.., vizinhos
que ouviram as discusses barulhentas entre os Savalas. E, no entanto,
Napoleon Chotas no teve quaisquer perguntas a fazer s testemunhas.
A rede apertava-se rapidamente sobre Anastasia Savalas. Peter
Demonides sentia j o brilho da vitria, Na imaginao via os ttulos
nos jornais. Este ia ser o julgamento de homicdio mais rpido da
histria. "0 julgamento podia terminar mesmo hoje", pensou ele. "0
famoso Napoleon Chotas  um homem derrotado,"

-Gostaria de chamar o senhor Niko Mentakis a depor. Mentakis era
um homem novo, alto e diligente, que se exprimia de uma maneira
lenta e cuidadosa.

-Senhor Mentakis, queira dizer a sua ocupao ao tribunal, por favor.

-Sim, senhor. Trabalho num viveiro,

-Que cultiva exatamente?

-Temos rvores e flores, e todas as espcies de plantas.

-Ento o senhor  um entendido em coisas que se cultivam.

-Devo ser. H muito tempo que fao isso.

-E ao que me parece uma das suas funes  garantir que as plantas
que tem  venda se mantenham saudveis?

-Isso, sim. Tratamo-las muito bem. Nunca venderamos plantas
doentes aos nossos clientes. A maior parte so regulares.

-Com isso o senhor quer dizer que so sempre os mesmos clientes que

o procuram?
-Sim, senhor. -A sua voz estava orgulhosa. -Ns prestamos uma boa
assistncia.

-Diga-me, senhor Mentakis, a senhora Savalas era uma cliente

#
regular?


-Oh, era, sim. A senhora Savalas adora plantas e flores. 0 juiz-
presidente disse impacientemente:
-Senhor Demonides, o tribunal no sente que esta linha de


interrogatrio seja pertinente. Queira mudar de assunto, ou...


-Se o tribunal permitir que eu termine, Meritssimo, esta testemunha
tem um ponto de vista muito importante sobre o caso.
0 juiz-presidente olhou para Napoleon Chotas.
-Senhor Chotas, tem alguma objeo a fazer quanto a esta linha de


interrogatrio?


Napoleon Chotas ergueu o olhar e pestanejou. -0 qu? No,
Meritssimo.
0 juiz-presidente fitou-o frustrado e depois voltou-se para Peter


Demonides.
-Muito bem. Pode prosseguir.
-Senhor Mentakis, a senhora Savalas procurou-o um dia em


Dezembro e disse-lhe que algumas plantas lhe estavam a dar
problemas?


-Sim, senhor.  verdade.
-No  verdade que ela disse que uma infestao de insetos lhe estava
a destruir as plantas?


-Disse, sim.
-E no lhe pediu algo que pusesse fim a isso? -Pediu, sim. Sim, senhor.
-Importava-se de dizer ao tribunal do que se tratava? -Vendi-lhe um


pouco de antimnio.


-E importa-se de dizer ao tribunal exatamente o que  isso? -Um
veneno, como o arsnico.
Houve um tumulto na sala de audincias.
0 juiz-presidente bateu o seu martelo com fora.
-Em caso de nova desordem, mandarei o oficial de justia evacuar a


sala. -Voltou-se para Peter Demonides. -Pode continuar com o
interrogatrio.
-Portanto, vendeu-lhe uma quantidade de antimnio. -Foi, sim.


#
-E diz o senhor que se trata de um veneno mortal? -Comparou-o ao
arsnico.

-Oh, , sim.  mesmo mortal.

-E deu baixa da venda no livro de registros, como manda a lei sempre
que vende qualquer veneno?

-Dei, sim.

-E trouxe esses registros consigo, senhor Mentakis ?

-Sim, trouxe. -Entregou a Peter Demonides um livro-mestre. 0
advogado de acusao caminhou at aos juzes.

-Meritssimos, gostaria que isto fosse etiquetado como "Prova Ap.

Voltou-se para a testemunha.

-No tenho mais perguntas. Olhou para Napoleon Chotas. Napoleon
Chotas abanou a cabea. -No tenho perguntas.

Peler Demonides respirou fundo. Chegou a hora da sua bomba.
-Gostaria de mostrar a "Prova B". Virou-se para o fundo da sala e disse
a um oficial de justia que se encontrava junto  porta. - Trazia c para
dentro, por favor?

0 oficial de justia saiu apressado, e alguns momentos depois estava de
volta com um frasco de xarope numa bandeja.

Faltava uma quantidade aprecivel. Os espectadores observavam,
fascinados, quando 0 oficial de justia entregou o frasco ao advogado
de acusao. Peler Demonides colocou-a sobre a mesa em frente dos
juzes. Senhoras e cavalheiros, esto a olhar para a arma do crime. Esta
 a arma que matou George Savalas. Este  o xarope que a senhora
Savalas administrou ao marido na noite em que ele morreu. Est cheio
de antimnio. Como podem ver, a vtima engoliu algum.., e vinte
minutos depois estava morto. Napoleon Chotas levantou-se e disse
num tom brando:

-Protesto. 0 advogado de acusao no tem meios para saber se foi
exatamente esse o frasco medicado ao falecido. E Peler Demonides
fechou a armadilha.

-Com todo o devido respeito pelo meu douto colega, a senhora Savalas
confessou que deu este xarope ao marido na noite em que ele morreu,
0 frasco esteve guardado pela polcia at ser trazido a este tribunal h
alguns minutos atrs. 0 mdico-legista testemunhou que George

#
Savalas morreu por envenenamento de antimnio. Este xarope contra a
tosse est cheio de antimnio.

-Olhou para Napoleon Chotas desafiadoramente.

Napoleon Chotas sacudiu a cabea derrotado.

-Ento acho que no h dvida.

Peler Demonides disse triunfantemente.

-No h nenhuma. Obrigado, senhor Chotas. A acusao d por
encerrada a apresentao de provas,

0 juiz-presidente voltou-se para Napoleon Chotas. -A defesa est
pronta para o seu sumrio? Napoleon Chotas levantou-se.

-Sim, Meritssimo. Deixou-se ficar um longo momento. Depois
lentamente caminhou em frente. Ficou diante da bancada dos jurados,
coando a cabea como se estivesse a tentar calcular o que ia dizer.
Quando finalmente comeou, falou lentamente, buscando as palavras.

-Suponho que alguns dos senhores estejam a interrogar-se da razo por
que no contra-interroguei nenhuma das testemunhas. Bem, para lhes
dizer a verdade, pensei que o senhor Demonides fez um trabalho to
primoroso que eu no precisava de fazer nenhuma pergunta.

"0 palerma est a defender o meu caso em meu nome", pensou Peler
Demonides animadamente. Napoleon Chotas voltou-se para olhar o
frasco de xarope durante um momento, depois virou-se de novo para
os jurados.

-Todas as testemunhas pareceram muito honestas. Mas de fato no
provaram nada, pois no? 0 que eu quero dizer ... -Sacudiu a cabea.
-Bem, se somarmos tudo o que as testemunhas disseram, chegamos a
uma s concluso: uma jovem bonita casa-se com um homem velho
que provavelmente no conseguia satisfaz-la sexualmente. -Fez um
sinal com a cabea na direo de Josef Pappas. -Ento ela encontrou
um homem novo que conseguia. Mas isso ns soubemos pelos jornais,
no  verdade? No h segredos na sua ligao. Todas as pessoas
sabiam da sua existncia. Tem sido escrita em todas as revistas
escabrosas do mundo. Ora, ns podemos no aprovar o
comportamento dela, senhoras e cavalheiros, mas Anastasia Savalas
no est aqui a ser julgada por adultrio. Ela no se encontra neste
tribunal porque tem desejos sexuais normais em qualquer mulher nova.
No, ela est a ser julgada neste tribunal por homicdio. Voltou-se para

#
olhar o frasco de novo, como se estivesse fascinado por ele. "Deixem o
velho delirar", pensou Peler Demonides. Olhou de relance para o
relgio de parede da sala. Faltavam cinco minutos para o meio-dia. Os
juzes pediam sempre intervalo ao meio-dia. Nem sequer foi assaz
esperto para esperar que o tribunal estivesse suspenso de novo. "Por
que tive eu sempre medo dele?" Peler Demonides interrogava-se.
Napoleon Chotas divagava.

-Vamos examinar as provas juntos, sim? Algumas plantas da senhora
Savalas estavam doentes e ela importava-se o bastante com elas para
querer salv-las.

Procurou o senhor Mentakis, um perito em plantas, que a aconselhou a
usar antimnio. De foc~ma que seguiu o conselho que ele lhe deu. E
depoish o depoimento da governanta, que disse que a senhora Savalas
mandou todos os criados embora para poder ter um jantar de lua-demel
com o marido, que ela ia preparar. Bem, o que eu acho  que a
governanta estava provavelmente meio apaixonada pelo senhor
Savalas. No se trabalha para um homem durante vinte e cinco anos a
no ser que se nutra sentimentos profundos por ele. Ela ressentia-se de
Anastasia Savalas. No viram isso no seu tom? -Chotas tossiu
ligeiramente e aclarou a voz. -Portanto, assumamos que a r, no fundo
do corao, amava realmente o marido, e tentava desesperadamente
fazer funcionar o casamento. Como  que uma mulher mostra a um
homem que o ama? Bem, uma das maneiras mais bsicas, julgo,
cozinhar para ele. No  uma forma de amor? Acho que sim. -Virou-se
para olhar o frasco uma vez mais. -E outra no  tratar dele quando
est doente. na doena e na sade? 0 relgio da parede indicava que
faltava um minuto para as doze horas. Minhas senhoras e meus
senhores, eu disse-lhes quando 0 julgamento comeou que analisassem

o rosto desta mulher. No  o rosto de uma assassina. No so os olhos
de uma matadora. Peter Demonides observou os jurados quando eles
fitaram a r. Nunca vira uma hostilidade to declarada. Tinha o jri no
bolso.
-A lei  muito clara, senhoras e senhores, Como sero informados
pelos nossos Meritssimos Juzes, para poderem entregar um veredito
de culpa, no devem ter quaisquer dvidas sobre a culpa da r.
Nenhuma.

Enquanto Napoleon Chotas falava, voltou a tossir, puxando um leno
do bolso para tapar a boca. Caminhou at ao frasco de xarope que

#
estava na mesa diante do jri.

-Espremendo bem as coisas, a acusao no provou realmente nada,
pois no? Tirando o fato de que este  o frasco que a senhora Savalas
entregou ao marido. A verdade  que o estado no tem nenhum caso.

Quando acabou a frase, teve um ataque de tosse. Inconscientemente,
alcanou o frasco de xarope, levou-o aos lbios e tomou um gole
enorme. Todos os presentes fixaram o olhar, hipnotizados, e houve um
arquejo de horror. A sala de audincias estava num tumulto. 0 juiz-
presidente disse alarmado: -Senhor Chotas..,

Napoleon Chotas tomou outro gole.

-Meritssimo, o caso da acusao  uma chacota  justia. George
Savalas no morreu s mos desta mulher. A defesa d por encerrada
a apresentao de provas.

0 relgio bateu as doze. Um oficial de justia caminhou apressado na
direo do juiz-presidente e disse qualquer coisa em voz baixa. 0 juiz-
presidente bateu o martelo.

-Ordem! Ordem! 0 tribunal est suspenso, 0 jri ir retirar-se e tentar
chegar a um veredito. 0 tribunal voltar a reunir-se s duas horas, Peter
Demonides permaneceu sentado, petrificado. Algum tinha trocado as
garrafas! No, isso era impossvel. Aprova estivera permanentemente
guardada. Poderia o mdico-legista ter-se enganado? Demonides
voltou-se para falar ao seu assistente, e quando percorreu o olharem
busca de Napoleon Chotas, este tinha desaparecido. s duas horas,
quando o tribunal se reuniu novamente, o jri entrou em fila lenta na
sala de audincias e tomou os seus lugares. Napoleon Chotas estava
ausente. O filho da puta morreu , pensou Peter Demonides. E
exatamente no momento em que pensava nisso, Napoleon Chotas
atravessou a porta, com um ar perfeitamente saudvel. Todas as
pessoas que estavam na sala se voltaram para fit-lo, enquanto ele
caminhava para o seu lugar. 0 juiz-presidente disse:

-Senhores jurados, chegaram a um veredito? 0 presidente do jri
levantou-se. -Chegamos, Meritssimo. A r  inocente.

Houve uma exploso de aplausos espontnea por parte do pblico,
Peter Demonides sentiu o sangue desaparecer-lhe do rosto. "0 sacana
voltou a vencer-me", pensou. Ergueu o olhar num relance e Napoleon
Chotas estava a olhar para ele, com um sorriso largo. Afirma de Tritsis
e Tritsis era indubitavelmente a firma de advogados mais prestigiosa

#
da Grcia. Os fundadores retiraram-se havia muito, e a firma pertencia
a Napoleon Chotas. Havia meia dzia de scios, mas Chotas era o
gnio lideraste. Sempre que pessoas endinheiradas eram acusadas de
homicdio, os seus pensamentos invariavelmente voltavam-se para
Napoleon Chotas. A sua folha de servios era fenomenal. Nos anos
que levava na defesa de pessoas acusadas de crimes capitais, Chotas
marcara sucessos contnuos. 0 recente julgamento de Anastasia
Savalas fora notcia em todo o mundo. Chotas defendera uma cliente
naquele que toda a gente pensava tratar-se de um caso bem definido de
homicdio, e arrebatara uma vitria espetacular. Correra um grande
risco ao aceit-lo, mas soubera que era a nica maneira para poder
salvar a vida da sua cliente. Ria consigo prprio quando se lembrava
dos rostos dos jurados ao v-lo tomar um gole do xarope carregado
com um veneno mortal. Tinha organizado cuidadosamente em termos
de tempo o seu sumrio de forma a ser interrompido exatamente s
doze horas. Essa era a chave para tudo. Se os juzes tivessem alterado
a sua rotina fixa e ido almoar depois das doze horas... Estremeceu s
de pensar no que teria acontecido. Como veio a acontecer, registara-se
uma ocorre ncia inesperada que quase lhe custou a vida. Depois da
interrupo, Chotas descia apressadamente o corredor quando um
grupo de reprteres lhe bloqueou o caminho. -Senhor Chotas, como 
que o senhor sabia que o xarope no estava envenenado...?

-Pode explicar-nos como...?

-Acha que algum trocou os frascos.,.? -Anastasia Savalas tinha...?

Por favor, cavalheiros, lamento, mas tenho de responder a uma
chamada da natureza, Terei todo o prazer em responder s vossas
perguntas mais tarde. Apressou-se at  casa de banho dos homens que
ficava ao fundo do corredor. Um letreiro na maaneta dizia:
AVARIADO. Um reprter disse:

-Parece que vai ter que encontrar outra casa de banho, Napoleon
Chotas deu um sorriso largo.

-No aguento mais. -Arrombou a porta  fora, entrou e trancou-a atrs
de si,

A equipa estava l dentro  espera dele. 0 mdico queixou-se:

-J estava a ficar preocupado. 0 antimnio atua rapidamente.

-Disse asperamente o assistente.

-Prepare a bomba gstrica.

#
-Sim, doutor.

0 mdico virou-se para Napoleon Chotas.

-Deite-se no cho, Lamento, mas isto vai ser desagradvel,

-Quando considero a alternativa -Napoleon Chotas deu um sorriso
largo -, estou certo de que no me importo.

Os honorrios de Napoleon Chotas para salvar a vida de Anastasia
Savalas foram de um milho de dlares, depositados numa conta
bancria na Sua. Chotas tinha uma casa palacial em Kolonarai -uma
elegante rea residencial de Atenas-, uma villa na ilha de Corfu e um
apartamento em Paris na Avenida Foch, Feitas bem as contas,
Napoleon Chotas tinha razes excelentes para estar satisfeito com a
vida. Havia apenas uma nuvem no seu horizonte. Chamava-se
Frederick Stavros, e era o membro mais recente de Tritsis e Tritsis. Os
outros advogados da firma queixavam-se constantemente de Stavros.

-Ele  de segunda qualidade. Ol ugar dele no  numa firma como
esta...

-Stavros quase deu cabo do meu caso, 0 homem  um idiota. -J sabe

o que o Stavros fez ontem no tribunal? 0 juiz quase o ps de l para
fora..,
-Raios, por que no o despede? Ele aqui  uma quinta roda. No
precisamos dele, e ele est a prejudicar a nossa reputao. Napoleon
Chocas estava bem consciente disso. E quase se sentiu tentado a deixar
escapar a verdade: "no posso despedi-lo.~

Mas tudo o que dizia era:

-Dem-lhe uma oportunidade. 0 Stavros vai sair-se bem. E foi tudo o
que os scios conseguiram tirar dele. Um filsofo disse um dia:

-Toma cuidado com o que desejas; podes consegui-lo. Frederick
Stavros, o membro mais novo de Tritsis e Tritsis, conseguira o seu
deseja, e isso fizera dele o homem mais infeliz da terra, Era incapaz de
dormir ou comer, e o seu peso diminura alarmantemente.

-Tens de ir ao mdico, Frederick-insistia a mulher. Ests com muito
mau aspecto.

-No, eu.,. de nada serviria.

Ele sabia que o seu mal no podia ser tratado por nenhum mdico. A
sua conscincia matava-o, Frederick Stavros era um homem novo,

#
intenso, ansioso, ambicioso e idealista, Durante anos trabalhara num
escritrio pobre eri Monastiraki, a rea pobre de Atenas, defendendo
clientes indigentes, muitas vezes sem receber honorrios. Quando
conheceu Napoleon Chotas, a sua vida mudou da noite para o dia. Um
ano antes, Stavros defendera Lorry Douglas, em julgamento com
Noelle Page pelo homicdio da mulher de Douglas, Catherine.
Napoleon Chotas fora contratado pelo poderoso Constantin Demiris
para defender a sua amante. Desde o incio, Stavros ficara feliz por
Chatas ter-se encarregado de ambas as defesas. Ele estava espantado
com o novo advogado.

-Devias ver o Chotas em ao - dizia ele  mulher. 0 homem  incrvel.
Quem me dera poder trabalhar na firma dele um d:.a. Quando o
julgamento se aproximava do seu termo, houve uma alterao
inesperada. Um Napoleon Chotas sorridente reuniu Noelle Page, Lorry
Douglas e Frederick Stavros numa sala de audincias privada.

Chotas disse a Stavros.

-Acabei de conferenciar com os juzes. Se os rus estiverem dispostos
a transformar as suas aes em culpa, os juzes concordaram em
aplicar a cada um uma pena de cinco anos, sendo quatro aros de pena
suspensa. De fato, no tero de cumprir mais do que seis meses.
-Voltou-se para Lorry. -Pelo fato de ser americano, senhor Douglas,
ser deportado. No ser autorizado a regressar  Grcia. Noelle Page
e Lorry Douglas concordaram ansiosamente em alterar as suas defesas.
Um quarto de hora mais tarde, quando os rus e os advogados se
encontravam diante do banco o juiz-presidente disse:

-Os tribunais gregos nunca aplicaram a pena de morte num caso em
que um homicdio no tivesse ficado definitivamente comprovado. Os
meus colegas e eu ficamos, por essa razo, francamente surpreendidos
quando os rus passaram as suas defesas a culpa a meio do
julgamento... pronuncio que a sentena para os dois rus, Noelle Page
e Lorry Douglas, ser a execuo por um esquadro de fuzilamento... a
ser cumprida dentro de noventa dias a partir desta data. E foi nesse
momento que Stavros soube que Napoleon Chotas os trara a todos.
Nunca houvera nenhum acordo. Chotas fora contratado por Constantin
Demiris no para defender Noelle Page, mas para garantir a sua
condenao. Esta foi a vingana de Demiris sobre a mulher que o
havia trado. Stavros fora um cmplice involuntrio numa trama a
sangue-frio. "No posso permitir que isto acontea", pensou Stavros.

#
Vou dizer ao juiz-presidente o que Chotas fez, e o veredito sofrer
uma reviravolta. E ento Napoleon Chotas viera ao encontro de
Stavros e dissera: - Caso esteja livre amanh, por que no vem almoar
comigo, Frederick? Gostaria que conhecesse os meus scios... Quatro
semanas depois, Frederick Stavros era um scio a tempo inteiro na
prestigiosa firma de Tritsis e Tritsis, com um gabinete enorme e um
salrio generoso. Vendera a alma ao diabo. Mas chegara  concluso
de que era terrvel guardar esse segredo. -"No posso continuar assim.
No conseguia ver-se livre dos sentimentos de culpa. "Sou um
assassino", pensou. Frederick Stavros-agonizava no seu dilema e
chegou por fim a uma deciso. Entrou no gabinete de Napoleon
Chotas certa manh bem cedo. -Leon... Meu Deus, homem, por que
no tira umas feriazitas, Frederick? S lhe far bem. Mas Stavros sabia
que essa no era a soluo para o seu problema. -Leon, estou-lhe
muito grato pelo que fez por mim, mas no posso continuar aqui.
Chotas olhou para ele surpreendido.

-Que est para a a dizer? Voc est a sair-se bem, -No. Eu... eu
sinto-me arrasado.

-Arrasado? No sei o que est a perturb-lo. Frederick Stavros olhou
para ele incredulamente.

-0 que... o que eu e voc fizemos ao Noelle Page e ao Lorry Douglas.
No. no sente nenhuma culpa?

Os olhos de Chotas contraram-se. Cuidado.

-Frederick, por vezes a justia tem de ser feita de uma forma tortuosa.
-Napoleon Chotas sorriu. -Acredite-me, ns no temos que nos
recriminar por nada. Eles eram culpados.

-Fomos ns que os condenamos. Ns enganamo-los. No aguento
mais. Lamento. Vim entregar o meu aviso de demisso. Ficarei aqui
at ao fim do ms.

-No aceito a sua demisso-disse Chotas firmemente. Por que no faz
como eu lhe sugeri,.. tire umas frias e...?

-No. Eu nunca poderia ser feliz aqui, sabendo o que sei. Peo
desculpa.

Napoleon Chotas analisou-a, com olhar duro.

-Tem alguma idia do que est a fazer? Est a deitar fora uma carreira
brilhante... a sua vida.

#
-No. Estou a salvar a minha vida.
-Ento tomou mesmo uma deciso definitiva?
-Tomei. Tenho muita pena, Leon. Mas no precisa de se preocupar, eu


nunca falarei. do que aconteceu.-Virou-se e saiu do gabinete.
Napoleon Chotas sentou-se  secretria durante muito tempo, perdido


em pensamentos. Por fim, tomou uma deciso. Levantou o telefone e
marcou um nmero.
-Comunique ao senhor Demiris que preciso de v-lo esta tarde. Diga-


lhe que  urgente.


s quatro horas dessa tarde, Napoleon Chotas estava sentado no
gabinete de Constantin Demiris.
-Qual  o problema, Leon?-perguntou Demiris,
-Pode no haver problema -replicou Chotas cuidadosamente-, mas


achei que devia dizer-lhe que o Frederick Stavros veio falar comigo


esta manh. Decidiu abandonar a firma.
-Stavros? 0 advogado do Lorry Douglas? E depois? -Parece que a
conscincia est a pesar-lhe.


Houve um silncio pesado. -Estou a entender.


-Ele prometeu no falar daquilo... daquilo que ocorreu naquele dia no
tribunal.
-Acredita nele?
-Sim. De fato, acredito, Costa, Constantin Demiris sorriu. -Ento, est


bem. No temos com que nos preocupar, pois no? Napoleon Chotas
levantou-se aliviado.
-Suponho que no. Apenas pensei que devia dizer-lhe.
-Fez bem em dizer-me. Est livre para jantar na semana que vem?
-Claro.


-Eu telefono-lhe, e combinamos qualquer coisa, -Obrigado, Costa.
Na sexta-feira, ao fim da tarde, a velha igreja de Kapnikarea na baixa
de Atenas estava repleta com o som do silncio, tranqilo e abafado,
Num canto junto ao altar, Frederick Stavros estava ajoelhado diante do
padre Konstantinou. 0 padre colocou um pano sobre a cabea de
Stavros.


-Eu pequei, padre. No tenho salvao.


#
-0 grande problema do homem, meu filho,  que ele pensa que 
apenas humano. Quais so os seus pecados?

-Sou um assassino.

-Tirou a vida a algum?

-Sim, padre. No sei o que fazer para expiar.

-Deus sabe o que ir fazer. Vamos perguntar-Lhe. -Deixei-me
desencaminhar, por vaidade e ganncia. Aconteceu h um ano. 0
julgamento corria bem. Mas depois o Napoleon Chotas.

Quando Frederick Stavros deixou a igreja meia hora depois, sentia-se
um homem diferente. Foi como se lhe tivessem tirado um tremendo
fardo dos ombros. Sentiu-se purificado pelo ritual secular da
confisso, Contara tudo ao padre e, pela primeira vez desde aquele dia
terrvel, sentiu-se de novo completo. "Vou comear uma vida nova.
Vou viver noutra cidade e comear tudo de novo. Tentarei de alguma
forma compensar a coisa terrvel que fiz. Obrigado, Pai, por me dar
nova oportunidade. A escurido cara sobre a cidade, e o centro da
Praa Ermos estava quase deserto. Assim que Frederick Stavros
alcanou a esquina da rua, o sinal ficou verde e ele comeou a
atravessar. Quando estava a meio do cruzamento, uma limousine negra
comeou a descer a colina com os faris acesos, vociferando em
direo a ele como um monstro gigantesco e irracional. Stavros
arregalou os olhos, gelado.

Era tarde de mais para saltar. Houve um estrondo enorme, e Stavros
sentiu o corpo ser esmagado e separado em dois. Houve um instante de
dor excruciante, e depois escurido. Napoleon Chotas era madrugador.
Gostava dos momentos de solido antes que as presses do dia
comeassem a devor-lo. Tomava o pequeno-almoo sempre sozinho e
lia os matutinos  refeio. Nesta manh particular havia vrios artigos
de interesse. 0 primeiro-ministro Themistocles Sophoulius havia
formado um novo governo sustentado por uma coligao de cinco
partidos. As foras comunistas chinesas tinham chegado  margem
norte do rio Yangts. Harry Truman e Alben Barkley tomaram posse
como presidente e vice-presidente dos Estados Unidos. Napoleon
Chotas virou a pgina, e o sangue gelou-se-lhe. A notcia que o atraiu
dizia o seguinte: 0 senhor Frederick Stavros, scio da prestigiosa firma
de advogados Tritsis e Tritsis, foi atingido e morto a noite passada, por
um condutor que se ps em fuga, quando saia da Igreja de Kapnikarea.
De acordo com testemunhas oculares, tratava-se de uma limousine

#
preta sem chapa de matrcula. 0 senhor Stavros foi uma figura
importante no sensacional julgamento de Noelle Page e Lorry
Douglas. Era o advogado de Lorry Douglas e... Napoleon Chotas
parou de ler. Sentou-se na cadeira, rgido, o pequeno-almoo
esquecido. Um acidente. Foi um acidente? Constantin Demiris dissera-
lhe que no precisava de preocupar-se com nada. Mas muitas pessoas
haviam cometido o erro de avaliar Constantin Demiris pelo significado
manifesto. Chotas pegou no telefone e ligou para Constantin Demiris.
Uma secretria p-lo em comunicao.

-J leu o jornal da manh?-perguntou Chotas. -No, no li. Porqu?

-Frederick Stavros morreu,

-0 qu?-Foi uma exclamao de surpresa. -0 que  que me est a dizer?

-Foi morto a noite passada por um condutor que se ps em fuga. - Meu
Deus. Sinto muito, Leon, J apanharam o condutor? -No, ainda no.

-Talvez eu consiga pressionar um pouco mais a polcia. Ningum est
seguro nos dias de hoje. A propsito, que tal almoarmos na quinta-
feira?

-timo.

-Est combinado.

Napoleon Chocas era um perito a ler nas entrelinhas. "Constantin
Demiris ficou genuinamente surpreendido. No tinha nada a ver com a
morte de Stavros", concluiu Chotas. Na manh seguinte, Napoleon
Chotas entrou na garagem privativa do seu edifcio de escritrios e
estacionou o cano. Quando se dirigia para o elevador, um homem novo
surgiu das sombras. -Tem lume? Um alarme assaltou a mente de
Chotas. 0 homem era um estranho, e no tinha motivos para estar na
garagem.

-Certamente.

Sem pensar, Chotas bateu com a pasta na cara do homem. 0 estranho
gritou cheio de dores.

-Seu filho da puta!

Meteu a mo no bolso e puxou de uma pistola com um silenciador
incorporado.

-Eh! 0 que  que se passa a?-gritou uma voz. Um guarda fardado
corria na direo deles.

#
0 estranho hesitou por uin instante, depois correu para a porta aberta.

0 guarda chegou ao p de Chotas.

-0 senhor est bem, senhor Chotas?

-Ah... sim. -Napoleon Chotas estava com dificuldades em respirar, Estou
timo.

-0 que  que ele lhe quis fazer? Napoleon Chotas disse lentamente;
-No tenho a certeza.

"Podia ter sido uma coincidncia", dizia Chotas a si prprio quando sesentou  secretria.  possvel que o homem estivesse simplesmente a
assaltar-me. Mas uma pessoa no usa uma arma com um silenciador
para assaltar. No, a inteno dele era matar-me." E Constantin
Demiris teria declarado ter ficado chocado com a notcia como fingira
ter estado sobre a morte de Frederick Stavros. "Eu devia ter sabido",
pensou Chotas. "Demiris no  homem para correr riscos. No pode
permitir deixar pontas soltas. Bem, o senhor Demiris que se prepare
para uma surpresa." A voz da secretria de Napoleon Chotas surgiu no
intercomunicador;

-Senhor Chotas, deve comparecer no tribunal dentro d trinta minutos.

Hoje era o sumrio dele num caso de homicdios em srie, mas Chotas
estava demasiado abalado para aparecer no tribunal. -Telefone ao juiz
e diga-lhe que estou doente. Um dos scios que faa o meu trabalho.
No recebo mais chamadas.

Tirou um gravador de uma gaveta da secretria e sentou-se, a pensar.
Depois comeou a falar. Logo a seguir ao almoo, Napoleon Chotas
apareceu no gabinete do advogado do Ministrio Pblico, Peter
Demonides, com um envelope castanho. 0 recepcionista reconheceu

imediatamente.

-Boa tarde, senhor Chotas. Posso a~ud-lo? -Quero falar com o
senhor Demonides.

-Ele est numa reunio. Tem hora marcada?

-No. Diga-lhe que eu estou aqui, e que  urgente. -Sim, naturalmente.

Quinze minutos depois, Napoleon Chotas foi conduzido ao gabinete
do advogado do Ministrio Pblico.

-Bem -disse Demonides-,vem Maom  montanha. Em que possoajud-lo? Vamos negociar um pequeno apelo hoje  tarde? -No.  um

#
assunto pessoal, Peter.
-Sente-se, Leon.
Quando os dois homens estavam sentados Chotas disse:
-Quero deixar um envelope consigo. Est selado, e  para ser aberto


apenas caso eu tenha uma morte acidental.
Peter Demonides analisava-o, curioso.
-Est  espera que lhe acontea alguma coisa? - uma possibilidade.
-Compreendo. Um dos seus clientes ingratos?
-No interessa quem. Voc  a nica pessoa em quem posso confiar.


Pode guardar isto num cofre a que ningum possa chegar? -Claro. Ele
inclinou-se para a frente . -Voc parece assustado.


-E estou.
-Quer que o meu departamento lhe d alguma proteo? -Posso
mandar um polcia acompanh-lo.


Chotas batia no envelope com a mo.


-Esta  a nica proteo de que preciso. -Pois bem. Se est assim to
certo.
-Estou. -Chotas levantou-se e estendeu a mo. -Epharisto. No lhe sei


dizer o quanto estou agradecido.
Peter Demonides sorriu. -Parakalo. Fica-me a dever uma.
Uma hora depois, um mensageiro fardado apareceu nos escritrios da


Corporao do Comrcio helnico. Aproximou-se de uma das
secretrias.


-Trago uma encomenda para o senhor Demiris. -Eu assino.
-Tenho ordens para entregar ao senhor Demiris pessoalmente.
-Desculpe, mas no posso interromp-lo. Quem  que manda a
encomenda?


-Napoleon Chotas.


-Tem a certeza de que no pode simplesmente deix-la aqui? -Tenho,
minha senhora.
-Vou ver se o senhor Demiris quer receb-la. Premiu o boto do


intercomunicador.
-Desculpe, senhor Demiris. Est aqui um mensageiro com uma


#
encomenda do senhor Chotas para si.

Avoz de Demiris surgiu no intercomunicador. -Traga c, Irene.

-Ele diz que tem ordens para entregar pessoalmente. Houve uma
pausa.

-Traga-o c dentro.

Irene e o mensageiro entraram no gabinete. -0 senhor Constantin
Demiris ?

-Sou.

-Assina-me isto, por favor?

Demiris assinou um talo. 0 mensageiro colocou o envelope na
secretria de Demiris.

-Obrigado.

Constantin Demiris seguiu a sada da secretria e do mensageiro.
Estudou o envelope, de rosto pensativo, depois abriu-o. Havia um
gravador no interior, com uma fita dentro, Curioso, premiu um boto e
a fita comeou a tocar. A voz de Napoleon Chotas invadiu a sala.

-Meu caro Costa: Tudo teria sido mais simples se voc tivesse
acreditado que Frederick Stavros no fazia tenes de revelaro nosso
pequeno segredo. 0 que mais me custa  que voc no tivesse
acreditado que eu no fazia tenes de falar sobre esse assunto
incmodo, Tenho todas as razes para pensar que voc esteve por
detrs da morte do pobre Stavros, e que  agora sua inteno mandar
matar-me. Como a minha vida me  to preciosa quanto a sua para si,
devo respeitosamente declinar ser a sua prxima vtima... Tomei a
precauo de escrever os pormenores do papel que ns os dois
desempenhamos no julgamento de Noelle Page e Larry Douglas, e
coloquei-os num envelope selado que entreguei ao advogado de
acusao para ser aberto em caso da minha morte acidental. De forma
que  agora do seu interesse, meu amigo, cuidar que eu fique vivo e
bem. -A fita terminou. Constantin Demiris deixou-se ficar, a olhar o
vazio, Quando Napoleon Chotas regressou ao escritrio nessa tarde, o
medo tinha-o abandonado. Constantin Demiris era um homem
perigoso, mas estava longe de ser um idiota. No ia prejudicar
ningum sob pena de pr em perigo a sua prpria pessoa. "Ele fez o
lance , pensou Chotas, "e eu dei-lhe xeque-mate. Ele sorriu para si.
"Acho que tenho de fazer outros planos para o jantar de quinta-feira."

#
Nos dias que se seguiram, Napoleon Chotas esteve atarefado a
preparar-se para um novo julgamento de homicdio envolvendo uma
mulher que matara as duas amantes do marido. Chotas levantava-se
cedo todas as manhs e trabalhava at altas horas da noite, preparando
as suas contra-interrogaes. 0 instinto dizia-lhe que-contra todas as
probabilidades-iria vencer de novo. Na quarta-feira  noite, trabalhou
no escritrio at  meia-noite e depois foi para casa. Chegou  villa 
uma da manh. 0 mordomo cumprimentou-o  porta.

-Deseja alguma coisa, senhor Chotas? Posso preparar-lhe uns mezedes
se estiver com fome, ou...

-No, obrigado. Estou bem. V-se deitar.

Napoleon Chotas subiu para o quarto. Passou a hora seguinte a rever
mentalmente o julgamento, finalmente s duas da manh, adormeceu.
Sonhou. Estava no tribunal, a contra-interrogar uma testemunha,
quando a testemunha repentinamente comeou a rasgar a prpria
roupa. -Par que est a fazer isso? -Chotas perguntou.

-Estou a morrer de calor.

Chotas correu o olhar pela sala de audincias apinhada de gente e viu
que todos os espectadores estavam a despir-se.

Voltou-se para o juiz.

-Meritssimo, devo protestar contra... 0 juiz estava a tirar a toga.

-Est muito calor aqui dentro -disse ele. " Est quente aqui. E
barulhento.

Napoleon Chotas abriu os olhos. As chamas lambiam a porta do quarto
e o quarto estava cheio de fumo. Napoleon sentou-se, acordando
instantaneamente. " A casa est a arder. Por que  que o alarme no
tocou?" A porta comeava a empenar por causa do calor intenso.
Chotas correu para a janela, engasgando-se com o fumo. Tentou abrir
a janela  fora, mas estava emperrada. 0 fumo estava a ficar espesso,
e era cada vez mais difcil respirar, No havia sada. As brasas em
chama comearam a cair do teto. Uma parede abateu e um lenol de
chamas devorou-o. Ele gritava. 0 cabelo e o pijama estavam a arder.
s cegas, atirou-se contra a janela e atravessou-a, o seu corpo ardente
estatelando-se no cho que ficava a cinco metros. Logo pela manh do
dia seguinte, uma criada conduziu o promotor pblico Peter
Demonides ao escritrio da residncia de Constantin Demiris.

#
-Kalimehra, Peter-disse Demiris. -Obrigado por ter vindo. Trouxe
aquilo?

-Trouxe, sim. -Entregou a Demiris o envelope selado que Napoleon
Chotas lhe dera. -Pensei que pudesse querer guardar isto aqui.

-Foi muito atencioso da sua parte, Peter. Quer tomar o pequeno-
almoo?

-Efharisto.  muita gentileza sua, senhor Demiris.

-Costa. Trate-me por Costa. H algum tempo que o trago debaixo de
olho, Peter. Acho que voc tem um futuro importante. Gostava de lhe
arranjar uma boa posio na minha organizao. Estaria interessado?

Peter Demonides sorriu.

-Sim, Costa. Estaria muito interessado.

-timo. Vamos falar sobre o assunto ao pequeno-almoo.

Londres

Catherine falava com Constantin Demiris pelo menos uma vez por
semana, o que se tornara um hbito. Ele continuava a enviar presentes,
e quando ela protestava ele garantia-lhe que eram somente pequenas
provas do seu agradecimento.

-A Evelyn contou-me da sua eficincia no tratamento do caso Baxter.

- Ou; -Soube pela Evelyn que a sua idia est a fazer-nos poupar muito
dinheiro nos encargos de transporte.
Na realidade, Catherine orgulhava-se do seu sucesso. Deparara com
meia dzia de coisas no escritrio que poderiam ser melhoradas.
Recuperara as suas antigas capacidades, e sabia que a eficincia do
escritrio melhorara bastante graas a si.

-Estou muito orgulhosa de si-disse-lhe Constantin Demiris. E
Catherine sentiu uma excitao. Ele era um homem to maravilhoso e
carinhoso.

"Est quase na hora de avanam, concluiu Demiris. Com Stavros e
Chotas seguramente afastados, a nica pessoa que podia lig-lo ao que
acontecera era Catherine. Esse perigo era mnimo, mas, como
Napoleon hotas descobrira, Demiris no era um homem que corresseriscos. "E uma pena", pensou Demiris, "que ela tenha de morrer.  to
bela. Mas, primeiro, a villa de Rafina." Ele tinha comprado a villa.
Levaria Catherine para l e faria amor com ela exatamente como Larry

#
Douglas fizera amor com Noelle. Depois disso... De vez em quando,
Catherine recordava-se do passado. Leu no Times de Londres a notcia
dasmortes de Frederick Stavros e Napoleon Chotas, e os nomes no
lhe teriam dito nada  exceo da referncia de que tinham sido os
advogados de Larry Douglas e Noelle Page. Nessa noite voltou a ter o
sonho. Certa manh, Catherine viu um artigo num jornal que a abalou:
"William Fraser, assistente do presidente americano Harry Truman,
chegou a Londres para preparar um acordo comercial com o primeiro-
ministro britnico." Baixou o jornal, sentindo-se idiotamente
vulnervel. William Fraser. Ele fora uma parte to importante da sua
vida. "Que teria acontecido se eu no o tivesse deixado?" Catherine
sentou-se  secretria, sorrindo tremulamente, com o olhar fixo na
notcia do jornal. William Fraserf oi um dos homens mais queridos que
conhecera. S lembrar-se dele fez que se sentisse ardente e amada. E
ele estava aqui em Londres. "Tenho de v-lo", pensou. Segundo o
jornal, ele estava no Claridge's. Catherine marcou o nmero do hotel, e
os seus dedos tremiam. Ela teve a sensao de que o passado estava
prestes a tornar-se presente. Sentiu-se excitada com a idia de ver
Fraser. "Que dir ele quando ouvir a minha voz? Quando me voltar
ele a ver?" A telefonista disse: -Bom dia, Claridge's, Catherine
respirou fundo. -0 senhor William Fraser, por favor.

-Desculpe, minha senhora. Disse senhor ou senhora William Fraser?

Catherine parecia que lhe tinham batido. <Como eu fui idiota. Porque
 que eu no pensei nisso? Claro que nesta altura ele j podia ser
casado."

Minha senhora...

-Eu.., deixe estar. Obrigada. -Colocou o telefone lentamente.

"Cheguei tarde de mais. Acabou-se. 0 Costa tinha razo. 0 passado
deve pertencer ao passado."

A solido pode ser um corrosivo, que consome o esprito. Todas as
pessoas precisam de partilhar a alegria, a glria e a dor. Catherine
vivia num mundo cheio de estranhos, observando a felicidade de
outros casais, ouvindo o eco do riso daqueles que se amam. Mas
recusou sentir pena por si prpria. "No sou a nica mulher do mundo
que est sozinha. Estou viva! Estou viva!" Havia sempre que fazer em
Londres. Os cinemas de Londres estavam cheios de filmes americanos,
e Catherine gostava de ir ao cinema. Viu 0 Fio da Navalha e Ana e o
Rei de Sio. Um Acordo de Caoalheiros era um filme perturbante, e

#
Gary Cooper estava maravilhoso em The Bachelor and the Bobby-
Soxer. Catherine ia a concertos no Royal AlbertHall e assistia a
bailados em Sadler's Well. Foi a Stratford-upon-Avon ver Anthony
Quayle em A Fera Amansada, e Laurence Olivier em Ricardo 111.
Mas no tinha graa nenhuma ir sozinha. Foi ento que apareceu Kirk
Reynolds. Foi no escritrio que um homem alto e atraente se dirigiu a
Catherine e disse: -Chamo-me Kirk Reynolds. Por onde tem andado?
-Perdo?

-Tenho estado  sua espera. Foi assim que comeou.

Kirk Reynolds era um advogado americano, que trabalhava para
Constantin Demiris em fuses internacionais. Estava na casa dos
quarenta, era sincero, inteligente e atencioso.

Quando falou de Kirk Reynolds a Evelyn, Catherine disse: -Sabes o
que mais me agrada nele? Faz-me que eu me sinta uma mulher. H
muito tempo que eu no sentia isso.

-No sei-Evelyn objetou. -Eu se fosse a ti tomava cuidado. No
precipites as coisas,

-No o farei-disse Catherine.

Kirk Reynolds levou Catherine a uma viagem legal atravs de
Londres. Estiveram no Old Bailey, onde os criminosos foram julgados
durante sculos, e perambularam pelos trios dos tribunais, cruzaram-se
com causdicos de aspecto grave, peruca e toga. Visitaram as
instalaes da Priso de Newgate, construda no sculo XVIII. Mesmo
em frente do local onde estivera a igreja, a estrada alargava-se,
estreitando-se inesperadamente.

- estranho-disse Catherine.-Por que ser que construram uma rua
assim?

-Para acomodar as multides. Era aqui que costumavam realizar-se as
execues pblicas.

Catherine estremeceu. "Quase atingiu o alvo"

Certa noite, Kirk Reynolds levou Catherine  East India Dock Road,
ao longo dos quebra-mares.

-Ainda no h muito tempo, os polcias andavam aos pares neste lugar-
disse Kirk.-Era o ponto de encontro dos criminosos. Jantaram no
Prospect of Whitby, um dos pus mais antigos da Inglaterra,
localizado numa varanda construda sobre o Tmisa, vendo as barcaas

#
que desciam o rio e se cruzavam com os grandes navios que iam a
caminho do mar. Catherine adorava os nomes fora do vulgar dos pubs
londrinos. Ye Olde Cheshire Cheese, o Falstaff e o Goat in Boots.
Noutra noite, foram a um velho e pitoresco pub em City Road que se
chamava Eagle.

-Aposto que as tuas cantigas de criana se referiam a este stio -disse
Kirk.

Catherine olhou fixamente para ele.

-Referiam-se a este stio? Eu nem sequer ouvi falar daqui. -Ouviste,
sim. 0 Eagle est na origem de uma rima infantil. -Que rima infantil?

-Aqui h uns anos, a City Road era o centro do comrcio de alfaiataria,
e por volta do fim-de-semana os alfaiates costumavam estar sem
dinheiro, e punham o ferro de engomar no prego at ao dia de

pagamento. De forma que houve algum que escreveu uma rima infantil
sobre isso:

Acima e abaixo da City Road Para dentro e para fora do Eagle Assim
que o dinheiro desaparece L se aai o ferro de engomar

Catherine riu-se.

-Onde  que aprendeste isso?

-Um advogado deve saber tudo. Mas h uma coisa que eu no sei.
Sabes esquiar?

-Infelizmente no. Porqu? De repente ele ficou srio.

- que eu vou a St. Moritz. H l timos instrutores de esqui. Queres
vir comigo, Catherine?

A pergunta apanhou-a completamente desprevenida. Kirk aguardava
uma resposta.

-Eu... no sei, Kirk.

-Queres pensar no assunto?

-Quero. -0 corpo tremia-lhe. Lembrou-se de como fora excitante fazer
amor com Larry, e interrogava-se se poderia voltar a sentir algo
semelhante. -Vou pensar no assunto.

Catherine decidiu apresentar Kirk a Wim. Foram apanhar Wim no
apartamento e levaram-no a jantar ao restaurante The Ivy. Durante
toda a noite, Wim nem por uma vez olhou de frente para Kirk

#
Reynolds. Parecia completamente retrado. Kirk olhou para Catherine
de esguelha. Ela disse num trejeito:


-Fala com ele.
Kirk fez que sim com a cabea e voltou-se para Wim. -Gosta de
Londres, Wim?


- um lugar agradvel.
-Tem uma cidade preferida? -No.
-Gosta do seu emprego? - agradvel.
Kirk olhou para Catherine, sacudiu a cabea e encolheu os ombros.


Catherine voltou a dizer num trejeito:
-Por favor.
Kirk suspirou e insistiu.
-Vou jogar golfe no domingo, Wim. Joga?
E Wim desfiou de uma assentada todos os tipos de tacos que se usam


no golfe. Kirk Reynolds pestanejou.
-Voc deve ser muito bom.
-Ele nunca jogou-explicou Catherine. -0 Wirn apenas sabe coisas. 


um s em matemtica.


Kirk Reynolds estava farto. Esperara passar uma tarde sozinho com
Catherine, mas ela trouxera este chato atrs.
Kirk forou um sorriso.
-Ah ?-Virou-se para Wim e perguntou inocentemente. -Por acaso sabe


a quinquagsima-nona potncia de dois?


Wim ficou em silncio durante trinta segundos a estudar a toalha da
mesa, e, quando Kirk se preparava para falar, Wim disse:
-576, 460, 752, 303, 423, 488.
-Meu Deus! -disse Kirk. -Isso  verdade? Catherine voltou-se para


Wim.


-Wim,  capaz de achar a raiz quadrada de... -Ela escolheu um nmero
ao acaso. -24137 585?
Ficaram ambos a olhar para Wim enquanto ele ali ficava, de rosto


inexpressivo. Vinte e cinco segundos depois ele disse: -Dezessete; e o
resto so dezesseis.


#
-No posso crer-exclamou Kirk. -Pois acredita-disse-lhe Catherine.
Kirk olhou para Wim.

-Como  que conseguiu fazer isso? Wim encolheu os ombros.
Catherine disse:

-0 Wim  capaz de multiplicar dois nmeros de quatro algarismos em
trinta segundos e memorizar cinqenta nmeros de telefone em cinco
minutos. Assim que os aprende, nunca mais se esquece.

Kirk Reynolds estava a olhar para Wim Vandeen espantado. -De
certeza que o meu escritrio precisava de algum como voc -disse
ele,

-Eu j tenho emprego -disse Wim asperamente.

Quando Kirk Reynolds deixou Catherine no fim da noite, disse: -No
te vais esquecer de St. Moritz, pois no?

-No. No me esquecerei. "Por que no consigo dizer simplesmente
que sim?"

Constantin Demiris telefonou tarde nessa noite. Catherine esteve
tentada a falar-lhe de Kirk Reynolds, mas no ltimo momento decidiu
no faz-lo.

Atenas

0 padre Konstantinou andava perturbado. Desde o momento em que
vira a reportagem do jornal sobre a morte de Frederick Stavros
causada por um condutor que se ps em fuga, sentia-se perseguido
pela mesma. 0 padre ouvira centenas de confisses desde que fora
ordenado, mas a confisso dramtica de Frederick Stavros,  qual se
seguiu a sua morte, deixara uma impresso indelvel.

-Eh, o que  que te est a incomodar?

0 padre Konstantinou virou-se para olhar para o belo jovem que estava
deitado nu a seu lado na cama.

-Nada, amor. -No te fao feliz? -Sabes que sim, Georgios.

-Ento qual  o problema? Comportas-te como se eu no estivesse
aqui, pelo amor de Deus.

-No uses profanidades. -No gosto de ser ignorado.

-Desculpa-me, querido,  que... um dos meus paroquiantes morreu
num acidente de automvel.

#
-Todos ns temos que partir um dia, no ?

-Sim, claro. Mas o homem estava muito perturbado. -Estava doente da
cabea?
-No. Ele tinha um segredo terrvel, e era um fardo pesado de mais
para ele aguentar.


-Que espcie de segredo?
0 padre acariciou a coxa do jovem.
-Tu sabes que eu no posso falar sobre isso. Foi-me dito no


confessionrio.
-Pensei que no havia segredos entre ns. -No h, Georgios, mas...
-Garroto! Ou h ou no h. De qualquer forma, disseste que o tipo


morreu. Que diferena pode isso fazer agora?
-Creio que nenhuma, mas...
Georgios Lato abraou o companheiro de cama e sussurrou-lhe ao


ouvido.
-Estou curioso.
-Ests-me a fazer ccegas no ouvido.
Lato comeou a acariciar o corpo do padre Konstantinous. -Oh... no


pares...
-Ento conta-me.
-Est bem. Acho que no faz mal nenhum agora...
Georgios Lato subira na vida. Nasceu nos bairros da lata de Atenas, e


quando tinha doze anos tornou-se prostituto. No incio, Lato andava
nas ruas, ganhando alguns dlares por prestar servios a bbados nos
becos e turistas nos seus quartos de hotel. Era dotado de uma beleza
morena e de um corpo firme e forte. Quando tinha dezasseis anos, um
chulo disse-lhe:


-Tu s um poulaki, Georgios. Ests a deitar fora esse atributo. Possa


fazer com que ganhes muito dinheiro,
E cumpriu a promessa. Desse dia em diante, Georgios Lato apenas
servia homens ricos e importantes, e era generosamente
recompensado.


Quando Lato conheceu Nikos Ventos, o assistente pessoal do grande
nababo Spyros Lambrou, a vida de Lato mudou. -Estou apaixonado

#
por ti-disse NikosVentos ao jovem.-No te quero ver a andar para a
no engate. Tu agora pertences-me. -Certo, Niki. Eu tambm te amo.
Ventos estava constantemente a mimar o rapaz com prendas.
Comprava-lhe roupa, pagava-lhe o pequeno apartamento e dava-lhe
dinheiro para despesas midas. Mas atormentava-se com o que Lato
fazia quando se ausentava. Ventos resolveu o problema um dia ao
dizer-lhe: -Arranjei-te um emprego na companhia de Spyros Lambrou,
onde trabalho.

-Para andares sempre de olho em mim? Eu no...

-Clara que no  isso, coisa doce. S que gosto de te ter ao p de mim.

Georgios Lato de incio protestara, mas acabou por ceder. Concluiu
que realmente gostava de trabalhar naquela firma. Trabalhava na seo
de correio como paquete, e isso dava-lhe liberdade de arranjar dinheiro
extra de clientes gratos como o padre Konstantinous. Quando
Georgios Lato deixou a cama do padre Konstantinous nessa tarde,
tinha a mente num turbilho. 0 segredo que o padre lhe conara era
uma notcia surpreendente, e o pensamento de Georgios Lato logo se
virou para a forma como poderia fazer dinheiro da mesma. Podia t-la
confiado a Nikos Ventos, mas tinha outros planos. "Vou direto ao
manda-chuva com isto", disse Lato para si prprio. "A  que est a
grande recompensa p Na manh seguinte, Lato entrou na sala de
recepo de Spyros Lambrou. A secretria levantou os olhos.

-Oh, o correio hoje chegou cedo, Georgios. Georgios Lato sacudiu a
cabea.

-No, minha senhora. Preciso de falar com o senhor Lambrou. Ela
sorriu.

- mesmo? Para que  que queres v-lo?Tens alguma proposta
comercial a fazer-lhe?-zombou ela.

Lato disse com um ar srio.

-No, no  nada disso. Acabo d receber a notcia de que a minha me
est  morte, e eu... eu tenho de voltar para a terra. Queria apenas
agradecer ao senhor Lambrou o emprego que me deu aqui. S preciso
de um minuto, mas se ele tem muito que fazer... -Preparava-se para
sair.

-Espera. Tenho a certeza de que ele no se vai importar.

Dez minutos depois, Georgios Lato estava no gabinte de Spyros

#
Lambrou. Nunca l entrara antes, e a opulncia dominou-o. -Bem, meu
jovem. Lamento saber que a tua me esteja  morte. Talvez uma
pequena gratificao fosse...

-Obrigado, senhor. Mas no  realmente por isso que estou aqui.
Lambrou olhou-o de sobrolho franzido.

-No percebo.

-Senhor Lambrou, tenho uma informao importante que penso ter
muito valor para o senhor.

Viu o ceticismo no rosto de Lambrou.

-Verdade ?

-Infelizmente tenho muito que fazer, de forma que se no te... - sobre
Constantin Demiris. -As palavras saram com dificuldade.-Tenho um
grande amigo que  padre. Ele ouviu a confisso de um homem que
morreu pouco depois num acidente de viao, e o que o homem lhe
disse tem a ver com Constantin Demiris. 0 senhor Demiris fez uma
coisa terrvel. Realmente terrvel. Podia ir parar  priso por causa
disso. Mas se o senhor no est interessado...

Spyros Lambrou viu-se repentinamente muito interessado. -Senta-te...
Como  que te chamas?

-Lato, senhor. Georgios Lato.

-Muito bem, Lato. E se comeasses pelo princpio...?

0 casamento de Constantin Demiris e Melina andava em fase de
desagregao havia anos, mas nunca houvera qualquer violncia fsica
at recentemente. Comeara amgo de uma discusso acalorada por
causa de umaligao que Constantin Demiris mantinha com a amiga
mais chegada de Melina.

-Tufazes det odas as mulheres umas putas-gritou ela.-Tudo aquilo em
que tu tocas se transforma em porcaria.

-Skaseh! Cala-me essa boca horrorosa.

-Tu no me podes obrigar-disse Melina desafiadoramente. -Vou dizer
a toda a gente o pousti que tu s.

-0 meu irmo  que estava certo. Tu s um monstro.

Demiris levantou o brao e esbofeteou o rosto de Melina com fora.
Ela fugiu do quarto.

#
Na semana seguinte voltaram a discutir, e Constantin bateu-lhe de
novo. Melina fez as malas e apanhou um avio para Atticos, a ilha
particular que era propriedade do irmo. Ficou por l uma semana,
infeliz e sozinha. Sentiu saudades do marido e comeou a arranjar
desculpas para o que ele fizera. "A culpa foi minha", pensou Melina.
"Eu no devia ter contrariado o Costa." E: "Ele no me queria bater.
S que perdeu a cabea e no sabia o que estava a fazer." E: "Se o
Costa no se preocupasse tanto comigo, no me teria batido, pois
no?" Mas no fundo Melina sabia que eram apenas desculpas, porque
ela no conseguia suportar a ideia de acabar com o casamento. No
domingo seguinte estava de volta a casa. Demiris estava na biblioteca.
Ergueu o olhar quando Melina entrou. -Ento decidiste voltar.

-Esta  a minha casa, Costa. Tu s o meu marido, e eu amo-te.

Mas quero dizer-te uma coisa. Se voltas a tocar-me, eu mato-te. E ele
olhou-a nos olhos e viu que ela estava a falar a srio.

De umaf orma estranha o casamento deles pareceu melhorar aps este
episdio. Durante muito tempo depois, Constantin tomou o cuidado de
nunca perder a cabea com Melina. Continuava a ter as suas ligaes,
e Melina estava orgulhosa de mais para lhe pedir que parasse. "Um dia
ele vai fartar-se dessas cabras todas", pensou Melina, "e compreender
que s precisa de mim,"

Num sbado  noite, Constantin Demiris vestia um "smoking>,
preparando-se para sair. Melina entrou no quarto.

-Aonde  que vais? -Tenho um compromisso. -J te esqueceste? Hoje
vamos jantar  casa do Spyros. -No me esqueci. Surgiu uma coisa
mais importante. Melina ficou a olhar para ele, furiosa.

-E eu sei o que  ... a tua poulaki! E tu vais ter com uma das tuas putas
para te satisfazeres.

-Devias ter cuidado com a lngua. Ests a ficar uma mulher desbocada,
Melina, -Demiris examinou-se ao espelho.

-No consentirei que faas isto! -0 que ele lhe fazia a ela era bastante
mau, mas insultar deliberadamente o irmo dela depois de tudo o que
se passara era de mais. Ela tinha de achar uma forma de ofend-lo, e s
conhecia uma maneira.

-Devamos ficar os dois em casa esta noite -disse Melina. -No me
digas. -perguntou ele indiferentemente.-E porqu? -No sabes que dia
 hoje? -ela escarneceu dele.

#
-No.

-Faz hoje anos que matei o teu filho, Costa. Eu fiz um aborto. Ele
ficou imvel como um cepo, e ela viu as pupilas dos seus olhos
escurecerem.

-Eu disse aos mdicos que fizessem que eu nunca mais pudesse ter um
filho teu -mentiu ela.

Ele ficou completamente descontrolado:

-Skaseh! -E deu-lhe um soco no rosto, continuando a bater-lhe.

Melina gritou e virou-se e correu pelo corredor, Constantin correu
atrs dela. Agarrou-a no cimo das escadas.

-Vou matar-te pelo que fizeste-rugiu ele. Quando ele lhe batia de novo,
Melina perdeu o equilbrio e caiu, espalhando-se pela longa escadaria.

Ela jazia em baixo, choramingando de dor. -Oh, Deus. Ajuda-me. Parti
qualquer coisa.

Demiris deixou-se ficar, olhando-a fixamente, com um olhar frio. -Vou
mandar uma das criadas chamar um mdico. No quero chegar tarde
ao meu compromisso. A chamada telefnica surgiu pouco antes da
hora do jantar. -Senhor Lambrou? Fala o doutor Metaxis. A sua irm
pediu-me que lhe telefonasse. Ela encontra-se aqui no meu hospital
particular. Lamento muito, mas ela sofreu um acidente... Quando
Spyros Lambrou entrou no quarto de Melina, foi at  cama dela e
olhou fixamente para ela, estarrecido. Melina tinha um brao partido,
uma comoo e o rosto estava bastante inchado. Spyros Lambrou disse
uma palavra. -Constantin. -A sua voz tremia de raiva. Os olhos de
Melina encheram-se de lgrimas. -Ele no fez por mal -sussurrou ela.

-Eu vou destru-lo. Juro. -Spyros Lambrou nunca tinha sentido tanta
raiva.

Ele no conseguia suportar aquilo que Constantin Demiris andava a
fazer a Melina. Tinha de haver uma maneira de det-lo, mas como?
Tinha de haver uma maneira. Estava desesperado. Precisava de
conselhos. Como acontecera muitas vezes no passado, Spyros
Lambrou decidiu consultar Madame Piris. Talvez ela pudesse ajud-lo
de algum modo. Quando ia a caminho, Lambrou pensou de modo
estranho: "Os meus amigos fariam pouco de mim se soubessem que eu
ia consultar uma medium, Mas a verdade era que no passado Madame
Piris lhe dissera coisas extraordinrias que vieram a acontecer. "Tem

#
de me ajudar agora. Estavam sentados a uma mesa num canto escuro
do caf vagamente iluminado. Ela parecia mais velha desde a ltima
vez que a vira. Ali estava ela sentada, os olhos presos nele.

-Preciso de ajuda, Madame Piris -disse Lambrou. Ela abanou a cabea
com um sinal afirmativo.

-Por onde comear?-Houve um julgamento por assassnio aqui h
coisa de ano e meio. Uma mulher de nome Catherine Douglas foi... A
expresso no rosto de Madame Piris alterou-se.

-No, gemeu ela.

Spyros Lambrou olhou para ela, intrigado. -Ela foi assassinada por ...
Madame Piris ps-se de p.

-No! Os espritos disseram-me que ela iria morrer! Spyros Lambrou
estava confuso.

-Ela morreu -disse ele. -Ela foi morta por..: -Ela est viva!

Ele ficou completamente espantado.

-No pode ser. Ela esteve aqui. Veio ver-me h trs meses. Estava num
convento.

Ele olhava para ela, totalmente imvel. E repentinamente todas as
peas se encaixaram. Eles mantinham-na num convento. Um dos atos
caridosos de Demiris era dar dinheiro ao convento de Janina, a cidade
onde se pensava que Catherine Douglas tivesse sido assassinada. A
informao que Spyros recebera de Georgios Lato encaixava
perfeitamente. Demiris mandara matar duas pessoas inocentes pelo
assassnio de Catherine, embora ela estivesse bem viva, escondida
pelas freiras. E Lambrou sabia como iria destruir Constantin Demiris.
Tony Rizzoli. Os problemas de Tony Rizzoli multiplicavam-se. Tudo o
que podia correr mal estava a correr mal. 0 que acontecera no fora
certamente culpa sua, mas ele sabia que a Famlia o responsabilizaria a
ele. Eles no toleravam desculpas. 0 que tornava o caso
particularmente frustrante foi que a primeira parte da operao da
droga decorrera perfeitamente. Ele tinha feito passar clandestinamente

o envio em Atenas sem nenhuns problemas e arrecadou-a num
armazm temporariamente. Subornara um comissrio de bordo para
que a fizesse seguir num vo de Atenas para Nova Iorque. E depois,
exatamente vinte e quatro horas antes do vo, o idiota fora preso por
conduzir bbado e a companhia area tinham despedido. Tony Rizzoli
virara-se para um plano alternativo, Arranjara um otrio-neste caso,
#
uma turista de setenta anos chamada Sara Murchison que viera visitar
a filha em Atenas-para lhe levar a mala de volta para Nova Iorque. Ela
no tinha ideia do que iria transportar. So algumas lembranas que
prometi enviar  minha me explicou Tony Rizzoli-, e, como a senhora
est a ser muito simptica ao fazer-me este favor, quero pagar a sua
passagem.

-Oh, no  necessrio-protestou Sara Murchison.-Sinto-me feliz por
isso. No moro longe do apartamento de sua me. Gostava muito de
conhec-la.

-E estou certo de que ela tambm gostaria de conhec-la-disse Tony
Rizzoli com desembarao. -0 problema  que ela se encontra bastante
doente. Mas vai estar l algum para receber a mala. Ela era perfeita
para o trabalho-uma doce av tipicamente americana. A nica coisa do
seu contrabando com que a alfndega estaria preocupada seriam as
agulhas de crochet. Sara Murchison ia partir para Nova Iorque na
manh seguinte. -Eu venho busc-la para lev-la ao aeroporto.

-Ora, muito obrigada. Que jovem to atencioso que voc . A sua me
deve ter muito orgulho em si.

-Tem, sim. Ns somos muito chegados, -A sua me morrera havia dez
anos.

Na manh seguinte, quando Rizzoli se preparava para sair do hotel
para o armazm a fim de apanhar a mala, o telefone tocou. -Senhor
Rizzoli?

-Sim.

-Aqui fala o doutor Patsaka do banco de urgncia do Hospital de
Atenas. Temos aqui uma senhora de nome Sara Murchison. Ela ontem
 noite tropeou e caiu, e partiu uma anca. Estava muita ansiosa para
que eu lhe dissesse a si o quanto ela lamentava...

Tony Rizzoli bateu o telefone com fora. -Merda! Eram duas seguidas.
Onde iria ele arranjar outro otrio? Rizzoli sabia que tinha de ser
cuidadoso. Corria um boato de que um importante agente de
narcticos americano estava em Atenas a trabalhar com as autoridades
gregas. Estavam atentos a todas as sadas de Atenas, e avies e navios
eram rotineiramente revistados. Como se isso no bastasse, havia outro
problema. Um dos seus informadores -um ladro que era viciado-
dissera-lhe que a polcia ia comear a revistar armazns,  procura de
drogas guardadas e outro contrabando. Eram horas de pr a Famlia ao

#
corrente da situao. Tony Rizzoli deixou o hotel e desceu a Rua
Patission a caminho da Central de Telefones. No tinha a certeza se o
telefone do quarto do hotel estava sob escuta, mas no quis correr o
risco.

0 nmero 85 da Rua Patission era um enorme edifcio de pedra
castanha com uma fila de pilares  frente e uma placa que dizia: O.T.E.
Rizzoli atravessou a porta de entrada e olhou em redor. Duas dzias de
cabinas telefnicas alinhavam-se nas paredes com listas telefnicas de
todo o mundo. No centro da sala havia uma mesa com quatro
empregadas que recebiam os pedidos das chamadas a efetuar. As
pessoas aguardavam numa fila a sua ligao. Tony Rizzoli aproximou-
se de uma das mulheres que estava atrs da mesa.

-Bom dia -disse ele. -Em que posso servi-lo? -Queria fazer uma
chamada para o estrangeiro.

-Vai ter que aguardar meia hora. -Tudo bem.

-Diz-me o pas e o nmero, por favor? Tony Rizzoli hesitou.

-Com certeza. -Entregou um pedao de papel  mulher. - a cobrar.

-0 seu nome? -Brown. Tom Brown.

-Muito bem, senhor Brown. Cham-lo-ei assim que obtiver ligao,

-Obrigado.

Dirigiu-se para um dos bancos situado no outro lado da sala e sentou-
se. <~Eu podia tentar esconder a encomenda num automvel e pagar a
algum que a levasse para o outro lado da fronteira. Mas isso 
arriscado; os carros so revistados. Pode ser que eu talvez conseguisse
arranjar outro...

-Senhor Brown,.. Senhor Tom Brown... -0 nome foi repetido duas
vezes at que Rizzoli se deu conta de que era com ele. Levantou-se e
precipitou-se para a mesa.

-A sua chamada est em linha. Cabina sete, por favor. -Obrigado. J
agora pode dar-me o bocado de papel que lhe dei? Vou precisar do
nmero outra vez.

-Com certeza. -Ela devolveu-lhe o pedao de papel. Tony Rizzoli
entrou na cabina sete e fechou a porta. -Estou.

-Tony?s tu?

-Sim. Como ests, Pete?

#
Para dizer a verdade, estamos um pouco preocupados, Tony. Os
rapazes esperavam que a encomenda j estivesse a caminho. -Tenho
tido alguns problemas.


-A encomenda j foi enviada? -No. Ainda c est.
Houve um silncio.
-Ns queramos que nada lhe acontecesse, Tony.
-No lhe vai acontecer nada, S preciso  de arranjar outra maneira de


despach-la. Os gajos dos narcticos esto em toda a parte. -Estamos a


falar de dez milhes de dlares, Tony.
-Eu sei. No te preocupes, vou arranjar uma soluo. -Faz isso, Tony.
Arranja uma soluo.


A linha morreu.
A conversa ao telefone deixara Tony Riizzoli nervoso. Teve de ir 


casa de banho. "0 Pete Lucca que se lixe!p Em frente, na esquina da
Praa de Kolonaki, Rizzoli viu uma tabuleta:
APOHORITIRION, W.C. Tanto homens como mulheres atravessavam


a porta para usar as mesmas instalaes. "E os gregos denominavam-se
civilizados>, pensou Rizzoli. "Que nojo!
-Vai ter que aguardar meia hora. -Tudo bem.
-Diz-me o pas e o nmero, por favor? Tony Rizzoli hesitou.
-Com certeza, -Entregou um pedao de papel  mulher. - a cobrar.
-0 seu nome? -Brown. Tom Brown.
-Muito bem, senhor Brown. Cham-lo-ei assim que obtiver ligao.


-Obrigado.
Dirigiu-se para um dos bancos situado no outro lado da sala e sentou-
se. "Eu podia tentar esconder a encomenda num automvel e pagar a
algum que a levasse para o outro lado da fronteira. Mas isso 
arriscado; os carros so revistados. Pode ser que eu talvez conseguisse
arranjar outro..."


-Senhor Brown... Senhor Tom Brown... -0 nome foi repetido duas
vezes at que Rizzoli se deu conta de que era com ele. Levantou-se e
precipitou-se para a mesa.


-A sua chamada est em linha. Cabina sete, por favor. -Obrigado, J
agora pode dar-me o bocado de papel que lhe dei? Vou precisar do


#
nmero outra vez,


-Com certeza. -Ela devolveu-lhe o pedao de papel. Tony Rizzoli
entrou na cabina sete e fechou a porta. -Estou.
-Tony? s tu?
-Sim. Como ests, Pete?
Para dizer a verdade, estamos um pouco preocupados, Tony. Os


rapazes esperavam que a encomenda j estivesse a caminho. -Tenho
tido alguns problemas.
-A encomenda j foi enviada? -No. Ainda c est.
Houve um silncio.


-Ns queramos que nada lhe acontecesse, Tony.
-No lhe vai acontecer nada. S preciso  de arranjar outra maneira de
despach-la. Os gajos dos narcticos esto em toda a parte. -Estamos a
falar de dez milhes de dlares, Tony.


- Eu sei. No te preocupes, vou arranjar uma soluo. -Faz isso, Tony.
Arranja uma soluo.
A linha morreu.
Um homem cinzento estava de olhar atento quando Tony Rizzoli se
encaminhnou para a sada. Aproximou-se da mulher que estava atrs
da casa.


-Sigam. Est a ver aquele homem que vai a sair neste momento? quero
saber o nmero para que ele telefonou.


Lamento muito. No estamos autorizados a dar essa informao. 0
homem meteu a mo no bolso de trs e tirou uma carteira. Havia um
distintivo dourado pregado.


-Polcia. Sou o tenente Tinou. A sua expresso alterou-se.


-Oh. Ele deu-me um nmero num bocado de papel e depois veio pedila.


-Mas a senhora fez o registro? -Oh, sim, fazemos sempre. -Importa-se
de me dar o nmero? -Claro.


Ela escreveu o nmero num pedao de papel e entregou-o ao tenente.
Ele analisou-o por um momento. 0 indicativo do pas era 39 e o
prefixo era o 91. Itlia. Palermo.


-Obrigado. Por acaso lembra-se do nome que o homem lhe deu? -Sim,

#
lembro-me. Foi Brown. Tom Brown.

A conversa ao telefone deixara Tony Rizzoli nervoso. Teve de ir 
casa de banho. "0 Pete Lucca que se lixe!" Em frente, na esquina da
Praa de Kolonaki, Rizzoli viu uma tabuleta:

APOHORITIRION, W.C. Tanto homens como mulheres atravessavam
a porta para usar as mesmas instalaes. "E os gregos denominavam-se
civilizados", pensou Rizzoli. "Que nojo!" Havia quatro homens
sentados em redor da mesa de conferncia na villa situada nas
montanhas sobre Palermo.

-0 material j devia ter sido enviado, Pete-queixou-se um dos homens.
-Qual  o problema?

-No tenho a certeza. 0 problema pode ser o Tony Rizzoli. -Ns nunca
tivemos nenhum problema com o Tony.

-Eu sei... mas s vezes as pessoas ficam gananciosas. Acho melhor
mandarmos algum a Atenas para ver o que se passa. - pena. Eu
sempre gostei do Tony.

No nmero 10 da Rua Stadiou, o estado-maior da polcia situado na
baixa de Atenas, realizava-se uma conferncia. Na sala estavam o
chefe da polcia Livreri Dmitri, o inspetor Tinou, e um americano, o
tenente Walt Kelly, um agente da Diviso de Costumes do
Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. -Chegou s nossas
mos a informao-dizia Kelly-de que se prepara um grande negcio
de droga. 0 embarque sair de Atenas. 0 Tony Rizzoli est envolvido.
0 inspetor Tinou permanecia em silncio. 0 departamento da polcia
grega no via com bons olhos a interferncia de outros pases nos seus
assuntos. Particularmente de americanos. Eles so sempre to seguros
de si prprios."

0 chefe da polcia falou.

-J estamos a trabalhar nisso, tenente. 0 Tony Rizzoli fez uma
chamada telefnica para Palermo h pouco tempo. Estamos j a
investigar o nmero. Quando conseguirmos, teremos a fonte dele.

0 telefone que estava sobre a secretria tocou. -Conseguiste?-Escutou
por um momento, o rosto inexpressivo, depois voltou a colocar o
telefone.

-Ento?

-Eles j deram com o nmero. -E ento?

#
-A chamada foi feita por uma cabina pblica da praa da cidade.
-Garroto!

-0 nosso senhor Rizzoli  muito inch eskipnos. Walt Kelly disse
impacientemente:

-Eu no falo grego.

-Desculpe, tenente. Significa astuto.

Kelly disse:

-Gostava que aumentasse a vigilncia sobre ele. "A arrogncia do
homem." 0 chefe Dmitrivoltou-se para o inspetor Tinou.

-Ns de fato no temos provas suficientes para fazer mais, temos?

-No, senhor. Apenas fortes suspeitas.

0 Chefe Dmitri voltou-se para Walt Kelly.

-Infelizmente no posso dispensar homens em nmero suficiente para
seguir toda a gente que suspeitamos estar envolvida em narcticos.

-Mas o Rizzoli,..

-Asseguro-lhe que temos as nossas prprias fontes, senhor Kelly. Se
conseguirmos mais informaes, sabemos onde contat-lo. Walt Kelly
olhou-o fixamente, frustrado.

-No espere muito tempo -disse ele, -Ou ento esse embarque ainda
se vai embora.

A villa em Rafina estava pronta. 0 corretor de imveis dissera a
Constantin Demiris:

-Sei que o senhor a comprou mobiliada, mas se eu lhe puder sugerir
algum mobilirio...

-No. Quero que tudo fique exatamente como est. Exatamente como
estava quando a sua infiel Noelle e o amante, Lorry, estiveram l
atraioando-o. Atravessou a sala de visitas. "Fizeram amor aqui no
meio do cho? No gabinete privado? Na cozinha?" Demiris entrou no
quarto, Havia uma cama grande no canto. A cama deles. Onde
Douglas acariciara o corpo n de Noelle, onde roubara o que pertencia
a Demiris. Douglas pagara pela sua traio e agora ia pagar de novo.
Demiris olhou para a cama. "Primeiro farei amor com a Catherine
aqui", pensou Demiris. Depois nos outros quartos. Em todos eles."
Telefonou da afina para Catherine.

#
-Estou?

-Tenho pensado em si.

Tony Rizzoli teve duas visitas inesperadas da Si cffia. Entraram no
quarto sem ser anunciados, e Rizzoli sentiu logo que havia problema.
Alfredo Mancuso era grande. Gino Laveri era maior. Mancuso foi logo
direto ao assunto. -Viemos a mando do Pete Lucca. Rizzoli tentou
parecer informal. -Isso  timo. Bem-vindos a Atenas. Em que posso
ajud-los? -Deixe-se dessas parvoces, Rizzoli-disse Mancuso.

-0 Pete quer saber qual  o seu jogo.

-Jogo? De que  que vocs esto a falar? Eu j lhe expliquei que estou
com um pequeno problema.

- por isso que estamos aqui. Para o ajudar a resolv-lo. -Esperem um
pouco, companheiros-protestou Rizzoli.

-Tenho a mala em lugar seguro, e ela est em lugar seguro. Quando...

-0 Pete no a quer guardada em lugar seguro. Ele investiu muito
dinheiro nela. -Laveri encostou o punho ao peito de Rizzoli e atirou-o
para uma cadeira.

-Deixe-me explicar-lhe como  que . Se o material estivesse nas ruas
de Nova Iorque como devia estar, o Pete podia receber o dinheiro,
lav-lo e p-lo a circular nas ruas. Percebe o que eu quero dizer?

"Eu podia atacar estes dois gorilas", pensou Rizzoli. Mas ele sabia que
no estaria a lutar com eles; estaria a lutar com Pete Lucca. -Claro,
percebo exatamente o que est a dizer-disse Rizzoli brandamente.
-Mas j no  to fcil como antigamente. A polcia grega est em todo

o stio, e agora tm l um agente dos narcticos de Washington. Eu
tenho um plano...
-0 Pete tambm -Laveri interrompeu. -Sabe qual  o plano dele? Ele
quer que voc saiba que se o material no seguir para a semana quem
vai entrar com o dinheiro  voc.

-Eh! -protestou Rizzoli. -Eu no tenho esse dinheiro todo. Eu...

-0 Pete pensou que talvez voc no tivesse. Deforma que nos disse que
achssemos outras maneiras de o fazer pagar.

Tony Rizzoli encheu o peito de ar.

-Tudo bem. Digam-lhe apenas que est tudo sob controlo. -Claro.
Entretanto vamos ficar por aqui. Tem uma semana.

#
Tony Rizzoli fazia ponto de honra nunca beber antes do meio-dia, mas
quando os dois homens saram abriu uma garrafa de usque e tomou
dois gales. Sentiu o calor do usque invadi-lo, mas no ajudou. "Nada
vai ajuda", pensou. "Como  que o velho se pde virar assim contra
mim? Eu tenho sido como um filho para ele, e ele d-me uma semana
para eu achar uma sada. Preciso de um otrio, urgente. 0 casino",
concluiu ele. "L  que vou encontrar um. s dez horas dessa noite,
Rizzoli dirigiu-se para Loutraki, o popular casino situado a cinquenta
milhas a oeste de Atenas. Vagueou pela enorme sala de joga, a
observar o ambiente. Havia sempre muitos perdedores, dispostos a
fazerem qualquer coisa para continuarem a jogar. Rizzoli localizou o
seu alvo quase de imediato numa mesa de roleta. Era um homenzinho
irrequieto, de cabelo grisalho, na casa dos cinqenta, que passava o
tempo a limpar a testa com um leno. Quanto mais perdia, mais
transpirava.

Rizzoli observava-o com interesse. J conhecia os sintomas. Era um
caso clssico de um jogador compulsivo que perdia mais do que
permitiam os seus meios. Quando as fichas que tinha  frente de si
acabaram, disse ao banqueiro:

-Eu... eu queria requisitar mais uma srie de fichas.

0 banqueiro voltou-se para olhar o lugar reservado ao patro. -D-lha.
Ser a ltima.

Tony Rizzoli gostava de saber quanto  que o trouxa j devia. Sentou-
se ao lado do homem e entrou no jogo. Aroleta era um jogo para
simplrios, mas Rizzoli sabia como jogar, e o seu monte de fichas
crescia enquanto o do homem do lado diminua. 0 perdedor espalhava
fichas por toda a mesa, jogando nos nmeros, nas cores e at fazendo
apostas pares e mpares. "Ele no faz idia nenhuma do que est a
fazer, pensou Rizzoli.

As ltimas fichas desapareceram. 0 estranho deixou-se ficar, rgido.

Ergueu o olhar para o banqueiro esperanosamente. -Ser que eu
podia...?

0 banqueiro sacudiu a cabea. -Lamento. 0 homem suspirou e ps-de
de p. Rizzoli levantou-se ao mesmo tempo.

-Azar-disse ele solidariamente. -Eu tive um pouco de sorte. Deixe-me
pagar-lhe uma bebida.

0 homem pestanejou. A sua voz vibrou. - muito amvel de sua parte.

#
"Encontrei o meu otrio, pensou Rizzoli. Era bvio que o homem
precisava de dinheiro. Provavelmente no deixaria fugir a
oportunidade de levar de avio uma encomenda para Nova Iorque por
uns cem dlares e uma viagem grtis para os Estados Unidos.


-0 meu nome  Tony Rizzoli. -Victor Korontzis.
Rizzoli levou Korontzis at ao bar. -0 que  que vai tomar?
-Sinto muito, mas fiquei sem dinheiro. Tony Rizzoli acenou uma mo


expansiva. -No se preocupe com isso.


-Ento tomo uma retsina, obrigado. Rizzoli virou-se para o empregado.
-E um Chivas Regal com muito gelo.
-0 senhor  turista?-perguntou Korontzis num tom educado. -Sou


-replicou Rizzoli. -Estou de frias.  um belo pas. Korontzis
encolheu os ombros,


-Parece que sim. -No gosta disto aqui?
-Oh, claro, que  bonito. S que a vida est muito cara. Estou-me
referir aos preos elevados, A no ser que seja milionrio, custa muito
pr comida na mesa, especialmente quando se tem mulher e quatro
filhos. -0 seu tom era amargo.


Cada vez melhor.
-0 que  que voc faz, Victor? -perguntou Rizzoli informalmente.
-Sou conservador do Museu Nacional de Atenas. -Ah ? 0 que  que


faz um conservador?
Um tom de orgulho insinuou-se na voz de Korontzis.
-Eu sou responsvel por todas as antigidades que so encontradas nas


escavaes que se fazem na Grcia. -Sorveu a bebida. -Bem, nem de
todas. Temos outros museus. A Acrpole e o Museu Nacional de
Arqueologia, Mas o nosso museu tem os artefatos mais valiosos.


Tony Rizzoli comeou a ficar interessado.
-Muito valiosos?
Victor Korontzis encolheu os ombros.
-A maior parte so de valor inestimvel. H uma lei que probe a sada


de todas as antigidades do pas, naturalmente. Mas temos uma
pequena loja no museu que vende cpias.
0 crebro de Rizzoli comeava a trabalhar furiosamente. - verdade?


#
E as cpias so boas?

-Oh, so excelentes. S um perito consegue distinguir entre um facsmile
e o original.

-Deixe-me oferecer-lhe mais uma bebida -disse Rizzoli. -Obrigado. 
muito amvel. Infelizmente no estou em posio de retribuir.

Rizzoli sorriu.

-No se preocupe com isso. De fato h uma coisa que voc pode fazer
por mim. Eu gostava de visitar o seu museu. Parece-me fascinante.

-E . -Korontzis assegurou-lhe entusiasticamente. - um dos museus
mais interessantes do mundo. Teria muito prazer em mostr-lo em
qualquer altura. Quando  que pode aparecer?

-Que tal amanh?

Tony Rizzoli teve a sensao de que ia conseguir algo mais do que um
otrio. 0 Museu Nacional deAtenas fica situado nas imediaes da
Praa Syntagma, no centro de Atenas. Em si, o museu  um belo
edifcio construdo no estilo de um templo antigo, com quatro colunas
jnicas frontais, uma bandeira grega esvoaando no topo, e quatro
figuras talhadas no telhado superior. No interior, os espaosos halls de
mrmore contm depositadas antigidades de vriosperodos
dahistria da Grcia, e as salas esto cheias de vitrinas com relquias e
artefatos. H taas de ouro e coras de ouro, espadas incrustadas e
recipientes de libao. Uma vitrina pode conter quatro mscaras de
inumao de ouro, e outra fragmentos de esttuas com sculos de
existncia. Victor Korontzis em pessoa oferecia uma visita guiada a
Tony Rizzoli. Korontzis parou defronte de uma vitrina que continha a
estatueta de uma deusa com uma coroa de papoulas de pio.

-A deusa da papoula -explicou numa voz reprimida.


A coroa  simblica da sua funo como a portadora do sono, dos
sonhos, da revelao e da morte.

-Que valor teria isso? Korontzis riu-se.

-Se estivesse  venda? Muitos milhes. - mesmo?

0 pequeno conservador estava cheio de orgulho patente durante a
visita, chamando a ateno para os seus tesouros de valor inestimvel.

-Isto  a cabea de um kouros, 530 a.C....

-Esta  a cabea de Atena com um capacete corintiano, cerca de 1450

#
a. C.... e eis aqui uma pea fabulosa. Uma mscara de ouro de um
Achaean do tmulo real da Acrpole de vtycenae, do sculo XVI a. C.
Cr-se que seja o Agammnon.
-No me diga?

Levou Tony Rizzoli at outra vitrina. Era uma belssima nfora. - um
dos meus preferidos-confessou Korontzis, radiante. -Sei que um pai
no deve ter um filho predileto, mas no consigo evitar. Esta nfora...

-A mim parece-me um vaso.

-Pois... sim. Este vaso foi descoberto na sala do trono durante a
escavao em Knossos. Podem ver-se os fragmentos que mostram a
captura de um touro com uma rede. Nos tempos antigos, claro, captu
ravam os touros com redes para evitarem o derramamento prematuro
do seu sangue sagrado, de modo a...

- Quanto  que vale? - Rizzoli interrompeu. -Suponho que cerca de dez
milhes de dlares. Tony Rizzoli franziu o sobrolho.
-Tanto?

- verdade! Lembre-se: veio do Perodo Minico Neopalacial, logo
depois de 1500 a.C.

Tony Rizzoli passava os olhos pelas dezenas de vitrinas de vidro a
abarrotar de artefatos.

-Todas estas coisas tm o mesmo valor?

-Oh, nem pensar. Somente as antigidades genunas. -Claro que elas
so insubstituveis, e do-nos pistas sobre como viviam as civilizaes
antigas. Deixe-me mostrar-lhe uma coisa. Tony seguiu Korontzis at
outra cmara. Pararam em frente de uma vitrina que estava no canto.

Victor Korontzis apontou para um vaso.

-Este  um dos nossos maiores tesouros.  um dos primeiros exemplos
do simbolismo dos sinais fonticos. 0 crculo que v com a cruz  a
figura de Ka. 0 crculo cruzado  uma das primeiras formas inscritas
por seres humanos para exprimirem o cosmo. H apenas... "Estou-me
cagando!"

-Quanto vale?-perguntou Tony. Korontzis suspirou.

-0 resgate de um rei.

Quando Tony Rizzoli deixou o museu nessa manh, fazia contas a um
patrimnio com que nunca sonhara, nem mesmo nos sonhos mais

#
loucos. Por um fantstico golpe de sorte tropeara numa mina de ouro.
Andara  procura de um otrio, e em vez disso encontrara a chave para
a casa do tesouro. O lucro da herona teria de ser dividido por seis.
Ningum era suficientemente estpido para enganar a Famlia: mas o
corsrio das velharias era de novo outra coisa bem diferente. Se
contrabandeasse artefatos para o exterior da Grcia, seria um negcio 
parte que seria s seu; o bando no esperaria nada disso. Rizzoli tinha
todas as razes para se sentir eufrico. "Agora tudo o que tenho a
fazer", pensou Rizzoli, " saber como lanar o anzol. Depois
preocupo-me com o otrio." Nessa noite, Rizzoli levou o recm-
achado amigo ao Mostrou Athena, um clube noturno onde o
entretenimento era obsceno, e havia recepcionistas erticas 
disposio no fim do espetculo.

-Vamos engatar duas gajas e gozarum pouco-sugeriu Rizzoli. -Tenho
de ir para casa-protestou Korontzis.-Alm disso, infelizmente, no
posso ter esses luxos.

-Eh, voc  o meu convidado. Isto vai para as contas da empresa onde
trabalho. A mim no me custa nada.

Rizzoli arranjou as coisas para que umas das raparigas levasse Victor
Korontzis ao hotel dela.

-Voc no vem?-perguntou Korontzis.

- Tenho um pequeno assunto para resolver aqui - disse-lhe Tony. -V 
frente. Est tudo tratado.
Na manh seguinte, Tony Rizzoli passou de novo pelo museu. Havia
uma multido enorme de turistas que percorria as vrias salas,
maravilhada com os tesouros antigos.

Korontzis levou Rizzoli para o seu gabinete. Ele estava de fato a corar.

-Eu... no sei como agradecer-lhe a noite passada, Tony. Ela.,. foi tudo
maravilhoso.

Rizzoli sorriu.

-Para que  que servem os amigos, Victor?

-Mas no h nada que eu possa fazer para retribuir.

-No disse que estou  espera-disse Rizzoli com veemncia. -Eu
gosto de si. Gosto da sua companhia. A propsito, hoje  noite h uma
partidazita de pquer num dos hotis. Eu vou jogar. Est interessado?

#
-Obrigado, gostava muito, mas...-encolheu os ombros. -Acho melhor
no.

-Venha. Se  por dinheiro, no se preocupe. Eu financio. Korontzis
sacudiu a cabea.

-Voc tem sido muito agradvel comigo. Se eu perdesse, no lhe podia
pagar.

Tony Rizzoli deu um sorriso largo.

- Quem  que disse que voc vai perder? J est ganho. -Ganho? No...
no entendo.
Rizzoli disse calmamente.

-Um amigo meu chamado Otto Dalton  que vai dirigir o jogo. Esto
c uns turistas americanos cheios de massa que adoram jogar, e eu e o
Otto vamos lev-los.

Korontzis estava a olh-lo, com os olhos arregalados. -Lev-los? Est
a querer dizer que vai engan-los?-Korontzis lambeu os lbios. -Eu...
nunca fiz uma coisa dessas.

Rizzoli abanou a cabea num gesto de simpatia.

-Eu entendo. Se o incomoda, no venha. Apenas pensei que seria uma
maneira fcil de ganhar dois ou trs mil dlares. Korontzis arregalou
os olhos.

-Dois ou trs mil dlares? - Oh, sim. No mnimo. Korontzis lambeu os
lbios de novo. -Eu.., eu... No  perigoso? Tony Rizzoli riu-se.
-Se fosse perigoso, eu no iria jogar, pois no?  canja. 0 Otto sabe
dar as cartas de uma forma mecanizada. Consegue dar um baralho de
cima, do fundo ou do meio. H anos que faz isso e nunca foi
apanhado.

Korontzis deixou-se ficar ali, a olhar fixamente para Rizzoli. -De
quanto... quanto  que eu precisava para entrar no jogo? -Cerca de
quinhentos dlares. Mas at lhe digo isto. A coisa  to fcil que lhe
vou emprestar quinhentos dlares.

-Voc est a ser muitssimo generoso, Tony. Porque  que... porque 
que est a fazer isso por mim?

-Eu digo-lhe porqu-A voz de Tony encheu-se de indignao.
-Quandovejo um homem decente e trabalhador como voc, com uma
profisso responsvel como a de conservador de um dos maiores

#
museus do mundo, e o estado no lhe d o valor suficiente para ter um
ordenado que se veja, e voc anda a lutar para conseguir alimentar a
famlia, bem, para lhe dizer a verdade, Victor, isso d cabo de mim. H
quanto tempo no  aumentado?

-No... no h aumentos.

-Est a ver? Oua. Voc tem uma opo, Victor, Pode deixar-me fazer-
lhe um pequeno favor hoje  noite, e assim ganhar uns milhares de
dlares e comear a viver como merece, ou ento continua a viver com

o que ganha sem pensar no futuro para o resto da vida.
-No... no sei, Tony, No devo... Tony Rizzoli levantou-se.

-Eu compreendo. Sou capaz de estar de volta a Atenas dentro de um ou
dois anos, e talvez venhamos a encontrar-nos de novo. Foi um prazer
conhec-lo, Victor. - Rizzoli dirigiu-se para a porta. Korontzis tomou a
deciso.

-Espere. Eu.., eu gostaria de ir consigo esta noite. Mordera a isca.

-Eh, timo -disse Tony Rizzoli. -Sinto-me bem por poder ajud-lo.
Korontzis hesitou.

-Peo desculpa, mas quero ter a certeza de que entendi bem. Voc
disse que se eu perder os quinhentos dlares no terei que lhos
devolver?

- isso mesmo -disse Rizzoli. -Porque voc no pode perder. 0 jogo
est viciado.

-Onde  que vai ser a partida?

-Quarto quatrocentos e vinte no Hotel Metrpole. Dez horas. Diga 
sua mulher que vai trabalhar at tarde.

sentiu-se repentinamente preocupado. E se alguma coisa corresse mal
e ele perdesse quinhentos dlares? Afastou a idia. 0 seu amigo Tony
trataria do caso. E se ele ganhasse. Korontzis sentiu-se repentinamente
eufrico. 0 jogo comeou. Havia quatro homens no quarto do hotel
alm de Tony Rizzoli e Victor Korontzis.

-Quero que conhea o meu amigo Otto Dalton-disse Rizzoli. -Victor
Korontzis.

Os dois homens apertaram as mos. Rizzoli olhou para os outros
curiosamente.

-Parece-me que no conheo estes cavalheiros. Otto Dalton fez as

#
apresentaes.

-Perry Breslauer de Detroit... Marvin Seymour de Houston... Sal Prizzi
de Nova Iorque.

Victor Korontzis abanava a cabea, no confiando na voz.

Otto Dalton aparentava os seus sessenta anos, era magro, tinha cabelo
grisalho e era um homem afvel. Perry Breslauer era mais novo,mas
tinha um rosto enrugada contrado. Marvin Seymour era um homem
magro de aspecto brando. Sal Prizzi era um homem enorme, com a
estrutura de um carvalho, de membros poderosos como braos. Tinha
olhos pequenos e malvados, e uma faca deixara-lhe uma cicatriz
profunda. Rizzoli reunira-se com Korontzis antes do jogo. ~Estes tipos
tm muito dinheiro. Podem dar-se ao luxo de perder muita massa. 0
Seymour  dono de uma companhia de seguros, o Breslauer
concessionrio do ramo automvel por todos os Estados Unidas, e o
Sal Prizzi  o chefe de um grande sindicato em Nova Iorque." Otto
Dalton falava.

-Muito bem, cavalheiros. Vamos comear. As fichas brancas valem
cinco dlares, as azuis valem dez, as vermelhas valem vinte e cinco e
as pretas valem cinqenta. Vamos ver a cor do vosso dinheiro.

Korontzispuxou dos quinhentos dlares que TonyRizzoli lhe
emprestara. "No, pensou, "emprestara, no, dera. Olhou para Rizzoli
e sorriu. 0 Rizzoli  um excelente amigo. Os outros homens tiravam
enormes maos de notas. Korontzis Quem escolheu foi Otto, que dava
as cartas. As apostas foram pequenas no princpio, e houve vasas de
cinco cartas, de sete cartas e outras modalidades. No incio, os ganhos
e perdas foram distribudos por partes iguais, mas aos poucos a mar
comeou a virar. Parecia que Victor Korontzis e Tony Rizzoli no
podiam fazer nada de errado. Se as cartas deles eram razoveis, as dos
outros eram piores. Se os outros tinham bom jogo, Korontzis e Rizzoli
tinham melhor. Victor Korontzis no queria acreditar na sua sorte. No
fim da noite, tinha ganho quase dois mil dlares. Parecia um milagre.
-Vocs tiveram muita sorte -resmungou Marvin Seymour. - verdade-
concordou Breslauer. -Que tal darem-nos outra oportunidade amanh?

-Eu depois digo-vos-disse Rizzoli.

Quando tinham sado, Korontzis exclamou: -No posso acreditar. Dois
mil dlares! Rizzoli riu-se.

-So favas contadas. Eu disse-1he.0 Otto  um dos artfices mais

#
astutos na matria. Os tipos esto mortos por levarem outro arrombo
amanh. Est interessado?

-Pode apostar. -Houve um sorriso largo no rosto de Korontzis. -Parece
que disse uma piada.

Na noite seguinte, Victor Korontzis ganhou trs mil dlares.

- fantstico! -disse ele a Rizzoli, -Eles no suspeitam de nada?

-Claro que no. Aposto consigo que amanh vo pedir para aumentar
a parada. Julgam que vo recuperar o dinheiro. Quer alinhar?

-Claro, Tony. Alinho.

No momento em que se sentavam para jogar, Sal Prizzi disse: -Sabem
uma coisa? At agora no fizemos outra coisa seno perder. Que tal
subirmos as apostas? Tony Rizzoli olhou por cima para Korontzis e
piscou o olho. -Por mim tudo bem -disse Rizzoli. -E vocs? Todos
abanaram a cabea em sinal de concordncia. Otto Dalton colocou
pilhas de fichas.

-As brancas valem cinquenta dlares, as azuis cem, as vermelhas
quinhentos, as pretas mil.

Victor Korontzis olhou para Rizzoli inquietantemente. No pensara
que as apostas fossem to altas. Rizzoli abanou a cabea de um modo
tranquilizador. 0 jogo comeou. Nada mudou. Os jogos de Victor
Korontzis eram mgicos. Todas as cartas que tinha venciam os outros.
Tony Rizzoli tambm estava a ganhar, mas no tanto.

-Que cartas de merda! -resmungou Prizzi. -Vamos trocar de baralho.

Otto Dalton amavelmente apresentou um baralho novo. Korontzis
olhou por cima para Tony Rizzoli e sorriu. Ele sabia que nada ia fazermudar a sorte deles.  meia-noite mandaram buscar sanduches. Os
jogadores fizeram um intervalo de quinze minutos. Tony Rizzoli levou
Korontzis para um canto.

-Eu disse ao Otto que os deixasse partilhar um pouco-sussurrou ele.

-No percebo.

-Vamos deix-los vencer alguns jogos. Se estiverem sempre a perder,
podem desanimar e desistir.

-Oh, compreendo.  bem pensado.

-Quando pensarem que esto muito hbeis, ns subimos a parada outra
vez e damos cabo deles.

#
Victor Korontzis estava hesitante.

-Eu j ganhei tanto dinheiro, Tony. No acha que seria melhor sairmos
enquanto estamos...?

Tony Rizzoli olhou-o de frente e disse:

-Victor, voc no gostaria de sair daqui esta noite com cinquenta mil
dlares no bolso?

Quando o jogo recomeou, Breslauer, Prizzi e Seymour comearam a
ganhar. As cartas de Korontzis ainda eram boas, mas as dos outros
eram melhores. "0 Otto Dalton  um gnio, pensou Korontzis. Esteve a
observ-lo enquanto dava e no conseguira detectar um movimento
falso. A medida que o jogo prosseguia, Victor Korontzis ia perdendo.
No estava preocupado. Em poucos minutos, quando tivessem -qual
era a palavra? -partilhado com os outros, ele, Rizzoli e Dalton
procederiam ao golpe final. Sal Prizzi regozijava-se com a desgraa
alheia. -Bem -disse ele -, parece que vocs arrefeceram. Tony Rizzoli
sacudiu a cabea pesarosamente.

-Parece que sim, no ? -Deu a Korontzis um olhar entendido. -A vossa
sorte no podia durar para sempre-disse Marvin Seymour.

Perry Breslauer interveio.

-Que tal subirmos a parada de novo para vocs levarem uma
cabazada?

Tony Rizzoli fingiu considerar a questo.

-No sei-disse ele pensativamente. Virou-se para Victor Korontzis. -0
que  que acha, Victor? No gostava de sair daqui esta noite com
cinqenta mil dlares no bolso?

"Poderei comprar uma casa e um carro novo. Posso levar a famlia de
frias"... Korontzis quase tremia de excitao.

Sorriu.

-Porque no?

-Tudo bern -disse Sal Prizzi. -Vamos jogar. No h limite. Iam jogar
vasas de cinco cartas, As cartas estavam dadas. -Vamos abrir com
cinco mil dlares.

Cada jogador recolheu a sua ante.

Victor Korontzis recebeu duas damas. Tirou trs cartas, e uma delas
era outra dama.

#
Rizzoli olhou para a sua mo e disse: -Subo mil.


Marvin Seymour analisou a sua mo. -Pago para ver e subo dois mil.
Otto Dalton baixou as cartas,
- de mais para mim. Sal Prizzi disse: -Jogo.
0 bolo foi todo para Marvin Seymour.
Na mo seguinte, Victor Korontzis recebeu um oito, nove, dez e um


valete de copas. S faltava uma carta para um vo sbito!
-Jogo para mil dlares-disse Dalton. -Jogo e subo mais mil.
Sal Prizzi disse: -Vamos pr mais mil.
Era a vez de Korontzis. Ele tinha a certeza de que um sbito vo


bateria tudo o que os outros tivessem. S lhe faltava uma carta. -Eu
jogo. -Tirou uma carta e p-la com o valor para baixo, no ousando
olhar para ela.


Breslauer baixou o jogo.
-Duas quadras e dois dez. Prizzi baixou o seu jogo. -Trs setes.
Voltaram-se paraVictor Korontzis. Ele respirou fundo e apanhou a


carta que lhe faltava. Era preta.
-Rebentei-disse ele. Baixou o jogo.
Os bolos iam crescendo. A pilha de fichas de Victor Korontzis ficou


reduzida a quase nada. Olhou para Tony Rizzoli, preocupado. Rizzoli
sorriu de um jeito tranquilizador, um sorriso que dizia: -No h
motivos para preocupaes. Rizzoli deu incio ao prximo bolo. As
cartas foram dadas. -Aposto mil dlares no escuro. Perry Breslauer;
-Eu ponho mais mil. Marvin Seymour: -E eu cubro. Sal Prizzi:


-Sabem uma coisa? Acho que vocs esto a fazer bluff. Vamos subir


mais cinco mil.
Victor Korontzis ainda no olhara para o seu jogo. "Quando  que a
porcaria da partilha vai acabar?"


-Victor?
Korontzis recolheu o jogo lentamente e abriu as cartas uma a uma.
Um s, outro s e um terceiro s, mais um rei e um dez. 0 sangue dele


comeou a galopar.
-Joga?


#
Sorriu para si prprio. A partilha havia parado. Sabia que ia receber
para ter um full. Desfez-se do dez e tentou manter uma voz normal.

-Jogo. Uma carta, por favor. Otto Dalton disse:

-Quero duas. -Olhou para as cartas. -Subo mil. Tony Rizzoli sacudiu
a cabea.

-Para mim  de mais. -Baixou o jogo.

-Eu jogo -disse Prizzi-e subo cinco mil. Marvin Seymour entregou o
jogo.

-Saio.

Era entre Victor Korontzis e Sal Prizzi.

-Joga? -Prizzi perguntou. -Vai-lhe custar mais cinco mil. Victor
Korontzis olhou para o monte de fichas que possua. Cinco mil era
tudo o que tinha.

Mas quando eu ganhar este bolo..., pensou ele. Olhou de novo para as
cartas que tinha na mo. Eram imbatveis. Ps o monte de fichas no
centro da mesa e puxou uma carta. Era um cinco. Mas ainda tinha trs
ases. Baixou o jogo. -Trs ases. Prizzi espalhou o seu jogo. -Quatro
duques. Korontzis deixou-se ficar ali, atordoado, vendo Prizzi recolher

o bolo. Decerto modo sentiu-se como se tivesse decepcionado o seu
amigo Tony. Se ao menos eu tivesse parado quando comeamos a
ganhar. Foi a vez de Prizzi dar.
-Vasa de sete cartas- anunciou ele. -Vamos pr mil dlares no bolo.

Os outros jogadores recolheram a primeira carta. Victor Korontzis
olhou para Tony Rizzoli com um ar de desespero.-Eu no tenho...
-Est bem -Rizzoli disse. Virou-se para os outros.

Ouam, o Victor no teve tempo de levantar muito dinheiro para trazer
hoje, mas garanto-lhes que ele  de confiana. Vamos dar-lhe crdito,
e ajustamos contas no fim da noite.

Prizzi disse:

-Calma a. 0 que  isto, alguma agncia bancria? Ns nunca vimos o
Victor Korontzis mais magro. Como  que sabemos que ele vai pagar?

-Tm a minha palavra-Tony Rizzoli assegurou-lhes.-0 Otto passa-me
um vale.

Otto Dalton falou.

#
-Se o Tony diz que o senhor Korontzis  de confiana, ento no h
problema.

Sal Prizzi encolheu os ombros. -Pronto, ento est tudo bem. -Por
mim tudo bem -disse Perry Breslauer. Otto Dalton virou-se para
Victor Korontzis. -Quanto  que quer?

-D-lhe dez mil -disse Tony Rizzoli.

Korontzis olhou para ele surpreendido. Dez mil dlares eram mais do
que ele ganhara em dois anos. Mas Rizzoli devia saber o que estava a
fazer. Victor Korontzis engoliu. -Isso.., isso est timo. Um monte de
fichas foi colocado diante de Korontzis. As cartas nessa noite foram o
inimigo de Victor Korontzis.  medida que as apostas subiam, o seu
novo monte de fichas ia diminuindo. Tony Rizzoli tambm estava a
perder. As duas da madrugada, fizeram um intervalo. Korontzis levou
Tony Rizzoli para um canto.

-0 que  que est a acontecer?-Korontzis sussurrou em pnico. -Meu
Deus, sabe quanto dinheiro j estou a dever?

-No se preocupe, Victor. Eu tambm estou a dever. J fiz o sinal ao
Otto. Quando for ele a dar o jogo vai mudar. Vamos dar-lhes uma boa
coa.

Voltaram a sentar-se.

-D mais vinte e cinco mil dlares ao meu amigo-disse Rizzoli. Marvin
Seymour franziu o sobrolho.

-Tem a certeza de que ele quer continuar a jogar? Rizzoli voltou-se
para Victor Korontzis.

- consigo. -Korontzis hesitou. "J fiz sinal ao Otto. 0 jogo vai
mudar." -Jogo.

-Est bem.

Fichas no valor de vinte e cinco mil dlares foram colocadas diante de
Korontzis. Olhou para as fichas e de repente sentiu-se cheio de sorte,
Otto Dalton estava a dar.

-Muito bem, cavalheiros. 0 jogo  vasa de cinco cartas. A aposta
inicial  de mil dlares.

Os jogadores colocaram as fichas no centro da mesa.

Dalton distribuiu cinco cartas a cada jogador. Korontzis no olhou
para a mo que recebeu. Vou esperar, pensou ele, "Vai dar sorte.


#
Faam as vossas apostas. Marvin Seymour, sentado  direita de
Dalton, estudou a sua mo por um momento.

-Desisto. -Baixou as cartas. Sal Prizzi era a seguir.

-Eu jogo e subo mil. -Ps as fichas no centro da mesa. Tony Rizzoli
olhou para a sua mo e encolheu os ombros. -Desisto. -Baixou as
cartas.

Perry Breslauer estava a olhar para a sua mo e a rir-se. -Cubro o
aumento, e subo mais cinco mil. Custaria a Victor Korontzis seis mil
dlares continuar no jogo. Lentamente, apanhou a sua mo e abriu as
cartas em leque. No pde acreditar no que viu. Segurava um straight f
lush conveniente-uma quina, uma sena, um sete, um oito e um nove de
copas. "Uma mo perfeita! Afinal Tony Rizzoli tivera razo. Graas a
Deus! Korontzis tentou esconder a sua excitao.

-Cubro, e subo cinco mil. -Era esta mo que ia enriquec-lo. Dalton
entregou o jogo.

-Eu no. Passo.

-Agora  comigo-disse Sal Prizzi.-Acho que voc est a fazer bluff,
amigo. Jogo e subo mais cinco mil.

Victor Korontzis sentiu um ligeiro frmito de excitao atravess-lo.
Tinham-lhe dado uma mo que s se d uma vez na vida. Ia ser o
maior prmio acumulado do jogo.

Perry Breslauer estudava a sua mo.

-Bem, acho que vou jogar e subir mais cinco, companheiros. Era de
novo a vez de Victor Korontzis. Respirou fundo. -Cubro e subo mais
cinco mil. -Quase tremia de excitao. Era tudo o que podia fazer para
evitar estender as mos e recolher o bolo.

Perry Breslauer abriu as cartas, um olhar de triunfo no rosto. -Trs
reis. Ganhei!" pensou Victor Korontzis. -No chega -sorriu.

-Um straight flush. -Mostrou o jogo e estendeu a mo para arrecadar o
bolo.

-Calma a!-Sal Prizzi lentamente baixou a sua mo.-Ganho eu com um
royal flush. Do dez ao s de espadas.

Victor Korontzis empalideceu. Sentiu-se repentinamente a desfalecer,
e o corao comeou a palpitar.

-Caramba-disse Tony Rizzoli. -Dois straight flushes?-Virou-se para

#
Korontzis. -Lamento, Victor. Eu.. no sei o que dizer. Otto Dalton
disse:

-Acho que por hoje chega, cavalheiros. -Consultou um pedao de
papel e virou-se para Victor Korontzis. -Deve-me sessenta e cinco mil
dlares. Victor Korontzis olhou para Tony Rizzoli, espantado. Rizzoli
encolheu os ombros, impotente. Korontzis tirou um leno e comeou a
limpar a testa.

-Como  que quer pagar?-perguntou Dalton. -Em cheque ou em
dinheiro?

-No aceito cheques-disse Prizzi. Olhou para Victor Korontzis. -S
aceito dinheiro.

-Eu... eu... -As palavras no saam. Viu que estava a tremer. -No...
no tenho essa...

-0 rosto de Sal Prizzi escureceu. -Voc o qu?-gritou ele. Tony Rizzoli
disse rapidamente:

-Espere um pouco. 0 Victor no o tem com ele. Eu disse-lhes que ele
era de confiana.

-Isso no d camisa a ningum, Rizzoli. Eu quero ver o dinheiro dele.

-E vai ver -disse Rizzoli tranquilizadoramente. -T-lo- dentro de
dias.

Sal Prizzi ps-de de p num salto. -Isso  uma porra.

-No sou nenhuma instituio de caridade. Quero o dinheiro amanh.

-No se preocupe. Ele ir entreg-lo.

Victor Korontzis encontrava-se no meio de um pesadelo e no havia
sada. Ficou ali sentado, incapaz de mexer-se, mal se apercebendo da
sada dos outros. Tony e Korontzis ficaram sozinhos. Korontzis estava
aturdido.

-Eu... nunca serei capaz de arranjar todo esse dinheiro-ele chorava. Nunca!


Rizzoli ps uma mo sobre o ombro de Korontzis.

-No sei o que dizer-lhe, Victor. No sei o que  que correu mal. Acho
que perdi quase tanto dinheiro quanto voc esta noite. Victor
Korontzis enxugou os olhos.

#
-Mas... mas voc pode dar-se a esse luxo, Tony. Eu... no posso. Vou
ter que lhes dizer que no lhes posso pagar.

Tony Rizzoli disse:

-Eu se fosse voc pensaria melhor, Victor. 0 Sal Prizzi  o chefe do
Sindicato dos Marinheiros da Costa Leste. Parece que os tipos reagem
muito mal.

-Tem de ser. Se no tenho o dinheiro, essa  a verdade. Que poder ele
fazer-me?

-Deixe-me dizer-lhe aquilo que ele  capaz de lhe fazer-disse Rizzoli
com veemncia. -Ele pode mandar os homens dele darem-lhe um tiro
nos joelhos. Voc nunca mais d um passo. Pode mand-los atirarem-
lhe cido para os olhos. Voc nunca mais v. E depois, quando passar
por todas as dores que pode suportar, ele decidir se o deixar viver
nesse estada, ou se manda mofa-lo. Victor Korontzis olhava fixamente
para ele, a sua face cor de cinza. -Voc... voc est a brincar.

-Oxal estivesse. A culpa  minha, Victor. Eu nunca deveria t-lo
deixado entrar num jogo com um homem como o Sal Prizzi. Ele  um
assassino.

-Oh, meu Deus. 0 que  que eu vou fazer? -Tem algum modo de
arranjar o dinheiro? Korontzis comeou a rir-se histericamente.

-Tony... eu mal consigo sustentar a famlia com o que ganho. -Bem,
ento a nica coisa que posso sugerir  que voc deixe a cidade,
Victor. Talvez sair do pas. V para um stio onde o Prizzi no o
consiga encontrar.

-No posso fazer isso-lastimou-se Victor Korontzis.-Tenho mulher e
filhos. -Olhou para Tony Rizzoli com um ar acusador. -Voc disse
que a partida estava viciada, que ns no iramos perder. Voc disse-
me...

-Eu sei. E lamento sinceramente. Funcionou sempre antes. A nica
coisa em que posso pensar  que o Prizzi fez batota.

0 rosto de Korontzis encheu-se de esperana.

-Bem, ento, se ele fez batota no tenho de lhe pagar.

-H a um problema,Victor-disse Rizzoli pacientemente. -Se voc o
acusa de batoteiro, ele mata-o, e se voc no lhe paga ele mata-o.

-Oh, meu Deus -Korontzis queixou-se. -Sou um homem morto.

#
-Sinto-me muito mal com tudo isto. Tem a certeza de que no h


nenhuma maneira de conseguir arranjar...?
-Teria que viver cem vidas. Mil vidas. Tudo o que tenho est
hipotecado. Aonde  que eu ia arranjar,.,?


E ento Tony Rizzoli teve uma inspirao repentina.


-Espere um minuto, Victor! Voc no disse que aqueles artefatos do
museu valiam muito dinheiro?
-Sim, mas que tem isso a ver com,?
-Deixe-me s terminar. Voc disse que as cpias eram to boas como


os originais.
-Claro que no so. Qualquer perito saberia distinguir. -Mas  isso
mesmo. E se um desses artefatos desaparecesse e no seu lugar se


colocasse uma cpia? 0 que quero dizer  isto: quando estive no museu
havia l muitos turistas.
-Eles iriam notar alguma coisa?
-No, mas... sim... estou a ver qual  a sua idia. No, eu nunca poderia


fazer semelhante coisa,
Rizzoli disse brandamente:
-Entendo, Victor. Apenas pensei que talvez o museu pudesse dispensar


um pequeno artefato.
-Eles tm l tantos.
Victor Korontzis sacudiu a cabea.
-Sou conservador do museu h vinte anos. Nunca me passaria uma


coisa dessas pela cabea.
-Lamento imenso. Eu nem deveria ter falado nisso. A nica coisa que
me fez pensar no assunto foi porque isso poderia salvar-lhe a vida.
-Rizzoli levantou-se e espreguiou-se. -Bem, est a fazer-se tarde. A


sua mulher deve querer saber por onde  que voc anda. Victor
Korontzis olhava fixamente para ele.
-Podia salvar-me a vida? Como?
-E simples. Se voc tirasse uma dessas velharias... -antigidades.
-... antigidades... e d-me-a, eu poderia lev-la para fora do pas e


vend-la, e dava ao Prizzi o dinheiro que voc lhe deve. Acho que
consigo persuadi-lo a esperar esse tempo todo. E voc ficava


#
desenrascado. Claro que no preciso de lhe dizer a si o risco que me
estaria a fazer correr, porque, se eu fosse apanhado, ficava em grandes
sarilhos. Mas estou a oferecer-me, porque acho que lhe devo isso.
Quem o meteu nesta trapalhada fui eu.


-Voc  um grande amigo -disse Victor Korontzis. -Mas no posso
deitar-lhe as culpas. Eu no tinha nada de me meter nesse jogo. Voc
estava a tentar ajudar-me.


-Eu sei. S desejava que tudo tivesse acabado de uma forma diferente.
Bem, vamos dormir um pouco. Amanh falo consigo. Boa noite,
Victor.


-Boa noite, Tony.
A chamada chegou ao museu logo na manh seguinte. -Korontzis?
-Sim?
-Aqui fala Sal Prizzi. -Bom dia, senhor Prizzi.
-Estou a ligar por causa do assunto dos sessenta e cinco mil dlares. A


que horas posso ir busc-los?
Victor Korontzis comeou a transpirar bastante.
-Eu... no possuo esse dinheiro neste preciso momento, senhor Prizzi.
Houve um silncio no outro lado da linha.
-Mas a que raio de jogo anda voc a brincar comigo?
-Acredite, no estou a fazer jogo nenhum. Eu...
-Ento quero a merda do dinheiro. Est entendido?
-Claro que sim.
-A que horas fecha o museu?
-Seis... seis horas.
-Estarei a. Esteja com o dinheiro, ou parto-lhe a cara. E depois disso 


que vou mesmo fazer-lhe mal.
-A linha desligou.
Victor Korontzis permaneceu sentado cheio de medo. Queria


esconder-se. Mas onde? Foi engolido por uma sensao de desespero
total, apanhado num vrtice de "ses~: "Se ao menos eu no tivesse ido
ao casino nessa noite; se ao menos eu no tivesse conhecido o Tony
Rizzoli; se ao menos eu tivesse mantido a promessa que fiz  minha


#
mulher de no voltar a jogar." Sacudiu a cabea para desanuviar.


"Preciso de fazer alguma coisa e j.
E nesse momento, Tony Rizzoli entrou no gabinete dele. -Bom dia,
Victor.


Eram seis e meia. 0 pessoal tinha ido para casa, e o museu fechara
havia meia hora. Victor Korontzis e Tony Rizzoli estavam a olhar para
a porta da rua.


Korontzis estava a ficar cada vez mais nervoso.
-E se ele disser no? E se ele quiser o dinheiro hoje  noite?
-Eu encarrego-me dele -disse Tony Rizzoli. -Deixe que eu falo.
-E se ele no aparecer? E se ele... voc sabe... mandar algum matar-


me? Acha que seria capaz de fazer uma coisa dessas?


-No, enquanto tiver hiptese de ver o dinheiro dele -disse Rizzoli
confiantemente.
s sete horas, Sal Prizzi finalmente apareceu. Korontzis correu para a


porta e abriu-a.
-Boa noite-disse ele. Prizzi olhou para Rizzoli.
-Mas que raio est voc a fazer aqui?
Voltou-se para Victor Korontzis.
-Isto  s entre ns.
-Calma-disse Rizzoli. -Estou aqui para ajudar.
-No preciso da sua ajuda. -Prizzi voltou-se para Korontzis. -Onde 


que est o meu dinheiro?
-Eu... no o tenho. Mas...
Prizzi agarrou pelos colarinhos.
-Oua, meu cabro. Ou me d o dinheiro esta noite, ou vai ser comida


dos peixes. Percebe?
Tony Rizzoli disse:
-Eh, acalme-se. Vai receber o seu dinheiro. Prizzi voltou-se para ele.
-Eu disse-lhe para no se meter nisto. 0 assunto no lhe diz respeito.
-Vai ser assunto meu. Eu sou amigo do Victor. 0 Victor no tem o


dinheiro neste preciso momento, mas descobriu maneira de lho
arranjar.


#
-Ele tem o dinheiro ou no tem?
-Tem e no tem -disse Rizzoli.
-Que raia de resposta essa?
0 brao de Tony Rizzoli correu a sala.
-0 dinheiro est aqui.
Sal Prizzi perscrutou a sala.
-Onde?
-Naquelas vitrinas. Esto cheias de velharias... -antigidades-disse


Korontzis automaticamente. -... que valem uma fortuna. Estou a falar
de milhes.


-Ah sim? -Prizzi virou-se para olhar as vitrinas.
-Para que  que me servem se esto trancadas num museu? Eu quero
dinheiro.


-Voc vai ter dinheiro -disse Rizzoli brandamente. -0 dobro daquilo
que o meu amigo lhe deve. S tem que ter um pouco de pacincia, 
tudo, o Victor no  um cambista. Ele apenas precisa de um pouco de
tempo. Eu vou-lhe contar o plano dele. 0 Victor vai tirar uma destas
velharias.., antigidades... e vend-la. Assim que ele arranjar o
dinheiro, paga-lhe. Sal Prizzi sacudiu a cabea.


-Isto no me cheira. No sei nada desse negcio de velharias.
-E no precisa. 0 Victor  um dos maiores peritos do mundo. -Tony


Rizzoli foi at uma das vitrinas e apontou para uma cabea de
mrmore. -Quanto  que isso vale, Victor ?
Victor Korontzis engoliu.
-Esta  a deusa Higia, sculo catorze antes de Cristo. Qualquer


colecionador pagaria com todo o prazer dois ou trs milhes de dlares


por isso.
Rizzoli voltou-se para Sal Prizzi. -A tem. Entende o que eu digo?
Prizzi franziu o sobrolho.


-No sei. Quanto tempo  que eu teria de esperar?
-Ter o dobro do seu dinheiro dentro de um ms.
Prizzi pensou por um momento, depois fez um sinal afirmativo com a


cabea.


#
-Tudo bem, mas se eu tiver de esperar um ms quero mais... digamos,


mais duzentos mil dlares.
Tony Rizzoli olhou para Victor Korontzis. Korontzis sacudia a cabea
ansiosamente.


-Muito bem -disse Rizzoli. -Est combinado. Sal Prizzi dirigiu-se ao


conservador de baixa estatura.
-Vou dar-lhe trinta dias. Se eu no tiver o dinheiro nessa altura, voc
ser carne para co. Est a perceber?


Korontzis engoliu. -Estou.
-Lembre-se... trinta dias.
Deu a Tony um longo e duro olhar.
-Eu no gosto de si.
Ficaram a olhar enquanto Sal Prizzi se voltou e saiu da sala. Korontzis


afundou-se numa cadeira, enxugando a testa.
-Oh, meu Deus-disse ele. -Pensei que ele ia me matar. Acha que
conseguimos arranjar-lhe o dinheiro dentro de trinta dias? -Claro


prometeu Tony Rizzoli. -Tudo o que tem a fazer  tirar uma dessas
coisas da vitrina e pr l uma cpia.
-Como  que vai lev-la para fora do pas? Voc vai parar  priso se


for apanhado.


-Eu sei-disse Tony corajosamente. -Mas  um risco que vou ter de
correr. Eu devo-lhe isso, Victor.
Uma hora depois, Tony Rizzoli, Sal Prizzi, Otto Dalton, Perry


Breslauer e Marvin Seymour estavam a tomar umas bebidas na suite


do hotel de Dalton.
-Correu s mil maravilhas -disse Rizzoli . -0 gajo apanhou c um
cagao.


Sal Prizzi deu um sorriso largo, mostrando os dentes. -Assustem, hem?
-Assustaste-me foi a mim-disse Rizzoli. -Davas um ator do caraas.
-Que  que ficou combinado agora? -perguntou Marvin Seymour.
Rizzoli replicou.
-Combinamos o seguinte: ele d-me uma daquelas velharias. Eu


arranjo maneira de faz-la sair e vend-la. Depois cada um de vocs
receber a sua parte.


#
-Lindo -disse Perry Breslauer. -Adoro.

" como ter uma mina de ouro, pensou Rizzoli. "Assim que Korontzis
comear com isto, est no papo. No vai poder voltar atrs. Vou
obrig-lo a limpar todo aquele maldito museu.

Marvin Seymour perguntou:

-Como  que vais levar a coisa para fora do pas?

-Eu arranjo maneira -disse Tony Rizzoli. -Eu arranjo maneira.

Tinha de arranjar. E depressa. Alfredo Mancuso e Gino Laveri
estavam  espera.

No quartel-general da polcia, situado na Rua Stadiou, fora convocada
uma reunio de emergncia. Na sala de conferncias estavam o chefe
da polcia Dmitri, o inspetor Tinou, o inspetor Nicolino, Walt Kelly, o
agente do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos da Amrica e
meia dzia de detetives. 0 ambiente era muito diferente do da reunio
anterior.

0 inspetor Nicolino dizia:

-Temos agora razes para acreditar que a sua informao estava
correta, senhor Kelly. As nossas fontes dizem-nos que Tony Rizzoli
est a tentar encontrar um meio para fazer sair um vultuoso embarque
de herona de Atenas. J demos incio a uma revista de possveis
armazns onde ele a possa ter guardado.

-Ps o Rizzoli sob vigilncia?

-Aumentmos o nmero de homens esta manh-disse o chefe Dmitri.

Walt Kelly suspirou.

-S espero que no seja tarde de mais.

0 inspetor Nicolino atribuiu a vigilncia de Tony Rizzoli a duas
equipas de detetives, mas ele subestimou o seu sujeito.  tarde Rizzoli
apercebeu-se de que tinha companhia. Sempre que saa do pequeno
hotel em que estava hospedado, era seguido, e quando regressava
havia sempre algum a matar casualmente o tempo nas traseiras. Eram
profissionais a srio. Rizzoli gostava disso. Era um sinal de respeito
por ele. Ele agora no s tinha de achar uma maneira de fazer sair a
herona de Atenas mas tambm ia ter uma antiguidade sem preo para
negociar. 0 Alfredo Mancuso e o Gino Laveri no me largam, e a
polcia caiu em cima de mim como um cobertor molhado. Tenho de

#
fazer um contato rapidamente". 0 nico que lhe veio imediatamente 
cabea foi o de Ivo Bruggi, um pequeno armador de Roma. Rzzoli
fizera negcio com Bruggi no passado. Era urna tentativa com pouca
possibilidade de sucesso, mas era melhor do que nada. Rzzoli tinha a
certeza de que o telefone do seu quarto de hotel estava sob
escuta.Tenho de arranjar um estratagema para poder receber chamadas
no hotel. Ficou sentado a pensar longamente. Por fim, levantou-se e
foi at ao quarto em frente e bateu  porta. Foi um homem idoso de
rosto irritado que a abriu.

-Sim?

Rzzoli mostrou-se simptico.

-Desculpe-me -disse ele. -Lamento incomod-lo. Vivo no quarto em
frente. Ser que eu poderia entrar e falar consigo por um minuto?

0 homem analisou-o desconfiadamente. -Quero v-lo abrir a porta do
seu quarto. Tony Rzzoli sorriu.

-Certamente. -Atravessou o corredor, tirou a chave e abriu a porta.

0 homem fez um sinal afirmativo com a cabea. -Est certo. Entre.

Tony Rzzoli fechou a porta e entrou no quarto que ficava no lado
oposta.

-Que  que quer?

-Bem, trata-se de um problema pessoal, e custa-me muito incomod-lo,
mas... Bem, a verdade  que estou quase a divorciar-me, e a minha
mulher contratou algum para me seguir.

Abanou a cabea desgostoso.

-Ela at ps o telefone do meu quarto sob escuta. -Mulheres!
-resmungou o vizinho. -Malditas. Eu divorciei-me o ano passado. Uma
coisa que j devia ter feito h dez anos. -Ah ? De qualquer forma, o
que eu queria era saber se o senhor no se importava que eu desse o
nmero do telefone do seu quarto a dois amigos para eles me
telefonarem para aqui. Prometo que no havero muitas chamadas.

0 homem comeou a abanar a cabea. -Eu no posso ser incomodado...
Rzzoli puxou de uma nota de cem dlares do bolso. -Isto  para pagar

o seu incmodo.
0 homem lambeu os lbios.

-Oh. Bem, claro- disse ele. -Acho que no vai haver problemas. Tenho

#
muito gosto em fazer um favor a um companheiro sofredor.

- certamente muito amvel da sua parte. Sempre que houver uma
chamada para mim, basta bater  minha porta. Eu estarei por aqui a
maior parte do tempo.

-Certo.

Logo pela manh do dia seguinte, Rzzoli foi a uma central de cabinas
telefnicas ligar para Ivo Bruggi. Marcou o cdigo 39 da Itlia e o
indicativo 6 de Roma.

-Signor Bruggi, per piacere. -Non c in casa.

-Quando arriver? -Non lo so.

-Ghi dica, per favore, di chiamare il signor Rzzoli.

-Rzzoli deu o nmero do telefone do PBX do hotel e o nmero do
quarto do vizinho. Regressou ao quarto. Ele detestava o quarto.
Algum lhe dissera que a palavra grega parahotel eraxenodochion, que
significava um recipiente para forasteiros.

"Mais parece a merda de uma priso", pensou Rzzoli. A moblia era
feia: um sof verde e velho, duas mesas de canto gastas com
candeeiros,uma pequena escrivaninha com um candeeiro e uma
cadeira de escrivaninha, e uma cama concebida por Torquemada. Nos
dois dias que se seguiram Tony Rzzoli ficou no quarto,  espera que
batessem  porta, pedindo a um paquete que lhe trouxesse a comida.
Ningum telefonou. Onde  que para o Ivo Bruggi?" A equipa de
vigilncia informava o inspetor Nicolino e Walt Kelly.

-0 Rzzoli est escondido no hotel. No arreda p h quarenta e oito
horas.

-Tem a certeza de que ele est l? -Tenho, sim. As criadas vem-no de
manh e  noite quando vo arrumar o quarto.

-E quanto a chamadas telefnicas? -Nem uma. Que quer que a gente
faa?

-Mantenham o controlo. Ele ir agir mais cedo ou mais tarde. E
verifiquem se a escuta do telefone est a funcionar.

No dia seguinte, o telefone do quarto de Rizzoli tocou.

Porra!" Bruggi no devia ligar para aqui, Deixara recado para o idiota
ligar para o quarto do vizinho. Teria de ser cuidadoso. Rizzoli atendeu
a telefone.

#
-Estou? Uma voz disse: - o Tony Rizzoli?

-No era a voz de Ivo Bruggi. -Quem fala?

-0 senhor veio falar comigo ao meu escritrio no outro dia com uma
proposta de negcio, senhor Rizzoli. Eu recusei. Acho que devemos
discuti-la de novo.

TonyRizzoli sentiu uma excitao repentina de exaltao. Spyros
Lambrou! Ento o sacana mudou de ideia. No conseguia acreditar na
sorte que estava a ter. Todos os meus problemas esto resolvidos.
Posso embarcar a herona e a velharia ao mesmo tempo.u

-Mas  claro. Terei muito prazer em falar no assunto. -Quando  que
poderia encontrar-se comigo?

-Pode ser hoje  tarde?

<~Ento ele est morto por fazer um acordo. Os cabres dos ricos so
todas a mesma coisa. Nunca esto satisfeitos com o que tm."

-timo. Onde?

-Porque  que no vem at ao meu escritrio?

-A estarei. -Tony Rizzoli voltou a colocar o telefone, entusiasmado.

No salo do hotel, um detetive frustrado informava o quartel-general. 0
Rizzoli acabou de receber um telefonema. Vai-se encontrar com
algum no escritrio dessa pessoa, mas o homem no disse o nome e
no podemos localizar a chamada.

-Tudo bem. Sigam-no quando sair do hotel. Informem-me do destino
dele.

-Perfeitamente.

Dez minutos depois, Tony Rizzoli saa de gatinhas por uma janela da
cave que dava para um beco nas traseiras do hotel. -Mudou de txi
duas vezes para ter a certeza de que no estava a ser seguido e dirigiu-
se para o escritrio de Spyros Lambrou. Desde o dia em que Spyros
Lambrou visitara Melina no hospital, jurara vingar a irm. Mas fora
incapaz de pensar numa punio assaz terrvel para Constantin
Demiris. Depois, com a visita de Gino Laveri e a notcia sensacional
que Madame Piris lhe dera, teve acesso a uma arma que ia destruir o
cunhado. A secretria anunciou;

-Est aqui um senhor de nome Anthony Rizzoli que deseja v-lo. No
tem hora marcada e eu disse-lhe que o senhor no podia... -Mande-o

#
entrar.
-Com certeza.
Spyros Lambrou observou a entrada de Rizzoli, sorridente e confiante.
-Obrigado por ter vindo, senhor Rizzoli.
Tony Rizzoli deu um sorriso largo que lhe mostrou os dentes.
-0 prazer  meu. Ento sempre decidiu fazer negcio comigo, hem?
-No.
0 sorriso de Tony Rizzoli desvaneceu-se. -Como disse?
-Eu disse que no. No tenho intenes de fazer negcio consigo.


Tony Rizzoli fitou, confundido.


-Ento por que diabo me chamou? 0 senhor disse que tinha uma
proposta a fazer-me e...
-E tenho. Gostava de usar a frota de navios de Constantin Demiris?
Tony Rizzoli afundou-se numa cadeira.
-Constantin Demiris? De que  que est a falar? Ele nunca... -Claro


que sim. Posso prometer-Ihe que o senhor Demiris ficar muito feliz
por lhe dar tudo o que voc quiser.


-Porqu? Que ganha ele com isso? -Nada.
-Isso no faz sentido. -Lambrou carregou no boto do
intercomunicador. -Traga caf, por favor, - Olhou para Tony Rizzoli. Como
 que gosta do seu?


-... puro, sem acar.
-Puro, sem acar, para o senhor Rizzoli.
Quando o caf foi servido e a secretria saiu da sala, Spyros Lambrou


disse;


-Vou contar-lhe uma pequena histria, senhor Rizzoli. Tony Rizzoli
observava-o, desconfiado.
-Vamos a isso.


- Constantin Demiris  casado com a minha irm. Aqui h uns anos ele
arranjou uma amante. Chamava-se Noelle Page.
-A atriz ?
-Sim. Ela enganou com um homem de nome Larry Douglas. Noelle e


#
Douglas foram a julgamento por homicdio da mulher de Douglas,
porque ela no lhe quis dar o divrcio. Constantin Demiris contratou
um advogado de nome Napoleon Chotas para defender Noelle.

-Lembro-me de ter lido algo sobre o julgamento. -H algumas coisas
que no apareceram nos jornais.

-Sabe, o meu prezado cunhado no tinha inteno de salvar a vida da
amante infiel. Queria vingana. Contratou o Napoleon Chotas para
garantir a condenao de Noelle. Perto do fim do julgamento, o
Napoleon Chotas disse aos rus que tinha feito um acordo com os
juzes se eles assumissem a culpa. Era mentira. Eles assumiram a
culpa. E foram executados.

-Talvez esse tal Chotas realmente pensasse que... -Deixe-me terminar,
por favor, 0 corpo de Catherine nunca foi encontrado. A razo por que
nunca foi encontrado, senhor Rizzoli,  porque ela est viva. 0
Constantin Demiris manteve-a escondida. Tony Rizzoli olhava
fixamente para ele.

-Espere um minuto. 0 Demiris sabia que ela estava viva e deixou que a
amante e o namorado morressem porque a assassinaram? -Exatamente.
No sei ao certo como  a lei, mas estou certo de que, se os fatos
fossem conhecidos, o meu cunhado passaria uns bons anos na priso.
No mnimo, ficaria certamente arruinado.

Tony Rizzoli deixou-se ficar ali sentado, pensando no que acabara de
ouvir. Havia algo que o intrigava.

-Senhor Lambrou, por que me est a contar tudo isto?

Os lbios de Spyros Lambrou moveram-se num sorriso beatfico.
-Porque devo um favor ao meu cunhado. Quero que v falar com ele.
Tenho um pressentimento de que ele com todo o prazer o deixar usar
os navios dele. Havia tempestades assolando o seu interior que no
conseguia controlar, um centro frio bem no seu fundo, sem memrias
quentes para dissolv-lo. Comearam h um ano com o seu ato de
vingana contra Noelle. Ele pensara que isso tinha terminado, que o
passado estava enterrado. Nunca lhe ocorrera que pudesse haver
repercusses at que, inesperadamente, Catherine Alexander
regressara  sua vida. Isso solicitara o afastamento de Frederick
Stavros e Napoleon Chotas. Eles haviam encetado um jogo mortal
contra ele, e ele vencera. Mas o que surpreendera Constantin Demiris
foi o quanto ele gostara do risco, o fio cortante da excitao. Os

#
negcios eram fascinantes, mas em nada se comparavam ao jogo da
vida e da morte. <Eu sou um assassino", pensouDemiris. "No, no
um assassino. Um carrasco." E, em vez de ficar aterrado pelo fato, ele
achavam divertido. Constantin Demiris recebia um relatrio semanal
das atividades de Catherine Alexander. At agora, tudo corria
perfeitamente. As suas atividades sociais limitavam-se s pessoas com
quem ela trabalhava. De acordo com Evelyn, Catherine saa
ocasionalmente com Kirk Reynolds. Mas, como Kirk trabalhava para
Demiris, isso no apresentava problema. "A pobre rapariga deve estar
desesperada", pensou Demiris. Reynolds era um chato. S sabia falar
de leis. Mas isso at vinha a calhar. Quanto mais desesperada
Catherine estivesse por ter companhia, mais fcil seria para ele. Devo
ao Reynolds um voto de agradecimento." Catherine encontrava-se com
Kirk Reynolds regularmente, e sentia-se cada vez mais atrada por ele.
Ele no era bonito, mas era certamente atraente. "para bonito j me
chegou o Larry", pensou Catherine com desagrado. "0 velho provrbio
 verdadeiro": A nobreza de cada provm da sua virtude. Kirk
Reynolds era atencioso e de confiana. "E algum com quem posso
contar", pensou Catherine. "No sinto nenhuma centelha ardente, mas
 provvel que nunca mais venha a senti-la. 0 Lorry encarregou-se
disso. Tenho a experincia necessria para escolher um homem que eu
respeite, que me respeite como companheira, algum com quem eu
possa partilhar uma vida s e agradvel sem estar com a preocupao
de que me atirem do cimo duma montanha ou me queimem em grutas
escuras." Foram ao teatro ver Dama no  para Queimar, de
Christopher Fry, e, noutra noite, Mar de Setembro, com Gertrude
Lawrence. Iam a clubes noturnos. Parecia que todas as orquestras s
tocavam o Tema do Terceiro Homem e La Vie En Rose.

-Vou a St. Moritz para a semana-disse Kirk Reynolds a Catherine. -J
te decidiste?

Catherine pensara muito no assunto. Tinha a certeza de que Kirk
Reynolds estava apaixonado por ela.

"E eu amo-o", pensou Catherine. "Mas amar e estar apaixonada so
duas coisas bem diferentes, no so? Ou serei eu apenas uma
romntica parva? De que ando eu  procura-de outro Lorry?-de
algum que me deixe empolgada, se apaixone por outra mulher e me
tente matar? Kirk Reynolds poderia ser um marido maravilhoso.
Porque  que eu hesito?"

#
Nessa noite Catherine e Kirk jantaram no Mirabelle's e, durante a
sobremesa, Kirk disse:

-Catherine, caso no saibas, estou apaixonado por ti. Quero casar-me
contigo.

Ela sentiu um pnico repentino.

-Kirk... -E no estava certa do que ia dizer. "As minhas prximas
palavras", pensou Catherine, "vo mudar a minha vida. Seria to
simples dizer que sim. 0 que  que me impede?  o medo do passado?
Vou viver o resto da minha vida amedrontada? No posso deixar que
isso acontea." , -Cathy...

-Kirk.., por que no vamos os dois a St. Moritz? 0 rosto de Kirk
iluminou-se.

-Isso quer dizer,..?

-Veremos. Quando me vires a esquiar, provavelmente no vais querer
casar comigo.

-Kirk riu-se. -Nada no mundo me poderia impedir de querer casar
contigo. Tu fizeste de mim uma pessoa muito feliz. -Vamos no dia
cinco de Novembro-no Dia de Guy Fawkes. -0 que  o Dia de Guy
Fawkes?

- uma histria fascinante. 0 rei James imps uma rigorosa poltica
anticatlica, deforma que um grupo de proeminentes catlicos
romanos conspiraram o derrube do governo. Um soldado chamado
Guy Fawkes foi trazido de Espanha para encabear a conspirao.
Arranjou uma tonelada de plvora, distribuda por sessenta e seis
barris, que seria escondida na cave da Casa dos Lordes. Mas, na
manh em que iam explodir a Casa dos Lordes, um dos conspiradores
denunciou-os e eles foram todos presos. Guy Fawkes foi torturado,
mas no quis confessar. Os homens foram todos executados. Agora,
todos os anos na Inglaterra, o dia da descoberta da conspirao 
celebrado com fogueiras e fogo-de-artifcio, e os midos fazem efgies
do Guy. Catherine sacudiu a cabea.

- um feriado bastante desagradvel. Ele sorriu e disse ternamente:

-Prometo que o nosso no vai ser desagradvel.

Na noite da vspera da partida, Cather ne lavou a cabea, fez e desfez
a mala duas vezes e sentiu-se agitada pela excitao. Na vida apenas
conhecera carnalmente dois homens: William Fraser e o marido.

#
"Ainda se usam palavras como carnalmente?" Catherine interrogou-se.
"Meu Deus, espero no me ter esquecido. Dizem que  como andar de
bicicleta; assim que se experimente, nunca mais se esquece. Talvez v
ficar desapontado comigo na cama. Talvez eu deva deixar-me de
preocupar com isso e dormir."

-Senhor Demiris ? -Sim.

-A Catherine Alexander partiu esta manh para St. Moritz. Houve um
silncio.

-St. Moritz ? -Sim, senhor. -Foi sozinha? -No, senhor. Foi com o
Kirk Reynolds.

Desta vez o silncio foi mais longo. -Obrigado, Evelyn. Kirk
Reynolds! Era impossvel. Que poderia ela ver nele? "Esperei tempo
de mais. Devia ter agido mais depressa. Terei de fazer qualquer coisa.
No posso permitir que ela..." A secretria tocou a campainha.

-Senhor Demiris, est aqui um senhor Tony Rizzoli que deseja v-lo.
No tem hora marcada e...

-Ento porque  que voc me est a incomodar? -Demiris perguntou.
Desligou o intercomunicador repentinamente,

Tornou a tocar.

-Peo desculpa por incomod-lo. 0 senhor Rizzoli diz que traz um
recado para si do senhor Lambrou. Diz que  muito importante. "Um
recado?" Estranho. Por que no vinha o prprio cunhado dar o recado?

-Ele que entre. -Sim, senhor.

Tony Rizzoli foi conduzido ao gabinete de Constantin Demiris.
Percorreu os olhos pelo gabinete apreciativamente. Era ainda mais
prdigo que os gabinetes de Spyros Lambrou,

-Foi simptico de sua parte receber-me, senhor Demiris. Tem dois
minutos.

-Quem me mandou vir c foi o Spyros. Ele  da opinio de que eu e o
senhor temos de conversar.

-No me diga? E vamos falar de qu? -Importa-se que eu me sente?

-No acho que v ficar aqui tempo suficiente para isso.

Tony Rizzoli instalou-se numa cadeira de frente para Demiris. -Eu
tenho uma fbrica de manufatura, senhor Demiris. Envio coisas para
vrias partes do mundo.

#
-Estou a ver. E quer fretar um dos meus navios. -Exatamente.

-Porque  que o Spyros o mandou vir ter comigo? Porque  que no
freta um dos navios dele? Ele por acaso at tem dois parados neste
momento.

Tony Rizzoli encolheu os ombros.

-Parece-me que ele no gosta do que eu envio. -No entendo. 0 que 
que voc envia?

-Drogas -disse Tony Rizzoli delicadamente. -Herona. Constantin
Demiris fitava-o sem acreditar.

-E voc espera que eu...? Ponha-se daqui para fora antes que eu chame
a polcia.

Rizzoli fez um movimento com a cabea na direo do telefone. -No
demore.

Observou Demiris a alcanar o telefone.

-Eu tambm gostava de falar com eles. Gostava de lhes contar sobre o
julgamento de Noelle Page e Lorry Douglas.

Constantin Demiris ficou paralisado. -De que  que est a falar?

-Estou a falar de duas pessoas que foram executadas pelo homicdio
de uma mulher que ainda est viva.

0 rosto de Constantin Demiris empalidecera.

-Acha que a polcia venha a mostrar-se interessada por essa histria,
senhor Demiris? Se no se mostrar, talvez a imprensa, no? J estou a
ver os ttulos, e o senhor? Posso trat-lo por Costa? 0 Spyros disse-me
que todos os seus amigos o tratam por Costa, e eu acho que ns os dois
vamos ser bons amigos. Sabe porqu? Porque os bons amigos no se
traem uns aos outros. Vamos fazer dessa presazita de que o senhor foi
autor o nosso segredo, est bem?

Constantin Demiris estava sentado rgido na cadeira. -Quando falou,
foi com uma voz rouca. -0 que  que voc quer? -J lhe disse. Quero
fretar um dos seus barcos... e, como somas bons amigos, acho que no
me vai cobrar nada pelo frete, pois no?Digamos que se trata de um
favor em troca de outro favor.

Demiris respirou fundo.

-No posso permitir que faa isso. Se um dia se viesse a descobrir que
permiti o contrabando de drogas num dos meus barcos, poderia perder

#
toda a minha frota,

-Mas no vai ser, pois no? No meu negcio no fao publicidade.
Vamos faz-lo sem nenhum alarido.

A expresso de Constantin Demiris endureceu.

-Voc est a cometer um grande erro. No pode fazer chantagem
comigo. Sabe quem eu sou?

-Claro. Voc  o meu novo scio. Ns os dois vamos fazer negcios
juntos por muito tempo, Costa, porque, se voc disser que no, vou
daqui direitinho  polcia e aos jornais e digo tudo. E l vo a sua
reputao e a trampa do seu imprio para o fundo.

Seguiu-se um longo e doloroso silncio.

-Como... como  que o meu cunhado descobriu? Rizzoli sorriu.

-Isso no importa. 0 que importa  que o trago preso pelos tomates. Se
aperto, voc vira um eunuco. Voc vai ser um soprano profissional
para o resto da vida e vai cantar numa cela prisional. -Tony Rizzoli
olhou para o relgio. -Meu Deus, os meus dois minutos esgotaram-se.
-Ps-se de p. -Vou dar-lhe sessenta segundos para decidir se saio
daqui como seu scio, ou se saio simplesmente.

Constantin Demiris de repente pareceu dez anos mais velho. 0 rosto
estava lvido. No tinha iluses sobre o que aconteceria se a verdadeira
histria do julgamento viesse ao de cima. A imprensa ia com-lo vivo.
Seria retratado como um monstro, um assassino. Podiam at abrir
inquritos s mortes de Stavros e Chotas.

-Os seus sessenta segundos acabaram. Constantin Demiris sacudiu a
cabea lentamente. -Est bem -sussurrou ele -, est bem.

Tony Rizzoli sorriu triunfantemente para ele. -Voc  esperto.

Constantin Demiris ergueu-se lentamente.

-Desta vez vou deix-lo sair com o material -disse ele. -No quero
saber como ou quando ir faz-lo. Vou pr um dos seus homens a
bordo de uns dos meus barcos. No darei mais um passo.

-Combinado -disse Tony Rizzoli. Ele pensava: "Talvez no sejas to
esperto. Leva-me s um carregamento de herona e ests apanhado,
Costa. Nunca mais te vs livre de mim." Em voz alta, repetiu. -Certo,
est combinado.

Quando ia a caminho de regresso ao hotel, Tony Rizzoli estava

#
exultante. "Bingo, Os agentes dos narcticos nunca pensariam em
tocar naf rota de Constantin Demiris. Meu Deus, de agora em diante
poderei carregar todos os navios dele com destino para o estrangeiro. 0
dinheiro ir rolar. Herona e velharias-desculpa, Victor, riu-se em voz
alta-antigidades.

Rizzoli entrou numa cabina telefnica da Avenida Stadiou e fez duas
chamadas. A primeira foi para Pete Lucca em Palermo, -Podes tirar os
teus dois gorilas daqui, Pete, e p-los de volta no jardim zoolgico,
que  a casa deles. 0 material est pronto para seguir. Vai de barco.

-Tens a certeza de que a embalagem  segura? Rizzoli riu-se.

- mais segura do que o Banco de Inglaterra. Conto-te tudo

quando estivermos juntos. E tenho outra boa notcia. De agora em
diante vamos poder fazer um envio todas as semanas.

-Isso  maravilhoso, Tony. Eu sempre soube que podia contar contigo.

"Sabias o tanas, seu cabro " A segunda chamada foi para Spyros
Lambrou.

-Correu bem. Eu e o seu cunhado vamos fazer negcio juntos. Parabns.
Estou encantado por saber disso, senhor Rizzoli. Quando
Spyros Lambrou pousou o telefone, sorriu. "Abrigada de narcticos
tambm."

Constantin Demiris ficou no gabinete at depois da meia-noite,
sentado  secretria, contemplando o seu novo problema. Tinha-se
vingado de Noelle Page, e ela regressava agora do tmulo para
persegui-lo. Meteu a mo numa gaveta e tirou um caixilho com o
retrato de Noelle. " Oh, sua cabra. Deus, como era bela! Pensas ento
que me vais destruir. Bem, veremos. Veremos." St. Moritz era um
encantamento. Eram milhas de pistas de esqui colina abaixo,
elevadores, passeios de tren e tobog, torneios de plo e uma dzia
de outras atividades. Enroscada em volta de um lago cintilante no vale
de Engadine a mil e oitocentos metros de altitude na encosta dos
Alpes, entre Celerina e Piz Nair, a pequena aldeia fez Catherine ofegar
de deleite. Catherine e Kirk Reynolds registraram-se no fabuloso Hotel
Palace. 0 salo estava cheio de turistas oriundos de uma dezena de
pases. Kirk Reynolds disse ao empregado da recepo:

-Uma reserva para senhor e senhora Reynolds.

Catherine desviou o olhar. "Eu devia ter posto uma aliana de

#
casada.~Tinha a certeza de que todas as pessoas que estavam no salo
olhavam fixamente para ela, sabendo o que ela estava a fazer.


-Sim, senhor Reynolds. Suite duzentos e quinze.-0 empregado
entregou uma chave ao paquete, que lhes disse:


-Por aqui, por favor.
Foram levados para uma suite lindssima, mobiliada com simplicidade,
com uma vista espetacular das montanhas de todas as janelas. Quando


o paquete saiu, Kirk Reynolds tomou Catherine nos braos.
-No tenho palavras para te dizer como me tornaste feliz, querida.
-Espero dar-te essa felicidade-respondeu Catherine.-Eu... j faz tanto
tempo, Kirk.
-No te preocupes. No te vou apressar.
"Ele  to querido, pensou Catherine, "mas que sentiria ele ameu


respeito se eu lhe contasse o meu passado?" Ela nunca lhe falara de
Larry, do julgamento por homicdio ou de nenhuma das coisas
terrveis que lhe aconteceram. Queria sentir-se ntima dele, confiar
nele, mas havia algo que a impedia.


- melhor desfazer as malas -disse Catherine.
Desfez as malas lentamente-demasiado lentamente-e de repente
apercebeu-se de que estava a empatar, com medo de acabar o que fazia


porque receava o que ia acontecer a seguir. Do outro quarto ouviu
Kirk chamar. -Catherine...
"Oh, meu Deus, ele vai dizer vamos despir-nos e vamos para a camaN.


Catherine engoliu e disse em voz baixa: -Sim?


-Por que no vamos passear um pouco por a~? Catherine enfraqueceu
de alvio.
- uma idia maravilhosa-disse ela entusiasticamente. "Que se passa


comigo? Estou num dos lugares mais romnticos do mundo, com um
homem atraente que me ama, e estou em pnico?"
Reynolds olhava-a de um modo estranho. -Ests bem?
-tima -disse Catherine alegremente. -Simplesmente tima.
-Ests com um ar preocupado.
-No. Eu... estava a pensar em.., em esquiar. Dizem que  perigoso.
Reynolds sorriu.


#
-No te preocupes. Comeamos com uma descida suave, amanh,


Vamos.
Vestiram camisolas e bluses forrados e saram de encontro ao ar
luminoso e revigoraste.


Catherine respirou fundo.
-Oh,  maravilhoso, Kirk. -Adoro isto aqui.
-E ainda no viste nada-deu um sorriso largo. -No Vero  duas vezes


mais bonito.
"Ser que ele no vero ainda me quer ver?N Catherine interrogava-se.


"Ou ser que eu vou ser um grande desapontamento para ele? Porque 
que eu me preocupo tanto?~
A aldeia de St. Moritz era encantadora, uma maravilha medieval,


repleta de lojas, restaurantes e chals exticos, enquadrada no meio


dos majestosos Alpes.
perambularam pelas lojas, e Catherine comprou presentes para Evelyn
e Wim. Pararam num pequeno caf e mandaram vir um fondue.


 tarde, Kirk Reynolds alugou um tren puxado por um cavalo baio, e
percorreram os caminhos cobertos de neve at s colinas, a neve
esmagando-se sob as sapatilhas de metal.


-Ests a gostar? -perguntou Reynolds.


-Oh, sim.-Catherine olhou para ele e pensou, "Vou fazer-te to feliz.
Hoje  noite! Sim, hoje  noite. Vou fazer-te feliz hoje  noite."
Nessa noite, jantaram no hotel em Stubli, um restaurante com a


atmosfera de uma velha estalagem.


-Esta sala data de 1480 -disse Kirk. -Ento  melhor no pedirmos o
po. -0 qu?
-Uma pequena piada. Desculpa.
"0 Larry costumava perceber as minhas piadas; por que estou a pensar


nele? Porque no quero pensar nesta noite. Pareo a Maria Antonieta a


caminho da guilhotina. No vou pedir bolo para sobremesa."
A refeio foi soberba, mas Catherine estava nervosa de mais para
apreciar. Quando acabaram, Reynolds disse:


-Vamos subir? Arranjei-te uma lio de esqui para logo de manh.
-Certo. timo. Certo.


#
Comearam a subir as escadas, e Catherine sentiu que o corao lhe
batia depressa no peito. "Ele vai dizer, "Vamos j para a cama". E
porque no? Foi para isso que eu vim aqui, no foi? No posso fazer
de conta que vim para aqui esquiar."


Chegaram  suite, e Reynolds abriu a porta e acendeu as luzes. Foram
para o quarto e Catherine fixou o olhar na cama enorme. Parecia
ocupar o quarto todo.


Kirk observava-a.
-Catherine... ests preocupada com alguma coisa?
-0 qu?-Uma risadinha oca. -Claro que no. Eu... eu s... -S o qu?
Ela deu-lhe um sorriso alegre. -Nada. Estou bem.
-timo. Vamos despir-nos para nos deitarmos. Exatamente aquilo


que eu sabia que ele ia dizer. Mas ser que ele precisava de dizer?
Bastava-nos ter seguido em frente e t-lo feito. Falar disso  to... to..,
grosseiro."


-0 que  que disseste?
Catherine no se apercebera de que falara em voz alta. -Nada.
Catherine chegara-se ao p da cama. Era a maior que j vira. Era uma


cama que tinha sido construda para amantes, s para amantes. No era
uma cama para dormir. Era uma cama para...


-No te vais despir, querida?
"Vou? H quanto tempo no durmo com um homem? H mais de um
ano. E ele era meu marido."


-Cathy..,?


-Sim. Vou despir-me, e vou meter-me na cama, e vou desiludir-te. No
estou apaixonada por ti, Kirk. No consigo dormir contigo. Kirk...
Ele voltou-se para ela, meio despido. -Sim?
-Kirk, eu... Perdoa-me. Tuvais ficar-me a odiar, mas no... no


consigo, Peo imensa desculpa, Deves pensar que sou...
Ela viu o ar de desapontamento no rosto dele. Ele forou um sorriso.
-Cathy, eu disse-te que teria pacincia. Se ainda no ests disposta,


eu... entendo. Mesmo assim podemos passar aqui um tempo
maravilhoso.
Ela beijou-lhe a face agradecidamente.


#
-Oh, Kirk. Obrigada. Sinto-me to ridcula. No sei o que se passa
comigo.

-No se passa nada contigo -garantiu-lhe. -Eu entendo. Ela abraou-
.

-Obrigada. Es um anjo.

-Entretanto -ele suspirou -,fico a dormir no sof da sala. -No vais
nada -declarou Catherine. -Como a responsvel por este problema
estpido sou eu, o mnimo que posso fazer  garantir o teu conforto.
Quem dorme no sof sou eu. Tu ficas com a cama. -De maneira
nenhuma. Catherine estava deitada na cama, bem desperta, pensando
em Kirk Reynolds. "Serei capaz de voltar a fazer amor com outro
homem? Ou o Larry extinguiu essa chama dentro de mim? Talvez, de
certo modo, o Larry tenha mesmo conseguido matar-me" Catherine
acabou por adormecer. Kirk Reynolds foi acordado a meio da noite
pelos gritos. Sentou-se no sof, e, como os gritos continuavam, foi a
correr para o quarto. Catherine rebolava na cama, os olhos firmemente
cerrados.

-No -gritava ela. -No! No! Deixa-me em paz! Reynolds ajoelhou-
se, ps os braos  volta dela e abraou-a. -Shhh -disse ele. -Pronto.
J passou.

0 corpo de Catherine estava destroado com soluos, e ele ficou
abraado a ela at passarem.

-Eles... tentaram afogar-me.

-Foi apenas um sonho -disse ele brandamente. -Tiveste um sonho mau.

Catherine abriu os olhos e sentou-se. 0 seu corpo tremia.

-No, no foi um sonho, Aconteceu. Eles tentaram matar-me. Kirk
olhava para ela, intrigado.

-Quem  que te quis matar?

-O meu... o meu marido e a amante dele. Ele sacudiu a cabea.

-Catherine, tu tiveste um pesadelo, e...

-Estou a dizer a verdade. Eles tentaram matar-me, e foram executados
por causa disso.

0 rosto de Kirk estava cheio de incredulidade. -Catherine...

-Eu no te contei antes, porque custa-me muito falar no assunto. De
repente apercebeu-se de que ela falava a srio.

#
-Que  que aconteceu?

-Eu no quis dar o divrcio ao Lorry, e ele... estava apaixonado por
outra mulher, e eles decidiram matar-me.

Kirk estava agora a escutar concentradamente. -Quando  que foi
isso?

-H um ano.

-0 que  que lhes aconteceu? -Foram... foram executados pelo estado.
Ele ergueu uma mo.

-Espera um minuto. Eles foram executados por tentativa de homicdio?

-Foram. Reynolds disse:

-Eu no sou nenhum perito em direito grego, mas estou disposto a
apostar que no h sentena de morte por tentativa de assassnio. Deve
haver algum engano. Conheo um advogado em Atenas. Por acaso ele
at trabalha no Ministrio da Justia. Vou telefonar-lhe amanh de
manh e esclarecer isto. 0 nome dele  Peter Demonides.

Catherine estava ainda a dormir quando Kirk Reynolds acordou.
Vestiu-se em silncio e foi at ao quarto. Ficou l um momento, a
olhar para Catherine. "Amo-a tanto. Tenho de descobrir o que
aconteceu e afastar as sombras que a perseguem." Kirk Reynolds foi
at ao salo do hotel e pediu uma chamada para Atenas.-Gostaria que
fosse pessoal, telefonista. Quero falar com Peter Demonides. A
chamada chegou meia hora depois.

-Senhor Demonides? Aqui fala Kirk Reynolds. No sei se est
lembrado de mim, mas...

-Claro que sim. Voc trabalha para o Constantin Demiris. -Exato.

-Que posso fazer por sim. Senhor Reynolds?

-Perdoe-me estar a incomod-lo, mas  que fiquei um tanto espantado
com uma coisa que acabei de ouvir. Tem a ver com um ponto da lei
grega.

-Sei um pouco de lei grega -disse Demonides jovialmente. -Terei
prazer em ajud-lo.

-H alguma coisa na vossa lei que permita a execuo de uma pessoa
por tentativa de homicdio?

Houve um longo silncio no outro lado da linha.

#
-Posso perguntar-lhe por que est a querer saber isso? -Estou com
uma mulher de nome Catherine Alexander. Parece que ela pensa que o
marido e a amante foram executados pelo estado por tentarem mat-la.
No parece lgico. Percebe o que eu quero dizer?


-Percebo.-A voz de Demonides era atenciosa.-Entendo o que quer


dizer. Onde  que se encontra, senhor Reynolds?
-Estou hospedado no Hotel Palace em St. Moritz. -Deixe-me s fazer
uma consulta, e j lhe volto a ligar. -Ficaria muito agradecido. A
verdade  que penso que a Catherine est a imaginar coisas, e eu
gostava de esclarecer isto para tranqiliz-la.


-Entendo. Vai ter notcias minhas. Prometo-lhe.
0 ar estava brilhante e revigoraste, e a beleza dos arredores de
Catherine disseminava os seus terrores da noite anterior. Os dois


tomaram o pequeno-almoo na aldeia, e quando acabaram, Reynolds
disse:
-Vamos at  descida da neve e fazer de ti uma coelhinha de neve.
Ele levou Catherine at  descida dos principiantes e contratou um


instrutor para ela.
Catherine enfiou os esquis e levantou-se. Olhou para os ps.
-Isto  ridculo. Se Deus quisesse que tivssemos este aspecto, os


nossos pais teriam sido rvores.
-0 qu? -Nada, Kirk. 0 instrutor sorriu.
-No se preocupe. Daqui a nada, estar a esquiar como uma


profissional. Vamos comear na Corviglia Sass Ronsol.  a descida


dos principiantes.
-Vais ficar surpreendida pela rapidez com que vais adquirir o jeito
-Reynolds garantiu a Catherine.


Ele olhou para a pista de esqui ao longe e virou-se para o instrutor.
-Acho que vou tentar a Fuorcla Grischa hoje.
-Parece delicioso. Vou pedir a minha grelhada-disse Catherine.
Nem um sorriso.
- uma pista de esqui, querida.
-Oh. -Catherine sentiu-se embaraada para lhe dizer que era uma


piada. "No devo fazer isso com ele, pensou Catherine.


#
0 instrutor disse:


-A Grischa  uma tima pista ngreme. Pode comear na Corviglia
Standard Marguns para aquecer, senhor Reynolds.
-Boa ideia. Vou fazer isso. Catherine, encontramo-nos no hotel  hora


do almoo.
-Est bem.
Reynolds acenou e afastou-se.
-Diverte-te-Catherine gritou-No te esqueas de escrever. -Bem -disse


o instrutor-, mos  obra.
Para surpresa de Catherine, as lies foram divertidas. Estava nervosa
no comeo. Sentiu-se desastrosa e subiu a pequena inclinao
desajeitadamente.


-Incline-se um pouco para a frente. Mantenha os esquis apontados para
a frente.


-Diga-lhes a eles.  que eles tm vontade prpria-declarou Catherine.


-Est a sair-se muito bem. Agora vamos descer. Dobre os joelhos.
Equilibre-se. Arranque.
Ela caiu.


-Mais uma vez. Est a fazer muito bem,


Voltou a cair. E de novo. E de repente encontrou o equilbrio. E era
como se tivesse asas. Desceu a encosta, e foi divertido. Quase parecia
voar. Adorava o esmagar da neve sob os esquis e a sensao do vento
a bater-Ihe no rosto.


-Adoro isto -disse Catherine. -No admira que as pessoas fiquem
penduradas a isto. Vai levar muito tempo a irmos para adescida
grande?


0 instrutor riu-se.


-Hoje vamos ficar por aqui. -Amanh, os olmpicos. Feitas bem as


contas, foi uma manh gloriosa.
Ela estava  espera de Kirk Reynolds na Sala do Grill quando ele
regressou da prtica de esqui. As suas faces estavam rosadas e ele
parecia animado. Foi at  mesa de Catherine e sentou-se.


-Ento -perguntou -,como  que correu? -Extraordinrio. No parti
nada de importante. Apenas ca seis vezes. E sabes uma coisa? -disse

#
orgulhosamente. -Mais para o fim j esquiava lindamente. Acho que
ele me vai inscrever para os Jogos Olmpicos.


Reynolds sorriu.
-timo. -Ele ia referir-se ao telefonema que fez a Peter Demonides, e
depois decidiu calar-se. No queria perturbar Catherine de novo.


Depois do almoo, foram dar um longo passeio a p na neve, entrando


em algumas lojas s para ver. Catherine comeava a sentir-se cansada.
-Acho que me apetecia voltar para o quarto-disse ela,-Talvez durma
um pouco.


-Boa idia. 0 ar  muito rarefeito aqui, e quando no se est
acostumado fica-se cansado facilmente.
--0 que  que vais fazer, Kirk?


Ele olhou para um declive distante.
-Acho que vou descer o Grischa. Nunca o fiz.  um desafio. -Queres
dizer "porque est l".


-0 qu?
Nada. Parece to perigoso.
Reynolds fez um sinal afirmativo com a cabea. - por isso que  um


desafio.
Catherine segurou a mo dele.
-Kirk, sobre ontem  noite. Desculpa. Vou... tentar fazer melhor.
-No te preocupes. Vai para o hotel e dorme um pouco. -Vou mesmo,
Catherine viu-o afastar-se e pensou: "Ele  um homem maravilhoso.


Que v ele numa idiota como eu?"
Catherine dormiu durante a tarde, e desta vez no houve sonhos.


Quando acordou, eram quase seis horas. Kirk estaria de volta em
breve.
Catherine tomou banho e vestiu-se, pensando no fim de tarde que se


aproximava dela. "No, no  tardinha, admitiu ela para si prpria, 


noite. Vou compens-lo."
Foi at  janela e olhou para fora. Comeava a escurecer. "0 Kirk deve
estar mesmo a divertir-se", pensou Catherine. Olhou para o enorme
declive  distncia. "Aquilo  o Grischa? Ser que alguma vez serei
capaz de esquiar l?" s sete horas Kirk Reynolds ainda no havia


#
voltado. 0 crepsculo transformara-se numa escurido profunda. Ele
no pode estar a esquiar s escuras, pensou Catherine. Aposto que est
l em baixo no bar a tomar uma bebida. Dirigia-se para a porta quando

o telefone tocou. Levantou o telefone e disse alegremente:
-Ento, cruzaste-te com algum Sherpa? Uma voz desconhecida disse:

-Senhora Reynolds?

Ela comeou por dizer no, depois lembrou-se como Kirk os registara.

-Sim. Fala a senhora Reynolds.

-Infelizmente tenho ms notcias para si. 0 seu marido teve um
acidente de esquiao.

-Oh, no! ... muito grave? -Infelizmente .

-Vou j para a. Onde..:?

-Lamento dizer-lhe que ele... ele morreu, senhora Reynolds. Estava a
esquiar no Lagalp e partiu o pescoo.

Tony Rizzoli viu-a sair da casa de banho nua e pensou: "Porque  que
as mulheres gregas tm um rabo to grande? Ela enlou-se na cama ao
lado dele, abraou e sussurrou:

-Estou feliz por me teres escolhido a mim, poulaki. -Desejei-te desde o
primeiro momento em que te vi. Era tudo o que Tony Rizzoli podia
fazer para no rir em voz alta. A puta tinha visto muitos filmes da srie
B,

-Est bem -disse ele. -Tambm sinto o mesmo, filha.

Tinha-a engatado no New Yorker, um clube noturno mal-afamado da
Rua Kallari, onde ela trabalhava como cantora. Ela era aquilo a que os
gregos desdenhosamente chamavam de gauyeezee ski lo, um co que
ladra. Nenhuma das raparigas que trabalhavam no clube tinha talento no
nas gargantas, pelo menos -mas por algum dinheiro no se
importavam de ir a casa. Esta, Helena, era moderadamente atraente,
com olhos escuros, um rosto sensual e um corpo cheio e maduro.
Tinha vinte e quatro anos, um pouco velha para o gosto de Rizzoli,
mas ele no conhecia nenhuma senhora em Atenas, e no podia dar-se
ao luxo de ser esquisito,

-Gostas de mim? -perguntou Helena pudicamente. -Claro. Estou
pazzo por ti.

-Comeou a acariciar-lhe os peitos e apertou. sentiu os mamilos a

#
enrijecerem

-Vai at l abaixo, filha. Ela sacudiu a cabea.

-Eu no fao isso. Rizzoli fitou-a. -Ai no?

No instante a seguir, agarrou-a pelos cabelos e puxou. Helena gritou.
-Parakalo! Rizzoli deu-lhe uma bofetada violenta. -Refilas mais e eu
parto-te a tromba. Rizzoli agarrou a cabea dela e colocando-a entre as
pernas. -A est ele, filha. Torna-o feliz.

-Larga-me -ela choramingou. -Ests-me a magoar. Rizzoli puxou-lhe

o cabelo ainda mais.
-Eh... tu ests louca por mim, lembras-te?

Ele largou-lhe os cabelos, e ela olhou para ele, os olhos chamejantes.

-Podes ir...

A expresso do rosto dele deteve-a. Havia algo de terrivelmente errado
com este homem. Porque no vira ela isso mais cedo? -No h razo
para brigarmos -disse ela num tom apaziguador. -Tu e eu...

Ele enterrou-lhe os dedos no pescoo.

-No te pago para conversares comigo. -0 punho dele atingiu-lhe a
face. -Cala-te e comea a trabalhar.

-Claro, querido -Helena choramingou. -Claro.

Rizzoli era insacivel, e quando se satisfez Helena estava exausta.
Ficou deitada a seu lado at ter a certeza de que ele estava a dormir, e
depois quietamente escapuliu da cama e vestiu-se. Estava com dores.
Rizzoli ainda no lhe pagara, e por regra Helena teria tirado o dinheiro
da carteira dele, bem como uma gorjeta generosa para ela. Mas um
instinto levou-a a sair sem levar dinheiro algum. Uma hora depois,
Tony Rizzoli foi acordado por uma pancada na porta. Sentou-se e
espreitou para o relgio de pulso. Eram quatro horas da manh. Olhou
 volta. A rapariga no estava.

-Quem ? -gritou ele.

-E o seu vizinho. -A voz estava zangada. -Telefone para si. Rizzoli
esfregou uma mo na cara.

-J vou.

Vestiu um roupo e atravessou o quarto at  cadeira onde as calas
estavam penduradas. Verificou a carteira. 0 dinheiro estava todo l.

#
Ento a puta no foi estpida. Tirou uma nota de cem dlares, dirigiu-
se para a porta e abriu-a.
0 vizinho estava no corredor de roupo e chinelos.
-Sabe que horas so? -perguntou indignadamente. -Voc disse-me..,


Rizzoli deu-lhe a nota de cem dlares,
-Peo imensa desculpa -disse ele em tom de desculpa. -No vou
demorar muito tempo.


0 homem engoliu, tendo a indignao desaparecido,


-No h problema. Deve ser importante, para acordarem uma pessoa s
quatro da manh
Rizzoli entrou no quarto em frente e pegou no telefone. -Rizzoli.
Uma voz disse:
-Tem um problema; senhor Rizzoli. -Quem fala?
-0 Spyros Lambrou pediu-me para eu lhe telefonar.
-Oh. -Teve uma sensao repentina de preocupao. -Qual  o


problema?
-Diz respeito ao Constantin Demiris. -0 que  que h com ele?
-Um dos petroleiros dele, o Thele, est em Marselha. Est atracado no


molhe do cais na doca da Grande Joliette.
-E da?
-Soubemos que o senhor Demiris deu ordens para que o navio fizesse


um desvio para Atenas. Ir atracar l domingo de manh e parte
domingo  noite. 0 Constantin Demiris pretende estar a bordo quando
ele partir.


-0 qu?
-Ele est a fugir. -Mas ns temos um...
-0 senhor Lambrou disse para o informar de que o Demiris est a


pensar esconder-se nos Estados Unidos at achar uma maneira de se


ver livre de si.
-0 filho da puta quer fugir! -Estou a ver. Agradea ao senhor
Lambrou em meu nome. Diga-lhe que fico muito agradecido.


-0 prazer  dele.
Rizzoli pousou o telefone.


#
-Est tudo bem, senhor Rizzoli?

-0 qu? Claro. Est tudo bem. -E estava.

Quanto mais Rizzoli pensava no telefonema mais satisfeito ficava. Ele
fez que Constantin Demiris fugisse de medo. Isso iria facilitar-lhe o
controlo do outro. Domingo. Tinha dois dias para fazer os seus planos.
Rizzoli sabia que tinha de ser cuidadoso. Estava a ser seguido fosse
para onde fosse. Sacanas dos polcias do Keystone~, pensou Rizzoli
desdenhosamente. "Quando chegar a hora, vou desembaraar-me
deles." Logo na manh seguinte, Rizzolifoi at  cabina telefnica da
Rua Kifissias e marcou o nmero do Museu Nacional de Atenas. No
reflexo de vidro Rizzoli via um homem que fingia estar a olhar para
uma montra, e do outro lado da rua um outro homem que conversava
com uma florista. Os dois homens faziam parte da equipa que o
vigiava. NDesejo-lhes boa sorte", pensou Rizzoli.

-Gabinete do conservador. Tenha a bondade de dizer. -Victor?  o
Tony.

-Passa-se alguma coisa? -Houve um pnico repentino na voz de
Korontzis.

-No-disse Rizzoli num tom brando. -Est tudo bem. Victor, ests a
ver aquele vaso bonito com figuras vermelhas?

-A nfora Ka.

-Essa mesmo. Vou busc-la a hoje  noite. Houve uma longa pausa.

-Hoje  noite? No... no sei, Tony.-Avoz de Korontzis tremia. -Se
alguma coisa correr mal...

-Pronto, p, esquea. Eu estava a tentar fazer-lhe um favor. Diga ao
Sal Prizzi que no tem o dinheiro, e ele que faa o que bem lhe...

-No, Tony. Espere. Eu... eu... -Houve outra pausa.

-Est bem.

-Tem a certeza de que est tudo bem, Victor? Porque se no quer fazlo,
basta dizer, e eu volto para os Estados Unidos, onde no tenho
problemas destes. No tenho necessidade de passar por todo este
aborrecimento, sabe. Eu posso...

-No, no. Reconheo tudo o que est a fazer por mim, Tony. A srio,
Hoje  noite estar muito bem.

-timo. Quando o museu fechar, s tem que substituir o vaso

#
verdadeiro por uma cpia.

-Os guardas inspecionam todos os embrulhos que saem daqui. -E
depois? Os guardas so alguns peritos em arte?

-No. Claro que no, mas...

-Tudo bem, Victor, oua-me. Arranje uma fatura para uma das cpias e
ponha-a com o original num saco de papel. Percebe?

-Sim. Eu... entendo. Onde  que nos encontramos?

-Ns no nos vamos encontrar. Saia do museu s seis horas. Vai estar
um txi  frente. Traga o embrulho consigo. Diga ao motorista que o
leve ao Hotel Grande Bretagne. Diga-lhe que espere por si, Deixe o
embrulho no carro. Entre no hotel e tome uma bebida. Depois disso, v
para casa. Mas o embrulho...

-No se preocupe. Algum se encarregar dele. Victor Korontzis
suava.

-Nunca me meti numa coisa destas, Tony, Nunca roubei nada. Toda a
minha vida...

-Eu sei -disse Rizzoli num tom brando. -Eu tambm no. Lembre-se,
Victor, de que quem est a correr todos os riscos sou eu, e no ganho
nada com isso.

A voz de Korontzis interrompeu.

-Voc  um grande amigo, Tony. 0 melhor amigo que j tive. Contorcia
as mos. -Faz alguma ideia de quando  que eu recebo 0
meu dinheiro?

- Muito em breve -Rizzoli assegurou-lhe. - Quando isto chegar ao fim,
voc no vai ter mais preocupaes, -"E eu tambm no", pensou
Rizzoli exultantemente. "Nunca mais."
Dois navios cruzeiro fundearam no porto de Piraeus nessa tarde, e
consequentemente o museu estava cheio de turistas. Geralmente Victor
Korontzis gastava de estud-los, tentando adivinhar como eram as suas
vidas. Havia americanos e ingleses, e visitantes de uma dzia de outros
pases. Desta vez Korontzis estava demasiado assustado para pensar
neles. Olhou para os dois mostrurios onde se vendiam cpias de
antigidades. Havia uma multido em redor dos mesmos, e as duas
vendedoras tentavam atarefadamente dar vencimento aos pedidos.
"Talvez esgotem", pensou Korontzis esperanosamente, "e assim no
poderei cumprir o plano de Rizzoli." Mas ele sabia que estava a ser

#
irre.llista. Havia centenas de rplicas armazenadas na cave do museu.
l vaso que Tonylhe pedira para roubar era um dos grandes tesouros do
museu. Era do sculo quinze a.C., uma nfora com figuras mitolgicas
vermelhas pintadas sobre uma base negra. A ltima vez que Victor lhe
tocara fora h quinze anos quando reverentemente a colocara no
interior da vitrina para ser fechada para sempre. "E agora vou roubla",
pensou Korontzis desditosamente. "Que Deus me ajude." Foi
atordoadamente que Korontzis passou a tarde, aterrorizado com o
momento em que se tornaria um ladro, Voltou ao gabinete, fechou a
porta e sentou-se  secretria, desesperado. "No posso faz -lo",
pensou. "Tem de haver outra sada. Mas qual?" No conseguia pensar
noutra maneira de arranjar aquela quantidade de dinheiro. Ainda ouvia
a voz de Prizzi. "Ou voc me d o dinheiro hoje  noite ou vai servir
de alimento para os peixes. Est a perceber?" 0 homem era um
assassino. No, no tinha outra escolha. Uns minutos antes das seis,
Korontzis saiu do gabinete. As duas vendedoras de rplicas de
artefatos estavam a comear a arrumar. -Signomi -Korontzis chamou.
-Um amigo meu faz anos. Achei que lhe devia oferecer uma coisa
aqui do museu. -Caminhou at  vitrina a fingir estud-la. Havia vasos
e bustos, taas, livros e mapas. Olhou em pormenor como se tentasse
decidir o que escolher. Por fim, apontou para a cpia da nfora
vermelha.

-Acho que vai gostar desta:

-Tenho a certeza de que vai-disse a mulher. Tirou-a da vitrina e
entregou-a a Korontzis.

-Pode passar-me um recibo, por favor?

-Certamente, senhor Korontzis. Quer que embrulhe para oferta? -No,
no-disse Korontzis rapidamente. -Meta-me s num saco.

Viu-a colocar a rplica num saco de papel e meter o recibo. Obrigado.


-Espero que o seu amigo goste.

-De certo ir gostar. -Pegou no saco, com as mos a tremer, e
regressou ao gabinete.

Trancou a porta, depois retirou o vaso de imitao do saco e colocou-o
sobre a secretria. "Ainda no  demasiado tarde", pensou Korontzis,
Ainda no cometi nenhum crime. Estava numa agonia de deciso. Uma
srie de pensamentos aterradores passavam-lhe pela cabea. "Eu podia

#
fugir para outro pas e abandonar a minha mulher e os meus filhos. Ou
podia suicidar-me. Podia ir  polcia e dizer-lhes que estou a ser
ameaado. Mas, quando os fatos forem descobertos, estarei perdido.
No, no havia sada." Se no pagasse o dinheiro que devia, sabia que
Prizzi o mataria. "Graas a Deus>~, pensou ele, "pelo meu amigo
Tony. Sem ele, eu seria um homem morto. Olhou para o relgio. Horas
de avanar. Korontzis ps-se de p, as pernas trmulas. Ficou por ali, a
respirar fundo, tentando acalmar-se. As mos estavam midas com
suor. Limpou-as  camisa. Voltou a pr a rplica no saco de papel e
encaminhou-se para a porta. Havia um guarda parado  porta da rua
que saa s seis, depois de o museu fechar, e outro guarda que fazia as
rondas, mas tinha meia dzia de salas para percorrer. Agora devia estar
no extremo do museu.

Korontzis saiu do gabinete e deu de frente com o guarda. Ia comear a
pedir desculpa.

-Desculpe-me, senhor Korontzis. No sabia que o senhor ainda c
estava.

-, eu... estou a preparar-me para sair.

-Sabe -disse o guarda com admirao -, eu invejo o senhor. "Se ele
soubesse

-No me diga. Porqu?

-0 senhor sabe tanto sobre estas coisas bonitas. Eu ando por aqui e
olho para elas e para mim so todas peas histricas, no so? No sei
muito sobre elas. Talvez um dia o senhor me possa explicar. Eu
realmente...

0 palerma nunca mais se calava. -Sim, claro. Um dia.

-Dar-me-ia muito prazer. -No outro extremo da sala, Korontzis via a
vitrina que continha o precioso vaso. Tinha de ver-se livre do guarda.

-Parece... que h um problema com o circuito do alarme na cave.
Importa-se de verificar?

-Claro. Sei que algumas destas coisas so muito antigas... -Importa-se
de ir verificar agora? No quero sair antes de saber que tudo est a
cem por cento.

-Certamente, senhor Korontzis. Volto j.

Victor Korontzis ficou ali, a observar o guarda atravessar o trio e
encaminhar-se para a cave. Assim que desapareceu, Korontzis correu

#
para a vitrina que continha a nfora vermelha. Tirou uma chave e
pensou, "vou mesmo faz-lo. Vou roub-la". A chave escorregou-lhe
dos dedos e retiniu no cho.

"Ser um sinal? Estar Deus a dizer-me alguma coisa?" Suava
bastante. Dobrou-se e apanhou a chave, e fitou o vaso. Era
absolutamente primoroso. Fora feito com um carinho to grande pelos
seus antepassados h milhares de anos atrs. O guarda tinha razo;era
uma pea histrica, algo que nunca poderia ser substitudo. Korontzis
fechou os olhos por um instante e estremeceu. Olhou em redor para ter
a certeza de que ningum estava a ver, depois abriu a vitrina
cuidadosamente e retirou o vaso. Tirou a rplica do saco de papel e
colocou-a no lugar da pea genuna. Korontzis deixou-se ficar,
analisando-a por um momento. Era urna reproduo perita, mas para
ele ela gritava, "Falsificao". "Era to bvio. Mas s para mim",
pensou Korontzis, "e s para mais alguns peritos." Mais ningum seria
capaz de distinguir. E no haveria razo para algum examin-la
atentamente. Korontzis fechou a vitrina e trancou-a, e ps o vaso
genuno no saco de papel com o recibo. Tirou um leno e limpou o
rosto e as mos. Estava feito. Olhou para o relgio: 6.10. Tinha de se
despachar. Encaminhou-se para a porta e viu o guarda vir na sua
direo. No consegui ver nada de errado no sistema de alarme, senhor
Korontzis, e...

-timo-disse Korontzis.-No se pode ser demasiado cuidadoso.

0 guarda sorriu.

-Tem razo. J de partida? - verdade. Boa noite.

0 segundo guarda estava  porta da frente, preparando-se para sair.

Reparou no saco de papel e sorriu.

-Vou ter de verificar isso. Foi o senhor que ditou as regras.

-Claro -disse Korontzis apressadamente. Entregou o saco ao guarda.

0 guarda olhou para dentro, tirou o vaso e viu o recibo.

- um presente para um amigo -explicou Korontzis. -Ele 
engenheiro. -"Porque  que eu tinha de dizer isso? Ele est-se nas
tintas! Tenho de agir de forma natural,

- bonito. -0 guarda deixou o vaso cair dentro do saco, e por um
terrvel instante Korontzis pensou que ia partir-se.

Korontzis apertou o saco contra o peito. -Kalispehra.

#
0 guarda abriu-lhe a porta. -Kalispehra.

Korontzis mergulhou no ar frio da noite, respirando pesadamente e
combatendo a nusea. Tinha nas mos algo que valia milhes de
dlares, mas Korontzis no pensava nela nesses termos. Pensava  que
estava a trair o seu pas, ao roubar uma pea histrica da sua Grcia
amada e vend-la a um estrangeiro sem rosto. Desceu os degraus.
Como Rizzoli prometera, um txi aguardava-o  frente do museu.
Korontzis caminhou na sua direo e entrou.

-Hotel Grande Bretagne -disse.

Recostou-se no assento. Sentiu-se vencido e exausto, como se tivesse
estado numa terrvel batalha. Mas vencera ou perdera? Quando o txi
estacionou em frente do Hotel Grande Bretagne, Korontzis disse ao
motorista:

-Espere aqui, por favor.

Deu um ltimo olhar para o precioso pacote que estava no banco
traseiro, depois saiu e entrou rapidamente no salo do hotel. Ao passar
a porta voltou-se e olhou. Um homem entrava no txi. Um momento
depois partiu veloz. pronto. Estava feito. Nunca terei de fazer
semelhante coisa outra vez, pensou Korontzis. No enquanto for vivo.
0 pesadelo acabou." s trs horas de domingo  tarde, Tony Rizzoli
saiu do hotel e perambulou at  Platia Omonia. Vestia um casaco
xadrez vermelho-vivo, calas verdes e uma boina vermelha. Era
seguido por dois detetives. Um deles disse:

-Ele deve ter comprado aquelas roupas num circo.

Na Rua Metaxa, Rizzoli mandou parar um txi. 0 detetive falou para o
walkie-talkie. 0 sujeito est a entrar num txi com direo para oeste.

Umavoz respondeu:

-Estamos a v-lo. Vamos seguir. Regresse ao hotel. -Certo.

Um turismo cinzento sem marca aproximou-se do txi, mantendo uma
distncia discreta. 0 txi rumou para sul, atravessando Monastiraki. No
turismo, o detetive que se sentava ao lado do motorista pegou no
microfone. -Central, Aqui  aUnidade quatro. 0 sujeito est num txi.
Est a descer a Rua Philhellinon... Espere. Acabam de virar  direita na
Rua Peta. Parece que vaiem direo  Plaka. Podemos perd-lo. Pode
mandar um piquete segui-lo a p?

-S um minuto, Unidade quatro. -Alguns segundos depois, o rdio

#
voltou a estalar.-Unidade quatro. Temos ajuda disponvel. Se ele
descer na Plaka, continuar a ser vigiado.

-Kala. 0 sujeito veste um casaco xadrez vermelho-vivo, calas verdes euma boina vermelha.  difcil de perder. Espere um minuto. 0 txi vai
parar. Ele est a sair na Plaka.

-Vamos passar a informao. Est coberto. Voc fica livre. Desligue.

Na Plaka, dois detetives observavam no momento em que o homem
saa do txi.

-Onde  que ele comprou aquela roupa?-interrogou-se um dos
detetives em voz alta.

Aproximaram-se dele e comearam a segui-lo por entre o labirinto
apinhado da parte velha da cidade. Durante a hora que se seguiu ele
vagueou sem destino por entre as ruas, perambulando por tabernas,
bares, lojas de recordaes e pequenas galerias de arte. Desceu a
Anaphiotika e percorreu uma feira da ladra repleta de espadas, adagas,
mosquetes, caarolas, candelabros, candeeiros a petrleo e binculos.

-Que andar ele a tramar?

-Parece que veio apenas dar um passeio. Espera. L vai ele. Eles iam
atrs quando ele virou para a Aghiou Geronda e se dirigiu ao
restaurante Xinos. Os dois detetives ficaram no exterior  distncia,
vendo-o pedir a comida.

Os detetives comearam a ficar aborrecidos.

-Espero que ele no se demore muito. Apetecia-me ir para casa. Uma
soneca agora sabia-me bem.

-Mantm-te acordado. Se o perdemos, o Nicolino d-nos cabo da vida.

-Como  que podemos perd-lo? Ele parece um farol. 0 outro detetive
olhava-o fixamente.

-0 qu? 0 que  que tu disseste? -Eu disse...

-No ligues. -Houve uma urgncia repentina na sua voz.-Tu olhaste
para a cara dele?

-No.

-Eu tambm no. Tiflo! Anda da.

Os dois detetives entraram no restaurante a correr e dirigiram -se para
a mesa a passo largo. Estavam a olhar para o rosto de um completo

#
estranho. 0 Inspetor Nicolino estava furioso.

-Eu tinha trs equipas destacadas para seguirem o Rizzoli. Como 
que vocs puderam perd-lo?

-Ele pregou-nos uma partida, inspetor. A primeira equipe viu-o entrar
num txi e...

-E eles perderam o txi?

-No. Ns vimo-lo sair. Ou pelo menos pensvamos que era ele. Ele
estava com uma roupa estapafrdia. 0 Rizzoli tinha outro passageiro
escondido no txi, e os dois homens trocaram de roupa. Ns fomos
atrs do homem errado.

-E o Rizzoli continuou no txi. - verdade.

-Tiraram a matrcula?

-Bem, no. No... no nos pareceu importante. -E o homem que vocs
apanharam?

- um paquete do hotel do Rizzoli. 0 Rizzoli disse-lhe que estava apregar uma partida a uma pessoa. Deu-lhe cem dlares.  tudo 0 que o
rapaz sabe.

0 inspetor Nicolino respirou fundo.

-E no me parece que algum saiba onde se encontra o senhor Rizzoli
neste momento.

-No, senhor. Infelizmente no.

A Grcia tem sete portos principais: Tessalnica, Patras, Volos,
Igoumenitsa, Kavala, Iraklion e Pireu. Piraeus fica a sete milhas a
sudoeste do centro de Atenas, e serve apenas no s como o porto
principal daGrcia, mas como um dos principais portos da Europa. 0
complexo do porto consiste de quatro ancoradouros, trs dos quais
para barcos recreativos e navios transatlnticos. 0 quarto ancoradouro,
Herakles, est reservado para cargueiros equipados com comportas
que abrem diretamente sobre o cais. OThele estava ancorado em
Herakles. Era um petroleiro enorme, e, ao permanecer parado no
ancoradouro escuro, fazia lembrar um beemote gigantesco pronto a
saltar, Tony Rizzoli, acompanhado por quatro homens, foi at ao
quebra-mar. Rizzoli olhou para o navio enorme e pensou, "C est ele.
Agora vamos ver se o nosso amigo Demiris est a bordo Virou-se para
os homens que o acompanhavam.

#
-Quero que dois de vocs esperem aqui. Os outros dois vm comigo.
Tratem de ver se ningum sai do navio.

-Certo.

Rizzoli e dois homens subiram a prancha de embarque. Quando
chegaram ao cimo, um marujo aproximou-se deles. -Desejam alguma
coisa?

-Queremos ver o senhor Demiris.

-0 senhor Demiris est no camarote do proprietrio. -Ele est  vossa
espera?

Ento a dica estava certa. Rizzoli sorriu.

-Claro. Ele est  nossa espera. A que horas parte o navio? -Ameianoite.
Eu acompanho-os.

-Obrigado.

Seguiram o marinheiro ao longo do convs at que chegaram a uma
escada descendente. Os trs homens desceram a escada atrs dele e
seguiram-no por uma passagem estreita, passando por meia dzia de
camarotes durante o trajeto. Quando chegaram ao ltimo camarote, o
marinheiro comeou a bater  porta. Rizzoli afastou.

-Ns vamos anunciar-nos pessoalmente. -Ele abriu a porta com um
empurro e entrou.

0 camarote era maior do que Rizzoli esperara. Estava mobiliado com
uma cama e um sof, uma secretria e duas espreguiadeiras. Atrs da
secretria sentava-se Constantin Demiris.

Quando ergueu o olhar e viu Rizzoli, Demiris ps- de p de uma forma
atabalhoada. 0 rosto empalideceu.

-0 qu... o que  que voc est a fazer aqui?-A sua voz era um
sussurro.

-Eu e os meus amigos decidimos fazer-lhe uma visita para lhe desejar
boa viagem, Costa.

-Como  que voc sabia que eu...? Quero dizer... eu no estava  sua
espera.

-Claro que no -disse Rizzoli. Virou-se para o marinheiro. -Obrigado,
amigo.

0 marinheiro retirou-se.

#
Rizzoli voltou-se de novo para Demiris.

-Estava a planejar fazer uma viagem sem se despedir do seu scio?

Demiris disse num tom rpido.

-No. Claro que no. Eu s... s vim c verificar umas coisas. Parte
amanh de manh. -Os dedos tremiam-lhe.

Rizzoli aproximou-se dele. Quando falou, a sua voz era macia. -Costa,
voc cometeu um grande erro. No vale a pena tentar fugir, porque
voc no tem onde se esconder. Eu e voc fizemos um contrato,
lembra-se? Sabe o que acontece s pessoas que no cumprem os
contratos? Tm uma morte terrvel.., verdadeiramente terrvel. Demtris
engoliu.

-Eu... eu gostava de falar consigo a ss. Rizzoli virou-se para os seus
homens. -Esperem l fora.

Quando saram, Rizzoli afundou-se numa poltrona. -Estou muito
desapontado consigo, Costa.

-No posso continuar com isto-disse Demiris. -Eu dou-lhe dinheiro.,.
mais dinheiro com que voc alguma vez sonhou.

-Em troca de qu?

-Que saia deste navio e me deixe em paz. -Havia desespero na voz de
Demiris. -Voc no me pode fazer isto. 0 governo vai-me tirar a frota.
Vou ficar arruinado. Por favor. Dou-lhe tudo o que voc quiser.

Tony Rizzoli sorriu.

-Eu tenho tudo aquilo que quero. Quantos petroleiros  que voc tem?
Vinte? Trinta? Ns vamos mant-los em ao, voc e eu. Tudo o que
voc tem a fazer  juntar mais um ou dois portos de escala.

-Voc... voc no tem a mnima idia do que me est a fazer. -Acho
que voc deveria ter pensado nisso antes de ter armado aquela trama.
-Tony Rizzoli ps-se de p. -Vai ter de falar com o comandante. Diga-
lhe que vamos ter de fazer mais uma paragem, ao largo da costa da
Florida.

Demiris hesitou.

-Tudo bem, Quando voc voltar de manh,.. Rizzoli riu-se.

-Eu no vou a lugar nenhum. Acabaram-se os jogos. Voc ia tentar
fugir  mela-noite. timo. Eu vou fugir consigo. Vamos trazer um
carregamento de herona para bordo, Costa, e s para valorizar o

#
contrato vamos levar
tambm um dos tesouros do Museu Nacional. E voc vai vend-lo nos


Estados Unidos.  o seu castigo por tentar enganar-me. Havia uma
expresso atordoada nos olhos de Demiris.
-Eu... no h nada -ele implorou -nada que eu possa fazer para...?
Rizzoli deu-lhe uma pancada no ombro.
-Anime-se. Prometo-lhe que vai gostar de ser meu scio. Rizzoli


encaminhou-se para a porta e abriu-a.


-Muito bem, vamos pr a mercadoria a bordo -disse ele. -Onde 
quer que a gente a ponha?
H centenas de esconderijos em qualquer navio, mas Rizzoli no


sentia a necessidade de ser esperto, Afrota de Constantin Demiris


estava acima de suspeita.
-Ponham-na num saco de batatas-disse ele.-Marquem o saco e
guardem-no na retaguarda da cozinha. Tragam o vaso para o senhor
Demiris. Ele vai tomar conta dele pessoalmente.


Rizzoli virou-se para Demiris, os olhos cheios de desdm. -Voc tem
algum problema com isso?


Demiris tentou falar, mas as palavras no saam.
-Muito bem, rapazes -disse Rizzoli. -Mexam-se. Rizzoli instalou-se
de novo na poltrona.


-timo camarote. Vou deix-lo consigo, Costa. Eu e os meus rapazes
vamos arranjar os nossos prprios alojamentos.


-Obrigado -disse Demiris com um ar infeliz. -Obrigado.
 meia-noite, o enorme petroleiro afastou-se do cais com dois
rebocadores que o conduziram para o mar. A herona fora escondida a
bordo, e o vaso ficara entregue ao camarote de Constantin Demiris.
Tony Rizzoli chamou um dos seus homens  parte.


-Quero que vs  sala das comunicaes e arranques o rdio. No
quero que o Demiris envie mensagens.


-E para j, Tony.
Constantin Demiris era um homem derrotado, mas Rizzoli no corria
riscos.


Rizzoli tivera receio at ao momento da partida de que alguma coisa


#
pudesse correr mal, pois o que estava a acontecer estava para alm dos
seus sonhos mais audazes. Constantin Demiris, um dos homens mais
ricos e mais poderosos do mundo, era seu scio. "Scio, caramba",
pensou Rizzoli. "Eu mando no sacana. A frota dele  toda minha.
Posso enviar toda a mercadoria que os rapazes puderem entregar. Os
outros tipos que matem os cornos a tentarem descobrir como fazer
chegar o material aos Estados Unidos. Eu fiz a minha parte. E depoish todos aqueles tesouros do museu,  outra mina de ouro. Com a
diferena de que  s minha. 0 que os rapazes no sabem no lhes far
mala Tony Rizzoli adormeceu a sonhar com uma frota de navios
dourados e palcios e raparigas nbeis para servi-lo. Quando Rizzoli
acordou na manh seguinte, ele e os seus homens dirigiram-se  sala
de jantar para tomar o pequeno-almoo. Os seis membros da tripulao
j l estavam. Um criado aproximou-se da mesa.

-Bom dia.

- Onde  que est o senhor Demiris ? - perguntou Rizzoli. -Ele no vai
tomar o pequeno-almoo?
Ele vai permanecer no camarote, senhor Rizzoli. Deu-nos instrues
para servirmos o senhor e os seus amigos de tudo o que quiserem.

- muito simptico da parte dele. -Rizzoli sorriu.

-Eu vou tomar sumo de laranja, bacon e ovos. E vocs, rapazes? -Isso
parece bom.

Depois de terem pedido, Rizzoli disse:

-Quero que fiquem calmos. No tenham as vossas armas  mostra.
Sejam simpticos e bem-educados. Lembrem-se de uma coisa: ns
somos convidados do senhor Demiris.

Demiris no apareceu para almoar nesse dia. Nem apareceu para
jantar. Rizzoli subiu para ir ter uma conversa com ele. Demiris estava
no camarote, olhando fixamente atravs de uma vigia. Estava com um
ar plido e abatido. Rizzoli disse;

-Tem de comer para manter as foras; scio, No gostava de v-lo
doente. Temos muito que fazer. Eu disse ao criado que lhe trouxesse
um pouco de comida,

Demiris respirou fundo.

-No consigo... estou bem. Saia daqui, por favor. Rizzoli sorriu.

-Claro. Depois do jantar, veja se dorme um pouco, Voc est com um

#
ar pssimo.

De manh, Rizzoli foi falar com o comandante.

-Sou Tony Rizzoli -disse ele. -Sou convidado do senhor Demiris.

-Ah, sim. 0 senhor Demiris disse-me que o senhor viria falar comigo
hoje. Ele refriu-se a uma possvel alterao da rota.

-Correto. Depois informo-o. Quando  que chegamos ao largo da
Florida?

-Dentro de aproximadamente trs semanas, senhor Rizzoli. -timo.
Falo consigo mais tarde.

Rizzoli retirou-se e perambulou pelo navio.  o "seu" navio. Afrota era
toda dele. 0 mundo era dele. Rizzoli sentiu-se invadido por uma
euforia que no conhecera antes.

A travessia foi suave, e uma vez por outra Rizzoli dava um salto ao
camarote de Constantin Demiris.

-Voc devia ter umas gajas a bordo-disse Rizzoli. -Mas parece-me que
vocs gregos no precisam de gajas, pois no?

Demiris recusou-se a responder  provocao. Os dias corriam lentos,
mas cada hora aproximava Rizzoli mais dos seus sonhos. Sentia uma
febre de impacincia. Passou-se uma semana, depois outra, e
aproximavam-se do continente norte-americano. Sbado  noite,
Rizzoli estava junto  amurada do navio olhando 0 oceano quando
houve um relmpago.

0 primeiro imediato aproximou-se dele.

-Parece que vem a mau tempo, senhor Rizzoli. Espero que seja bom
marinheiro.

Rizzoli encolheu os ombros. -Nada me perturba.

0 mar deu incio  sua borrasca. 0 navio comeou a mergulhar
subitamente no mar e depois subia empinadamente  medida que
sulcava as ondas.

Rizzoli comeou a sentir-se enjoado. " verdade que no sou bom
marinheiro", pensou ele. Qual  a diferena? Era dono do mundo.
Regressou ao seu camarote cedo e enfiou-se na cama. Sonhou. Dsta
vez, no havia navios dourados nem belas raparigas nuas. Havia uma
guerra, e ele ouvia o troar dos canhes. Uma exploso acordou-o.
Rizzoli sentou-se na cama, completamente desperto, 0 camarote estava

#
a balanar, 0 barco estava no meio de uma maldita tempestade. Ouvia
os passos rpidos que corriam no corredor. Que raio ia ele fazer? Tony
Rizzoli saiu da cama a correr e foi para o corredor. 0 cho inclinou-se
repentinamente para um lado e et e quase perdeu o equilbrio. -Que 
que se passa?-gritou ele a um dos homens que passava por ele a correr.

-Uma exploso, 0 navio est a arder. Estamos a afundar.  melhor
subir para o convs.

"A afundar,?" Rizzoli no conseguia acreditar. "Correra tudo to
bem. Mas no importa", pensou Rizzoli. "Posso bem perder este
carregamento. Haver muitos mais. Tenho de salvar o Demiris. Ele  a
chave de tudo. Vamos enviar um pedido de ajuda." E depois lembrou-
se que mandara destruir o rdio.

Lutando para manter o equilbrio, Tony Rizzoli dirigiu-se para a
escada do tombadilho e subiu at ao convs. Para sua surpresa, viu que
a tempestade tinha passado. 0 mar estava calmo. Uma lua cheia
surgira. Houve outra exploso estrondosa, e mais outra, e o navio
comeou a inclinar-se cada vez mais. A popa estava na gua, descendo
rapidamente. Os marinheiros tentavam baixar os barcos salva-vidas,
mas era tarde de mais. A gua em redor do navio era uma massa de
petrleo em chamas. Onde estava Constantin Demiris? E ento Tony
Rizzoli ouviu. Era um som que roncava, cujo som se elevava bem
acima das exploses. Olhou para o cu. Havia um helicptero pairando
trs metros acima do navio. "Estamos salvos", pensou Rizzoli com
jbilo. Acenou freneticamente para o helicptero. Um rosto surgiu na
janela. Rizzoli levou um momento para perceber que se tratava de
Constantin Demiris. Estava a sorrir, e na sua mo erguida segurava a
nfora de valor incalculvel. Rizzoli fixou o olhar, o seu crebro
tentando entender o que estava a acontecer. Como  que Constantin
Demiris descobrira um helicptero a meio da noite para...? E ento
Rizzoli percebeu, e os seus intestinos viraram gua. Constantin
Demiris nunca tivera qualquer inteno de fazer negcio com ele. 0
filho da puta planejara tudo desde o incio. 0 telefonema a dizer-lhe
que Demiris ia fugir-esse telefonema no viera da parte de Spyros
Lambrou, viera de Demiris. Ele lanara a armadilha para apanh-lo no
navio, e Rizzoli cara nela. 0 petroleiro comeou a afundar-se cada vez
mais, mais depressa, e Rizzoli sentiu o oceano frio a envolver-lhe os
ps, e mais tarde os joelhos. 0 sacana ia deix-los morrer ali, no fim do
mundo, onde no haveria vestgios do que viesse a acontecer. Rizzoli
olhou para o helicptero e gritou freneticamente -Volte. Eu dou-lhe

#
tudo! -0 vento fustigou as suas palavras. A ltima coisa que Tony
Rizzoli viu antes de o barco ficar de quilha para o ar e de os seus olhos
se encherem de gua salgada ardente foi o helicptero afastar-se na
direo da lua.

St. Moritz

Catherine ficou em estado de choque. Estava sentada num sof no
quarto do hotel, ouvindo o tenente Hans Bergman, chefe da patrulha
de esqui, dizer-lhe que Kirk Reynolds estava morto. 0 som da voz de
Bergman inundava Catherine em ondas, mas ela no prestava ateno
s palavras. Ela estava demasiado entorpecida pelo horror do que
acontecera. "Todas as pessoas que me circundam morrem, pensou ela
desesperadamente. 0 Larry morreu e agora foi o Kirk. E havia os
outros; Noelle, Napoleon Chotas, Frederick Stavros. Era um pesadelo
infindvel. Vagamente, por entre o nevoeiro do desespero, ouviu a voz
de Hans Bergman.

-Senhora Reynolds... senhora Reynolds...

-Levantou a cabea. -Eu no sou a senhora Reynolds -disse ela
exausta. -0 meu nome  Catherine Alexander. Eu e o Kirk ramos
amigos.

-Compreendo. Catherine respirou fundo.

-Como.., como  que aconteceu? 0 Kirk era to bom esquiador. -Eu
sei. Ele esquiou aqui tantas vezes. -Ele abanou a cabea. -Para lhe
dizer a verdade, Miss Alexander, estou intrigado com o que aconteceu.
Encontrmos o corpo dele no Lagalp, um declive que se encontrava
encerrado por causa de uma avalancha que caiu a semana passada. 0
vento deve ter derrubado a tabuleta. Lamento imenso.

"Lamento, Que palavra to fraca, que palavra to estpida. -Gostaria
que nos encarregssemos dos preparativos para o funeral, Miss
Alexander?

"Ento a morte no era o fim. No, havia preparativos para fazer.
Caixes e lates do cemitrio, e flores, e parentes a informar." Catherine
queria gritar.

-Miss Alexander? Catherine ergueu o olhar. -Eu informo a famffia do
Kirk. -Obrigada.

A viagem de regresso a Londres foi um pesar. Ela viera at s
montanhas com Kirk cheia de esperana ansiosa, pensando que talvez

#
fosse um novo comea, uma porta para uma nova vida. "Kirk fora to
gentil e paciente. Eu devia ter feito amor com elep, pensou Catherine.
" Mas afinal que importncia teria tido? Devem ter-me rogado uma
praga. Eu destruo quem quer que se aproxime de mim.

Quando Catherine regressou a Londres, estava demasiado deprimida
para voltar ao trabalho. Ficou no apartamento, sem querer ver ou falar
com ningum. Anna, a governanta, preparava-lhe as refeies e
levava-as ao quarto de Catherine, mas os tabuleiros eram devolvidos
intocados.

-A menina tem de comer.

Mas pensar em comida deixava Catherine doente.

No dia seguinte, Catherine sentia-se pior. Parecia que o peito estava
cheio de ferro. Tinha dificuldade em respirar. "No posso continuar
assim", pensou Catherine. "Tenho de fazer alguma coisa. Discutiu o
assunto com Evelyn.

-Eu continuo a culpar-me pelo que aconteceu. -Isso no faz sentido,
Catherine.

-Eu sei que no, mas no consigo evit-lo. Sinto-me responsvel.
Preciso de ter algum com quem falar. Talvez se eu fosse a um
psiquiatra...

-Conheo um muito bom-disse Evelyn. -De fato, o Wim vai  consulta
dele de vez em quando. Chama-se Alan Hamilton. Tive uma amiga
que era suicida, e quando o doutor Hamilton terminou o tratamento ela
estava em grande forma. Gostavas de v-lo?

-E se ele disser que eu estou maluca? E se eu estiver? Est bem -disse
Catherine com relutncia,

-Vou tentar marcar uma consulta para ti. Ele tem muita que fazer.

-Obrigada, Evelyn. Agradeo imenso.

Catherine entrou no gabinete de Wim. "Ele deve querer saber o que
aconteceu ao Kirk , pensou ela.

-Wim, lembras-te do Kirk Reynolds? Ele morreu h dias num acidente
de esqui.

-Ai sim? Westminster-zero-quatro-sete-um. Catherine pestanejou.

-0 qu?-E ela de repente apercebeu-se de que Wim estava a recitar o
nmero de telefone de Kirk. "Era isso que as pessoas significavam

#
para Wim? Uma srie de nmeros? No tinha sentimentos pelas
pessoas? Era ele realmente incapaz de amar ou odiar ou sentir
compaixo? Talvez ele esteja em melhor situao do que eu", pensou
Catherine. "Pelo menos ele poupou-se  dor terrvel que o resto de ns
pode sentira Evelyn conseguiu que o doutor Hamilton recebesse
Catherine na sexta-feira seguinte. Evelyn pensou em telefonar a
Constantin Demiris para lhe dizer o que fizera, mas concluiu que o
assunto no tinha essa importncia para ir ma-lo por causa disso. 0
consultrio do doutor Hamilton ficava na Wimpole Street. Catherine
foi l para a sua primeira consulta, apreensiva e irritada. Apreensiva
porque estava receosa do que ele lhe pudesse dizer, e irritada consigo
prpria por ter de confiar num estranho para ajud-la nos problemas
que ela deveria ter sido capaz de resolver sozinha. A recepcionista do
guich disse:

-0 doutor Hamilton est  sua espera, Miss Alexander.

"Mas estou eu pronta para v-lo?" Catherine interrogava-se. Um
pnica repentino tomou-a. "Que estou eu a fazer aqui? No me vou pr
nas mos de um charlato com a mania que  Deus, Catherine disse:

-Eu.., mudei de ideia. Eu realmente no preciso de ver o mdico.
Gostaria de pagar a consulta.

-Oh? S um momento, por favor.

-Mas...

A recepcionista entrara no gabinete do mdico.

Momentos depois, a porta do gabinete abriu-se e Alan Hamilton saiu.
Tinha quarenta e poucos anos, era alto e louro, com olhos azuis
brilhantes e modos afveis.

Olhou para Catherine e sorriu. -J me fez ganhar o dia disse ele.
Catherine franziu o sobrolho.

-Como...?

-Eu no sabia que era um mdico realmente to bom. A senhora mal
entrou na minha recepo e j se sente melhor. Isso deve ser um
recorde.

Catherine disse defensivamente.

-Desculpe. Cometi um erro. No preciso de ajuda nenhuma. -Agrada-
me muito ouvir isso-disse Alan Hamilton. -Oxal todos os meus
doentes se sentissem assim. J que est aqui, Miss Alexander, por que

#
no entra por uns momentos? Tomaremos uma chvena de caf.

-Obrigada, mas no. Eu no...

-Prometo que vai beb-lo sentada. Catherine hesitou.

-Est bem, s por um minuto.

Ela seguiu at ao gabinete. Era muito simples, decorado com bom e
moderado gosto, mobiliado mais no estilo de uma sala de estar do que
um consultrio. Havia gravuras mitigantes penduradas nas paredes, e
sobre uma mesinha de centro antiga estava a fotografia de uma bela
mulher com um rapazinho a seu lado. "Pronto, ele tem um consultrio
bonito e uma famlia atraente. 0 que  que isso prova?"

-Por favor, sente-se -disse o doutor Hamilton. -0 caf deve estar
pronto num minuto.

-Eu no devia estar a tomar o seu tempo, doutor. Eu...

-No se preocupo com isso, -Ele sentou-se numa poltrona,
analisando-a. -A senhora passou um mau bocado -disse ele
solidariamente.

-0 que  que o senhor sabe?-Catherine Respondeu. 0 seu tom foi mais
irado do que intencionara.

-Falei com a Evelyn. Ela disse-me o que se passou em St. Moritz.
Lamento.

"L vem a maldita palavra outra vez.u

-Lamenta mesmo? Se o senhor  um mdico to bom como dizem,
talvez consiga trazer o Kirk de volta  vida. -Toda a infelicidade que
estivera enclausurada dentro de si explodiu, irrompendo numa
torrente, e para seu horror Catherine viu que soluava histericamente,
-Deixe-me em paz-gritou.-Deixe-me em paz.

Alan Hamilton ficou a olhar para ela, sem dizer nada. Quando os
soluos de Catherine finalmente passaram, ela disse num tom exausto:
-Peo desculpa. Perdoe-me. Tenho de me ir embora agora. -Ps-se de
p e dirigiu-se para a porta.

-Miss Alexander, no sei se consigo ajud-la, mas gostaria de tentar.
Apenas lhe posso prometer que tudo o que eu lhe fizer no a
prejudicar.

Catherine permaneceu junto  porta, indecisa. Voltou-se para olhar
para ele, os alhos rasos de gua.

#
-No sei qual  o meu mal -sussurrou ela. -Sinto-me to perdida.

Alan Hamilton levantou-se e caminhou at ela.

-Ento par que no tentamos encontr-la? Vamos tentar juntos. Sente-
se. Vou buscar o caf.

Ele ausentou-se durante cinco minutos, e Catherine ficou ali sentada,
perguntando-se como foi que ele a convencera a ficar. Ele tinha um
efeito calmante. Havia algo nos seus modos que era reconfortante.
"Talvez ele me possa ajudar", pensou Catherine.

Alan Hamilton regressou  sala com duas chvenas de caf. -H natas
e acar, se desejar.

-No, obrigada. Sentou-se  frente dela. -Sei que o seu amigo morreu
num Era to difcil abordar a questo.

- verdade. Ele estava num declive que se pensava ter sido encerrado.
0 vento derrubou a tabuleta.  a primeira vez que enfrenta a morte de
algum to chegado?

Como  que ela ia responder a isto? "Oh, no. 0 meu marido e a
amante foram executados por tentarem assassinar-me. Todas as
pessoas que me rodeiam morrem." Isso iria abal-lo. Ele estava ali
sentado, aguardando uma resposta, "o sacana do presunoso". Bem,
ela no lhe ia dar essa satisfao, No tinha nada que se meter na vida
dela. "Odeio-o Alan Hamilton viu a ira nos olhos dela. Mudou de
assunto deliberadamente.

-Como est o Wim?-perguntou. acidente de esqui.

A pergunta apanhou Catherine totalmente desprevenida. -Wim? Ele...
est timo. Evelyn disse-me que ele  seu doente. -, sim.

-Pode explicar como  que ele ... porque  que ele ...  assim? -0 Wim
veio ter comigo porque estava sempre a ser despedido. Ele  algo de
muito raro ... um misantropo genuno. No posso falar nas causas
desse comportamento, mas, basicamente, ele odeia as pessoas. 
incapaz de se relacionar com as outras pessoas.

Catherine lembrou-se das palavras de Evelyn.

"Ele ento tem emoes. Nunca se ligar a ningum."

-Mas o Wim  brilhante em matemtica -prosseguiu Alan Hamilton. Ele
est agora num trabalho onde pode aplicar esse conhecimento.

Catherine fez um sinal afirmativo com a cabea. -Nunca conheci

#
ningum como ele.
Alan Hamilton inclinou-se para a frente na cadeira.
-Miss Alexander-disse ele -, aquilo por que est a passar  muito


doloroso, mas acho que posso facilitar-lhe as coisas.
-Gostava de tentar.
-No... no sei -disse Catherine. -Tudo parece to irremedivel.
-Enquanto se sentir assim-Alan sorriu-, no h outro caminho seno


andar para a frente, pois no?-0 seu sorriso era contagiante. -Por que
no marcamos mais uma consulta? Se no fim da prxima ainda me
odiar, ento desistimos.


-Eu no 0 odeio-disse Catherine em tom de desculpa. -Bem, talvez um


pouco.
Alan Hamilton foi at  secretria e analisou a agenda. Tinha as horas
todas tomadas.


-Que tal na prxima segunda-feira?-perguntou. - uma? uma era
quando ele almoava, mas estava disposta a privar-se disso. Catherine
Alexander era uma mulher que transportava um fardo insuportvel, e
ele estava determinado a fazer tudo o que pudesse para ajud-la.


Catherine olhou para ele durante um longo momento. -Est bem.
-timo. Ento at segunda. -Ele entregou-lhe um carto. -Entretanto,


se precisar de mim, aqui tem o meu nmero do consultrio e o de casa.
Tenho o sono leve, de forma que no se preocupe em acordar-me.
-Obrigada-disse Catherine, -C estarei na segunda-feira. 0 doutor


Hamilton acompanhou a sada dela com o olhar. "Ela  to vulnervel,
e to bela. Tenho de ter cuidado" Olhou para a fotografia da secretria.
HQue iria a Angela pensar?"


A chamada chegou a meio da noite. Constantin Demiris escutou, e
quando falou a sua voz estava cheia de surpresa.


-0 Thele foi ao fundo? No posso acreditar.
- verdade, senhor Demiris. Aguarda costeira encontrou alguns
pedaos do naufrgio.


-Houve sobreviventes?
-No, senhor. Infelizmente, no. Perderam-se todos os marinheiros.
-Isso  terrvel. Algum sabe o que aconteceu? -Infelizmente nunca


#
saberemos. Todas as provas esto no fundo do mar.

-0 mar-murmurou Demiris -o mar cruel. -Entramos com a apresentao
de um pedido nos seguros? - difcil uma pessoa preocupar-se com
essas coisas depois de to dos aqueles homens corajosos terem perdido
a vida-mas, sim, entre com a apresentao do pedido. -0 vaso ficaria
na sua coleo particular. Agora eram horas de punir o cunhado.
Spyros Lambrou estava num frenezim de impacincia, aguardando a
notcia da priso de Constantin Demiris. Mantinha o rdio
constantemente ligado no seu escritrio e passava a pente fino todas as
edies dos jornais dirios. "Eu j devia ter sabido de alguma coisa,
pensou Lambrou. "Desta vez a polcia deve ter prendido o Demiris. No
momento em que Tony Rizzoli informara Spyros de que Demiris
concordara transportar-lhe as drogas, Lambrou dera conhecimento 
Alfndega norte-americana - annimamente, claro - de que o Thele iria
transportar uma quantidade enorme de herona. -J o devem ter
apanhado. Porque  que os jornais no souberam da histria?

0 intercomunicador soou.

-0 senhor Demiris est na linha dois.

- algum que quer falar com o senhor Demiris?

-No, senhor Lambrou.  o prprio senhor Demiris que est na linha. As
palavras provocaram-lhe um arrepio.

-Era impossvel!

Nervosamente, Lambrou pegou no telefone. -Costa?

-Spyros. -A voz de Demiris era jovial.-Como  que vo as coisas?

-Tudo bem, tudo bem. Onde  que ests? -Em Atenas.

-Oh. -Lambrou engoliu nervosamente. -No temos conversado
ultimamente -disse ele.

-Tenho estado ocupado. Que tal almoarmos hoje? Ests livre?
Lambrou tinha um almoo de trabalho importante.

-Estou. Est bem.

-timo. Encontramo-nos no clube. s duas horas.

Lambrou pousou o telefone, as mos tremendo. 0 que  que em nome
de Deus podia ter corrido mal? Bem, iria saber o que acontecera dentro
de pouco tempo. Constantin Demiris deixou Spyros  espera durante
meia hora, e quando, por fim, chegou disse bruscamente:

#
-Desculpa o atraso. -No h problema.


Spyros analisou Demiris cuidadosamente,  procura de alguns sinais
da experincia recente por que devia ter passado. "Nada"
-Estou com fome -disse Demiris animadamente. -E tu? Vamos ver o


que  que h na lista para hoje. -Percorreu a ementa com um olhar
atento. -Ah, Stridia. Queres abrir com ostras, Spyros?


-No. Acho que no. -Tinha perdido o apetite.
Demiris agia com demasiada alegria, e Lambrou teve uma premonio
terrvel.


Depois de pedirem, Demiris disse: -Quero agradecer-te, Spyros.


Spyros fitou desconfiadamente. -0 qu?
-0 qu? 0 teres-me mandado um bom cliente ... o senhor Rizzoli.
Lambrou humedeceu os lbios.


-Tu... estiveste com ele?
-Oh, estive, sim. Ele garantiu-me que amos fazer muitos negcios


juntos no futuro. -Demiris suspirou. -Embora me custe pensar que o
senhor Rizzoli j no tenha muito futuro.
Spyros ficou tenso.
-0 que  que queres dizer com isso?
A voz de Constantin Demiris endureceu.
-0 que eu quero dizer  que o Tony Rizzoli est morto. -Como  que..


~ 0 que  que aconteceu?


-Ele teve um acidente, Spyros.-Olhava de frente para o cunhado. Como
tm todos os que me querem enganar.
-No... no entendo. Tu...
-No entendes? Tu tentaste destruir-me. Falhaste. Prometo-te que teria


sido muito melhor para ti se tivesses conseguido. -No... no sei do


que ests a falar.
-No sabes, Spyros?-Constantin Demiris sorriu.-Em breve sabers.
Mas primeiro vou destruir a tua irm.


As ostras chegaram.
-Ah-disse Demiris-, parecem deliciosas. Bom apetite.
Depois, Constantin Demiris pensou no encontro com um sentimento


#
de satisfao profunda. Spyros Lambrou era um homem
completamente desmoralizado. Demiris sabia quanto Lambrou adorava
a irm e Demiris tencionava puni-los a ambos.

Mas havia algo que tinha de tratar primeiro. Catherine Alexander. Ela
telefonara-lhe depois da morte de Kirk,  beira da histeria. ...  tohorrvel. "Lamento muito, Catherine. Sei como devia gostar do Kirk. 
uma perda terrvel para ns dois. "Vou ter que alterar os meus planas",
pensou Demiris. Agora no h tempo para Rafina." Catherine era o
nico elo existente que o ligava ao que acontecera a Noelle Page e
Larry Douglas. "Foi um erro t-la deixado viver todo este tempo
Enquanto ela estivesse viva, algum poderia provar o que Demiris
fizera, mas com ela morta ele ficaria perfeitamente seguro. Pegou no
telefone da secretria e marcou um nmero. Quando uma voz
respondeu, Demiris disse:

-Vou estar em Kowloon na segunda-feira. Esteja presente, -Desligou
sem esperar uma resposta.

Os dois homens encontraram-se num edifcio deserto que Demiris
possua na cidade murada. Tem de parecer um acidente. Consegue
arranjar isso?-perguntou Constantin Demiris. Era um insulto. Sentia a
raiva crescer dentro de si. Isso era pergunta para se fazer a um amador
que se contratava na rua. Sentiu-se tentado a responder com sarcasmo:
"Oh, sim. Acho que consigo fazer isso. Prefere um acidente dentro de
casa? Posso fazer que ela parta o pescoo ao cair de um lano de
escadas. 0 danarino de Marselha. Ou ela podia embebedar-se e
afogar-se na banheira. A herdeira de Gstaad. Podia tomar uma dose
excessiva de herona.~ Eliminara trs assim. Ou ela podia adormecer
na cama com um cigarro aceso. 0 detetive sueco de L'Htel da
Margem Esquerda em Paris. "Ou ser que prefere qualquer coisa no
exterior? Posso provocar um acidente de trnsito, a queda de um avio
ou um desaparecimento no mar." Mas no disse nada disto, pois na
verdade tinha medo do homem que se sentava  sua frente. Ouvira
muitas histrias arrepiastes a seu respeito, e tinha razo para acreditar
nelas, De forma que tudo o que disse foi:

-Sim, senhor, posso provocar um acidente. Ningum ir descobrir.
-Mas no momento em que dizia estas palavras a ideia passou-lhe pela
cabea: "Ele sabe que eu saberei" Ficou  espera. Ouvia os barulhos da
rua do outro lado da janela, e a poliglota estridente e roufenha de
lnguas que pertenciam aos residentes da cidade murada. Demiris

#
estudava-o com olhos frios e negros.
Quando finalmente falou, disse:
-Pois bem. 0 mtodo ficar ao seu critrio. -Sim, senhor. 0 alvo est


aqui em Kowloon?


-Londres. Chama-se Catherine. Catherine Alexander. Trabalha nos
meus escritrios de Londres.
-Dava jeito se ela me fosse apresentada. Uma pista interna. Demiris


pensou por um momento:
-Vou enviar uma delegao de executivos a Londres na semana que


vem. Vou fazer que voc integre o grupo. -Inclinou-se para a frente e
disse: -S mais uma coisa.
-Sim,senhor?
-Quero que o corpo no consiga ser identificado por ningum.
Constantin Demiris estava a telefonar.
-Bom dia, Catherine. Como  que se sente hoje? -tima, obrigada,


Costa.
-Sente-se melhor? -Sinto-me.
-timo. Muito me agrada ouvir isso. Vou enviar uma delegao dos


executivos da nossa companhia a a Londres para analisarem as nossas
operaes. Agradecia que se encarregasse deles.
-Com todo o prazer. Quando  que chegam? -Amanh de manh.


-Farei tudo o que puder.
-Sei que posso contar consigo. Obrigado, Catherine. -No tem que
agradecer.


-Adeus, Catherine.
A ligao foi interrompida.
"Pronto, acabou-se!~ Constantin Demiris encostou-se  cadeira, a


pensar. Com Catherine fora de campo, deixava de haver pontas soltas.


Agora, podia centrar toda a sua ateno na mulher e no irmo dela.
-Vamos ter companhia esta noite. Uns executivos da sede. Quero que
faas o papel de anfitri.


Havia tanto tempo que ela desempenhara as funes de anfitri para o
marido. Melina sentiu-se animada. Talvez isto altere as coisas. 0 jantar


#
dessa noite no modificou nada. Chegaram trs homens, jantaram e
partiram. 0 jantar foi uma nvoa. Melina foi superficialmente
apresentada aos homens e permaneceu sentada enquanto 0 marido os
fascinava. Ela quase se esquecera do carisma de Costa. Ele contou
histrias divertidas e elogiou-os profusamente, o que muito lhes
agradou. Estavam na presena de um grande homem e mostraram que
estavam conscientes do fato. Melina no teve uma oportunidade para
falar. De todas as vezes que comeava a dizer alguma coisa, Costa
interrompia-a, at que por fim permaneceu em silncio. "Porque quis
ele a minha presena?~ Melina interrogou-se. No fim da noite,
quando os homens saam, Demiris disse: -Vocs partem para Londres
logo de manh. Tenho a certeza de que se encarregaro de tudo o que
precisa de ser feito. E partiram. A delegao chegou a Londres na
manh seguinte. Eram trs, todos de nacionalidades diferentes. 0
americano, Jerry Haley, era um homem alto e musculoso, com um
rosto amistoso e franco e uns olhos cinzento-azulados. Tinha as
maiores mos que Catherine j alguma vez vira. Ficou fascinada com
elas. Pareciam ter vida prpria, constantemente em movimento,
contorcendo-se e virando-se, como se estivessem ansiosas por ter
alguma coisa para fazer. 0 francs, Yves Renard, era um contraste
agudo, Era baixo e corpulento. Tinha um ar atormentado, e uns olhos
frios e penetrantes que pareciam atravessar Catherine. Parecia
reservado e de poucas palavras. Cauteloso foi a palavra que veio 
mente de Catherine. "Mas cauteloso com qu? Catherine interrogou-
se. 0 terceiro membro da delegao era Dino Mattusi. Era italiano,
cordial e insinuante, transpirando encanto por todos os poros.

-0 senhor Demiris tem-na em alta conta -disse Mattusi. -Isso  muito
lisonjeador.

-Ele disse que voc vai tomar conta de ns em Londres.

-Olhe, trouxe-lhe uma pequena lembrana. -Entregou a Catherine um
embrulho com uma etiqueta da Hermes. No interior havia um belo
cachecol de seda,

-Obrigada -disse Catherine. -Foi muito atencioso da sua parte.
-Olhou para os outros. -Permitam que lhes mostre os seus gabinetes.

Atrs deles houve um estrondo enorme. Todos se viraram. Era um
rapazinho, a olhar consternado para um pacote que deixara cair. Trazia
trs malas. 0 rapaz aparentava uns quinze anos e era baixo para a idade
que tinha. Tinha cabelo castanho encaracolado e uns olhos verdes

#
brilhantes, e tinha um aspecto frgil.


-Que raio -disse Renard bruscamente. -Toma cuidado com essas
coisas!
-Perdo-disse o rapaz nervosamente.-Peo desculpa. Onde  que eu


ponho as malas?
Renard disse impacientemente.
-Em qualquer stio. Ns depois vamos busc-las.
Catherine olhou para o rapaz interrogadoramente. Evelyn explicou.
-Ele deixou o trabalho de paquete que tinha em Atenas. -Ns


precisvamos de outro paquete aqui.


-Como  que te chamas? -perguntou Catherine. -Atanas Stavich,
senhora. -Estava quase a chorar.
-Olha, Atanas, h um quarto nas traseiras onde podes arrumar as


malas. Eu depois encarrego-me delas.
0 rapaz disse agradecidamente: -Obrigado, senhora.
Catherine voltou-se para os homens.
-0 senhor Demiris disse-me que os senhores vm analisar a nossa


operao aqui.
-Estou  vossa inteira disposio. Tentarei satisfaz-los em tudo o que


venham a precisar. Agora, se me querem acompanhar-me, vou
apresent-los ao Wim e ao resto do pessoal.
Enquanto percorriam o corredor, Catherine parava para fazer as


apresentaes.
Chegaram  sala de Wim.
-Wim, esta  a delegao enviada pelo senhor Demiris. Yves Renard,


Dino Mattusi e Jerry Haley, Acabam de chegar da Grcia. Wim


lanou-lhes um olhar penetrante.
-A Grcia tem umapopulao de apenas sete milhes, seiscentos e
trinta mil habitantes. -Os homens entreolharam-se, intrigados.
Catherine sorriu para si prpria. Eles estavam a ter exatamente a
mesma reao que ela teve quando conheceu Wim.


-Mandei preparar os seus gabinetes-disse Catherine aos homens. Queiram
seguir-me.
Quando j se encontravam no corredor, Jerry Haley perguntou:


#
-Que diabo era aquilo? Disseram que ele era importante por estas
bandas.

-E  -assegurou-lhe Catherine. -0 Wim est a par das finanas de
todas as vrias divises.

-Eu no deixaria que ele tomasse conta do meu gato -Hamilton riu-se
com desdm.

-Quando o conhecerem melhor...

-Eu no desejo conhec-lo melhor-murmurou o francs. -J tratei do
alojamento-disse Catherine ao grupo. -Reparei que querem ficarem
hotis diferentes.

- verdade -replicou Mattusi.

Catherine ia fazer um comentrio, depois decidiu no faz-lo. No
tinha nada a ver com o fato de eles terem decidido hospedar-se em
hotis diferentes. Ele observava Catherine, pensando. HEIa  muito
mais bonita do que estava  espera. Isso tornar a coisa mais
interessante. E j sofreu a dor. Posso ver nos olhos dela. Vou-lhe
ensinar como a dor pode ser requintada. Vamos desfrutar juntos. E,
quando tiver acabado com ela, vou mand-la para um lugar onde no
h dor. Vai para o Cu ou para o Inferno. Vou gostar disto. Vou gostar
muitssimo disto. Catherine levou os homens s suas respectivas salas,
e, depois de eles estarem instalados, ela deu incio ao regresso  sua
secretria. Do corredor, Catherine ouviu o francs berrar com o
rapazinho.

-Esta pasta est errada, seu estpido. A minha  a castanha. Castanha!
No sabes ingls?

-Est bem, senhor. Perdo, senhor. -A sua voz estava tomada de
pnico.

"Vou ter de fazer alguma coisa em relao a isto, pensou Catherine.

Evelyn Kaye disse:

-Se precisares de ajuda para este grupo, conta comigo. -Agradeo,
Evelyn. No me esquecerei.

Alguns minutos depois, Atanas Stavich passou  frente do gabinete de
Catherine. Ela chamou.

-Importas-te de entrar por um momento?

0 rapaz olhou para ela com uma expresso assustada.

#
-Est bem, minha senhora. -Ele entrou com o ar de quem estava 
espera de ser chicoteado.

-Fecha a porta, por favor. -Sim, senhora.

-Puxa uma cadeira, Atanas. Manas, no ? -, sim, senhora.

Ela tentava p-lo  vontade, mas no estava a consegui-lo. -No h
motivo para estares com medo.

-No, minha senhora.

Catherine ps-se a estud-lo, imaginando que coisas terrveis lhe
haviam sido feitas para torn-lo to medroso. Decidiu que ia tentar
saber mais do seu passado.

-Atanas, se algum aqui te incomodar ou for mau para ti, quero que
venhas ter comigo. Percebes?

Ele engoliu. -Sim, senhora. Mas ela duvidou de que ele teria coragem
suficiente para vir ter com ela. Algum, algures, havia reprimido a sua
personalidade. -Falaremos mais tarde-disse Catherine. Os resumos da
delegao mostravam que eles trabalharam em vrias divises do
extenso imprio de Constantin Demiris, de forma que todos haviam
tido experincia dentro da organizao. Quem mais intrigava
Catherine era o afvel italiano, Dino Mattusi. Bombardeava Catherine
com perguntas para as quais ele devia ter sabido as respostas, e no
parecia muito interessado em inteirar-se das operaes de Londres. De
fato, parecia menos interessado na companhia do que na vida pessoal
de Catherine.

-E casada? -perguntou Mattusi. -No.

-Mas j foi casada? -J.

-Divorciada?

Ela queria pr fim  conversa. -Sou viva.

Mattusi deu-lhe um sorriso enorme.

-Aposto como tem um amigo. Entende o que eu quero dizer?

-Sim, entendo o que quer dizer-disse Catherine rispidamente. -E no 
nada que lhe diga respeito. Voc  casada?

-Sim, sou. Tenho mulher e quatro belos bambini. Tm muitas
saudades minhas quando estou longe de casa.

-Viaja muito, senhor Mattusi? Ele pareceu ofendido.

#
-Dino, Dino. Senhor Mattusi  o meu pai. Sim, viajo bastante. -Sorriu
para Catherine e baixou a voz. -Mas viajar s vezes pode trazer uns
prazeres extras. Entende o que eu quero dizer?

Catherine devolveu-lhe o sorriso. -No.

s 12.15 dessa tarde, Catherine saiu para a consulta que tinha com o
doutor Hamilton. Para sua surpresa, deu por si a desej-la com
ansiedade. Lembrou-se da perturbao que sentira da ltima vez em
que fora v-lo. Desta vez entrou no consultrio com uma plena
sensao de antecipao. A recepcionista tinha ido almoar e a porta
do gabinete estava aberta. Alan Hamilton estava  espera dela. -Entreele
cumprimentou-a.

Catherine entrou no gabinete e ele apontou para uma cadeira. -Ento?
Teve uma boa semana?

-Uma boa semana? Nem por isso. -No conseguiu afastar do
pensamento a morte de Kirk Reynolds. -Foi assim-assim. Eu... arranjo
sempre que fazer.

-Isso ajuda muito. H quanto tempo trabalha para o Constantin
Demiris?

-H quatro meses.

-Gosta do seu trabalho?

-Faz que eu no pense... nas coisas. Devo muito ao senhor Demiris.
No lhe posso dizer o quanto ele tem feito por mim. -Catherine sorrriu
pesarosamente. -Mas acho que direi, no?

Alan Hamilton sacudiu a cabea. -Dir-me- apenas o que me quiser
contar. Houve um silncio.

Ela por fim quebrou-o.

-0 meu marido trabalhava para o senhor Demiris. Era o piloto dele.
Eu.., tive um acidente de barco e perdi a memria. Quando a recuperei,

o senhor Demiris ofereceu-me este emprego.
"Estou a omitir a dor e o terror. Estarei com vergonha de lhe dizer que

o meu marido me tentou matar? Ser porque receio que ele v pensar
que sou menos digna? No  fcil para nenhum de ns dois falar dos
nossos passados." Catherine olhou para ele, em silncio. -Disse que
perdeu a memria.
- verdade.

#
-Teve um acidente de barco.
-Sim.-Os lbios de Catherine estavam tensos, como se estivesse
determinada a dizer-lhe o mnimo possvel. Ela estava dividida por um


conflito terrvel. Queria contar-lhe tudo e ter a ajuda dele. No lhe
queria contar nada, queria que ele a deixasse em paz.
Alan Hamilton analisava-a pensativamente. - divorciada?
-Sou. Por um peloto de fuzilamento. -Ele... o meu marido morreu.
-Miss Alexander... -Ele hesitou. -Importa-se que a trate por Catherine?
-No.
-Eu chamo-me Alan. Catherine, do que  que tem medo? Ela


endureceu.
-0 que  que o leva a pensar que tenho medo? -No tem?
-No. -Desta vez o silncio foi mais longo.
Ela estava receosa de exprimir-se por palavras, receosa de pr a


realidade a descoberto.


-As pessoas que me rodeiam... parece que morrem. Se ficou surpreso,
no mostrou.
-E voc acredita que  a causa das suas mortes? -Sim. No. No sei.


Estou... confusa.
-Ns culpamo-nos muitas vezes por coisas que acontecem aos outros.
Se um casal se divorcia, os filhos pensam que a culpa  deles. Se
algum roga uma praga a uma pessoa e essa pessoa morre, a outra


pensa que foi a causa do sucedido. Esse tipo de crena no  de modo
algum invulgar. Voc...
-E mais do que isso.
-?-Ele observou-a, pronto a ouvir. As palavras jorravam.
-0 meu marido foi morto, bem como a... a amante dele. Os dois


advogados que os defenderam morreram. E agora... -A voz dela


mudou de tom. -0 Kirk.
-E voc pensa que  responsvel por todas essas mortes.  um fardo
tremendo para carregar, no?


-Parece que eu... sou uma espcie de amuleto do azar. Tenho receio de
ter uma relao com outro homem. No acho que seria capaz de
resistir se alguma coisa...


#
-Catherine, sabe,por que vida voc  responsvel? Pela sua. Pela de
mais ningum. E-lhe impossvel controlar a vida e a morte de outra
pessoa. Voc est inocente. No teve nada a ver com nenhuma das
outras mortes. Precisa de entender isso.

"Voc est inocente. Voce no teve nada a ver com nenhuma dessas
mortes." E Catherine ficou a pensar nestas palavras. Queria
desesperadamente acreditar nelas. "Aquelas pessoas tinham morrido
por causa dos seus atos, no por causa dos dela. E, quanto a Kirk, foi
um acidente infeliz. No foi? Alan Hamilton ficou a observ-la em
silncio. Catherine ergueu 0 olhar e pensou: "Ele  um homem
decente. Outro pensamento surgiu-lhe espontneo na mente. "Quem
me dera t-lo conhecido h mais tempo. Com a conscincia pesada,
Catherine olhou de relance para a fotografia emoldurada da mulher e
do filho de Alan na mesa do lado.

-Obrigada -disse Catherine. -Vou. vou tentar acreditar nisso. Terei
de habituar-me  idia.

Alan Hamilton sorriu.

-Habituar-nos~mos juntos. Vai voltar? -0 qu?

-Esta sesso foi experimental, lembra-se? Voc ficou de decidir se
queria continuar.

Catherine no hesitou. -Voltarei, sim, Alan, Depois de ela partir, Alan
Hamilton ficou a pensar nela. Ele tratara de muitas doentes atraentes
durante os anos de prtica, e algumas delas deram sinal de interesse
sexual por ele, Mas ele era um psiquiatra demasiado bom para
consentir atentao. Uma relao pessoal com uma doente era um dos
primeiros tabus da sua profisso. Teria sido uma traio. 0 doutor Alan
Hamilton era originrio de um meio mdico. 0 pai era um cirurgio
que desposara a enfermeira, e o av de Alan fora um cardiologista
famoso. Desde menino, Alan sabia que queria ser mdico. Um
cirurgio como o pai. Frequentara a faculdade de medicina da King~s
College e, aps a licenciatura, especializara-se em cirurgia. Tinha uma
queda natural para isso, uma aptido que no podia ser ensinada. E
ento, no dia 1 de Setembro de 1939, o exrcito do Terceiro Reich
atravessara a fronteira da Polnia, e dois dias depois a Gr-Bretanha e
a Frana declararam guerra. A Segunda Guerra Mundial havia
comeado. Alan Hamilton assentara praa como cirurgio. A 22 de
Junho de 1940, depois de as foras do Eixo terem conquistado a
Polnia, a Tchecoslovquia, a Finlndia, a Noruega e os Pases

#
Baixos, a Frana rendeu-se, e o impacto da guerra caiu sobre as Ilhas
Britnicas. A princpio, eram cem os avies que diariamente lanavam
bombas sobre cidades britnicas. Em breve eram duzentos avies,
depois mil. A carnificina estava para alm da imaginao. Os feridos e
os moribundos estavam por toda a parte. As cidades estavam em
chamas. Mas Hitler avaliara muito mal os ingleses. Os ataques apenas
serviram para fortalecer a sua determinao. Estavam prontos a morrer
pela liberdade. No havia folga, dia ou noite, e Alan Hamilton dava
por si sem dormir for perodos que por vezes se estendiam at sessenta
horas. Quando o hospital de urgncias onde trabalhava foi
bombardeado, ele levou os doentes para um armazm. Salvou
inmeras vidas, trabalhando sob as condies mais arriscadas
possveis. Em Outubro, quando o bombardeamento estava no seu
ponto mais alto, as sirenes do antiareo soaram e as pessoas dirigiam-
se para os abrigos antiareos subterrneos. Alan estava a meio de uma
operao e recusou-se a abandonar o doente. As bombas
aproximavam-se. Um mdico que trabalhava com Alan disse:

-Vamos pr-nos a mexer daqui para fora.

-S um minuto.-Ele tinha o peito do doente aberto e estava a remover
pedaos de estilhaos ensangentados.

-Alan!

Mas ele no podia ir-se embora. Estava concentrado no que fazia,
alheio ao som das bombas que caam  sua volta. Nunca ouviu o som
da bomba que caiu no edifcio. Esteve em coma durante seis dias, e
quando acordou soube que, entre outros ferimentos, os ossos da sua
mo direita tinham sido esmagados. Foram consertados e pareciam
normais, mas no voltaria a operar. Levou quase um ano a ultrapassar

o trauma de ver o seu futuro destrudo. Esteve sob os cuidados de um
psiquiatra, um mdico competente que disse:
-Vo sendo horas de deixar de sentir pena de si prprio e iniciar uma
vida nova.

-Afazer o qu?-Alan perguntara amargamente.

-0 que tem andado a fazer.., s que de uma maneira diferente. -No
estou a perceber.

-Voc  um mdico, Alan. Cura os corpos das pessoas. -Bem, isso j
no pode voltar a fazer. Mas  igualmente importante curar as mentes
das pessoas. Voc daria um timo psiquiatra.  inteligente e tem

#
compaixo, Pense nisso.

Revelara-se uma das decises mais compensadoras que jamais tomara.
Gostava tremendamente do que fazia. Em certo sentido, achava ainda
mais satisfatrio trazer pacientes que viviam no desespero de volta 
vida normal do que ocupar-se do seu bem-estar fsico. A sua reputao
crescera rapidamente, e durante os trs ltimos anos fora forado a
rejeitar novos doentes. Concordara em receber Catherine s para lhe
recomendar outro mdico. Mas algo nela o deixara sensibilizado.
"Tenho de ajud-la Quando Catherine regressou ao escritrio depois
da consulta com o doutor Alan Hamilton, foi ver Wim.

-Fui hoje ao doutor Hamilton-disse Catherine.

-Ai sim? No reajustamento scio-psiquitrico, a escala classificativa
pela morte do cnjuge  de cem, divrcio setenta e trs, separao
marital de um parceiro sessenta e cinco, deteno numa priso sessenta
e trs, morte de um parente chegado sessenta e trs, ferimento pessoal
ou doena cinqenta e trs, casamento cinqenta, despedimento
quarenta e sete...

Catherine ficou a ouvir. "Como  que ser", interrogou-se ela, "pensar
nas coisas s em termos matemticos? No conhecer outra pessoa
como um ser humano, no ter um amigo verdadeiro. Eu sinto-me como
se tivesse encontrado um novo amigo", pensou Catherine. "Gostava de
saber h quanto tempo ele  casado." "Tu tentaste destruir-me.
Falhaste. Prometo-te que teria sido melhor para ti se tivesses
conseguido. Mas primeiro vou destruir a tua irm." As palavras de
Constantin Demiris ainda soavam nos ouvidos de Lambrou. No tinha
dvida de que Demiris tentaria levar por diante a sua ameaa. 0 que 
que em nome de Deus pde ter corrido mal com Rizzoli? Tudo fora to
cuidadosamente planejado. Mas no havia tempo para especular sobre

o que acontecera. 0 que importava agora era precaver a irm. A
secretria de Lambrou entrou no gabinete.
-0 seu compromisso das dez horas est  espera. Quer que mande...?

-No. Cancele todos os meus compromissos. No voltarei esta manh.

Pegou no telefone, e cinco minutos depois ia a caminho do encontro
com Melina. Ela aguardavam no jardim da villa.

-Spyros. Parecias to preocupado ao telefone! 0 que  que se passa?

-Temos de conversar.-Levou-a para um banco que ficava num
miradouro coberto de videiras. Ficou a olhar para ela e pensou. "Que

#
mulher to encantadora. Trouxe sempre a felicidade a todos quantos a
sua vida tocou. No fez nada para merecer isto."
-No me vais dizer o que se passa? Lambrou respirou fundo.


-Vai ser muito doloroso, querida. -Ests a comear a preocupar-me.
- essa a minha inteno. A tua vida est em perigo. -0 qu?
Ameaada por quem?


Ele mediu as palavras cuidadosamente. -Penso que o Costa vai tentar
matar-te. Melina olhava-o fixamente, boquiaberta, -Ests a brincar.


-No, Melina,  a srio.
-Querido, o Costa pode ser muita coisa, mas no  um assassino. Ele
no poderia...


-Ests enganada. Ele j matou. 0 rosto dela empalidecera.
-0 que  que ests a dizer?
-Oh, ele no o faz com as prprias mos. Contrata pessoas para


matarem em vez dele, mas...
-No acredito em ti.
-Lembras-te da Catherine Alexander? -A mulher que foi assassinada...
-Ela no foi assassinada. Est viva. Melina sacudiu a cabea.
-Ela... no pode estar. Quer dizer.., as pessoas que a mataram foram


executadas.
Lambrou tomou a mo da irm na sua.
-Melina, o Larry Douglas e a Noelle Page no mataram a Catherine.


Durante todo o julgamento, o Demiris manteve-a escondida. Melina
estava espantada, muda, lembrando-se da mulher que vira de relance
na casa.


"Quem  a mulher que eu vi no hall?" "E uma amiga de um scio. Vai
trabalhar para mim em Londres." "Eu vi-a de relance. Ela faz-me
lembrar algum. Faz-me lembrar a mulher do piloto que trabalhava
para ti. Mas isso  impossvel, claro. Eles mataram-na." "  verdade,
eles mataram-na,~ Tornou a falar.


-Ela esteve c em casa, Spyros. 0 Costa mentiu-me sobre ela. -Ele 
louco. Quero que faas as malas e saias deste lugar. Ela olhou para ele
e disse lentamente:


-No, esta  a minha casa.


#
-Melina, eu no conseguiria aguentar se te acontecesse alguma coisa.
Havia algo na voz dela.
-No te preocupes. Nada me ir acontecer. 0 Costa no  nenhum


idiota. Ele sabe que se fizesse alguma coisa para me prejudicar iria


pagar bem caro por isso.
-Ele  teu marido, mas tu no o conheces. Receio pelo que te possa
acontecer.


-Eu sei encarregar-me dele, Spyros.


Olhou para ela e sabia que no havia maneira de persuadi-la a mudar
de idias.
-Se no quiseres ir embora, faz-me um favor. Promete que no ficars


sozinha com ele.
Ela bateu-lhe ao de leve na face. -Prometo.
Melina no fazia tenes de manter essa promessa.
Quando Constantin Demiris chegou acasa nessa noite, Melina estava 


espera dele. Ele fez-lhe um sinal com a cabea e seguiu para o quarto
dele.


Melina seguiu.
-Acho que devamos ter uma conversa-disse Melina. Demiris olhou
para o relgio.


-S disponho de uns minutos. Tenho um compromisso. -Tens? Ests a
planejar matar algum esta noite?


Ele voltou-se para ela.
-Que delrio  esse que ests para a a ter? -0 Spyros veio ver-me hoje
de manh.


-Vou ter de avisar o teu irmo para que se afaste da minha casa.
-Tambm  a minha casa -disse Melina em tom de desafio. -Tivemos
uma conversa interessantssima.


-Realmente? Sobre o qu?


-Sobre ti, Catherine Douglas e Noelle Page. Conseguira a ateno
toda dele agora. -Isso  histria antiga.
-? 0 Spyros diz que tu mataste duas pessoas inocentes, Costa. -0


Spyros Lambrou  um idiota.


#
-Eu vi a rapariga aqui, nesta casa.

-Ningum vai acreditar em ti. No voltars a v-la. -Arranjei uma
pessoa para me livrar dela.

E Melina de repente lembrou-se dos trs homens que vieram jantar.
"Vocs partem para Londres logo de manh. Tenho a certeza de que
tudo ser resolvido." Ele aproximou-se de Melina e disse suavemente:

-Sabes, estou a ficar farto de ti e do teu irmo. -Agarrou-a por um
brao e apertou-o com fora. -0 Spyros Lambrou tentou arruinar-me.
Ele devia ter-me morto.-Apertou com mais fora.-Vocs os dois vo
desejar que ele o tivesse feito.

-Pra com isso, ests-me a magoar.

-Minha querida esposa, tu no sabes o que  a dor. Mas vais aprender.
-Largou-lhe o brao. -Vou divorciar-me. Quero uma mulher a srio.
Mas no sairei da tua vida. Oh, no. Tenho planas maravilhosos para ti
e para o teu querido irmo. Bem, j conversamos. Se me ds licena,
vou-me mudar. No  boa educao fazer uma senhora esperar. Virou-
se e entrou no quarto de vestir. Melina deixou-se ficar, o corao aos
pulos. 0 Spyros Lambrou tem razo. "Ele  louco." Ela sentiu-se
completamente desamparada, mas no temia pela prpria vida. "Que
coisa me prende  vida?", Melina pensava amargamente. 0 marido
despojara-a de toda a dignidade e fizera-a descer ao seu nvel. Pensou
em todas as vezes que ele a humilhara, a maltratara em pblico. Ela
sabia que era objeto de pena entre os seus amigos. No, j no se
preocupava consigo prpria. "Estou disposta a morrer", pensou, "mas
no posso consentir que faa mal ao Spyros." E no entanto que podia
ela fazer para impedi-lo? Spyros era poderoso, mas o marido era mais
poderoso. Melina sabia com uma certeza terrvel que se ela o deixasse

o marido cumpriria a sua ameaa. "Tenho de impedi-lo de alguma
forma. Mas como? Como...?" A delegao dos executivos de Atenas
mantinha Catherine ocupada. Ela marcava-lhes reunies com
executivos de outras companhias e informavas das operaes de
Londres. Eles estavam maravilhados com a sua eficincia. Ela
conhecia todas as fases da transao, e eles estavam impressionados.
Os dias de Catherine estavam cheios, e as distraes mantinham-lhe o
pensamento afastado dos seus prprios problemas. Ela foi conhecendo
cada um dos homens um pouco melhor. Jerry Haley era a ovelha negra
da famlia. 0 pai fora um abastado homem do petrleo, e o av, um
juiz respeitado. Quando Jerry Haley tinha vinte e um anos, cumprira j
#
trs anos em centros de deteno juvenil por roubo de automveis,
assalto e invaso, e violao. A famlia enviara-o por fim para a
Europa para se ver livre dele.

-Mas eu endireitei-me-disse Haley a Catherine com orgulho. -Virei
uma pgina nova.

Yves Renard era um homem amargo. Catherine soube que os pais o
abandonaram, e ele fora educado por uns parentes distantes que o
maltrataram.

-Eles tinham uma quinta perto de Vichy, e obrigavam-me trabalhar que
nem um co, de sol a sol. Fugi de l quando tinha quinze anos e fui
trabalhar para Paris.

0 italiano Dino Mattusi, sempre bem-disposto, nasceu na Siclia, filho
de pais da classe mdia.

-Quando tinha dezasseis anos, causei um grande escndalo ao fugir
com uma mulher casada dez anos mais velha do que eu. Ah, ela era
belssima.

-Que  que aconteceu? Suspirou.

-Trouxeram-me para casa e depois mandaram-me para Roma para
fugir  ira do marido da mulher.

Catherine sorriu.

-Estou a ver. Quando  que comeou a trabalhar na firma do senhor
Demiris ?

Ele disse evasivamente.

-Mais tarde. Fiz muitas coisas primeiro. Sabe... todo o tipo de
trabalhos. Tudo para ganhar a vida.

-E depois conheceu a sua mulher? Ele fitou Catherine nos olhos e
disse: -A minha mulher no est aqui.

Ele observava-a, falava com ela, escutava o som da sua voz, sentia o
seu perfume. Quis saber tudo a seu respeito. Gostava da maneira como
ela se movimentava e gostaria de saber como seria o corpo dela sob o
vestido. Em breve saberia. Muito em breve. Mal podia esperar. Jerry
Haley entrou no gabinete de Catherine. -Gosta de teatro, Catherine?

-Claro que sim. Eu...

-Estreou um novo musical. OArco-ris deFinian. Eu gostava de ir ver
hoje  noite.

#
-Terei todo o prazer em arranjar-lhe uma entrada.

-No teria muita piada ir sozinho, pois no? Tem que fazer? Catherine
hesitou.

-No. -Deu por si a olhar fixamente para as suas mos enormes e
inquietas.

-timo! V buscar-me ao hotel s sete horas. -Era uma ordem. Ele
voltou-se e saiu da sala.

"Era estranho", pensou Catherine. "Ele parecia to amvel e aberto e
no entanto...

Eu endireitei-me. Ela no conseguia afastar a imagem daquelas mos
enormes da idia.

Jerry Haley estava  espera de Catherine no salo do Hotel Savoy, e
foram para o teatro numa limousine da firma.

-Londres  uma grande cidade -disse Jerry Haley. -Gosto sempre de
voltar aqui. Est c h muito tempo?

-H alguns meses. -Voc  americana? -Sou. De Chicago. -Uma bela
cidade. Passei l uns bons tempos. "A violar mulheres?"

Chegaram ao teatro e misturaram-se com a multido. 0 espetculo foi
maravilhoso e o elenco era excelente, mas Catherine no consegui
concentrar-se. Jerry Haley passou o tempo a tamborilar com os dedos
no brao da cadeira, no colo, nos joelhos. Foi incapaz de manter as
suas enormes mos sossegadas. Quando a pea acabou, Haley virou-se
para Catherine e disse: -Est uma noite to bonita. Porque  que no
arrumamos o carro e vamos dar uma volta por Hyde Park?

-Eu tenho que estar amanh bem cedo no escritrio-disse Catherine.
-Talvez numa outra altura.

Haley analisou-a, um sorriso enigmtico no seu rosto. -Certo -disse
ele. -Temos muito tempo. Yves Renard estava interessado por
museus.

- claro-disse o francs a Catherine-que em Paris temos o maior
museu do mundo. J foi ao Louvre?

-No-disse Catherine.-Nunca estive em Paris.

- pena. Devia ir l um dia. -Mas, apesar de o ter dito, pensou ele
consigo: "Sei que ela no ir. -Eu gostava de ver os museus de
Londres. Talvez no sbado pudssemos ir visitar alguns.

#
Catherine planejara pr em dia algum do trabalho do escritrio no
sbado. Mas Constantin Demiris pedira-lhe para cuidar dos visitantes.

-Est bem -disse ela. -Sbado ser timo.

Catherine no ansiava passar um dia com o francs. Ele  to amargo.
Comporta-se como se ainda andassem a maltrat-lo.

0 dia comeou bastante agradavelmente. Primeiro, foram ao Museu
Britnico, onde perambularam por entre galerias com magnficos
tesouros do passado. Viram uma cpia da Magna Carta, uma
proclamao assinada por Isabel I e tratados de batalhas combatidas
em sculos anteriores. Havia algo em Yves Renard que incomodava
Catherine, e s depois de estarem h quase uma hora no museu  que
ela se apercebeu do que se tratava. Estavam a olhar para uma vitrina
que continha um documento escrito pelo Almirante Nelson.

-Acho que esta  uma das peas mais interessantes em exibio -disse
Catherine. -Foi escrita momentos antes de o almirante Nelson partir
para a batalha. Sabe,  que ele no sabia se tinha autoridade... -E ela de
repente apercebeu-se de que Yves Renard no estava a prestar ateno.
E uma outra percepo apossou-se dela: ele no prestara quase
nenhuma ateno s exposies que havia no museu. No estava
interessado. "Ento porque  que ele me disse que queria ver museus?"
interrogou-se Catherine.

A seguir foram ao Museu Vitoria e Albert, e a experincia repetiu-se.
Destavez, Catherine observava-o de perto. Yves Renard ia de sala em
sala elogiando da boca para fora o que viam, mas a sua mente estava
obviamente noutro lugar. Quando terminaram, Catherine perguntou:

-Gostava de ir visitar a Abadia de Westminster? Yves Renard fez um
sinal afirmativo com a cabea. -Sim, claro.

Percorreram a imponente abadia, parando para ver os tmulos dos
homens famosos da histria que ali estavam sepultados, poetas,
estadistas e monarcas.

-Olhe -disse Catherine -, aqui  onde o Keats est sepultado. Renard
baixou o olhar num relance.

-Ah, Keats. -E depois continuou a andar.

Catherine ficou ali atendendo. "De que anda ele  procura? Porque 
que est a desperdiar assim o dia?"

Quando estavam de regresso ao hotel, Yves Renard disse: -Obrigado,

#
Miss Alexander. Gostei muito. "Ele est a mentir", pensou Catherine.


"Mas porqu?"
-Ouvi dizer que h um lugar muito interessante. Stonehenge. Dizem
que fica no Planalto de Salisbria,


-Fica a, sim -disse Catherine.
-Porque no vamos at l visitar, talvez sbado que vem? Catherine


interrogou-se se ele acharia Stonehenge mais interessante do que os
museus.
-Seria timo.
Dino Mattusi era um gastrnomo. Entrou no gabinete de Catherine


com um guia.


-Tenho aqui uma lista dos melhores restaurantes de Londres. Est
interessada?
-Bem, eu...
-timo! Hoje  noite vou lev-la a jantar ao Connaught. Catherine


disse:
-Esta noite tenho de...
-Nada de desculpas. Vou busc-la s oito. Catherine hesitou.
-Muito bem. Mattusi ficou radiante.
-Bene!-Inclinou-se para a frente. -No tem piada fazer as coisas


sozinha, pois no?-0 significado era inconfundvel. "Mas ele  to


bvio",pensou Catherine, "que  de fato completamente inofensivo."
O jantar no Connaught estava delicioso. Jantaram salmo escocs
fumado, rosbife e pudim de Yorkshire. Quando comiam a salada, Dino
Mattusi disse: -Acho-a fascinante, Catherine. Adoro as mulheres
americanas. -Oh. A sua mulher  americana?-Catherine perguntou
inocentemente. Mattusi encolheu os ombros.


-No,  italiana. Mas  muito compreensiva. -Isso para si deve ser
timo -disse Catherine. Ele sorriu.
- timo.


-S quando estavam a comer a sobremesa  que Dino Mattusi disse:
-Gosta do campo? Tenho um amigo que tem carro. Achei que
pudssemos ir dar um passeio no domingo.


Catherine comeou por dizer no, e depois repentinamente pensou em


#
Wim. Ele parecia to sozinho. Talvez gostasse de ir dar uma volta de
carro pelo campo.
-Parece ser divertido.
-Prometo-lhe que vai ser interessante. -Ser que posso trazer o Wim?
Ele sacudiu a cabea.


- um carro pequeno. Vou tratar das coisas.
Os visitantes de Atenas eram exigentes, e Catherine viu-se com muito
pouco tempo para si prpria. Haley, Renard e Mattusi tinham tido
vrias reunies com Wim Vandeen, e Catherine achava piada 
maneira como as suas atitudes se haviam alterado.


-Ele faz tudo sem calculadora -disse Haley maravilhado. - verdade.
-Nunca vi nada parecido.
Catherine estava impressionada com Atavas Stavich. 0 rapaz era o


trabalhador mais esforado que ela conhecera. Ele j estava no
escritrio quando Catherine chegava de manh, e ficava l depois de
todos os outros sarem. Estava sempre a sorrir e ansioso por agradar.
Fazia lembrar a Catherine um cachorrinho agitado. Algures no seu
passado, algum o tratara muito mal. Catherine resolveu falar de
Atavas a Alan Hamilton. "Tem de haver uma maneira de construir a
sua autoconfiana, pensou Catherine. "Estou certa de que o Alan o
poderia ajudar."


-Sabes que o garoto est apaixonado por ti, no sabes? -disse Evelyn
um dia.


-De que  que ests a falar?
-Do Atavas. No viste o olhar de adorao nos olhos dele? Ele segue-
te como se fosse uma ovelha tresmalhada.


Catherine riu-se. -Ests a exagerar. Num impulso, Catherine convidou
Atavas para almoar.
-Num.. num restaurante? Catherine sorriu.
-Sim, claro.


0 rosto dele corou.
-No... no sei, Miss Alexander. Baixou os olhos pela roupa
imprpria.


-A senhora sentiria vergonha de ser vista na minha companhia. -Eu


#
no julgo as pessoas pela roupa que vestem -disse Catherine com


firmeza. -Vou tratar da reserva.
Levou Atavas a almoar ao Lyons Corner House. Ele sentou-se 
frente dela, espantado com o ambiente.


-Nunca estive num lugar como este.  to bonito. Catherine ficou


sensibilizada.
-Quero que peas tudo o que te apetecer. Ele analisou a ementa e
abanou a cabea. - tudo to caro.


Catherine sorriu.
-No te preocupes com isso, Tu e eu trabalhamos para um homem


muito rico. Tenho a certeza de que ele gostaria que ns comssemos
uma boa refeio.-No lhe disse que quem ia pagar seria ela.
Atavas pediu cocktail de camaro e salada, um frango assado com


batata frita e terminou a refeio com bolo de chocolate com gelado.


Catherine viu comer espantada. Ele tinha uma estrutura to pequena.
-Onde  que metes isso tudo? Atavas disse envergonhado: -Eu no
engordo,


-Gostas de Londres, Atavas?


Ele fez um sinal afirmativo com a cabea. -Do que vi gostei muito.
-Trabalhavas como paquete em Atenas? Disse que sim com a cabea.
-Para o senhor Demiris.-Houve uma nota de amargura na sua voz.
-No gostaste?
-Desculpe-me... no sou eu quem deve dizer, mas o senhor Demiris


no me parece boa pessoa. Eu... no gosto dele.-Ojovem olhou envolta
num relance como se algum o tivesse ouvido sem querer. Ele... no
importa, Catherine pensou que era melhor no perguntar mais.


-0 que  que te fez decidir vir para Londres, Atavas?


Atavas disse qualquer coisa to baixinho que Catherine no conseguiu
ouvi-lo.
-Como?
-Eu quero ser mdico. Ela olhou para ele, curiosa. -Mdico?
-Sim, senhora. Sei que parece uma parvoce.-Hesitou, depois


prosseguiu. -A minha famlia  de macednia e toda a minha vida ouvi
histrias sobre os turcos que entravam na nossa aldeia para matar e


#
torturar o nosso povo. No havia mdicos para ajudar os feridos.
Agora, a aldeia j no existe e a minha famlia foi exterminada. Mas
ainda h muitas pessoas feridas no mundo, Eu quero ajud-Ias. Baixou
os olhos, embaraado. -A senhora deve pensar que eu sou
maluco.

-No  disse Catherine num tom calmo.-Acho que isso  maravilhoso.
Ento tu vieste para Londres com o intuito de estudar medicina?

- verdade. Vou trabalhar de dia e estudar de noite. Vou ser mdico.

Havia um toque de determinao naquela voz. Catherine fez um sinal
afirmativo com a cabea.

-Acredito que sim.

-Havemos de falar mais sobre isso, ns os dois. Tenho um amigo que
te poder ajudar. E conheo um restaurante maravilhoso onde
poderemos almoar na semana que vem.

 meia-noite, uma bomba explodiu na villa de Spyros Lambrou. A
exploso destruiu a frente da casa e matou dois criados. 0 quarto de
Spyros Lambrou ficou destrudo, e ele sobreviveu simplesmente
porque  ltima hora ele e a mulher mudaram de planos e decidiram ir
a um jantar oferecido pelo presidente da Cmara de Atenas. Na manh
seguinte, chegou ao seu escritrio uma nota que dizia "Marte aos
capitalistas". Estava assinado. Partido Revolucionrio Helnico.

-Por que te fariam eles uma coisa deste gnero? -perguntou Melina
horrorizada.

-No foram eles -disse Spyros bruscamente. -Foi o Costa. -Tu... no
tens provas.

-No preciso de provas nenhuma. Ainda no percebeste com quem
ests casada?

-No sei o que pensar.

-Melina, enquanto esse homem for vivo, ns os dois estaremos em
perigo. Nada o deter.

-No podes ir  polcia?

-Tu prpria o disseste. No tenho provas. Eles iam rir-se na minha
cara. -Ele tomou as mos dela nas suas. -Quero que saias daqui. Por
favor. Vai para o lugar mais longe possvel.

Ela deixou-se ficar durante muito tempo. Quando por fim falou, foi

#
como se tivesse tomado uma deciso de grande importncia. -Muito
bem, Spyros. Farei o que devo fazer.

Ele abraou-a.

-timo. E no te preocupes. Arranjaremos um meio de impedi-lo.

Melina ficou no quarto durante a longa tarde, a sua mente tentando
aceitar o que estava a acontecer. Era verdade, o marido falara a srio
quando ameaara destru-la a ela e ao irmo. Ela no podia deixar que
ele concretizasse essa ameaa. E, se as suas vidas estavam em perigo,
tambm estava a vida de Catherine Douglas. "Ela vai trabalhar para
mim em Londres. Eu vou adverti-la", pensou Melina. "Mas preciso de
fazer mais do que isso. Preciso de destruir o Costa. Preciso de impedilo
que faa mal a outras pessoas. Mas como?" E foi ento que lhe
surgiu a resposta. "Claro!", pensou ela. "E a nica maneira. Porque 
que no pensei nisso antes?"

C: Desculpe o atraso, Alan. Houve uma reunio de ltima hora no
escritrio.
A: No h problema. A delegao de Atenas ainda est em Londres?
C: Est. Eles... esto a pensar partir no fim da semana que vem.
A: Voc parece aliviada. Eles tm sido difceis?
C: No propriamente difceis, s que tenho uma sensao estranha em
relao a eles.
A: Estranha?
C: difcilexplicar.Podeparecerparvoce,mas...halgodeesquisito em
todos eles.
A: Eles fizeram alguma coisa que...?
C: No. Apenas me deixam pouco  vontade. A noite passada, voltei a
ter o pesadelo.
A: Aquele sonho em que algum tentava afog-la?
C: Sim. No tinha esse sonho h uns tempos, E desta vez foi diferente.
ARQUIVO CONFIDENCIAL Transcrio da Sesso com Catherine
Douglas

A: De que maneira?
C: Era mais... real. E no terminou onde terminara antes.
A: Foi alm do momento em que algum tentava afog-la?
#
C: Sim. Estavam a tentar afogar-me e de repente eu estava num lugar
seguro.
A: No convento?
C: No tenho a certeza. Podia ter sido. Era um jardim. E apareceu um
homem para me ver. Acho que j sonhei com qualquer coisa assim
antes, mas s que desta vez eu pude ver-lhe o rosto.
A: Reconheceu-o?
C: Sim. Era o Constantin Demiris.
A: Portanto, no seu sonho...
C: Alan, no foi apenas um sonho. Foi uma recordao verdadeira. De
repente lembrei-me que o Constantin Demiris me deu o alfinete de
ouro que possuo.
A: Acredita que o seu subconsciente lhe trouxe  memria algo que
realmente aconteceu? Tem a certeza de que no era...
C: Eu conheo-o. 0 Constantin Demiris deu-me esse alfinete no
convento.
A: Disse que foi salva do lago por umas freiras que a recolheram no
convento?
C:  verdade.
A: Catherine, algum sabia que esteve no convento? C: No, acho
que no.
Ento como  que o Constantin Demiris podia ter sabido que estava
l? Eu... eu no sei. Apenas sei que isso aconteceu. Acordei
sobressaltada. Parecia que o sonho era uma espcie de aviso. Sinto que
algo de terrvel vai acontecer. Os pesadelos podem ter esse efeito em
ns. 0 pesadelo  um dos mais velhos inimigos do homem. A palavra
tem a sua origem no ingls mdio nitz, ou morte", e mare, ou
duende". Diz a velha superstio que o pesadelo prefere atacar depoisdas quatro da manh. Acha que no tm nenhum significado real? s
vezes tm. Coleridge escreveu: "Os sonhos no so sombras, mas as
prprias substncias e calamidades da minha vida." Provavelmente eu
estou a levar isto demasiado a srio. Tirando os meus sonhos
disparatados, sinto-me tima. H uma coisa que gostaria de falar
consigo, Alan. Sim? 0 nome dele  Atanas Stavich.  um rapaz ainda
novo que veio para Londres para estudar medicina. Tem tido uma vida
adversa. Pensei que um dia talvez pudesse v-lo e dar-lhe uns

#
conselhos. Ficaria muito feliz. Por que est a franzir o sobrolho?
Lembrei-me de uma coisa. De qu?  uma coisa maluca. 0 nosso
subconsciente no distingue entre maluco e so. No meu sonho,
quando o senhor Demiris me entregou o alfinete de ouro... Sim? Ouvi
uma voz dizer: "Ele vai matar-te." Tem de parecer um acidente. No
quero que ningum consiga identificar o corpo dela. Havia muitas
maneira de mat-la. Tinha de comear afazer os preparativos. Estava
deitado na cama a pensar neles e viu que estava com uma ereo. A
morte era o derradeiro orgasmo. Por fim, soube como iria faz-lo. Era
to simples. No haveria corpo para identificar. Constantin Demiris
ficaria satisfeito. A casa de praia de Constantin Demiris estava
localizada a cinco quilmetros a norte de Piraeus num alqueire de
terreno da zona do cais. Demiris chegou s sete da tarde. Parou na
entrada para a garagem, abriu a porta do carro e caminhou para a casa
de praia.

Assim que l chegou, a porta foi aberta por um homem que no
reconheceu.

-Boa noite, senhor Demiris.

L dentro, Demiris viu meia dzia de agentes da polcia. -0 que  que
se passa aqui? -perguntou Demiris.

-Sou o tenente de Polcia Theophilos. Eu...

Demiris afastou-o e entrou na sala de estar. Era uma carnificina. Era
bvio que acontecera uma luta terrvel. Mesas e cadeiras estavam de
pernas para o ar. Um dos vestidos de Melina estava cado no cho,
rasgado. Demiris apanhou e fitou-o.

-Onde  que est a minha mulher? Eu vinha encontrar-me com ela
aqui.

0 tenente de polcia disse:

-Ela no est aqui. Ns revistamos a casa e percorremos a praia por
todo o lado. Parece que a casa foi assaltada.

-Bem, onde  que est a Melina? Ela telefonou-Ihe? Esteve c? -Sim,
pensamos que ela esteve aqui. -Ele mostrou um relgio de mulher. O
vidro foi partido e os ponteiros pararam nas trs horas. -Este relgio 
da sua esposa?

-Parece que sim.

-Atrs h uma gravao: "Para Melina com amor, Costa." -Ento .

#
Foi um presente de aniversrio.
0 detetive Theophilos apontou para umas manchas no tapete. -Aquilo


so manchas de sangue, -Apanhou uma faca que estava no cho,
cauteloso para no tocar no cabo. A lmina estava coberta de sangue.
-J alguma vez viu esta faca?
Demiris olhou-a num breve relance.
-No. Est a querer dizer-me que ela morreu?
-Por certo  uma possibilidade. Encontramos gotas de sangue na areia


que vai at  gua.
-Meu Deus-disse Demiris.
-Para nossa sorte, h algumas impresses digitais ntidas na faca.
Demiris sentou-se pesadamente.
-Ento o senhor vai apanhar quem quer que o tenha feito.


-Certamente, se as impresses digitais estiverem no arquivo. H
impresses digitais por toda a casa. Temos de classific-las. Caso no
se importe de nos dar as suas impresses digitais, senhor Demiris,
podemos elimin-las j. Demiris hesitou. -Sim, claro.


Ali o sargento pode encarregar-se disso. Demiris caminhou at um
polcia fardado que tinha uma prancha de impresses digitais. -Queira
colocar aqui os seus dedos. -Pouco depois estava pronto. -0 senhor
compreende que se trata apenas de uma formalidade.


-Claro.


0 tenente Theophilos entregou a Demiris um pequeno carto
comercial.
-Sabe alguma coisa sobre isto, senhor Demiris?
Demiris olhou para o carto. Dizia o seguinte: "Agncia de Detetives


Katelanos-Investigaes Particulares" Devolveu o carto. , -No. Tem
algum significado?


-No sei. Estamos a verificar.
-Naturalmente que  meu desejo que os senhores faam tudo 0 que
puderem para encontrarem o responsvel. E informem-me se souberem
alguma coisa sobre a minha mulher.


0 tenente Theophilos olhou para ele e fez um sinal afirmativo com a
cabea.


#
-No se preocupe. No deixaremos de faz-lo.

"Melina. A rapariga de ouro, atraente, brilhante e divertida. Fora to
maravilhoso no incio. E depois ela matara o filho, e por isso nunca
poderia haver perdo... apenas a morte.

A chamada chegou ao meio-dia do dia seguinte. Constantin Demiris
estava a meio de uma conferncia quando a secretria tocou. -Peo
desculpa, senhor Demiris...

-Eu disse-lhe que no queria ser incomodado.

-Pois disse, mas um tal inspetor Lavanos est ao telefone. Diz que 
urgente. Quer que lhe diga para...?

-No. Vou atender. -Demiris virou-se para os homens que se sentavam
 volta da mesa da conferncia. -Desculpem-me por um momento. Pegou
no telefone. -Demiris.

Uma voz disse:

-Aqui  o inspetor Lavanos, senhor Demiris, da Esquadra Central.
Temos uma informao que pensamos poder interessar-lhe. Ser que
podia vir at aqui ao comando-geral da polcia?

-Tem notcias da minha mulher?

-Eu preferia no discutir o assunto ao telefone, se no se importa.

Demiris hesitou por um momento.

-Vou j para a. -Pousou o telefone e virou-se para os outros. -Surgiu
uma coisa urgente. Porque  que no vo para a sala de reunies e
discutem a minha proposta, que eu estarei de volta para lhes fazer
companhia ao almoo? Houve um murmrio geral de concordncia.
Cinco minutos depois, Demiris estava a caminho do comando-geral.
Havia meia dzia de homens  sua espera no gabinete do comissrio
da polcia. Demiris reconheceu os polcias que vira na casa de praia.
-... e este  o promotor pblico especial Delma.

Delma era um homem baixo e entroncado, com sobrancelhas
carregadas,uma face redonda e uns olhos cnicos.

-Que  que aconteceu? -Demiris perguntou. -H notcias da minha
mulher?

0 inspetor-chefe disse:

-Para ser totalmente franco, senhor Demiris, deparamos com coisas
que nos intrigam. Espervamos que o senhor nos pudesse ajudar.

#
-Infelizmente h muito pouco que eu possa fazer para os ajudar. Tudo
isto  to chocante...

-0 senhor tinha marcado um encontro com a sua esposa na casa de
praia por volta da uma hora de ontem  tarde?

-0 qu? No. A senhora Demiris telefonou-me e pediu-me para que
me encontrasse com ela l s sete horas.

0 promotor Delma disse num tom brando:

-Ora, essa  uma das coisas que nos est a intrigar. Uma criada sua
disse-nos que o senhor telefonou  sua mulher por volta das duas horas
e lhe pediu que fosse  casa de praia sozinha e esperasse por si.

Demiris franziu o sobrolho.

-Ela est a fazer confuso. A minha mulher  que me telefonou a
pedir-me que fosse ter com ela l s sete horas a noite passada.
-Entendo. Ento a criada enganou-se.

-Obviamente.

-Sabe que razo a sua esposa ter tido para lhe pedir que fosse  casa
de praia?

-Suponho que queria tentar convencer-me a desistir do divrcio. -0
senhor tinha dito  sua esposa que ia divorciar-se dela? -Tinha.

-A criada diz que ouviu uma conversa ao telefone durante a qual a
senhora Demiris lhe disse que ela  que ia divorciar-se de si. -Estoume
nas tintas para o que a criada disse. 0 senhor ter de crer na minha
palavra.

-Senhor Demiris, o senhor tem cales de banho na casa de praia?perguntou
o inspetor~hefe.

-Na casa de praia? No. Deixei de nadar no mar h anos. Uso a piscina
na casa da cidade.

0 inspetor-chefe abriu uma gaveta da secretria e tirou um par de
cales de banho que estavam dentro de um saco de plstico. Tirou-os
e segurou-os para que Demiris os visse.

-Estes cales so seus, senhor Demiris ? -Poderiam ser meus, acho
eu.

-Tm as suas iniciais.

-Sim. Parece que estou a reconhec-los. So meus.

#
-Encontramo-los no funda de um roupeiro na casa de praia. -E da
Provavelmente foram l deixados h muito tempo. Porque  que...?

-Ainda estavam molhados com gua salgada. A anlise revelou que a
gua  igual  que est em frente  sua casa de praia. As manchas
vermelhas so sangue.

0 gabinete estava a ficar muito quente. -Ento uma outra pessoa deve
t-los vestido-disse Demiris firmemente.

0 promotor especial disse:

-Por que razo iria algum fazer isso? Essa  uma das coisas que est a
incomodar-nos, senhor Demiris.

0 inspetor-chefe abriu um pequeno envelope que estava sobre a
secretria e tirou um boto dourado.

-Um dos meus homens achou isto debaixo de um tapete da casa de
praia. Reconhece-o?

-No.

- de um dos seus casacos. Tomamos a liberdade de mandar um
detetive a sua casa hoje de manh para verificar o seu guarda-fatos.
Faltava um boto num dos casacos. As linhas condizem perfeitamente.
E o casaco chegou da lavanderia h exatamente uma semana. -Eu
no.,.

-Senhor Demiris, o senhor afirmou ter dito  sua mulher que
queria,divorciar-se e que ela estava a tentar dissuadi-lo?

-E correto.

O inspetor ergueu o carto comercial que fora mostrado a Demiris na
casa de praia na vspera.

-Um dos nossos homens visitou hoje a Agncia de Detetives
Katelanos.

-Eu j disse aos senhores que nunca ouvi falar deles. -A sua esposa
contratou-os para que a protegessem. A notcia surgiu como um
choque.

-Melina? Proteg-la de qu?

-De si. De acordo com o proprietrio da agncia, a sua mulher vinha
ameaando com um pedido de divrcio, e o senhor disse que, se ela
levasse a idia por diante, a mataria. Ele perguntou-lhe por que razo
no pedia ela proteo  polcia, e ela disse que queria manter o

#
assunto em privado. No queria publicidade.

Demiris ps-se de p.

-No vou ficar aqui a ouvir essas mentiras. No h...

0 inspetor meteu a mo numa gaveta e tirou a faca manchada de
sangue que fora encontrada na casa de praia.

-0 senhor disse ao agente na casa de praia que nunca tinha visto esta
faca?

- verdade.

-As suas impresses digitais esto nesta faca. Demiris olhava
fixamente para a faca.

-As minhas.., as minhas impresses digitais? Deve haver engano, Isso
 impossvel!

A sua mente galopava. Analisava velozmente as provas que se
amontoavam contra si: a criada afirmando que telefonara  mulher s
duas horas para lhe dizer que fosse ter com ele  casa de praia
sozinha... um par de cales de banho com manchas de sangue... um
boto rasgado do bluso... uma faca com as suas impresses digitais...

-No esto a ver, seus idiotas?  uma trama-gritou ele. -Algum levou
esses cales de banho para a casa de praia, derramou um pouco de
sangue sobre eles e sobre a faca, puxou um boto do meu casaco, e... 0
promotor especial interrompeu.

-Senhor Demiris, pode explicar como  que as suas impresses digitais
foram parar a esta faca?

-Eu... no sei... Espere a. Pois. J me lembro. A Melina pediu-me que
eu lhe abrisse um pacote. Deve ser essa faca que ela me deu. Por isso
as minhas impresses esto a.

-Entendo. 0 que  que havia no pacote? -Eu... no sei.

-No sabe o que havia no pacote?

-No. S cortei o fio. Ela nunca chegou a abri-lo.

-Pode explicar as manchas de sangue no tapete, ou na areia a caminho
da praia, ou...?

-bvio. -Respondeu Demiris. -Tudo o que a Melina teve de fazer foi
fazer um pequeno golpe e depois caminhar na direo da gua, para
que se pensasse que eu a assassinei. Ela est a tentar vingar-se de mim

#
porque eu disse-lhe que ia me divorciar dela. Neste preciso momento,
ela est escondida algures a rir-se porque pensa que o senhor me vai
prender. A Melina est to viva quanto eu. 0 procurador especial disse
num tom grave:

-Oxal isso fosse verdade. Retiramos o seu corpo do mar esta manh.
Ela foi apunhalada e afogada. 0 senhor vai ficar sob priso, senhor
Demiris, pela morte da sua mulher. percebeste? Acabou. No quero
mais nada contigo. Sai daqui, metes-me nojo. Melina ficou a olhar
para ele. Por fim disse num tom calmo: -Muito bem. Faz o que
quiseres. -Virou-se e deixou o escritrio com a faca na mo.

-Esqueceste-te do embrulho-gritou Demiris. Ela j tinha sado.

Melina entrou no quarto de vestir do marido e abriu a porta do
roupeiro. Havia uma centena de fatos pendurados no roupeiro com
uma parte reservada a casacos desportivos. Agarrou num dos casacos e
arrancou um boto dourado. Meteu o boto no bolso dela. A seguir
abriu uma gaveta e tirou uns cales de banho do marido com as suas
iniciais. "Estou quase pronta", pensou Melina. A Agncia de Detetives
Katelanos ficava localizada numa esquina da Rua Sofokleous num
velho edifcio de tijolo desbotado. Melina foi conduzida ao gabinete
do proprietrio da agncia, o senhor Katelanos, um homenzinho careca
com um bigode fino.

-Bom dia, senhora Demiris. Posso ajud-la? -Preciso de proteo.

-Que espcie de proteo? -Do meu marido.

Katelanos franziu o sobrolho. Cheirava-lhe a esturro. No era de modo
algum o caso que ele antecipara. Seria muito imprudente fazer algo
que pudesse ofender um homem to poderoso como Constantin
Demiris.

-J pensou em ir  polcia? -perguntou ele.

-No posso. No quero publicidade de qualquer espcie.

-Quero manter isto privado. Eu disse ao meu marido que queria
divorciar-me dele, e ele ameaou matar-me se eu fosse por diante. Por
isso vim procur-lo.

-Compreendo. 0 que  que deseja exatamente que eu faa? -Quero
que contrate uns homens para me protegerem. Katelanos ps-se a
estud-la. " uma mulher bonita", pensou.,

"Obviamente neurtica." Era inconcebvel que o marido lhe pudesse

#
fazer mal. Tratava-se provavelmente de um pequeno arrufo domstico
que passaria dentro de poucos dias. Mas, entretanto, poderia cobrar.
No comeo, Melina no fizera idia de como iria executar o plano.
Apenas sabia que o marido tencionava destruir o irmo, e ela no
podia permitir que isso acontecesse. De alguma forma, Costa tinha de
ser detido. A vida dela j no tinha importncia. Os seus dias e as suas
noites estavam cheios de dor e humilhao. Lembrava-se de como
Spyros tentara preveni-la contra o casamento. "Tu no te podes casar
com o Demiris. Ele  um monstro. Ele vai destruir-te". Como ele
estava certo. E ela estava demasiado apaixonada para prestar ateno.
Agora o marido tinha de ser destrudo. Mas como? "Pensa como o
Costa." E foi o que ela fizera. Pela manh, Melina preparara todos os
pormenores. Feito isso, o resto fora simples. Constantin Demiris estava
no escritrio de casa a trabalhar quando Melina entrou. Trazia um
embrulho ando com um barbante grosso. Tinha uma faca enorme na
mo.

-Costa, importavas-te de me abrir isto? Acho que no consigo. Ele
ergueu o olhar e disse impacientemente

-Claro que no podes. No sabes que no se deve segurar uma faca
pela lmina? -Ele arrancou-lhe a faca e comeou a cortar o barbante.

-No podias ter pedido a um criado que fizesse isso? Melina no
respondeu.

Demiris acabou de cortar o barbante.

-Pronto! -Ele pousou a faca e Melina apanhou-a cuidadosamente pela
lmina.

Ela olhou para ele e disse:

-Costa, ns no podemos continuar assim. Eu ainda te amo. Tu ainda
deves sentir alguma coisa por mim. Lembras-te dos tempos
maravilhosos que passamos juntos? Lembras-te da noite da nossa luade-
mel quando...?

-Pelo amor de Deus-disse Demiris bruscamente.--lhe uns bons
honorrios. Feitas as contas, Katelanos decidiu que valia a pena o
risco.

-Muito bem -disse ele. -Tenho um homem de confiana a quem
posso entregar o seu caso. Quando deseja que ele comece? -Na
segunda-feira.

#
Portanto ele estava certo. No havia urgncia. Melina Demiris ps-se
de p.

-Depois telefono-lhe. Tem um carto da firma? -Naturalmente que sim.
-Katelanos entregou-lhe o carto da firma e conduziu-a at ao exterior.
" uma boa cliente", pensou. "0 nome dela vai impressionar os outros
clientes." Quando Melina voltou para casa, telefonou ao irmo:

-Spyros, tenho uma boa notcia. - A sua voz estava cheia de excitao.
-0 Costa quer uma trgua.
-0 qu? Eu no confio nele, Melina. Deve ser algum truque. Ele...
-No.  a srio. Ele acha que  uma estupidez vocs os dais andarem
sempre a brigar. Ele quer ter paz na familia.


Houve um silncio. -No sei.


-D-lhe pelo menos uma oportunidade. Ele quer encontrar-se contigo
no teu pavilho de caa de Acrocorinto hoje  tarde s trs horas.
-Mas isso so trs horas de carro. Porque  que no podemos


encontrar-nos na cidade?
-Ele no disse-adiantou-lhe Melina-mas se vai ser por motivo de paz...
-Est bem. Eu vou. Mas fao-o por ti. -Por ns-disse Melina. -Adeus,


Spyros. -Adeus.


Melina telefonou a Constantin para o escritrio. A voz dele foi
abrupta.
-0 que ? Estou ocupado.
-Acabei de receber um telefonema do Spyros. Ele quer fazer as pazes


contigo.
Houve um riso breve e desdenhoso.
-Aposto que sim. Quando eu tiver acabado com ele, ele vai ter a paz


que sempre desejou...


-Ele disse que no vai competir mais contigo, Costa. -Ele est
disposto a vender-te a frota dele.
-Vender-me a... Tens a certeza? -A voz dele ficou de repente cheia de


interesse.
-Tenho. Ele disse que j est farto.
-Muito bem. Ele que mande os contabilistas dele ao meu gabinete, e...


#
-No . Ele quer encontrar-se contigo esta tarde s trs horas em
Acrocorinto.

-No pavilho de caa dele?

-Sim. E um lugar retirado, Sero s vocs os dois. Ele quer sigilo
absoluto sobre o assunto.

"Aposto que quer>, pensou Demiris com satisfao. "Quando se
souber, ele vai ser motivo de riso." -Est bem-disse Demiris.-Podes
dizer-lhe que eul estarei. A viagem para Acrocorinto era longa, com
estradas cheias de curvas que serpenteavam por entre o pavilho de
caa luxuriante, flagrante com os odores das vinhas, dos limes e do
feno. Spyros Lambrou passou por antigas runas ao longo do caminho.
Na distncia, viu os pilares cados do Elefsis, os altares em runas de
deuses menores. Pensou em Demiris. Lambrou foi o primeiro a chegar
ao pavilho de caa. Estacionou  frente da cabana e ficou sentado
dentro do automvel por um momento, a pensar no encontro que ia ter.
Constantin queria mesmo uma trgua, ou era mais um dos seus
truques? Se lhe acontecesse alguma coisa, pelo menos Melina sabia
aonde ele tinha ido. Spyros saiu do carro e entrou na casa deserta.

0 pavilho de caa era um velho e belo edifcio de madeira com vista
sobre Corinto que se erguia em baixo. Quando era rapaz, Spyros
Lambrou passara fins-de-semana com o pai ali, atrs de caa pequena
nas montanhas. Agora a caa era maior. Quinze minutos depois,
chegou Constantin Demiris. Viu Spyros l dentro,  espera, o que lhe
deu uma satisfao intensa. "Portanto, depois de todos estes anos, o
homem est finalmente disposto a admitir que foi derrotado." Saiu do
carro e entrou na cabana. Os dois homens fitaram-se mutuamente.

-Bem, meu caro cunhado-disse Demiris-,chegamos ento ao fim da
estrada.

-Eu quero que esta loucura tenha um fim, Costa. Foi longe de mais.

-No podia concordar mais contigo. Quantos navios  que tens,
Spyros?

Lambrou olhou para ele surpreendido. -0 qu?

-Quantos navios  que tu tens? Compro~s todos. Com um desconto
substancial, naturalmente.

Lambrou no podia acreditar no que ouvia. -Comprares-me os meus
navios?

#
-Estou disposto a compr-los todos. Far de mim dono da maior frota
do mundo.

-Ests maluco? 0 que  que... que te faz pensar que eu quero vender os
meus navios?

Foi a vez de Demiris reagir.

- por isso que estamos aqui, no ?

-Estamos aqui porque tu pediste uma trgua. A face de Demiris
escureceu.

-Eu.., quem  que te disse isso? -Foi a Melina.

A verdade revelou-se-lhes no mesmo momento. -Ela disse-te que eu
queria uma trgua?

-Ela disse-te que eu queria vender-te os meus navios?

-Estpida de merda-exclamou Demiris. -Suponho que ela pensou que
pelo fato de nos reunirmos poderamos chegar a uma espcie de
acordo. Ainda  mais idiota do que tu, Lambrou. Perdi uma tarde par
causa de ti.

Constantin Demiris voltou-se e saiu furioso porta fora. Spyros
Lambrou olhou para ele, a pensar: "A Melina no nos devia ter
mentido. Ela devia saber que eu e o marido dela nunca haveremos dereconciliar-nos. No  agora.  demasiado tarde. Foi sempre tarde de
mais "

s duas horas dessa tarde, Melina chamou a criada. - Andrea, importa-
se de me trazer um pouco de ch?

-No , minha senhora. -A criada saiu do quarto e, quando voltou com
a bandeja do ch dez minutos depois, a patroa falava ao telefone. 0
tom era zangado.

-No, Costa, j decidi. Tenciono divorciar-me de ti, e vou fazer o
maior escndalo pblico que eu puder.

-Embaraada, Andra colocou a bandeja e dirigiu-se para a porta.
Melina fez-lhe sinal para que ficasse.

Melina falava para o telefone desligado.

-Podes fazer-me todas as ameaas. Eu no vou mudar de idias...
Nunca... Pouco me rala o que ests para a a dizer... Tu no me metes
medo, Costa... No ... De que  que adiantava?... Est bem. Vou ter
contigo  casa de praia, mas no vai servir de nada. Est bem, vou

#
sozinha. Dentro de uma hora. Est muito bem.

Lentamente, Melina pousou o telefone, com um olhar preocupado no
rosto. Virou-se para Andrea.

-Vou  casa de praia para me encontrar com o meu marido. Se eu no
tiver voltado at s seis horas, quero que chame a polcia. Andrea
engoliu nervosamente.

-A senhora deseja que o motorista a leve?

-No. 0 senhor Demiris pediu-me para eu ir sozinha. -Sim, senhora.

Havia mais uma coisa a fazer. A vida de Catherine Alexander estava
em perigo. Tinha de ser avisada. Era algum da delegao que jantara
em casa. "No vais voltar a v-la. Mandei uma pessoa dar-lhe um fim."
Melina pediu uma chamada para os escritrios do marido em Londres.

-H uma pessoa de nome Catherine Alexander que trabalha a~? -Ela
no se encontra de momento. Pode ser com outra pessoa? Melina
hesitou. 0 recado era urgente de mais para confiar noutra pessoa, mas
no teria tempo de voltar a ligar.

Lembrou-se de Costa ter mencionado o nome de Wim Vandeen, um
gnio no escritrio.

-Poderia falar com o senhor Vandeen? -S um momento.

Uma voz de homem surgiu na linha. -Estou.

Ela quase no o percebia.

-Tenho um recado para a Catherine Alexander.  muito importante.
Importa-se de lho transmitir?

- Catherine Alexander.

-Sim. Diga-lhe... diga-lhe que a vida dela corre perigo, Algum vai
tentar mofa-la. Acho que poder ser um dos homens que foi de Atenas.

-Atenas... -Sim.

Atenas tem uma populao de oitocentas e sessenta mil... Pareceu a
Melina que o homem no a entendeu. Desligou o telefone. Fizera o
melhor que pudera. Wim ficou  secretria, digerindo a chamada
telefnica. "Algum vai tentar matar a Catherine. Cento e catorze
mortes foram cometidas na Inglaterra este ano, a Catherine ser a
nmero cento e quinze. Um dos homens que veio de Atenas. Jerry
Haley,Yves Renard, Dino Mattusi. Um deles vai matar a Catherine." A
mente de computador de Wim logo se encheu com dados sobre os trs

#
homens. "Acho que sei qual ." Quando Catherine regressou mais
tarde, Wim no lhe disse nada sobre o telefonema. Ele tinha
curiosidade em saber se estava certo. Catherine saa com um membro
diferente da delegao todas as noites, e quando vinha trabalhar todas
as manhs Wim estava l,  espera. Ele parecia desapontado em v-la.
"Quando  que ela ia permitir que ele o fizesse?" Wim interrogou-se.
"Talvez devesse inform-la sobre o recado. Mas isso seria fazer batota.
No seria justo alterar as apostas Aviagem para a casa de praia levou
uma hora de tempo real e vinte anos de memrias. Havia tanto para
Melina refletir, tanto para recordar. Costa, jovem e bonito, dizendo,
"Claro que voc foi enviada dos cus para nos mostrar o que  a
beleza. Voc est alm do galanteio. Nada do que eu pudesse dizer lhe
faria justia..." Os cruzeiros maravilhosos no iate e as frias idlicas em
Psara... Os dias dos amorosos presentes-surpresa e as noites de amor
selvagem. E depois o aborto, a srie de amantes e o caso com Noelle
Page. E os espancamentos e as humilhaes pblicas. "Monnaree mou!
Tu no tens uma razo para viver", dissera-lhe ele. "Porque  que no
te matas?" E, por fim, a ameaa para destruir Spyros. Isso foi o que, no
fim, Melina no conseguiu suportar. Quando Melina chegou  casa de
praia, estava deserta. 0 cu estava nublado, e havia um vento
desagradvel que soprava dos mares. "Um pressgio", pensou ela.
Entrou na casa confortvel e amistosa e percorreu o olhar pela ltima
vez. Depois comeou a virar a moblia e a partir os candeeiros. Rasgou

o vestido e deixou-o cair no cho, Tirou o carto da agncia de
detetives e colocou-o na mesa. Levantou o tapete e ps o boto sob o
mesmo. A seguir tirou o relgio de ouro que Costa lhe dera e
esmagou-o contra a mesa, Apanhou os cales de banho do marido
que trouxera de casa e levou-os  praia. Molhou-os na gua e voltou a
entrar na casa. Finalmente, s faltava fazer uma coisa. "Chegou a
hora", pensou ela. Respirou fundo e lentamente apanhou a faca e
desembrulhou-a, tomando cuidado para no deslocar o papel que
cobria o cabo. Melina segurou-a, fitando-a. Era a parte crucial. Tinha
de e esfaquear-se com fora suficiente para parecer homicdio, e ao
mesmo tempo ter energia bastante para levar por diante o resto do
plano. Fechou os olhos e espetou a faca bem fundo no seu corpo. A
dor foi cruciante. 0 sangue comeou a jorrar. Melina segurava os
cales de banho a seu lado, e quando ficaram cobertos de sangue ela
dirigiu-se a um roupeiro e atirou-os l para dentro. Comea va a sentir-
se tonta. Olhou em volta para ter a certeza de que no se esquecera de
nada, depois foi a tropear at  porta que dava para a praia, o sangue
#
manchando a alcatifa com um vermelho brilhante. Caminhou na
direo do oceano. 0 sangue saa agora mais rpido, e ela pensou,
"No vou conseguir." 0 Costa vai ganhar. No posso deixar que isso
acontea. A caminhada at ao mar parecia nunca mais acabar. "Mais
um passo", pensou. "S mais um passo." Ela continuava a andar,
combatendo a tontura que tomava conta de si. A viso comeou a
enevoar -se. Caiu de joelhos. No posso parar agora. Ergueu-se e
continuou a andar at que sentiu a gua fria bater-lhe nos ps. Quando
a gua salgada lhe tocou no ferimento, deu um grito alto por causa da
dor insuportvel. "Fao isto pelo Spyros", pensou ela. "Querido
Spyros." Ao longe, viu uma nuvem baixa que pairava sobre o
horizonte. Comeou a nadar na sua direo, deixando um rasto de
sangue. E aconteceu um milagre. A nuvem desceu sobre ela, e ela
sentiu a sua maciez branca envolv-la, banh-la, acarici-la. A dor
desaparecera, e ela sentiu uma paz maravilhosa apoderar-se de si.
"Vou para casa", pensou Melina feliz. "Vou finalmente para casa."

-Vou prend-lo pela morte da sua esposa.

Depois disso, tudo parecia acontecer em movimento lento. Preencheu
a ficha, e tiraram-lhe as impresses digitais de novo. Foi fotografado e
colocado numa cela. Era inacreditvel que ousassem fazer-lhe isto a
ele.

-Mande-me chamar Pete Demonides. Diga-lhe que quero falar com ele
agora mesmo.

-0 senhor Demonides foi suspenso das suas funes. Est sob
investigao.

De modo que no havia a quem socorrer. "Eu vou-me safar disto",
pensou. "Eu sou Constantin Demiris."

Mandou chamar o promotor especial. Delma chegou  priso uma hora
mais tarde, -Pediu para falar comigo,

-Pedi, sim -disse Demiris. -Sei que fixou a hora da morte da minha
mulher s trs horas.

- correto.

-Ento, antes que o senhor se meta a si e  polcia em mais sarilhos,
posso provar-lhe que no estive em lugar nenhum perto da casa d
praia ontem a essa hora.

-Pode provar isso?

#
-Claro. Tenho uma testemunha.


Eles estavam sentados no gabinete do comissrio de polcia quando
Spyros Lambrou chegou. 0 rosto de Demiris iluminou-se quando o viu.
-Spyros, graas a Deus que chegaste! Estes idiotas pensam que eu


matei a Melina, Tu sabes que eu no o poderia ter feito. Diz-lhes.
-Spyros Lambrou franziu o sobrolho,


-Digo-lhes o qu?
-A Melina foi morta ontem s trs da tarde. Ns estvamos juntos em
Acrocorinto s trs horas. Eu no podia ter chegado  casa de praia
antes das sete. Conta-lhes o nosso encontro, Spyros Lambrou olhava-o
fixamente. -Que encontro?


0 sangue comeou a esgotar-se do rosto de Demiris,


-0... o encontro que tu e eu tivemos ontem. No pavilho de caa em
Acrocorinto.
-Deves estar a fazer confuso, Costa. Eu ontem estive fora sozinho.


No vou mentir por tua causa.
0 rosto de Constantin Demiris encheu-se de raiva.
-Tu no podes fazer isto! -Ele agarrou as bandas do casaco de


Lambrou. -Diz-lhes a verdade.
Spyros Lambrou empurrou-o.
-A verdade  que a minha irm est morta, e foste tu que a mataste.
-Mentiroso! -gritou Demiris -Mentiroso! -Ele avanou na direo de


Lambrou de novo e dois polcias tiveram de det-lo. -Seu filho da


puta. Sabes que estou inocente.
-Isso quem vai decidir so os juzes. Acho que vais precisar de um
bom advogado.


E Constantin Demiris apercebeu-se de que s havia um homem que


poderia t-lo salvo : Napoleon Chotas.
ARQLIVO COSF[DENCIAL Transcrio da Sesso com Catherine
Dotcglas


C: Acredita em premonies, Alan?
A: Elas no so cientificamente aceites, mas eu de fato acredito. Tem
tido premonies?
C: Tenho. Tenho a sensao de que algo de terrvel me vai acontecer.
#
A: Faz parte do seu velho sonho?
C: No. Eu disse-lhe que o senhor Demiris enviou uns homens de
Atenas...
A:  verdade.
C: Ele pediu-me que tratasse deles, de forma que os tenho visto com
alguma frequncia.
A: Sente-se ameaada por eles?
C: No. No exatamente.  difcil de explicar. Eles no fizeram nada,
e no entanto eu ... estou sempre  espera que alguma coisa acontea.
A: Fale-me deles.
C: H um francs, o Yves Renard. Insiste em irmos a museus, mas
quando l chegamos verifico que ele no est interessado, Pediu-me
que o levasse a Stonehenge sbado que vem.
H o Jerry Haley.  americano. Parece bastante agradvel, mas h nele
algo de perturbador. Depois h o Dino Mattusi. Vem creditado como
executivo da firma do senhor Demiris, mas faz muitas perguntas para
as quais ele devia ter a resposta. Convidou-me para um passeio de
carro. Pensei em levar o Wim comigo... E isto agora  outra coisa.

?

0 Wim tem agido com estranheza. Em que sentido? Quando chego ao
escritrio de manh, o Wim est sempre  minha espera, coisa que
nunca costumava fazer. E quando me v quase como se estivesse
zangado por eu estar ali. Nada disto faz sentido, pois no? chegada dos
estranhos de Atenas, e Atenas era a cena do passado traumtico. A
parte sobre Wim intrigou Alan. Estaria Catherine a imagin-la? Ou
estava Wirn a comportar-se de uma forma atpica? "Vou ver o Wim
dentro de algumas semanas", pensou Alan. "Talvez eu antecipe a
consulta dele." Alan ficou a pensar em Catherine. Embora tivesse
estabelecido que nunca se deixaria envolver emocionalmente com as
suas doentes, Catherine era uma pessoa especial. Era bela e vulnervel
e..."Que estou eu a fazer? No posso permitir-me pensar assim. Vou
concentrar-me noutra coisa." Mas os seus pensamentos voltavam
sempre para ela.

A: Tudo faz sentido quando tiver a soluo, Catherine. Tem tido
mais sonhos?
C: Sonhei com Constantin Demiris.  muito vago.
#
A: Conte-me o que se lembra.
C: Perguntei-lhe por que razo era to amvel comigo, por que razo
me ofereceu o emprego em Londres e um lugar para morar. E por que
razo me deu o alfinete de ouro.
A: E o que  que ele disse?
C: No me lembro. Acordei aos gritos.
0 doutor Alan Hamilton estudou a transcrio cuidadosamente, 
procura dos vestgios inobservados do subconsciente, em busca de
uma pista que explicasse o que perturbava Catherine. Ele estava
razoavelmente certo de que a apreenso dela se relacionava com a
Catherine no conseguia afastar Alan Hamilton da idia. "No sejas
idiota", disse Catherine a si prpria. "Ele  um homem casado. Todas
as pacientes se sentem assim em relao ao seu analista." Mas nada do
que Catherine dizia a si prpria ajudava. "Talvez eu deva consultar um
analista por causa do meu analista: ~ Ela ia voltar a ver Alan dentro de
dois dias. "Talvez eu deva cancelar a consulta" pensou Catherine,
"antes que me envolva muito mais. Tarde de mais." na manh em que
tinha a consulta com Alan, Catherine vestiu-se muito cuidadosamente
foi ao salo de beleza. "J que no vou voltar a v-lo depois de hoje",
raciocinou Catherine, "no h mal em apresentar-me bonita: No
momento em que entrou no gabinete dele, a sua resoluo dissipou-se.
"Por que tem ele de ser to atraente? Porque  que no nos
conhecemos antes de ele se casar? Porque  que ele no me conheceu
quando eu era um ser normal e so? Por outro lado, se eu fosse um ser
humano so e normal, nunca o teria procurado, pois no?"

-Perdo?

Catherine apercebeu-se de que falara em voz alta. Agora era altura de
lhe dizer que esta era a ltima consulta.

Respirou fundo.

-Alan..,-E a sua determinao quebrou-se. Olhou para a fotografia que
estava sobre a mesa. -H quanto tempo  casado?

-Casado?-Ele seguiu o relance de Catherine.-Oh, Essa  a minha irm
e o filho.

Catherine sentiu uma vaga de alegria invadi-la.

-Oh, isso  maravilhoso! Quero dizer, ela... tem um aspeto
maravilhoso.

#
-Voc est bem, Catherine ?

Kirk Reynolds passara a vida a perguntar-lhe o mesmo. "Eu naquela
altura no estava bem", pensou Catherine, "mas agora estou." -Estou
tima-disse Catherine.-Voc no  casado?

-No.

"Quer jantar comigo? Quer levar-me para a cama? Quer casar
comigo?" Se ela dissesse alguma destas coisas em voz alta ento  que
ele iria pensar que ela estava maluca. "Talvez esteja." Ele observava-a,
com o sobrolho franzido.

-Catherine, infelizmente no vamos poder continuar com estas sesses.
Hoje ser a ltima.

0 corao de Catherine desfaleceu. -Porqu? Eu fiz alguma coisa
que...?

-No... no  por sua causa. Numa relao profissional deste tipo, 
imprprio que um mdico se envolva emocionalmente com uma
doente.

Ela tinha agora o olhar fixado nele, os olhos brilhantes. -Est-me a
dizer que se deixou envolver emocionalmente por mim?

-Estou. E por causa disso receio...

-Tem toda a razo-disse Catherine feliz.-Vamos falar disso hoje 
noite ao jantar.

Jantaram num restaurantezinho italiano no centro de Soho. A comida
podia ter sido excelente ou pssima, que eles no deram por nada.
Estavam totalmente absorvidos um pelo outro.

-No  justo-disse Catherine. -Voc sabe tudo a meu respeito. Fale-me
de si. Nunca se casou?

-No, Estive quase para casar. -Que aconteceu?

-Foi durante a guerra. Vivamos num pequeno apartamento. Foi
durante os dias da blitz. Eu trabalhava no hospital e quando cheguei a
casa uma noite...

Catherine pde ouvir a mgoa na sua voz.

-... o prdio tinha desaparecido. No tinha sobrado nada. Ela envolveu-
lhe a mo.

-Sinto muito.

#
-Levei muito tempo a ultrapassar o que aconteceu.

-Nunca conheci ningum com quem me quisesse casar. -E os seus
olhos disseram, "at agora".

Ficaram sentados durante quatro horas, falando sobre tudo -teatro,
medicina, a situao do mundo; mas a verdadeira conversa no era
falada. Era a eletricidade que ia crescendo entre eles. Podiam ambos
senti-la. Havia uma tenso sexual entre eles que os esmagava.

Finalmente, Alan falou no assunto.

-Catherine, o que eu disse hoje de manh acerca da relao mdico-
paciente...

-Fala-me disso no teu apartamento.

Despiram-se juntos, rpida e ansiosamente, e enquanto Catherine
tirava a roupa pensou no que sentira quando esteve com Kirk
Reynolds e como era diferente agora. "A diferena  estar-se
apaixonada~, pensou Catherine. "Estou apaixonada por este homem N

Deitou-se na cama  espera dele, e, quando ele chegou e a tomou nos
braos, todas as preocupaes, todos os receios de nunca poder
relacionar-se com um homem desapareceram. Acariciaram o corpo um
do outro, explorando, primeiro com meiguice, depois ferozmente, at
que a necessidade de ambos se tornou incontrolvel e desesperada, e
eles uniram-se, e Catherine gritou em voz alta com total felicidade.
"Sou de novo inteira", pensou. "Obrigada!" Permaneceram ali,
exaustos, e Catherine manteve Alan envolto nos seus braos,
desejando nunca mais larg-lo. Quando conseguiu voltar a falar, disse
com uma voz trmula. -0 senhor sabe como tratar uma doente, doutor.
Catherine soube pelos jornais da priso de Constantin Demiris pelo
homicdio da mulher. Constituiu um choque muito grande. Quando
chegou ao escritrio, havia uma nuvem sobre todas as coisas.

-J sabes das notcias? -lastimou-se Evelyn. -Que vamos fazer?

-Vamos continuar exatamente como ele queria que o fizssemos.
Tenho a certeza de que  tudo um grande equvoco. Vou tentar
telefonar-lhe.

Mas Constantin Demiris estava fora de alcance, Constantin Demiris
era o prisioneiro mais importante que a Priso Central de Atenas j
alguma vez albergara. 0 promotor dera ordens para que Demiris no
recebesse tratamento especial. Demiris exigira um nmero de coisas:

#
acesso a telefones, telex e servio de correio. As suas exigncias foram
negadas. Demiris passava a maior parte das horas em que estava
acordado, e muitas quando sonhava, a tentar descobrir quem matara
Melina. No incio, Demiris assumira que um ladro fora surpreendido
por Melina enquanto saqueava a casa de praia e a matara, Mas no
momento em que a polcia o confrontara com as provas contra ele
Demiris compreendera que estava a ser tramado. A pergunta era: por
quem? A pessoa lgica era Spyros Lambrou, mas a fraqueza dessa
teoria era que Lambrou amava a irm mais do que qualquer outra
pessoa no mundo. Ele nunca lhe teria feito mal. A suspeita de Demiris
virara-se ento para o bando com quem Tony Rizzoli se havia
envolvido. Talvez tivessem sabido do que ele fizera a Rizzoli e esta
era a forma de se vingarem. Constantin Demiris afastara essa ideia de
imediato, Se a mafia quisesse vingana, teria simplesmente contratado
um pistoleiro para mat-lo. E assim sentado sozinho na sua cela,
Demiris matutara longa mente, tentando arranjar uma soluo para o
enigmado que acontecera. No fim, quando esgotara todas as
possibilidades, s havia uma concluso: Melina suicidara-se. Matara-
se e tramara-o com a morte dela, Demiris pensou no que tinha feito a
Noelle Page e a Larry Douglas, e a ironia amarga era de que ele agora
estava exatamente na mesma posio em que eles estiveram! Ia ser
julgado por um homicdio que no cometera. 0 carcereiro estava 
porta da cela. -0 seu advogado veio v-lo. Demiris ps-se de p e
seguiu o carcereiro at uma pequena sala de reunies. 0 advogado
aguardava-o. 0 nome do homem era Vassiliki. Estava na casa dos
cinqenta, tinha o cabelo grisalho e basto e o perfil duma estrela de
cinema. Tinha a fama de ser um advogado criminal de primeira
qualidade. Isso seria suficiente?

0 carcereiro disse:

-Tm quinze minutos. -Deixou os dois sozinhos. -Bem-perguntou
Demiris.-Quando  que me vai tirar daqui para fora? Para que  que
lhe estou a pagar?

-Senhor Demiris, receio que no seja assim to simples. 0 promotor
principal recusa-se...

-O promotor principal  um palerma. Eles no me podem manter aqui
dentro. E se pagarmos cauo? Eu pago o que eles pedirem. Vassiliki
lambeu os lbios nervosamente.

-A cauo foi negada. Estive a analisar as provas que a polcia tem

#
contra si, senhor Demiris. So... so bastante prejudiciais. -Prejudiciais
ou no... eu no matei a Melina. Estou inocente! 0 advogado engoliu.

-Sim, claro, claro. Tem.., tem alguma idia de quem possa ter morto a
sua mulher?

-Ningum. A minha mulher suicidou-se. 0 advogado fitou-o.

-Desculpe-me, senhor Demiris, mas no me parece que isso v
constituir uma boa defesa. Vai ter que pensar em algo melhor do que
isso.

E, com um corao desfalecido, Demiris sabia que estava certo. No
havia jri no mundo que fosse acreditar na sua histria.

Logo pela manh do dia seguinte, o advogado veio ver Demiris de
novo.

-Infelizmente tenho ms notcias.

Demiris quase riu em voz alta. Estava numa priso enfrentando uma
sentena de morte, e este idiota estava a dizer-lhe que tivera ms
notcias. Que coisa podia ser pior que a situao em que se
encontrava?

-Sim?

- sobre o seu cunhado.

-0 Spyros? 0 que  que h com ele?

-Tenho informao de que ele foi  polcia dizer que uma mulher de
nome Catherine Douglas ainda se encontra "va. Eu no estou
realmente a par do julgamento de Noelle Page e Lorry Douglas, mas...
Constantin Demiris j no escutava. Com toda opresso do que estava
a acontecer-lhe, esquecera-se totalmente de Catherine. Se a
encontrassem e ela falasse, poderiam implic-lo nas mortes de Noelle e
Lorry. Ele j mandara algum a Londres para tratar dela, mas agora o
caso tornara-se repentinamente urgente. Inclinou-se para a frente e
agarrou o brao do advogado.

-Quero que mande uma mensagem para Londres imediatamente.

Leu a mensagem duas vezes e sentiu os indcios de uma excitao
sexual que sempre o atingiam antes de concretizar um contrato para
matar. Era como fazer o papel de Deus. Ele decidia quem vivia e quem
morria. Estava espantado com o poder que possua. Se tivesse de fazer
isto imediatamente, no haveria tempo para elaborar o outro plano,

#
Teria de improvisar alguma coisa. Simular um acidente. Hoje  noite."
ARQUIVO CONFIDENCIAL Transcrio de Sesso com Wim Vandeen

A: Como se sente hoje?
W: Bem. Vim de txi. 0 nome de motorista  Ronal Christie. Chapa de
matrcula trs-zero-dois-sete-um licena do txi nmero trs-zero-sete.
No caminho passmos portrinta e sete Rovers, um Bentley, dez
jaguares, um Mini Minor, seis Austins, um Rolls-Royce, vinte e sete
motorizadas e seis bicicletas.
A: Como  que voc vai no escritrio, Wim?
W: Voc sabe.
A: Diga-me.
W: Odeio aquela gente.
A: E a Catherine Alexander?... Wun, e a Catherine Alexander?...
Wim?
W: Oh, ela. Ela vai deixar de trabalhar l.
A: 0 que  que quer dizer?
W: Ela vai ser assassinada.
A: 0 qu? Porque  que diz isso?
W: Ela disse-me.
A: A Catherine disse-lhe que vai ser assassinada? W: Foi a outra.
A: Que outra?
W: A mulher dele.
A: A mulher de quem, Wim?
W: Do Constantin Demiris.
A: Ela disse-te que a Catherine Alexander ia ser assassinada?
W: A senhora Demiris. A mulher dele. Telefonou-me da Grcia.
A: Quem  que vai matar a Catherine?
W: Um dos homens.
A: Est-se a referir a um dos homens que vieram de Atenas? W: Sim.
A: Wim, vamos ter de ficar por aqui. Tenho de sair. W: Certo.
Os escritrios da Corporao Helnica de Comrcio encerraram s sete
#
horas. Alguns minutos antes das seis, Evelyn e os outros empregados
estavam a preparar-se para sair.

Evelyn entrou no gabinete de Catherine.

-0 Milagre da Rua 34 est em exibio no Criterion. Teve crticas
excelentes. Queres ir ver hoje  noite?

-No posso-disse Catherine. -Obrigada, Evelyn. Prometi ao Jerry
Haley que ia ao teatro com ele. Eles do-te muito que fazer, no do?
Est bem. Diverte-te.

Catherine ouviu o barulho dos outros ao sarem. Por fim, houve
silncio. Deu um ltimo olhar pela secretria, certificou-se de que tudo
estava em ordem, vestiu o casaco, apanhou a carteira e saiu para o
corredor. Estava quase a chegar  porta da frente quando o telefone
tocou. Catherine hesitou, pensando se ia atender. Olhou para o relgio;
ia chegar atrasada. 0 telefone continuou a tocar. Voltou a correr para a
sala e pegou no telefone.

-Estou. Catherine.-Era Alan Hamilton. Ele parecia sem flego. Graas
a Deus que te apanhei.

-Aconteceu alguma coisa?

-Tu corres um grande perigo. Parece que algum est a tentar matar-
te.

Ela emitiu um som baixo e lamuriaste. Os seus piores pesadelos
estavam a tornar-se verdadeiros. Sentiu-se repentinamente tonta. Quem?


-No sei. Mas deixa-te estar a. No saias do escritrio. Vou buscar-te.

-Alan, eu...

-No te preocupes, vou j para a. Tranca-te. Vai tudo acabarem bem,

A linha desligou-se. Catherine pousou o telefone lentamente. -Oh,
meu Deus! Manas apareceu no corredor. Olhou para o rosto plido de
Catherine e correu para ela.

-Passa-se alguma coisa, Miss Alexander? Voltou-se para ele.

-Algum.., algum vai tentar matar-me. Ele estava a olhar para ela
embasbacado. -Porqu? Quem... quem poderia fazer uma coisa dessas?
-No tenho a certeza.

Ouviram algum bater  porta. Atanas olhou para Catherine. -Acha
que devo...?

#
-No -disse ela de imediato, -No deixes ningum entrar. 0 doutor
Hamilton est a a chegar.
A pancada na porta da frente repetiu-se, mais alta.
-Podia esconder-se na cave-Atanas sussurrou.-Ficar mais segura l.


Ela acenou com a cabea nervosamente. -Tens razo.
Foram para o fundo do corredor, em direo  porta que dava para a
cave.


-Quando o doutor Hamilton chegar, diz-lhe onde estou. -No vai ter
medo de ficar l em baixo?


-No -disse Catherine.
Manas acendeu a luz e foi  frente pelas escadas da cave. -Ningum a
vai encontrar aqui-Atanas assegurou-lhe. -No faz idia nenhuma de
quem pudesse querer mat-la? Ela pensou em Constantin Demiris e
nos seus sonhos. "Ele vai matar-te. Mas isso foi apenas um sonho."


-No tenho a certeza.
Manas olhou para ela e sussurrou: -Eu acho que sei,
Catherine olhou fixamente para ele. -Quem?
-Eu. -Repentinamente na mo dele surgiu uma faca de ponta e mola,


que ele empunhou contra a garganta dela.


-Atanas, isto no so horas para brincadeiras... Sentiu a faca
pressionar-lhe mais fundo na garganta.
-J alguma vez leu Encontro em Samarra, Catherine? -No? Bem,


agora  tarde de mais, no ? Fala de uma pessoa que tentou fugir 
morte. Foi para Samarra e a morte aguardava-a l. -Isto  a sua
Samarra.


Era obsceno ouvir estas palavras aterradoras vindas da boca de um


rapaz com ar inocente.
-Atanas, por favor. Tu no podes... Ele esbofeteou-a com fora na
cara.


-No posso faz-lo porque sou um jovem? Surpreendi-a? Isso  porque
eu sou um ator brilhante. Sabe porque  que pareo um rapaz? Porque
quando eu estava em crescimento no tinha comida que chegasse. Eu
vivia do lixo que roubava dos baldes do lixo  noite.


Ele tinha a faca apontada  garganta dela, encostando-a contra a


#
parede.

-Quando era rapaz, vi os soldados violarem a minha me e o meu pai e
depois chicotearem os dois at  morte, e depois violaram-me a mim e
abandonaram-me pensando que eu estava morto. Empurrava-a cada
vez mais para o fundo da cave. -Atanas, eu... nunca te fiz mal nenhum,
Eu... Ele deu um sorriso infantil,

-No  nada pessoal.  negcio. Voc vale cinqenta mil dlares,
morta.

Foi como se uma cortina tivesse descido  frente dos seus olhos e ela
estivesse a ver tudo atravs de uma nvoa vermelha. Uma parte de si
estava fora, olhando o que estava a acontecer.

-Eu tinha um plano maravilhoso pensado para si. Mas o patro est
com pressa agora, de forma que teremos de improvisar, no ?
Catherine sentia a ponta da faca enterrar-se-lhe no pescoo, Ele desceu
a faca e rasgou a parte da frente do vestido. -Belo-disse ele.-Muito
belo. Eu estava a planejar termos primeiro uma festa, mas como o seu
amigo mdico est a a chegar no teremos tempo, pois no? No sabe

o que perde. Eu sou um amante fantstico, Catherine ficou sufocada,
mal podendo respirar. Manas meteu a mo no bolso do casaco e tirou
uma garrafa de quartilho. Dentro havia um lquido plido e cor-derosa.
-J alguma vez tomou slivovic? Vamos beber ao seu acidente, hem?Ele
afastou a faca para abrir o frasco e, por um instante, Catherine
sentiu-se tentada a fugir.

-V-disse Atanas num tom calmo. -Experimente. Por favor.

Catherine umedeceu os lbios. -Oua, eu... pago. Eu...

-Poupe o flego. -Atanas tomou um trago enorme da garrafa e
entregou-lha. -Beba-disse ele.

-No. Eu no... -Beba!

Catherine pegou na garrafa e tomou um pequeno gole. 0 aperto
violento do brande queimou-lhe a garganta, Atanas tirou-lhe a garrafa
e tomou mais um gole enorme.

-Quem  que disse ao seu amigo mdico que iam mat-la? -No... no
sei.

-Tambm no interessa. -Atanas apontou para um dos postes de
madeira grossos que sustinha o teto. -V para ali.

#
Os olhos de Catherine dirigiram-se num relance para a porta. Ela
sentiu a lmina de ferro a pressionar-lhe no pescoo.

-No me obrigue a dizer outra vez. Catherine foi at ao poste de
madeira.

-Bonita menina-disse Atanas.-Sente-se.-Ele virou-se por um instante,
E nesse momento Catherine fugiu. Comeou a correrem direo s
escadas, o corao a bater depressa. Corria pela vida. Alcanou o
primeiro degrau e, quando estava prestes a subir, sentiu uma mo a
agarrar-lhe a perna e a pux-la para trs. Ele era incrivelmente forte. Cabra!


Agarrou-a pelos cabelos e aproximou o seu rosto do dele. -Faa isso
outra vez e eu parto-lhe as pernas, Ela sentia a faca entre as omoplatas.
-Mexa-se! Atavas veio atrs dela at ao poste de madeira e atirou-a ao
cho, -Fique a, Catherine observava quando Atavas se dirigiu a uma
pilha de caixas de carto atadas com um fio grosso. Cortou duas
extenses de fio e trouxe-as para junto dela.

-Ponha as duas mos atrs do poste. -No, Atavas. Eu...

Deu-lhe um murro na cara, e o quarto perdeu a nitidez. Atavas
aproximou-se e sussurrou:

-Nunca me diga no. Faa o que eu digo antes que eu lhe desfaa a
tromba.

Catherine ps as mos atrs do poste e um momento depois sentiu o
fio causar-lhe uma dor aguda nos pulsos enquanto Atanas os apertava.
Sentia perder a circulao,

-Por favor - disse ela. - Est muito apertado. -timo-sorriu, mostrando
os dentes. Pegou no segundo pedao de fio e atou-lhe as pernas pelos
tornozelos. Em seguida ps-se de p.
-Pronto-disse.-Confortvel. -Deu mais um gele da garrafa. -Quer
beber mais?

Catherine sacudiu a cabea. Ele encolheu os ombros. -Tudo bem,

ela viu-o levar a garrafa aos lbios outra vez. "Pode ser que se
embebede e adormea, pensou Catherine desesperadamente.

-Eu costumava beber um litro por dia -Atanas gabou-se. Pousou a
garrafa no cho de cimento. -Bem, so horas de pegar ao trabalho.

-0 que  que... o que  que voc vai fazer?

#
-Vou provocar um pequeno acidente. Vai ser uma obra-prima. Eu
posso at pedir o dobro ao Demiris.

-Demiris! Ento no era apenas um sonho. Ele estava por trs disto,
Mas porqu?

Catherine viu Atavas atravessar a sala em direo  enorme caldeira.
Ele removeu a chapa exterior e examinou a luz-piloto e as oito chapas
da caldeira que aqueciam o edifcio. A vlvula de segurana estava
aninhada num caixilho de metal que a protegia. Atavas apanhou um
bocadinho de madeira e enfiou-o no caixilho de forma a que a vlvula
de segurana ficasse inoperante. 0 mostrador da temperatura indicava
sessenta e cinco graus . Enquanto Catherine observava, Atavas rodou o
mostrador at ao mximo. Satisfeito, voltou para junto de Catherine.

-Lembra-se da chatice que tivemos com esta caldeira?-perguntou
Atavas. -Bem, receio que vai acabar por explodir. Aproximou-se de
Catherine.

-Quando o mostrador chegar aos duzentos graus, a caldeira vai
explodir. Sabe o que vai acontecer depois? Os tubos do gs vo-se
romper e os queimadores vo pegar-lhes fogo. 0 edifcio inteiro ir
explodir que nem uma bomba,

-Voc  louco. H pessoas inocentes l fora que...

-Ningum  inocente. Vocs americanos acreditam em finais felizes. Ele
esticou o brao e verificou a corda que mantinha as mos de
Catherine presas atrs do poste. Os pulsos dela estavam a sangrar. A
corda cortava-lhe a carne e os ns estavam apertados. Atenas
lentamente percorreu as mos pelos peitos ns de Catherine,
acariciando-s e depois inclinou-se e beijou-os.

- uma pena no termos mais tempo. Voc nunca saber o que
perdeu. -Agarrou-a pelos cabelos e beijou-lhe os lbios.

0 seu hlito exalava a brande.

-Adeus, Catherine. -Ele ps-se de p.

-No me abandone -Catherine implorou. -Vamos falar e... -Tenho de
apanhar o avio. Vou voltar para Atenas. -Viu-o subir as escadas.
-Vou deixar a luz acesa para que possa ver tudo a acontecer. -Um
momento depois, Catherine ouviu a pesada porta da cave fechar-se e o
estalido do trinco exterior, e depois houve silncio. Estava sozinha.
Olhou para o mostrador da caldeira, Estava a subir rapidamente.

#
Enquanto 0 observava, ele subiu de 70 para 75 graus e continuava a
subir. Ela lutou desesperadamente para soltar as mos, mas quanto
mais puxava mais apertados ficavam os laos. Olhou de novo para
cima. 0 marcador chegara aos 80 graus e continuava a aumentar. No
havia sada. Nenhuma.

Alan Hamilton descia a Wimpole Street como um louco, ultrapassando
toda a gente, ignorando osgritos e o clangor das buzinas dos
condutores irados. A estrada em frente estava bloqueada. Virou 
esquerda e meteu-se na Praa Portland e dirigiu-se para Oxford Circus.
0 trnsito era mais intenso aqui, atrasando-o. Na cave do nmero 217
da Bond Street, o ponteiro chegara aos 90 graus. A cave estava a
aquecer. 0 trnsito estava praticamente parado. As pessoas iam para
casa, para jantar ou para o teatro. Alan Hamilton estava ao volante do
carro, frustrado. ~~Eu devia ter telefonado  polcia? Mas que teria
adiantado? Uma doente neurtica acha que algum vai mat-la? A
polcia s se teria rido." 0 trnsito comeou a movimentar-se de novo.
Na cave, o ponteiro estava a chegar aos cento e cinqenta graus. 0
quarto estava a ficar insuportavelmente quente. Ela tentava libertar as
mos outra vez e os pulsos estavam em carne viva, mas a corda
continuava apertada. Ele meteu-se pela Oxford Street, atravessando
veloz uma passadeira para pees no momento em que duas velhotas
passavam. Atrs de si ouviu a estridncia do apito de um polcia. Por
um instante sentiu-se tentado a parar e pedir ajuda. Mas no havia
tempo para explicar. Continuou a conduzir. Num cruzamento, um
Caminho enorme parou, bloqueando-lhe o caminho. Alan Hamilton
apitou impacientemente. Meteu a cabea fora da porta.

-Saia da.

0 motorista virou-se para olhar para ele.

-0 que  que se passa, amigo, vai apagar algum incndio?

0 trnsito tornara-se uma confuso de carros. Quando finalmente
desanuviou, Alan Hamilton comeou a conduzir de novo, apressando-
se na direo da Bond Street. Uma viagem que devia ter levado dez
minutos quase lhe levara meia hora, Na cave, o ponteiro chegou aos
200 graus, Por fim, abenoadamente, o edifcio estava  vista. Alan
Hamilton parou o carro na curva do outro lado da rua e travou a fundo.
Abriu a porta e saiu do carro a correr. Quando ia a correrem direo ao
prdio, parou cheio de horror. 0 cho tremeu no momento em que o
edifcio inteiro explodia como uma bomba gigantesca, enchendo o ar

#
com chamas e estilhaos. E morte. Manas entregou-lhe o dinheiro.

-Bem, vamos ver o que  que tu sabes fazer com ele, querido. -Ela
tirou a roupa e ficou a ver Atavas despir-se.

-Olhou para ele espantada. -Meu Deus, tu s enorme! -Sou?

Ela enfiou-se na cama e disse: -Tem cuidado. No me magoes.

Atavas dirigiu-se para a cama. Ordinariamente, ele gostava de bater em
putas. Aumentava-lhe a satisfao sexual. Mas ele sabia que agora no
era altura de fazer nada de suspeito ou deixar um rasto que a polcia
pudesse querer seguir. Deforma que Atavas sorriu para ela e disse:

-Esta  a tua noite de sorte. -0 qu?

-Nada. -Ele ps-se em cima dela, fechou os olhos e mergulhou nela,
magoando-a, e era Catherine que gritava por piedade, implorando-lhe
que parasse. E ele martelava-a selvaticamente, cada vez com mais
fora, os gritos dela excitando-o at que por fim tudo explodiu e ele
deitou-se de costas satisfeito.

-Meu Deus -disse a mulher. -Tu s incrvel.

Atavas abriu os olhos e no estava com Catherine. Estava com uma
puta feia num quarto medonho, Vestiu-se e apanhou um txi para o
quarto do hotel, onde fez as malas e saiu. Quando se dirigia para o
aeroporto, eram nove e meia. Tinha muito tempo para apanhar o avio.
Havia uma pequena fila de gente na Olympic Airways. Quando Atavas
chegou ao princpio da bicha, entregou a passagem ao funcionrio.

-0 voo sai no horrio?

-Sai, sim.-0 empregado olhou para o nome que estava na passagem,
Atavas Stavich. Olhou para Atanas outra vez, depois olhou de relance
para um homem que estava perto dali e fez um sinal afirmativo com a
cabea. 0 homem caminhou at ao balco.

-Posso ver a sua passagem? Atavas entregou-lhe a passagem. -Passa-se
alguma coisa?-perguntou, 0 homem disse

-Infelizmente vendemos passagens a mais para este voo. Se quiser.

Atavas Stavich estava a sentir-se terrivelmente excitado. Executar uma
morte por contrato provocava-lhe sempre isso, Para ele era regra ter
relaes sexuais com as suas vtimas, homens ou mulheres, antes de as
matar, e ele achava isso excitante. Agora, sentia-se frustrado porque
no houvera tempo para torturar Catherine ou ter relaes com ela.

#
Atavas olhou para o relgio. Ainda era cedo. 0 avio s partia s onze
horas da noite. Tomou um txi at Shepherd Market, pagou o
motorista e perambulou pelo labirinto de ruas. Havia meia dzia de
raparigas nas esquinas que se ofereciam aos homens que passavam.

-Ol, querido, gostavas de ter uma lio de francs esta noite? -Que
dizes a uma festa?

-Ests interessada em grego?

Nenhuma das mulheres se aproximou de Atavas. Ele foi ter com uma
loira alta que vestia minissaia, casaco de cabedal e sapatos de saltos
finos.

-Boa noite-disse Atavas educadamente. Ela olhou para ele, divertida.

-Ol, garoto. A tua me sabe que vieste para a rua? Atavas sorriu
timidamente.

-Sabe, sim, senhora. Pensei que se voc no estivesse ocupada... A
prostituta riu-se.

-Pensaste? E o que  que tu fazias se eu no estivesse ocupada? J
foste para a cama com uma rapariga?

-Uma vez -disse Atavas suavemente. -E gostei.

-Tu pareces um carapauzito -a rapariga riu-se. -Eu por norma mando
os pequeninos dar uma volta, mas a noite est pouco animada. Tens
dez libras?

-Tenho, sim, senhora.

-Est bem, querido. Vamos subir,

Ela conduziu Atavas atravs de um corredor e subiu dois lanos de
escadas at um pequeno apartamento de uma diviso. ser acompanhar-
me at ao escritrio, tentarei resolver-lhe o problema. Atanas encolheu
os ombros.

-Est bem. -Seguiu o homem at ao escritrio, sentindo uma grande
euforia. Demiris j devia estar solto. Era um homem demasiado
importante para que a lei lhe tocasse. Tudo correra perfeitamente. Ele
ia depositar os cinqenta mil dlares num banco suo numa conta
numerada. Depois umas pequenas frias. Na Riviera talvez, ou no Rio
de Janeiro. Ele gostava dos prostitutos do Rio. Atanas entrou no
escritrio e parou, com o olhar fixo. Empalideceu.

-Morreste! Morreste. Eu matei-te! -Era um grito.

#
Atanas gritava ainda quando foi levado para fora da sala para uma
carrinha da polcia. Viram-no partir, e Alan Hamilton virou-se para
Catherine.

-Acabou, querida. Acabou finalmente.

Na cave, algumas horas antes, Catherine tentara desesperadamente
soltar as mos. Quanto mais lutava mais apertada a corda ficava. Os
seus dedos estavam a ficar insensveis. Ela no tirava os olhos do
mostrador da caldeira. 0 ponteiro chegara aos 120 graus. "Quando o
ponteiro chegar aos 200 graus, o cilindro explodir. Tem que haver
uma soluo para isto", pensou Catherine. "Tem de haver!" Os seus
olhos brilharam sobre a garrafa de usque que Atanas deixara cair no
cho. Ela olhou fixamente para ele, e o corao comeou a bater
violentamente. "H uma possibilidade!" Se ao menos ela pudesse...
Catherine deixou-se cair contra o poste e esticou os ps na direo da
garrafa. Estava fora de alcance. Deslizou um pouco mais, as farpas de
madeira espetando-se-lhe nas costas. A garrafa estava a uns cinco
centmetros. Os olhos de Catherine encheram-se de lgrimas. "Mais
uma tentativa", pensou ela. "S mais uma." Ela deixou-se cair mais, as
costas arranhadas pelas farpas, e empurrou outra vez com toda a sua
fora. Um p tocou na garrafa. "Cuidado. No a afastes." Lentamente,
lentamente, prendeu o gargalo da garrafa com a corda que lhe atava as
pernas. Muito cuidadosamente, recolheu os ps, arrastando a garrafa
para mais perto. Por fim, teve-a ao seu alcance. Olhou para o
mostrador, Tinha chegado aos 130 graus. Ela estava a combater o
pnico. Lentamente, moveu a garrafa para trs de si com os ps. Os
dedos encontraram-na, mas estavam demasiado entorpecidos para
agarr-la, e estavam escorregadios por causa do sangue dos pulsos no
lugar onde a corda os cortara. A cave estava a ficar mais quente.
Tentou outra vez. A garrafa escorregou. Catherine olhou de relance
para o mostrador do cilindro. 150 agora, e o mostrador parecia avanar
velozmente. 0 vapor estava a comear a sair do cilindro. Tentou
agarrar a garrafa outra vez. "Pronto!" Tinha a garrafa nas mos presas.
Segurando-a com fora, levantou os braos e deslizou-os pelo poste
abaixo, esmagando a garrafa de vidro contra o cimento, No aconteceu
nada. Tentou de novo. Nada. O mostrador subia inexoravelmente. 175!
Catherine respirou fundo e bateu com a garrafa no cho com toda a
fora, Ouviu a garrafa estilhaar. Graas a Deus! 0 mais esta possvel,
Catherine segurou o gargalo da garrafa numa mo e comeou a cortar
as cordas com a outra. 0 vidro cortava-lhe os pulsos, mas ela ignorou a

#
dor. Sentiu um fio estalar e depois outro. De repente a sua mo soltou-
se. Apressadamente libertou a corda da outra mo e desatou a corda
que lhe prendia os ps. 0 mostrador chegara aos 195. Jatos fortes de
vapor saam da caldeira. Catherine levantou-se com dificuldade.
Atavas havia trancado a porta. No havia tempo para sair do edifcio
antes da exploso. Catherine correu para a caldeira e puxou o bloco de
madeira que bloqueava a vlvula de segurava, Estava muito apertado.
200! Tinha de tomar uma deciso num segundo. Correu para a porta
do fundo que dava para o abrigo antiareo, abriu-o e meteu-se l
dentro. Bateu com a porta pesada, Ficou encolhida no cho do enorme
refgio, respirando com dificuldade, e cinco segundos depois houve
uma exploso tremenda, e a sala inteira parecia que balanava. Ficou
na escurido, lutando para respirar, ouvindo o estrondo das chamas do
outro lado da porta. Estava salva. Acabara. No, ainda no",pensou
Catherine. H ainda uma coisa que tenho de fazer. Quando os
bombeiros a encontraram uma hora depois e a trouxeram para o
exterior, Alan Hamilton j l no estava. Catherine correu para os seus
braos, e ele apertou-a com fora.

-Catherine, meu amor. Eu estava cheio de medo! Como  que...?
-Depois-disse Catherine. -Agora temos de deter o Atavas Stavich.

Casaram-se na quinta da irm de Alan no Sussex numa cerimnia
privada. A irm de Alan era uma mulher agradvel igualzinha 
fotografia que Catherine vira no consultrio de Alan, 0 filho estava na
escola. Catherine e Alan passaram um fim-de-semana tranqilo na
quinta e partiram de avio para Veneza em lua-de-mel. Veneza era
uma pgina brilhantemente colorida de um livro de histria medieval,
uma cidade mgica flutuante de canais e 120 ilhas, ligadas por 400
pontes. Alan e Catherine aterraram no Aeroporto de Marco Polo em
Veneza, perto de Mestre, tomaram uma lancha at ao terminal da
Piazza San Marco, e registraram-se no Royal Danieli, o belo e velho
hotel junto ao Palcio dos Doges. A sua suite era requintada, com
belssima moblia antiga, e dava para o Grande Canal.

-Que gostarias de fazer primeiro? -perguntou Alan, Catherine
aproximou-se dele e abraou-o. -Adivinha.

Desfizeram as malas depois. Veneza era uma cura, um blsamo que fez
Catherine esquecer os terrveis pesadelos e horrores do passado. Ela e
Alan partiram  descoberta. A Praa de So Marcos ficava a poucas
centenas de metros do hotel e a sculos de distncia no tempo. A Igreja

#
de So Marcos era uma galeria de arte e uma catedral, as paredes e os
tetos revestidos de mosaicos e frescos de cortar a respirao. Entraram
no Palcio dos Doges, cheio de cmaras opulentas e ficaram na Ponte
dos Suspiros, onde, sculos antes, os prisioneiros cruzaram para ir ao
encontro da morte. Visitaram museus e igrejas e algumas das ilhas
afastadas. Pararam em Murano para ver a modelagem do vidro atravs
de sopro, e em Burano para ver as mulheres fazerem renda. Tomaram
uma lancha para Torcello e jantaram em Locanda Cipriani no
maravilhoso jardim repleto de flores. E isto fez que Catherine se
lembrasse do jardim do convento, e recordou como se sentira perdida
nessa altura. E olhou em frente, para o lugar onde se sentava o seu
bem-amado Alan e pensou: "Obrigada, meu Deus," Mercerie era a
principal rua de compras, e encontraram lojas fabulosas: Rubelli para
tecidos, Casella para sapatos, Giocondo Cassini para antigidades.
Jantaram no Quadri, no Al Graspo de Ua e no Harry's Bar. Andaram
de gndola e nos sandolli, os mais pequenos. Na sexta-feira, quase no
fim da sua estada, houve um aguaceiro repentino e uma violenta
tempestade eltrica. Catherine eAlan correram para regressar ao abrigo
do hotel. Viram a tempestade pela janela.

-Peo desculpa pela chuva, senhora Hamilton-disse Alan. -As
brochuras prometiam sol.

Catherine sorriu.

-Que chuva? Estou to feliz, querido.

Os relmpagos brilharam fugazes no cu e houve uma exploso de
tempestade. Um novo som surgiu repentinamente na mente de
Catherine: a exploso do cilindro.

Virou-se para Alan:

-No  hoje que o jri vai apresentar o veredito? Ele hesitou.

-Eu no falei no assunto porque... -Eu estou bem. Quero saber.

Ele olhou para ela por um momento, depois fez um sinal afirmativo
com a cabea.

-Tens razo,

Catherine observava quando Alan se dirigiu ao rdio que ficava no
canto e o acendeu. Rodou o boto at sintonizar a BBC, que estava a
dar notcias.

N.... e o primeiro-ministro apresentou o seu pedido de demisso. 0

#
chefe do gabinete tentar formar novo governo" 0 rdio estava a falhar
e a voz aparecia e desaparecia.

- por causa desta maldita tempestade eltrica -disse Alan. 0 som
surgiu de novo.

"Em Atenas, o julgamento de Constantin Demiris chegou finalmente
ao fim, e o jri entregou o seu veredito h uns momentos atrs. Para
surpresa de toda a gente, o veredito..."

0 rdio calou-se. Catherine virou-se para Alan.

-Qual... qual achas que foi o veredito? Ele tomou-a nos braos.

-Depende se acreditares em finais felizes.

Eplogo

Cinco dias antes do incio do julgamento de Constantin Demiris, o
carcereiro abriu a porta da sua cela.

-Tem uma visita.

Constantin Demiris ergueu o olhar.  exceo do seu advogado, no
lhe foram permitidas visitas at agora. Recusou mostrar qualquer
curiosidade. Os sacanas tratavam-no como um criminoso comum. E
ele no lhes daria a satisfao de mostrar qualquer emoo. Seguiu o
carcereiro at ao trio e entrou numa pequena sala de reunies. -Ali
dentro, Demiris entrou e deteve--se. Um homem aleijado estava
encolhido numa cadeira de rodas. 0 cabelo era branco como a neve. 0
seu rosto era um remendo medonho de tecido queimado branco e
vermelho. Os lbios estavam paralisados para cima na abertura da boca
que formava um sorriso horrvel. Levou alguns momentos a aperceber-
se de quem era a visita, 0 seu rosto ficou sem cor.

-Meu Deus!

-No sou um fantasma-disse Napoleon Chotas. A sua voz era um som
rouco irritante. -Entre, Costa.

Demiris conseguiu falar. -0 incndio... Eu saltei pela janela e parti a
espinha. 0 meu mordomo levou-me antes que os bombeiros
chegassem. Eu no queria que voc soubesse que eu estava vivo, Eu
estava muito cansado para continuar a combat-lo.

-Mas... eles encontraram um corpo. -Era o meu caseiro.

Demiris afundou-se numa cadeira.

-Fica... fico satisfeito.., por estar vivo-disse ele sem foras. -Deve

#
ficar. Eu vou salvar-lhe a vida.
Demiris estudou-o desconfiadamente. -Vai?
- verdade. Vou defend-lo. Demiris riu-se em voz alta.
-Francamente, Leon. Depois de todos estes anos, toma-me por idiota?


Que o leva a pensar que ia pr a minha vida nas suas mos? -Porque
eu sou a nica pessoa que o pode salvar, Costa. Constantin Demiris
ps-se de p.


-No, obrigado. -Dirigiu-se  porta.


-Eu falei com o Spyros Lambrou. Persuadi-o a deporem como ele
estava consigo na altura em que a irm foi assassinada.
Demiris parou e voltou-se. -Por que faria ele isso?
Chotas inclinou-se para a frente na sua cadeira de rodas. -Porque eu o


convenci de que tirar-lhe a sua fortuna seria uma vingana mais
saborosa do que tirar-lhe a vida.


-No entendo.
-Garanti ao Lambrou que, se ele testemunhar a seu favor, voc lhe
entrega toda a sua fortuna. Os seus navios, as suas firmas... tudo o que
possui.


-Voc est doido!


-Estou? Pense nisso, Costa, 0 depoimento dele pode salvar-lhe a vida.
A sua fortuna vale mais do que a sua vida?
Houve um longo silncio. Demiris sentou-se de novo. Estudou Chotas


cautelosamente.


-0 Lambrou est disposto a depor que eu estava com ele quando a
Melina foi morta?
- isso mesmo.
-E de volta ele quer... -Tudo o que voc tem. Demiris sacudiu a


cabea. -Eu teria de ficar com a minha...


-Tudo. Ele quer que voc fique sem nada. Sabe,  a vingana dele.
Havia uma coisa que intrigava Demiris.
-E que  que voc ganha com tudo isto, Leon?
Os lbios de Chotas moveram-se numa imitao de um sorriso. -Eu


ganho tudo.


#
-No... no entendo.

Antes de entregar a Corporao de Comrcio Helnico ao Lambrou,
voc vai transferir todos os seus bens para uma nova companhia. Uma
companhia que me pertence.

Demiris olhou fixamente para ele. -Ento o Lambrou no recebe nada.
Chotas encolheu os ombros.

-H vencedores e h vencidos.

-0 Lambrou no vai desconfiar de nada?

-Pela forma como eu vou tratar do assunto, no. Demiris disse

-Se voc vai enganar o Lambrou, como  que eu sei que no me vai
enganar a mim?

-E muito simples, meu caro Costa. Voc est protegido, Faremos um
acordo assinado em como a nova companhia s passar a ser minha na
condio de voc ser absolvido. Se for condenado, eu no recebo nada.

Pela primeira vez,Constantin Demiris deu por si a ficar interessado.
Ficou a analisar o advogado aleijado. "Entregaria o julgamento e
perderia centenas de milhes de dlares s para se vingar de mim?
No, Ele no  to idiota como isso." Demiris disse lentamente:
-Concordo. Chotas disse -timo. Voc acaba de salvar a sua vida,
Costa.

Salvei mais do que isso, pensou Demiris triunfantemente.

-Tenho cem milhes de dlares escondidos num lugar onde ningum
os achar.

0 encontro de Chotas com Spyros Lambrou fora difcil, Quase ps
Chotas fora do escritrio.

-Voc quer que eu deponha para salvar a vida daquele monstro?
Ponha-se mas  daqui para fora.

-Voc quer vingana, no quer? -Chotas perguntara.

-Sim. E vou t-la.

-Vai mesmo? Voc conhece o Costa. Para ele o dinheiro tem mais
importncia do que a vida. Se for executado, a dor dele s dura uns
minutos, mas se voc o levar  runa e lhe tirar tudo o que ele possui,
for-lo- a viver sem um tosto, estaria a infligir-lhe um castigo
muito maior.

#
Havia verdade nas palavras do advogado, Demiris era o homem mais
ganancioso que ele j conhecera.

-Est a dizer-me que ele est disposto a deixar-me num documento
tudo o que tem?

-Tudo. A frota, os negcios, todas as firmas de que  proprietrio. Era
uma tentao enorme,

-Deixe-me pensar no assunto.

Lambrou observou o advogado sair do escritrio na cadeira de rodas.
"Pobre sacana, pensou. "0 que  que o faz viver?"

 meia-noite Spyros Lambrou telefonou a Napoleon Chotas. -J
decidi. Est combinado.

A imprensa estava num frenesim devorador. Constantin Demiris no
iria apenas ser julgado pelo homicdio da mulher, mas ser defendido
por um homem que viera do mundo dos mortos, o brilhante advogado
criminal que supostamente morrera num holocausto. 0 julgamento ia
realizar-se na mesma sala de audincias onde Noelle Page e Larry
Douglas foram julgados. Constantin Demiris sentou-se no lugar do
ru, envolto numa aura de invisibilidade. Napoleon Chotas seguia na
sua cadeira de rodas. 0 Estado era representado pelo promotor especial
Delma. Delma estava a dirigir-se ao jri.

-Constantin Demiris  um dos homens mais poderosos do mundo, A
sua vasta fortuna concede-lhe muitos privilgios. Mas h um privilgio
que no lhe concede, Que  o direito de matar a sangue-frio. Ningum
tem esse direito.

Virou-se para olhar para Constantin Demiris,

-0 Estado provar sem margem para dvidas que Constantin Demiris 
culpado do homicdio brutal da esposa que o amava. Quando acabarem
de ouvir as provas, estou certo de que apenas podero apresentar um
veredito. Culpado de homicdio de primeiro grau. -Retirou-se para o
seu lugar.

0 juiz principal virou-se para Napoleon Chotas.

-A defesa est pronta a fazer a sua declarao de abertura?

-Estamos, sim, Meritssimo.-Chotas conduziu ele prprio a cadeira
para a frente do jri. Viu o ar de piedade nos seus rostos quando
tentaram evitar olhar para a sua face grotesca e o seu corpo estropiado.
-Constantin Demiris no est aqui em julgamento por ser rico ou

#
poderoso. 0u talvez seja por causa disso que foi arrastado para esta

sala de audincias.

-Os fracos tentam sempre destruir os fortes, no  verdade? 0 senhor

Demiris pode ser culpado por ser rico e poderoso, mas uma coisa vou

provar com certeza absoluta: ele no  culpado pela morte da sua

mulher.


0 julgamento comeara. 0 promotor Delma questionava o tenente de


polcia Theophilos que se encontrava no banco.


-Importa-se de descrever o que viu quando entrou na casa de praia de


Demiris, tenente?


-As cadeiras e as mesas estavam viradas. Estava tudo numa confuso


-Parecia ter havido uma luta terrvel?


- verdade. Parecia que a casa tinha sido assaltada. -Encontrou uma


faca com sangue no local do crime, no  verdade?
-, sim.
-E havia impresses digitais na faca? - correto.
-A quem pertenciam? -A Constantin Demiris. Os olhos dos jurados


movimentaram-se na direo de Demiris.
-Quando fez busca  casa, que mais encontrou?
-No fundo de um roupeiro encontramos um par de cales de banho


manchados de sangue que tinham as iniciais de Demiris.


-No  possvel que estivessem na casa h muito tempo? -No. Ainda


estavam molhados com gua salgada. -Obrigado,


Era a vez de Napoleon Chotas.


-Detetive Theophilos, o senhor teve oportunidade de conversar com o


ru pessoalmente, no teve?
-Tive, sim.
-Como  que o descreveria fisicamente?
-Bem... -0 detetive olhou para o lugar onde Demiris estava sentado.


Eu diria que ele  um homem grande.
-Ele pareceu-lhe forte? Isto , fisicamente forte? -Sim.
No  o tipo de homem que teria de destruir uma sala para matar a


mulher?


#
Delma estava de p. -Protesto.

-Concedida. A defesa deve abster-se de conduzir a testemunha. -Peo
perdo, Meritssimo. -Chotas virou-se para o detetive. -Aps a sua
conversa com o senhor Demiris, avali-lo-ia como sendo um homem
inteligente?

-Certamente. Penso que uma pessoa que enriquea como ele tem de ser
bastante esperta.

-Eu no podia concordar mais consigo, tenente. E isso conduz-nos a
uma questo interessante. Como  que um homem como Constantin
Demiris podia ser assaz estpido para cometer uma morte e deixar no
local do crime uma faca com as suas impresses digitais, um par de
cales manchados de sangue...?No diria que isso no foi muito
inteligente?

-Bem, s vezes, no auge da realizao de um crime, as pessoas fazem
coisas estranhas.

-A polcia encontrou um boto dourado do casaco que Demiris devia
usar na altura? Isso  correto?

-, sim.

-E isso  uma prova importante contra o senhor Demiris? Segundo a
teoria da polcia, a mulher arrancou durante a luta quando ele tentava
mat-la?

- correto.

-Portanto, temos um homem que habitualmente se vestia muito bem.
Um boto arrancado do casaco, mas ele no d por ele. Vai para casa
com o casaco vestido e continua a no reparar. Depois despe-o e
pendura no armrio... e continua a no reparar. Isso faria do ru no
apenas estpido, mas tambm cego.

0 senhor Katelanos estava de p. 0 proprietrio da agncia de detetives
aproveitava ao mximo este seu momento de glria. Delma estava a
interrog-lo.

-0 senhor  o proprietrio de uma agncia privada de detetives?

-Sou, sim.

-E uns dias antes de a senhora Demiris ter sido assassinada, ela
procurou-o?

- verdade. -Que desejava ela?

#
-Proteo. Disse que ia divorciar-se do marido e que ele a ameaara


de morte.
Houve um murmrio por parte dos espectadores. -Portanto, a senhora
Demiris estava muito perturbada? -Oh, sim, estava. Certamente que
estava.


-E ela contratou a sua agncia para proteg-la do marido? -Exato.
- tudo, obrigado. -Delma virou-se para Chotas. -A testemunha  sua.
Chotas moveu a cadeira para o banco das testemunhas.
-Senhor Katelanos, h quanto tempo est na atividade de


investigao?


-H quase quinze anos. Chotas ficou impressionado, -Bem. Isso 
muito tempo.
-0 senhor deve ser muito bom naquilo que faz.
-Suponho que seja-disse Katelanos modestamente.
-Portanto, tem tido muita experincia em lidar com pessoas que esto


com problemas.
- por isso que me procuram -disse Katelanos presunosamente.
-E a senhora Demiris quando o procurou pareceu-lhe um pouco


perturbada, ou...?
-Oh, no. Ela estava muito perturbada. Poderia dizer em pnico.
-Estou a ver. Porque estava com medo do marido que ia mat-la.


-Exato.


-Portanto, assim que ela saiu do seu escritrio, quantos homens
mandou segui-la? Um? Dois?
-Bem, no mandei nenhum segui-la. Chotas franziu o sobrolho.
-No entendo. Porque no?
-Bem, ela disse para ns comearmos s na segunda-feira. Chotas


olhou para ele, confundido.
-Receio que me esteja a deixar ficar confuso, senhor Katelanos. Essa
mulher que apareceu no seu escritrio aterrorizada que o marido a


fosse matar saiu sem mais nem menos e disse que no precisava de
proteo antes de segunda feira?
-Bem,  verdade. Isso  exato.


#
Napoleon Chotas disse, quase para si prprio;


-Isso faz-nos pensar no grau de susto em que a senhora Demiris
realmente se encontrava, no ?
A criada dos Demiris estava no banco das testemunhas.
-Ento voc ouviu de fato a conversa entre a senhora Demiris e o


marido ao telefone?
-Ouvi, sim.
-Importa-se de nos dizer o que ouviu?
-Bem, a senhora Demiris disse ao marido que queria o divrcio e ele


disse que no lhe dava.
Demiris olhou de relance para o jri.
-Compreendo. -Ele voltou-se para a testemunha. -Que mais ouviu?
-Ele marcou um encontro na casa de praia para as trs horas, e ela que


fosse sozinha.
-Ele disse que ela devia ir sozinha?
-Foi, sim. E ela disse que se no estivesse de volta pelas seis horas eu


devia chamar a polcia.


-Houve uma reao visvel por parte do jri. Viraram-se para fixar o
olhar em Demiris.
-No tenho mais perguntas.-Delma voltou-se para Chotas. A


testemunha  sua.


Napoleon Chotas moveu a cadeira para junto do banco das
testemunhas.
-0 seu nome  Andrea, no verdade?
-, sim. -Ela tentou no olhar para o rosto cicatrizado e desfigurado.
-Andrea, voc afirmou que ouviu a senhora Demiris dizer ao marido


que ia pedir o divrcio e que ouviu o senhor Demiris dizer que no lhe
dava, e que ele lhe disse a ela que fosse  casa de praia s trs horas e
que fosse sozinha. Est certo?


-Est, sim.


-Voc est sob juramento, Andrea. Voc no ouviu nada disso. Ouvi,
sim, senhor doutor.
-Quantos telefones h no quarto onde a conversa se verificou? -Bem,


#
apenas um.
Napoleon Chotas aproximou a cadeira.
-Portanto, voc no estava a ouvir a conversa noutro aparelho? -No,


senhor. Eu nunca faria uma coisa dessas.


-Ento, a verdade  que apenas ouviu o que a senhora Demiris disse.
Ter-lhe-ia sido impossvel ouvir o que marido dizia?
-Oh. Bem, suponho...
-Por outras palavras, voc no ouviu o senhor Demiris ameaar a


esposa ou pedir-lhe que se encontrasse com ele na casa de praia, nem
nada. Voc imaginou tudo isso por causa daquilo que a senhora
Demiris estava a dizer?


Andrea estava atrapalhada.
-Bem, suponho que o senhor pode pr as coisas nesses termos,
-Eu estou a pr as coisas nesses termos. Porque  que estava no quarto


quando a senhora Demiris estava ao telefone?
-Ela pediu-me que lhe levasse um pouco de ch.
-E a senhora levou-o?
-Levei, sim.
-P-lo em cima de uma mesa.
-Pus, sim.
-Porque no se retirou em seguida?
-A senhora fez sinal para que eu ficasse.
-Ela queria que voc ficasse a ouvir a conversa ou a presumvel


conversa?
-Eu... suponho que sim.
A voz dele era uma correia de chicote.
-Portanto, no sabe se ela estava a falar com o marido ao telefone ou


se, de fato, no estava a falar com ningum.-Chotas aproximou ainda
mais a cadeira. -No acha estranho que, a meio de uma conversa
pessoal, a senhora Demiris lhe pedisse que ficasse a escutar? Sei que
em minha casa quando estamos a ter uma discusso pessoal no
pedimos ao pessoal que fique a bisbilhotar. No. Digo-lhe a si que essa
conversa nunca existiu. A senhora no estava a falar com ningum.


#
Estava a tramar o marido para que neste dia neste tribunal ele fosse a
julgamento. Mas Constantin Demiris no matou a mulher. As provas
contra ele foram cuidadosamente tramadas. Foram tramadas com
cuidado excessivo. Nenhum homem inteligente deixaria atrs uma
srie de pistas bvias que o incriminariam. E, independentemente de
tudo aquilo que Constantin Demiris possa ser, ele  um homem
inteligente. O julgamento prolongou-se por mais dez dias com
acusaes e contra-acusaes, e depoimentos peritos da polcia e do
mdico-legista. 0 consenso de opinio apontava para que Constantin
Demiris fosse provavelmente culpado. Napoleon Chotas guardou a
bomba at o fim. Ps Spyros Lambrou no banco das testemunhas.
Antes do incio do julgamento, Demiris assinara um contrato
reconhecido em cartrio transferindo por meio de escritura a
Corporao do Comrcio Helnico e todos os seus bens a Spyros
Lambrou. Um dia antes, esses bens foram secretamente transferidos
para Napoleon Chotas com a clusula de que s teria efeito se
Constantin Demiris fosse absolvido do seu julgamento.

-Senhor Lambrou. 0 senhor e o seu cunhado, Constantin Demiris, no
se davam muito bem, pois no?

- verdade.

-De fato, no seria exagero dizer-se que os senhores se odiavam?

Lambrou olhou para Constantin Demiris.

-Podia at ser uma maneira branda de pr a questo.

-No dia em que a sua irm desapareceu, Constantin Demiris disse 
polcia que nunca esteve nas imediaes da casa de praia; que, de fato,
s trs horas, a hora fixada para a morte da sua irm, ele estava reunido
consigo em Acrocorinto. Quando a polcia o interrogou acerca do
encontro, o senhor negou.

-Neguei, sim. -Porqu?

Lambrou permaneceu em silncio por um longo momento. A sua voz
estava cheia de raiva.

-Demiris tratava a minha irm de uma forma vergonhosa. Maltratava-a
e humilhava-a constantemente.

-Eu queria v-lo castigado. Ele precisava de mim para ter um libi.

-Eu no lhe queria dar. -E agora?

-No posso continuar a viver com urna mentira. Sinto que tenho de

#
dizer a verdade.

-0 senhor e Constantin Demiris encontraram-se em Acrocorinto nessa
tarde?

-Sim, a verdade  que nos encontramos.

Houve uma algazarra na sala de audincias. Delma ps-se de p, o
rosto plido.

-Meritssimo. Protesto... -Protesto negado.

Delma afundou-se no seu lugar. Constantin Demiris estava inclinado
para a frente, com os olhos brilhantes.

-Fale-nos do vosso encontro. A idia foi sua?

-No. A idia foi de Melina. Ela enganou-nos a ambos. -Enganou-os,
como?

A Melina telefonou-me a dizer que o marido queria encontrar-se
comigo no meu pavilho de caa para discutir uma transao
comercial. Depois telefonou ao Demiris a dizer-lhe que eu pedira um
encontro. Quando chegamos, descobrimos que no tnhamos nada para
dizer um ao outro.

-E o encontro realizou-se a meio da tarde na hora fixada da morte da
senhora Demiris ?

- verdade.

-So quatro horas de viagem de Acrocorinto at  casa de praia.
Mandei verificar o espao de tempo. -Napoleon Chotas olhava para o
jri. -Deforma que no h possibilidade de Constantin Demiris poder
ter estado em Acrocorinto s sete e regressado a Atenas antes das sete.

Chotas voltou-se para Spyros Lambrou.

-0 senhor est sob juramento, senhor Lambrou. 0 que acabou de dizer
neste tribunal corresponde  verdade?

-Sim. Tomo Deus por testemunha.

0 jri ausentou-se durante quatro horas. Constantin Demiris observava

o seu regresso  sala de audincias. Tinha um ar plido e ansioso.
Chotas no estava a olhar para o jri. Olhava para o rosto de
Constantin Demiris. 0 aprumo e a arrogncia de Demiris haviam
desaparecido. Era um homem que enfrentava a morte. 0 juiz-presidente
perguntou:
#
-0 jri j chegou a um veredito?

-chegamos, sim, Meritssimo. -0 primeiro jurado segurava um pedao
de papel.

-0 oficial de justia que v buscar o veredito, por favor.

0 oficial de justia caminhou at ao jurado, pegou no pedao de papel
e entregou-o ao juiz. Ele abriu o papel e ergueu o olhar.

-0 jri considera o ru inocente.

Houve um pandemnio na sala de audincias. As pessoas comeavam
a levantar-se, algumas aplaudindo, outras assobiando. A expresso no
rosto de Demiris era de xtase. Respirou fundo, levantou-se e
caminhou na direo de Napoleon Chotas.

-Voc conseguiu -disse ele. -Fico em grande dvida consigo. Chotas
olhou-o bem de frente.

-J no. Eu sou muito rico e voc  muito pobre. Venha. Vamos
celebrar.

Constantin Demiris empurrou a cadeira de rodas por entre a multido
que se acotovelava, longe dos reprteres at ao parque de
estacionamento. Chotas apontou para um turismo estacionado 
entrada. -0 meu cano est ali.

Demiris empurrou-o at  porta. -No tem motorista?

-No preciso. Mandei equipar o carro de forma a poder conduzi-lo eu
prprio. Ajude-me a entrar. Demiris abriu a porta e levou Chotas at
ao lugar do condutor, Demiris entrou no carro sentando-se ao lado de
Chotas.

-Voc ainda  o maior advogado do mundo-Constantin Demiris sorriu.

- verdade. -Napoleon Chotas meteu a primeira e comeou a conduzir.
-Que vai fazer agora, Costa?

Demiris disse cuidadosamente

-Oh, herde safar-me. Com um milho de dlares posso reconstruir o
meu imprio. Demiris deu um risinho de satisfao.-0 Spyros vai ficar
muito chateado quando souber que voc o enganou.

-Ele no pode fazer nada-assegurou-lhe Chotas. -0 contrato que ele
assinou d-lhe uma companhia que no vale nada. Eles dirigiam-se
para as montanhas. Demiris observava enquanto Chotas movia as
alavancas que controlavam o acelerador e o freio.

#
-Voc sabe mexer com essa coisa.

-Aprende-se aquilo que se  obrigado a aprender -disse Chotas.
Subiam uma estrada estreita da montanha.

-Aonde vamos?

Tenho uma pequena casa ali no cimo. Vamos tomar uma taa de
champanhe e depois eu chamo um txi para traz-lo de volta  cidade.
Sabe, Costa, tenha andado a pensar. Tudo o que aconteceu... A morte
de Noelle Page e de Lorry Douglas. E do pobre Stavros. No foi nada
por dinheiro, pois no? -Virou-se para olhar de relance para Demiris. Tudo
teve a ver com dio. dio e amor. Voc amava a Noelle,

- verdade -disse Demiris. -Eu amava a Noelle.

-Eu tambm a amava-disse Chotas. -Voc no sabia, pois no?

Demiris olhou para ele surpreendido.

-No.

-E no entanto eu ajudei-o a mofa-la. Nunca me perdoei por causa
disso. Voc j se perdoou, Costa?

-Ela teve o que merecia.

-Acho que acabamos todos por ter o que merecemos. H uma coisa
que eu no lhe disse. Aquele incndio... desde a noite daquele
incndio, vivo em dor torturante. Os mdicos tentaram restaurar -me,
mas realmente no resultou. Estou demasiado estropiado. -Empurrou
uma alavanca que deu velocidade ao carro. Comearam a andar
depressa em curvas apertadas, a subir cada vez mais. 0 mar Egeu
surgiu ao fundo perante os seus olhos. -De fato -disse Chotas num
tom rouco -, a minha dor  to grande que a minha vida j no vale
nada. -Empurrou de novo a alavanca, e o carro comeou a andar mais
depressa.

-Abrande -disse Demiris. -Voc est a ir muito... Deforma que decidi
que vamos os dois dar-lhe um fim juntos. Demiris voltou-se para fixlo,
horrorizado.

-Que  que voc est a dizer? Abrande, homem. Voc vai-nos matar.

- verdade -disse Chotas, Mexeu outra vez na alavanca, 0 carro
avanou mais.

-Voc est louco! -disse Demiris. -Voc  rico. Voc no quer morrer.

Oslbios cicatrizados de Chotas formaram uma imitao horrvel de

#
um sorriso.
-No, eu no sou rico. Sabe quem  rico? A sua amiga, a Irm Teresa.


Dei todo o seu dinheiro ao convento de Janina. Dirigiam-se para uma
curva fechada na ngreme estrada da montanha,
-Pare o carro! -gritou Demiris -Tentou arrancar o volante das mos de


Chotas, mas era impossvel,
-Dou-lhe tudo o que voc quiser-gritou Demiris. -Pare!
Chotas disse:
-Eu tenho aquilo que quero,
No momento que se seguiu sobrevoavam o penhasco, pela encosta


ngreme abaixo, o carro aos tombos numa pirueta graciosa, at que por
fim caiu l em baixo no mar. Houve uma exploso tremenda, e depois
um silncio profundo e eterno.


Terminara.


FIM


#
